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A noite caiu e a segunda parte da missão se iniciou. 

Mayck estava novamente na floresta, mas, diferente do dia anterior, ele sentia que poderia fazer alguma coisa. 

A temperatura estava mais baixa, permitindo que o garoto pudesse se concentrar apenas na missão. 

Ele corria pelas árvores com o intuito de chegar até o riacho que havia encontrado às cegas anteriormente e faria dali seu ponto de partida principal. 

A floresta era grande, no entanto, então levaria um bom tempo, mas para não precisar usar esse método de busca era mais fácil pedir informação a alguém. 

Se ele se encontrasse com Ryota, poderia fazê-lo falar. 

Eu vou precisar de muita sorte para encontrar ele… 

À medida que o tempo passava, Mayck aumentava seu ritmo. Ele precisava se apressar, até porque o restante da equipe estava à espera do sinal do garoto para iniciar a invasão ou se retirar. 

Mas parecia que a tal sorte estava ao lado do garoto, pois a silhueta que viu de longe ainda estava fresca em sua mente. Era Ryota, que, provavelmente, estava fazendo a sua patrulha. 

Sem perder tempo, Mayck diminuiu o passo e se aproximou dele cautelosamente, enquanto uma brisa leve soprava e balançava seu manto na escuridão da floresta. 

“Boa noite, Ryota-san.”

“Quem tá aí?” Ele se virou com a guarda alta e jogou a luz da lanterna em Mayck, pronto para qualquer combate. “Hum? Você é o moleque que fugiu ontem? O que foi? Seus chefes te mandaram vir resolver seus assuntos?”

“É, algo assim.”

“Beleza, então. Se você está preparado, não vamos perder mais tempo.”

Sob a fraca luz da lua que passava pelas árvores, Ryota arrancou suas armas de seu blazer e as engatilhou, disparando as clássicas balas de ar. 

Mayck, porém, não estava mais sentindo tanta dificuldade como antes, então viu a oportunidade de terminar a luta rapidamente. 

Em uma arrancada sutil, espalhando as folhas caídas no chão, ele desviou dos tiros facilmente e avançou com muita velocidade para Ryota — o que não levou nenhum segundo — e projetou uma <Esfera de Eletricidade>, não muito forte para não causar muitos danos, e chocou-a contra o abdômen dele. 

Ryota foi arremessado para uma árvore próxima, com a eletricidade percorrendo seu corpo, impossibilitando-o de se mover. 

“Merda… você era tão forte assim?” Ele falou algum tempo depois de se recompor. 

“Bom, acho que sim… mas, mais importante, eu quero que você me diga onde está a entrada do IAH.”

“”Claro.” É o que você pensou que eu diria? Nem brisa com isso. Eu não vou te dizer onde é.”

“É sério isso? Caramba, que perda de tempo.” Mayck se aproximou dele, decepcionado. “Bom, fazer o quê… só me resta procurar por conta própria. Então espere até meus companheiros chegarem. Talvez eles façam você falar sob tortura.”

“Ah, tá, até parece…”

“Você duvida? Então, o problema é seu. Não pense que vai conseguir fugir antes. A voltagem que eu usei foi o suficiente para te deixar imóvel por uns dois dias. Mais do que o necessário para eles te pegarem. Bom, até mais.”

Sem insistir muito, Mayck deu as costas e começou a se afastar, deixando o incrédulo Ryota zombando da possibilidade. Ele queria, no entanto, fazer Mayck desistir de tentar enganá-lo — que era o que ele achava — e voltar para implorar por respostas. 

Contudo, ele viu que Mayck não olhava para trás, implicando que estava sério sob a tortura que ele receberia. Isso foi demais para ele aguentar. 

Que emprego era esse que valia a sua vida? Ele pensou. 

Era apenas um guarda descartável. Ninguém iria se vingar por ele caso fosse morto. Já até pensou em abandonar aquele lugar várias vezes, mas era simplesmente impossível e ele queria fazer daquele o seu motivo de viver. Entretanto, Mayck estava jogando na cara dele a chance de se livrar de um trabalho duvidoso, que não valia nem um milésimo do seu tempo. 

