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Apesar de tudo, eu ainda não conseguia dizer como me sentia de verdade em relação a tudo isso. 

Era aquele misto de emoções que não dava para explicar, mesmo que você tivesse uma ideia do que poderia ser — uma falsa conclusão. 

O silêncio da rua em que eu estava era algo bizarro comparado a alguns minutos, onde eu me envolvi em uma das batalhas mais intensas da minha vida. Havia um vazio no meu peito, eu sentia que nada era real. Mas não tinha chance de ser isso, infelizmente.

Afinal de contas, eu podia sentir na pele todas as sensações de mover meu corpo tão rápido quanto a luz, ou mover meus braços para cortar a carne dos meus inimigos… Meu corpo ainda estava quente por causa de todo o exercício. 

Isso tudo era muito trabalhoso para lidar. Nada disso estava acontecendo até alguns meses antes. 

Além disso, eu sentia que tinha gastado muita energia e isso estava me deixando cansado. Eu só queria minha casa…

A cada dia, setembro ficava mais próximo de acabar. Em breve, o frio do inverno chegaria, e com ele aquela sensação que eu sempre tinha no frio. Uma sensação desconfortável, como se correntes me prendessem num mesmo lugar; uma melancolia de machucar a alma. Tudo parecia tão cinza, que eu mal podia dizer se estava bem de verdade. 

Tinha vezes que eu só queria gritar. Queria me esconder num canto e derramar lágrimas. Porém, algo dentro de mim martelava em minha mente dizendo que eu não tinha o direito… e eu realmente não tinha. 

Eu era um assassino. Sim, isso mesmo. Um assassino. E nada no mundo poderia mudar esse meu crime hediondo, o qual eu fui ensinado a evitar, mas fracassei miseravelmente. Meu pai ficaria decepcionado se descobrisse a vergonha que eu havia me tornado. 

Fui ensinado a ter autocontrole, mas meus métodos sempre me levavam para um final questionável. Talvez eu não tivesse me livrado das emoções humanas, no fim das contas. 

Havia resquícios de neve pelas ruas e calçadas solitárias; também nos telhados das casas. Mas ela logo desapareceria ao raiar do sol. A destruição que nós, portadores, causamos, também seria encoberta pela Strike Down como das outras vezes e a luz do dia seria a mesma de sempre. 

Na verdade, não. Era mentira. Ao raiar do sol, algumas coisas seriam alteradas. O áudio vazado do Primeiro Ministro seria esclarecido, como tratando-se de algo feito por inteligência artificial. Seriamente, a equipe de Haruki fez um ótimo trabalho quanto a isso. 

Outra coisa esclarecida seria o suposto ataque terrorista ao aeroporto. 

Enquanto eu caminhava silenciosamente, organizando meus pensamentos, senti uma leve e tranquila presença perto de mim, e ao virar meus olhos vi Murasaki-san flutuando relaxadamente com seu guarda-chuva. 

“Voltando sozinho numa solidão dessas?”, disse ela, com o sorriso calmo de sempre. 

“Não é tão ruim quanto parece”, eu respondi. “Além disso, fiquei curioso por você não aparecer no meio daquela bagunça.”

Ela pousou e se aproximou de mim. 

“Uma dama não se mete com os encrenqueiros.”

“Eu não gosto de ser colocado no mesmo pacote que eles.”

A alfinetada que ela me deu com uma expressão tão plena foi mais eficaz do que deveria, então eu retruquei, mas não me deixei afetar por algo tão insignificante. 

“Fufu… não gosta? Bom, eu realmente acho que você está mais pra um inspetor, que tenta parar a bagunça dos alunos.” Ela riu de um jeito fofo. 

“…”

“Quando vi aquela postagem no site, fiquei bem chocada, na verdade. Você não parece ser o tipo que se joga de cabeça nos problemas, mesmo que tente resolvê-los a longo prazo.”

Ela fez uma breve avaliação de mim. 