“Tá, tá legal, você venceu. Eu te conto onde fica, só não deixe que seus colegas me matem”, ele gritou. 

“Hum.” Mayck sorriu levemente e voltou para receber a localização do instituto. 

Após a confirmação, ele se pôs a correr até seu objetivo. O local, para sua surpresa, era perto do riacho da noite passada. 

Quando chegou até ele, após seguir uma direção indicada por Ryota, Mayck fez o que lhe foi dito para obter acesso à entrada do IAH. Abaixo da maior rocha sobre o riacho, no fundo dele, havia uma espécie de chave. Segundo Ryota, aquela chave deveria ser colocada em uma fenda que estava ao lado dela.

Deve ser isso. 

Mayck inseriu a chave prateada na fenda e a girou, em seguida um som de uma porta emperrada sendo aberta ecoou por entre o som das águas. Ele procurou a origem e se deparou com uma elevação no solo da margem do riacho.  Foi até ela e a puxou, revelando uma tubulação metálica, profunda e com uma escada na parede. 

“Um bloqueio criativo, talvez? Como alguém não encontraria…”

Uma lembrança veio até sua mente. 

“Será que aquela pessoa… me trouxe até aqui para me avisar desse lugar?”

A possibilidade lhe deu um arrepio.

Eu não vou pensar nisso agora.

Ele expulsou o pensamento e desceu pelas escadas, fechando o alçapão após ele. 

Descer as escadas levou um tempo, mas logo ele alcançou um corredor estreito que dava para um quarto um tanto quanto judiado. Ele era velho, o cheiro de mofo impregnou as narinas de Mayck e, como fonte de iluminação, apenas uma lamparina corroída pelo tempo. 

Nossa, alguém tava morando aqui?

Ele analisou o local e criou teorias do que poderia ser aquele lugar em um estado tão deplorável. No entanto, o mais provável para ele era que Ryota fosse o residente dali. 

No chão ao lado da cama, havia um prato e um copo. Mayck se aproximou deles. O pão estava mofado e o conteúdo do copo estava pastoso demais para ser água. 

“Isso é suco? Há quanto tempo isso está jogado aqui?” O mau cheiro deles o fez se afastar. “Onde é a saída daqui, hein?”

Cansado daquele caixa de concreto abafado, o garoto buscou por uma saída, mas não encontrou nenhuma. Aquele cômodo era totalmente fechado, praticamente um cárcere, mas sem grades. 

Havia apenas uma pequena abertura retangular no rodapé da parede, que Mayck deduziu ser por onde era entregue a comida. 

“Fala sério… é óbvio que ninguém iria querer continuar em um trabalho desses. Não tem nem um lugar decente para morar.”

Um pouco de raiva tomou conta do seu coração, mas ele respirou fundo para não ser dominado pelo lado sentimental.

Tirou sua máscara e ativou o DA. Quando ativou o infravermelho, viu uma grande mancha no canto de sua visão causada pela lamparina que era o corpo mais quente do quarto naquele momento. 

Mayck se sentiu desprovido de inteligência por não ter apagado-a antes. 

Assim que a encharcou com um pouco de água — usando suas habilidades — ele olhou ao redor do cômodo, para descobrir o que existia além dela. 

Na direção da abertura retangular, algumas fontes de calor foram detectadas e o fato delas estarem em movimento o levou a acreditar que eram pessoas. 

Uma dessas fontes estava se aproximando de lá, enquanto um rangido de rodas ficava mais alto. Também havia pequenas, mas muitas fontes de calor acima do que parecia ser um carrinho para servir café. Alguns segundos depois ele bateu na parede, utilizando alguma ferramenta.  

“Sua ração está aqui. Veja se come logo”, uma voz grave falou, mostrando que era um homem. Após isso, um prato foi empurrado para dentro do quarto, contendo uma mistura estranha. 

O homem se afastou em seguida. 

“Então tem algo lá fora…”

Cautelosamente, Mayck foi até a abertura e colocou seu DA lá. Vendo que ele passava sem problemas, trouxe-o de volta e ativou o programa de fotografia e tirou fotos dos dois lados da parte externa daquele cômodo. 