Mas ela estava certa. Eu preferia me manter o mais longe possível dos problemas que assolavam o mundo. Claro, se fosse algo que não me afetasse de forma alguma, eu realmente deixava de lado; caso contrário eu tentaria dar um jeito antes que tomasse uma escala maior. 

“É mesmo?” Eu suspirei e continuei a caminhar. Murasaki-san fez o mesmo. 

“Você fez isso tudo para se livrar dos portadores que estavam te atormentando? Ou então teve um motivo mais obscuro? Eles estavam pagando uma bela quantia por sua identidade.” Ela retomou a conversa, embora eu não quisesse. 

“Quer saber?”

“É claro.”

“Me parece mentira”, eu fiz uma leve piada, mas continha uma pitada de verdade. “Você não parece tão interessada.”

Ela sorriu e respondeu:

“Fufufu~. Não tire conclusões precipitadas. Eu quero saber, sim. Mas não estou tão curiosa, então fique a vontade se quiser me contar.”

Eis aí seus reais pensamentos. 

“Não foi nada muito além disso. Tinha muitos portadores brincando por aí, certo? Então eu pensei que devia fazer algo a respeito. Eu sou um membro da Black Room afinal.”

Entre muitas aspas. Eu ainda estava usando minha máscara, mas parecia que Murasaki-san podia ver através dela. 

“E membros da Black Room podem fazer as coisas por conta própria?”

“Não é assim que funciona…” Me vi em uma questão que não dava para fugir tão facilmente. Mas, mais importante, essa garota não sabia demais?

“Estou brincando. Não quero saber como a organização funciona. Eu só vim até você por dois motivos. Você sabe quais são?”

Ela levantou dois dedos na minha direção, querendo que eu adivinhasse os dois. Bom, por ela ser uma grande curiosa, eu já imaginava o primeiro motivo, mas o segundo era fácil demais.

“Você só quer saber o que aconteceu no campo de batalha e veio me lembrar da ajuda que você deu à Stella, certo?”

“Bingo.”

Muito simples. 

“Hm. Não é como se nada fora do normal tivesse rolado. Eu segurei os portadores até a Black Room chegar e depois derrotei Kazan. E não se preocupe, eu sei que estou devendo um favor a você. Obrigado por ajudar Stella.”

Ante essas palavras, detive meus passos e parei de frente a uma máquina de bebidas, decidindo o que pegar. Acenei para Murasaki-san, perguntando se ela queria algo, mas ela rejeitou. 

“Entendo. Então, você derrotou aquele menino mimado…”

Eu a olhei de relance e vi seus olhos caírem por um segundo. Ela tinha sentido alguma coisa ruim nisso?

Precisei manter meus pensamentos ocultos. 

Mudando sua feição, ela sorriu ligeiramente. 

“Isso já é ótimo. Saiba que eu irei aproveitar muito bem o favor que você me deve”, disse ela com um sorriso malicioso. 

“Por favor, pegue leve”, respondi, pegando uma lata de refrigerante de laranja. 

Nós continuamos a caminhar e o assunto também. Falamos brevemente sobre Kazan e seus ideais absurdos de criar um mundo cheio de lutas pela sobrevivência do mais forte. Eu estava aliviado, de certa forma, imaginando que tinha parado um grande problema ali.

Murasaki-san tinha um ponto de vista parecido com o meu. Ela não parecia concordar com nada do que Kazan acreditava. Pelo contrário, ela gostaria que os poderes continuassem sendo mantidos em segredo e os portadores sobrevivessem na calada da noite. Segundo ela, assim era mais interessante. 

Mudando de assunto, eu perguntei sobre Stella, mas ela não sabia muitas coisas além do que aconteceu alguns dias antes, quando as duas se encontraram. 

Eu fiquei bem surpreso quando ouvi sobre isso. Stella tinha se encontrado com um portador que nem conhecia? Mas quando Murasaki-san me deu uma descrição dela, voltei a mim. Era óbvio que ela não revelaria sua identidade real. 

“Eu passei o seu recado a ela, mas não a encontrei depois de tudo.”

Eu tinha pedido que Murasaki-san dissesse sobre a possível localização de Ryuu. Então ela provavelmente tinha o encontrado lá. 

Eu supus isso ao imaginar que o comparsa de Masato seria Ryuu, dado o crime que os dois cometeram outro dia. Segundo minhas deduções, só Ryuu poderia ser o assassino daquela pessoa, que não teve sua identidade revelada. Se havia outro portador capaz de controlar agulhas, eu desconhecia. 

Após mais alguns assuntos aleatórios, nos despedimos. Não antes de ela me lembrar outra vez sobre o favor que eu estava devendo a ela. 

Sinceramente, eu estava curioso sobre o que ela iria me pedir. 

****

O silêncio voltou mais uma vez, estava na hora de ir pra casa. Depois de uma madrugada tão cheia, eu só queria ficar sozinho. 

Eu só não sabia o que me aguardava a seguir. Assim que cheguei perto de casa, me deparei com uma figura incomum ali. Chika estava agachada perto do muro, com uma feição séria. Ela estava em seu uniforme de capitão do time Delta, o qual estava sujo e com alguns cortes. 

Esse traje não é resistente a cortes?

A dúvida martelou em minha mente. 

Chika se levantou assim que me viu e se aproximou de mim. Quando tentei chamá-la, meu rosto mudou de direção e minha bochecha começou a queimar, no mesmo instante que algo estalou perto dos meus ouvidos.

Fiquei sem reação. Sem hesitar, ela me deu um tapa fortíssimo.

Eu já imaginava o porquê, no entanto. 

“Por que você ajudou ela?” Ela disse com uma voz firme e carregada de frieza.

“Ela me disse que precisava. Então só o fiz”, respondi, voltando meus olhos a ela, meu rosto vermelho e latejando. 

“Ela quase morreu hoje, sabia?”

“Portadores estão sempre andando ao lado da morte, não estão?”

Foi uma resposta sincera, mas ela não se agradou disso e agarrou meu colarinho. Seus olhos encheram-se de raiva rapidamente. Era a primeira vez que eu a via assim. 

“Mayck, seu…! Como você pode falar isso tão friamente?! Ela está em um péssimo estado, ficou a poucos passos de morrer. E isso por culpa sua! Você deu pistas a ela e ela buscou.”

“Foi a vontade dela, Chika. Você não acha errado esconder tanta coisa dos seus amigos?”

“Isso não tinha nada a ver com você.”

“Realmente, não tinha. Eu não sei porque ajudei ela, mas você deveria ser grata por tê-la por perto. Você planejava se vingar de Ryuu algum dia, não é?”

“Isso nem sequer passou pela minha cabeça!”

“Eu me pergunto quanto disso é verdade.”

Em um momento de raiva, ela recuou e girou seu corpo e tentou me chutar no rosto, meu eu desviei e a coloquei contra a parede. 

Eu não estava em posição de ser agressivo, mas eu não podia deixar as coisas serem assim. Pelo menos evitei machucá-la, segurando suas mãos juntas e prendendo suas pernas com a minha. Meu rosto estava bem perto do dela, me permitindo olhar bem fundo em seus olhos. 

“Eu peço desculpas por ter jogado ela contra Ryuu, mas você precisa entender…”

“Você sabia dos riscos que ela estava correndo…”

“Ela também sabia. Chika, ela não é como você. Você sabia sobre o poder dela, e sabia também o quanto isso tudo estava corroendo sua alma. Ela não queria ver você carregar tudo sozinha.”

“Eu não me importo. É meu dever como capitã proteger minha equipe nessas situações.”

A forma como ela falou isso não passava muita credibilidade. Isso provavelmente era difícil de dizer. 

“Mas não é seu dever esconder suas dores dos seus amigos.”

Ela cerrou os dentes mais fortemente, tentando sair de onde estava, mas eu impedi. 