As fotos revelaram um corredor em ruínas, como se aquele lugar estivesse abandonado há tempos. A iluminação era feita por lamparinas suspensas em cordas. 

Além disso, havia várias outras aberturas retangulares como aquela, a uma certa distância uma da outra, o que fez Mayck acreditar que todo aquele corredor abrigava cômodos igualmente envelhecidos.

Com isso, ele teve base para uma teoria: aquele lugar era o dormitório dos guardas que eram explorados para realizarem a segurança do instituto. 

Isso quer dizer que a entrada principal está longe daqui.

Mayck respirou fundo e pensou no que fazer. Ele deu duas batidas na parede. Ela era feita de concreto. Significava que uma explosão seria eficaz, porém, muito chamativa. 

Só restava uma saída. 

Parece que a única forma de sair daqui é usando aquilo. 

Sem outra escolha, Mayck se afastou da parede e guardou o seu DA em seu “inventário” por precaução. Abaixou a máscara em seu rosto e deu uma leve alongada no corpo. 

Após encarar a parede por alguns segundos, ele deu uma arrancada veloz para cima dela e saltou, usando sua habilidade, <Celeritas>, em seguida. 

Mais rápido que um piscar de olhos, ele atravessou aquela parede como se ela não estivesse ali. 

Abriu os olhos e se deparou com o corredor que acabara de estudar. 

Pra que lado eu vou agora? 

Ele analisou os arredores e percebeu um gotejar distante e olhou para cima. O teto não era feito de concreto, como os dos cômodos, mas de madeira, aparentemente podre. Então, era correto afirmar que ele estava bem abaixo do riacho e as gotas caindo constantemente criaram uma poça no meio do corredor, também de concreto.

“Se não me engano, ele foi por ali…” Mayck sussurrou para si mesmo, olhando para a direção em que viu o homem se dirigir. 

Sem muita escolha, ele começou a andar. À medida que o caminho era percorrido, o local ia ficando mais úmido e ele notou água escorrendo pelas paredes cheias de lodo. 

Não demorou muito para ele chegar até uma porta larga de madeira. Ele puxou a maçaneta e foi revelado outro corredor e uma rampa no fundo. 

Acho que é ali

Mayck se preparou para qualquer coisa que poderia vir dali e seguiu em frente, subindo a rampa. 

Outra porta. Eram duas portas brancas de madeira lisa, com uma placa de metal na horizontal para puxar. 

Mayck se aproximou dela e tentou ouvir algo do outro lado. Algumas vozes distantes chegaram até seus ouvidos e, logo, elas se foram, dando a entender que aquele lugar levava a outras direções e não era mais uma sala fechada. 

Espero que não tenha ninguém aqui…

Cautelosamente, ele empurrou um lado da porta e abriu uma pequena brecha. Olhou por ela e viu uma sala fracamente iluminada e um grande número de caixas empilhadas. Havia outra porta na outra extremidade da sala. 

Dá pra entrar. 

Ele adentrou a sala, evitando fazer barulho e checou algumas caixas. Todas elas estavam lacradas e os adesivos escritos diziam que eram mantimentos. 

“Talvez essa seja a comida deles. Uwah… já passaram da data de validade. São só os restos então?”

A cada passo que dava, mais questionava a humanidade de quem quer que comandasse aquele lugar. 

Não tendo o que fazer ali, ele seguiu para a próxima porta e se deparou com outro corredor. Deduzindo que seria complicado seguir em linha reta, devido à possibilidade de haver câmeras no caminho, Mayck entrou em um tubo de ventilação que achou por perto. 

Agora eu entendo por que todo mundo faz isso nos mangás…

Ter que engatinhar por aquele lugar apertado faria com que um claustrofóbico tivesse um ataque. Mayck guardou seu sobretudo para não prender seu joelho nele e acabar caindo de cara. 

Seguindo pela tubulação, ele encontrou diversos cômodos — alguns estranhos e outros comuns, como cozinha e almoxarifado — e pessoas, e gravou todo o seu percurso com o DA. 