“Você não precisa carregar tanto peso sozinha, Chika. Seus amigos estão dispostos a te ajudar, você não vê? Tudo o que Akari fez foi por você—”

“Não venha com esse papo!” Ela me encarou, lágrimas apareceram em seus olhos. “Eu não quero que ninguém se sacrifique por mim. Eu tenho que cuidar dos meus problemas sozinha… se não… tudo o que eu fiz até hoje vai ser pra nada… sem conseguir salvar uma única pessoa.”

Seu tom de voz soou doloroso aos meus ouvidos. Eu encarei aqueles olhos cheios de amargura, onde as esperanças estavam próximas do fim. 

Havia muito mais sobre Chika que eu não sabia. 

Eu também percebi um dos pontos da minha hipocrisia. 

Hipócrita. Era isso o que eu era. 

“Eu não vou aguentar se mais pessoas se machucarem por mim… Isso não dá. Viver sendo protegida pelos outros é horrível.”

Em que ponto ela queria chegar? Eu não conseguia imaginar que tipos de dores ela enfrentou até aquele momento. 

Por um momento me lembrei de Hana…

Ah… então eu a fiz quebrar também?

Comecei a questionar o que eu estava fazendo. 

“Eu entendo você, Chika. Não é fácil pra nenhum de nós. Akari também escolheu carregar o mesmo fardo que você, então não jogue o sacrifício dela no lixo, mesmo que tenha sido egoísta da parte dela. Você pode perdoá-la, certo?”

“Mesmo assim… Eu não consigo aceitar isso… me sinto inútil de novo, como se minhas forças fossem apenas ilusões. Eu não posso fazer nada…”

“Não é assim que as coisas são. Você pode fazer muito mais, Chika.”

Por algum motivo, eu conseguia me espelhar em Chika. 

Suas mãos já não resistiam mais e estavam trêmulas, então eu aliviei o aperto e lentamente a soltei. Seus ombros caíram e ela abraçou o próprio corpo.

“Como eu poderia fazer mais? Tentei ignorar o problema. Jurei a mim mesma que não iria atrás de vingança, e o que aconteceu? A pessoa que me restou quase perdeu sua vida para acabar com essa dor.”

“Mas ela está viva. O fato de você estar aqui significa que o objetivo foi concluído. Não é o suficiente?”

Eu perguntei, mas também sabia a resposta. Não tinha como encher o coração novamente depois de buscar vingança. Tudo o que restava era um vazio assustador. 

O incidente com Kin me ensinou isso. Até aquele dia, eu sentia a falta de algo em mim. Alana, Kin, meu avô… Eu poderia ter evitado a morte deles?

Assim como Chika à minha frente, eu tinha muita coisa em que pensar, me resolver comigo mesmo. 

“Ei, Mayck…”

“Hm?”

Chika me chamou e ficou alguns segundos em silêncio. Pude ver seus braços apertando mais seu próprio corpo. 

“Existe salvação para este mundo amaldiçoado?”

Era uma grande questão que ninguém poderia resolver. Quantas perdas, dores e angústias alguém teria que passar para alcançar uma utopia que só existia na imaginação? Talvez ninguém pudesse alcançá-la, pelo menos naquele cenário eu tinha certeza que ninguém conseguiria. 

Todos os caminhos que eu conseguia pensar eram de uma destruição inevitável. Em breve, eu acabaria cedendo e deixando as coisas aconteceram da pior forma possível. Afinal, nós estávamos perdidos desde o começo.

“Eu não faço ideia”, respondi sinceramente à pergunta de Chika. 

Um vento arrepiante soprou meu rosto. O céu iluminado pela lua cheia trazia uma sensação de desconforto. Já fazia um tempo que eu não conseguia me sentir bem olhando para o céu noturno. 

Dormir também me trazia um medo. O medo de dormir e acordar em um mundo diferente.

Provavelmente eu não era o único a me sentir assim. 

Chika caiu sobre meu peito e deixou-se levar pelas lágrimas, chorando silenciosamente. Eu a envolvi em meus braços e permaneci em silêncio. 

Se dissesse que não me arrependi nenhum pouco de ter usado Akari em meu plano, estaria mentindo. No entanto, em um momento tão crucial, eu não consegui ver outra opção. 