Até que chegou uma grade e viu, de cima, uma área aberta, ou melhor, um campo artificial. Era como uma estufa, cheio de vegetação e uma iluminação ótima, que parecia ser realmente a luz do luar. 

Mayck se surpreendeu com aquilo. Por um momento ele pensou que havia chegado ao lado de fora. 

A área era extensa e fechada por quatro muros muito distantes um do outro, mas ele não conseguia medir a extensão muito bem, dada a baixa visibilidade por conta da escuridão, que simulava perfeitamente a noite na floresta. 

Que lugar estranho… me parece que estou no lugar certo. 

Com cuidado, Mayck se ajeitou e tirou a grade da ventilação. Não foi muito difícil, já que ela apenas estava encaixada. Ele a pôs do seu lado e colocou a cabeça para fora da tubulação. 

A altura lhe deu uma tontura e ele quase caiu lá de cima. 

Oh, caramba… isso aqui deve ter uns cem metros? Talvez mais…

Ele pensou em como desceria. 

Vou tentar uma coisa… espero que dê certo.

Ele decidiu testar antes de ir pra luta. Se esgueirou um pouco para fora e pôs sua mão na parede, deixando correr um pouco de eletricidade. Forçou um pouco mais para que ela ficasse completamente grudada. O formigamento o fez acreditar que funcionou. Tentou retirar sua mão, ainda emanando eletricidade, mas ela não saiu do lugar. 

Funcionou, né?

Interrompeu o fluxo e sua mão se soltou como se não fosse nada, confirmando a eficácia. 

Mayck respirou fundo. 

Ok, vamos lá…

Lentamente, ele foi saindo da tubulação e apoiando suas mãos na parede, permitindo que o fluxo de eletricidade corresse por elas. 

Quando saiu totalmente, acabou ficando pendurado, até que repetiu o mesmo processo com os pés. 

Beleza…

Para descer ali, ele tinha que cortar o fluxo elétrico de cada um dos seus membros, um de cada vez. Na teoria, tudo funcionava tão bem que chegava a ser incrível, mas no momento em que Mayck tentou cortar o fluxo de seu pé esquerdo, ele cortou o fluxo de todos os membros, ficando em queda livre. 

Ele só se salvou por ter criado uma corrente de ar, que absorveu o impacto de seus pés na hora da queda.

“Oh, merda… achei que ia morrer.” Ele se apoiou na parede e a outra mão sobre seu peito, com o coração acelerado. O que acabara de acontecer nem parecia real, mas o choque sim

Passado o trauma, ele levantou os olhos, e realmente parecia que estava do lado de fora, o teto escuro com uma única esfera luminosa e vários outros pequenos luminares, simulando a lua e as estrelas. 

O espaço todo era uma floresta com uma clareira e algumas mesas redondas de concreto espalhadas a uma boa distância umas das outras. Olhando bem, ele também notou um balanço e uma gangorra. 

Não havia mais dúvidas, aquilo lembrava muito um parque. 

Realmente estou no lugar certo. Aqui pode ser um lugar onde eles enganam as crianças e as testam, colocando-as para conviverem entre si. 

Mayck imaginou que, se aquilo fosse um lugar de observação, então, inevitavelmente, teria câmeras por ali, mesmo que ele não as encontrasse. 

É melhor eu tomar cuidado…

“M-san?”

De repente, a voz de Ruby saiu pelo DA. 

Mayck se assustou um pouco, mas se recompôs rápido. 

“Ah, sim, o que foi?”

“Como as coisas estão por aí?”

“Eu consegui entrar. Estou em um tipo de campus, ou sei lá o que. Parece que aqui realmente é um dos institutos.”

“Entendi… peraí, um campus? Em pleno céu aberto?”

A confusão de Ruby era justificável. Afinal, um campus, basicamente, à mostra, seria visto por qualquer um. 

“Eu disse um campus, mas no subsolo. Ele é artificial, parece que foi feito para abrigar as crianças e mantê-las em bom estado mental… eu acho.”

“Quanta inteligência na hora de fazer maldades, hein.”

“Pois é. Bem, eu vou continuar. Entro em contato depois.”

“Certo. Tome cuidado.”

“Ah, eu vou enviar as imagens que consegui. Dêem uma olhada nelas.”

“Certo.”

A chamada foi encerrada e Mayck enviou as imagens através de botões na armação do óculos, que lhe permitia navegar pelas funções do dispositivo. 

Esse negócio é simplesmente incrível. Nunca pensei que algo assim pudesse existir. 

Deixando isso de lado, Mayck começou a caminhar pelo gramado. Havia um caminho de pedras ali, mas era melhor não arriscar ir pela porta da frente. Porém, ele ainda seguiu o caminho de longe, encontrou um portão de correr e avistou duas câmeras ao lado dele. Eram as primeiras câmeras que ele viu desde que invadiu o local. 

Se já tiverem me visto com outras câmeras escondidas, não faz diferença eu ser cuidadoso aqui. Mas, se isso tivesse acontecido teria soado algum alarme, não?

Ele tinha dúvidas sobre já ter sido visto. 

Talvez eu esteja caminhando direto para uma armadilha…

Embora isso fosse possível, voltar daquele ponto não parecia correto. 

Armadilha ou não, eu tenho que continuar. Se der ruim, o jeito vai ser apagar todo mundo aqui.

Usar a palavra “apagar” parecia diminuir a ideia de que ele poderia matar todos que estivessem ali, mas acabou pesando em sua consciência e ele pediu desculpas a si mesmo. 

Quando foi que as vidas deixaram de ser importantes pra mim?

Um suspiro escapou de sua boca. 

Ele decidiu seguir em frente. Checou os portões e viu que ele estava aberto. Sua suspeita de ser uma armadilha aumentou, mas ainda existia a possibilidade de, coincidentemente, alguém ter esquecido de trancar tal portão, uma vez que ele não parecia ser sustentado por uma tecnologia muito avançada. 

Pelo menos eu não vou precisar usar o Celeritas de novo. Se eu precisasse usar, seria game over pra mim. É melhor eu usar o DA daqui pra frente. 

Ele tomou essa decisão baseada na possibilidade de ter câmeras com detectores de energia de ID. 

Adentrou o local, totalmente escuro, e ativou o infravermelho. Como seus olhos conseguiam enxergar bem naquela escuridão, ativar a câmera de visão noturna se mostrou desnecessário. 

Mayck, então, avançou. No começo do trajeto, não viu nada anormal, além das câmeras dos dois lados de um largo corredor. Passar por elas, no entanto, não foi tão difícil, precisou apenas encontrar e se esconder no porto cego delas, já que se moviam de um lado para o outro simultaneamente. 

Após andar por vários minutos sem chegar a nenhum lugar interessante, ele finalmente chegou a uma sala trancada por uma trava eletrônica, cuja tecnologia era parecida com a da Black Room. 

Parece que apenas certos funcionários podem entrar aqui…

Ele encarou o teclado numérico. Não teria acesso aquela sala, ao menos que conseguisse a senha. 

Será que eu arrisco uma senha aleatória? Acho melhor não. Vai que eu dispare algum alarme… aí a missão vai pra casa do pé junto. 

“Só o senhor Pierre pode entrar aí.” A voz de uma criança quase sussurrando chegou aos seus ouvidos e o alarmou.

Por que… não, como? Como eu não percebi ela?

O corredor não era tão grande a ponto de alguém conseguir se esconder. E também não tinha nenhum objeto que facilitasse isso. 

“É mesmo, é? Que pena.”

“Você precisa fazer alguma coisa importante?” O garoto não parecia ter visto Mayck como um potencial inimigo. Ele parecia inocente demais. 

“Pois é… eu precisava sim.”

O garoto sorriu. 

“Então você está com sorte. Sabe, no outro dia, eu vi a senha que o senhor Pierre colocou. Mas você não pode falar pra ele, tá bom? Se não, ele vai ficar muito bravo.”

“Ah, é? Muito obrigado. Eu prometo que não vou falar pra ele.”

Alegremente, o garoto correu até a porta e digitou os oito números para abrir a porta e, após uma luz verde preencher o display, a porta se abriu. 

“Uau. Você é incrível mesmo.” Mayck sorriu para o garoto. “Mas o que você tá fazendo aqui a essa hora? Você deveria estar dormindo, não é?”

“É que… eu não estava conseguindo dormir, então quando o monitor foi no dormitório, e escapei pela porta que ele deixou aberta.”

“Você… fugiu?”

Mayck mal terminou de falar e todas as luzes do corredor foram ligadas, uma atrás da outra. O pequeno tempo de reação dele o fez puxar o garoto para dentro da sala escura e fechar a porta. 

Logo depois, ouviram vários passos acelerados, como se muitas pessoas passassem na frente da sala. 

“Ei, moço, o que aconteceu…?” O garoto ficou assustado com as ações repentinas de Mayck. 

“Qual é o seu nome?” Mayck sussurrou.

“É Déni…” ele sussurrou de volta. 

“Certo, Déni, eu acho que eles estão te procurando. Então fique bem quietinho, okay?”

O garoto acenou com a cabeça.

O que eu faço agora?

Mayck encostou seu ouvido na porta. O corredor estava em silêncio novamente. Ele voltou e olhou ao redor, analisando a sala em que estavam. Havia alguns armários trancados com travas eletrônicas e uma mesa próxima à parede. 

“Ei, Déni, quem é o Pierre?”

“An? Você não conhece ele?”

“É só um teste. Eu quero saber o que você sabe sobre ele.”

“Bom, eu tenho um pouco de medo dele, mas ele é uma boa pessoa. É ele que cuida de todos os trabalhos chatos que a antiga diretora deixou para trás.”

“Antiga diretora?”

“Sim, a senhorita Katy. Ela sumiu no dia em que o Leer e a Hielo foram embora. Os adultos disseram que eles foram desobedientes, então foram mandados para outro instituto.”

Leer… Esse não é como Mia e Kai chamaram o garoto que eles encontraram, o tal Kenichi? Acho que estou mesmo no lugar certo. 

“Entendi.” Mayck foi até os armários e pôs a mão em cima das travas eletrônicas e as destrancou usando eletricidade. 

Dentro dos armários, ele encontrou vários fichários com fotos e dados de diversas crianças em ordem alfabética. 

São todas as crianças aqui do instituto?

Ele foi passando as folhas e notou datas em cada uma delas, deduzindo que fosse o dia de chegada ou talvez o nascimento daquelas crianças. Ele guardou aqueles documentos em seu inventário. 

Por fim, faltou apenas um armário: o de baixo no canto direito. Fazendo a mesma coisa que fez com os outros, tirou os mesmos documentos de lá. No entanto, aqueles fichários pareciam mais antigos que os demais. 

Ele os folheou e analisou as datas destes também. 

Esses aqui são de mais de três anos atrás… isso quer dizer que esse instituto é tão antigo assim?

Ele ponderou por um momento. Era possível que o instituto estivesse ativo há mais tempo do que ele pensava. 

Até que ele viu um nome que quase fez seu coração parar. Um nome que ele reconheceria em qualquer lugar, não importando as circunstâncias. 

Kin…?

A foto da garota também estava lá para refrescar sua memória. 

Ele ficou nervoso, mas respirou fundo e se acalmou. 

Então foi daqui que ela fugiu, né… Kin…

Nesse momento, as lembranças do tempo que passou com a garota invadiram sua mente e uma sensação nostálgica tomou conta dele, até que foi despertado pela curiosidade de Déni. 

“O que você está fazendo?”

“Ah… não é nada. Só checando algumas coisas.” Ele largou os documentos no ar que foram transferidos para seu inventário automaticamente. “Escuta, Déni, o que você acha desse lugar?”

“O que… eu acho? Eu gosto daqui. Tenho comida, uma cama e todas as crianças têm medo de mim porque eu sou um dos mais fortes. Só é chato ter que fazer exames todos os dias. Eles machucam.”

“Exames, é? Que tipos de exames?”

“Eles nos colocam em uma cadeira com um capacete e um monte de agulhas. Aí ligam a máquina e as agulhas espetam nossos corpos e nossas cabeças doem muito. Uma vez, os olhos de um garoto explodiram e ele se transformou em um descartável. Mas isso só aconteceu porque ele era muito fraco.”

“Descartável…” Mayck não precisou de muito pra imaginar aquilo. O tal descartável mencionado só poderia ser aquela criatura em que Isha e Stella viram a garota se transformar. 

Mayck foi até o garoto e pôs as mãos no ombro dele.

“Certo, Déni, eu vou precisar ir agora. Mas eu vou voltar para buscar você e as outras crianças…”

A porta se abriu e as luzes foram acesas interrompendo-o. Mayck se virou rapidamente e colocou sua máscara; não havia mais o que fazer além de esconder sua identidade. 

“E pensar que você viria mesmo. Talvez agora eu acredite em Yang”, um homem, claramente acima do peso, afirmou. 

“Estava me esperando, é? Então eu caí perfeitamente na armadilha.”

“Realmente. Eu confesso que duvidei quando ele falou que você sairia de qualquer armadilha em que fosse jogado, e parece que eu estava certo. Você caiu feito patinho.” Ele riu. “Você fez um bom trabalho, Déni.”

“Senhor Pierre.”

O garoto correu para perto do homem, confirmando que Mayck estava nas mãos dele desde o início. 

“Fez um bom trabalho, Déni.”

“Que saco… eu até queria investigar um pouco mais…”

“Mas sua única escolha é fugir? Desculpe, mas isso não vai acontecer.”

Nesse momento, vários soldados armados se posicionaram atrás de Pierre, enchendo a sala. 

“Agora, devolva os documentos, e seja uma nova cobaia, okay?”

“Ah, tá. Confia.”

Mayck mexeu em alguns botões no seu DA rapidamente e se virou para ver Pierre e os soldados, que estavam prontos para atirar.

“Desculpa, mas eu vou ficar com eles.”

Como um flash aos olhos de todos ali, ele saltou por cima deles e fugiu da sala. Levou algum tempo para que Pierre e seus soldados se dessem conta disso.

“Como…? Atrás dele, agora!”

Um alerta de intruso soou na instalação, fazendo com que todos os soldados saíssem em busca dele.

Mayck seguiu sem rumo por um tempo, procurando um local em específico, o que não levou muito tempo para ele achar. Era a sala principal, onde os responsáveis pelo instituto monitoravam as crianças e toda a área da instalação, além de cuidar das comunicações. 

Mayck não perdeu tempo e usou uma descarga elétrica pequena para abrir a trava eletrônica da porta e rendeu todos que estavam lá: cerca de vinte pessoas. 

Havia um grande monitor, assim como na Black Room, dividido em várias telas menores que gravavam cada canto da instalação, além do grande número de computadores que ficavam ativos vinte e quatro horas. 

Que droga… eu devia ter considerado melhor a possibilidade de que era uma armadilha. Agora não tem mais o que fazer. Se eu apenas fugir, os outros institutos vão entrar em alerta e eu vou ferrar com a missão. 

Mayck analisou todas as câmeras. Ele procurou pela entrada do instituto e, no processo, verificou onde estavam as crianças e as salas de experimentos.

Elas estavam em perímetros diferentes. 

O garoto voltou seus olhos para a equipe de uniforme branco e projetou um <Canhão Elétrico> a frente dos olhos de todos, que, claramente, ficaram apavorados.

“Ei, me digam sobre a energia elétrica desse lugar.”

“Co-como assim?”

“Eu quero saber se a eletricidade desse lugar é compartilhada ou se cada perímetro tem uma ligação diferente.”

“Si-sim. O laboratório e o dormitório possuem fontes independentes de qualquer outra sala.”

“Ótimo. Então se a energia acabar aqui, não vai acontecer nada com elas, não é?”

“Isso.”

Mayck voltou a olhar para as inúmeras telas gravando todas as salas em tempo real e ajustou o seu DA para tirar fotos delas. 

Em seguida, sem um pingo de hesitação, bateu a mão contra o computador principal e mandou um poderoso impulso elétrico que danificou todos os monitores. Também causou um curto circuito na fiação de toda a instalação — com exceção do dormitório e do laboratório — resultando num apagão. 

Mayck saiu daquela sala levando um dos administradores consigo — que não teve coragem de reagir — para que o levasse até a saída ou entrada da instalação. 

No caminho, entrou em contato com Ruby e enviou as imagens das telas. Disse que enviaria a localização do instituto em breve. 

Eu acho que isso não vai resolver muita coisa. Se eles tiverem geradores, logo logo a energia vai voltar. 

Mayck precisava chegar na saída o quanto antes. 

Com a escuridão, ficou mais fácil se esconder dos guardas, mas a luz não demorou muito para ser reativada e Mayck se ver encurralado. 

“Está… tão desesperado pra fugir? Do jeito que Yang falou…, pensei que você fosse mais calculista.” Pierre tentou esconder, mas ele estava meio ofegante e com as mãos nos joelhos. 

“Lamento se eu te decepcionei. Mas sair daqui é minha prioridade.”

“Que bobão. Eu já falei que você não vai sair daqui”, enfatizou. 

Mayck pegou o homem que estava servindo como refém e o arrastou para o canto da parede para evitar ser atingido pelas costas. Talvez pudesse passar por eles sem sofrer um arranhão, foi o que ele pensou. 

“Se não me derem passagem, ele morre.”

“Atirem.”

A ordem deixou o garoto supreso. Pierre mostrou que não se importava com a vida de um subordinado, mas era o esperado de um homem que tratava crianças como ratos de laboratório. 

Parece que você não tem mesmo salvação. 

Um segundo após a ordem, os soldados fizeram as balas choverem sobre Mayck e o administrador, que estava no caminho. 

O garoto, então, criou uma corrente de ar que parou todos o tiros, derrubando as cápsulas no chão como se elas nunca tivesse sido disparados em primeiro lugar. 

Em seguida, mandou a corrente para os dois lados, arremessando os soldados, e também Pierre, abrindo caminho para ele. Sem perder tempo, ele puxou o homem pelo colarinho e correu. 

“Aonde fica a saída?”

“Vi-vire a direita e siga pelo corredor. Você vai chegar até o elevador que leva pra superfície”, o homem falou, assustado e desesperado, temendo por sua vida.

Aquela era sua única escolha, até porque foi abandonado por seu superior e acreditava que Mayck o mataria se não dissesse. 

Seguindo o caminho, Mayck chegou ao local indicado e entrou no elevador, deixando o homem do lado de fora. No entanto, a única forma de ativar o elevador era com um cartão de pessoas autorizadas. 

Só faltava essa… que merda. Cortei a energia para que eles não fizessem contato com ninguém de fora e evitar que a invasão fosse vazada… parece que eu falhei feio aqui. 

Mayck cerrou os punhos. Estava completamente sem saída. 

“Moleque maldito… Você não vai escapar de novo.”

Pierre chegou até ele com mais uma dúzia de soldados, que deixaram suas armas prontas, tendo Mayck como alvo. O garoto até pensou em parabenizá-lo pelo esforço para persegui-lo. 

“Se renda de uma vez.”

“Tá, tá bom. Eu desisto.” Mayck suspirou e saiu do elevador com as mãos para cima. 

“Uma sábia decisão. Peguem ele.”

Alguns soldados foram até Mayck e o algemaram. Depois entregaram um pequeno controle para Pierre, que o acionou imediatamente. 

Uma corrente elétrica poderosa percorreu pelo corpo de Mayck, fazendo ele abafar um grito e cair no chão paralisado.

“Achou que eu só iria te prender assim e pronto? Na minha mão você vai sofrer, seu merda. Vamos. Levem ele pra sala de testes.”

“Sim, senhor.”

Mayck o observou com apenas um olho aberto, conferindo se sua atuação tinha sido convincente. Afinal de contas, ele não podia ser afetado por uma eletricidade de voltagem tão inferior. 

Parece que deu certo… pelo menos por enquanto. 

Dois soldados o levantaram como se ele fosse um boneco e o carregaram para a tal sala de testes.

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