A voz trêmula de Chika chegou aos meus ouvidos como um lamento de dor. 

“O que eu posso fazer de verdade…? Eu tenho medo de contar com os outros e tudo dar errado. Eu não quero perder mais ninguém.”

Chika possuía um desejo, igual a maioria das pessoas. Era louvável, porém, no caminho em que estávamos trilhando, a dor, o sofrimento, a angústia não podiam ser evitados. 

Mas… nós ficaremos bem.

Eu desejava isso do fundo do meu coração. 

Talvez, Chika até voltasse a quem ela era de verdade, depois disso tudo. 

<—Da·Si—>

Após todo o tumulto acabar, eu me dirigi rapidamente para a área em que o Olhos azuis lutou contra Kazan. 

Foi uma batalha intensa, onde os dois mostraram grande parte do seu poder assustador, mas confesso que fiquei meio decepcionado com o fato de Kazan perder tão facilmente; ele, com certeza, podia fazer mais do que aquilo — o problema dele era ser muito cabeça quente e não aceitar que existia alguém igual ou superior a ele. 

Seus feitos doentios e cruéis corriam pelo submundo e sua morte também teria um grande impacto. 

Muitos portadores poderosos saíram de cena desde que ele apareceu alguns anos atrás, dispersando seus ideais não tão únicos — ele caçava os portadores mais fortes e os fazia sentir o calor derreter seus ossos. 

Eu não me importava com a subjugação dos mais fracos, então apenas fechei os olhos para ele, até que ele mesmo veio até mim, propondo que eu me juntasse a ele. 

Eu recusei, mas isso só nos levou a uma batalha idiota e eu morri, de fato, mas voltei por conta do meu poder de impedir a morte. Obviamente, houve sequelas, como minhas memórias, que ficaram bagunçadas por um bom tempo; eu até perdi algumas. 

Além disso, tinha uma cicatriz nas minhas costas, que não me deixava esquecer aquela luta. 

Foi um golpe forte e bem acertado que me marcou para sempre. Eu ainda podia sentir o calor da lava derretendo minha pele e meus ossos. 

“Otohiko, você realmente acha que tem como encontrar os restos dele?”

“É. Você viu mesmo aquele ataque? A eletricidade arrepiou até os cabelos de baixo.”

Meus companheiros, Suzuki e Shidou, reclamaram. 

Eu os olhei com indiferença e respondi:

“Não se preocupem tanto. Não precisa ser algo grande. Mesmo uma unha deve ser suficiente, contanto que tenha traços do DNA dele.”

Eles bufaram em resposta, mas continuaram a procurar pelos cantos da cidade. 

No momento, estávamos procurando restos mortais de Kazan — se houvesse algum. Meu objetivo era usar minha ID e trazer aquele merda de volta. Ele era forte demais para cair no esquecimento. 

No entanto, nós tínhamos apenas uma hora. Tempo em que a alma de alguém se perdia em algum lugar — nem mesmo eu sabia que lugar era esse, mas eu o chamava de “Nada”.

Se a alma de Kazan se perdesse no “nada”, então eu perderia um peão valioso. Era por isso que eu precisava consertar seu corpo, para que o que sobrou de sua existência trouxesse sua alma de volta e ele pudesse me servir com vida. 

“A propósito, será que Milli-san e Edgar morreram?”

“Sei lá… eu acho que não. Aqueles dois são demônios quando estão juntos e querem lutar de verdade.”

“Hmmm”, Shidou pensou sobre isso com uma expressão de dúvida. “Sei não, hein… Aliás, aquele moleque também foi atrás deles, não foi?”

“É verdade. Ei, Otohiko, acha que seu aluno está vivo? Se ele tiver ido lutar contra Olhos azuis…”

Meus companheiros se entreolharam em concordância. 

“Idiota. Merlin não lutaria contra ele de jeito nenhum. Agora calem a boca e continuem a procurar”, eu disse, irritado.

“Ah! Caralho!”

Shidou gritou alguns segundos depois. Alarmados, eu e os demais corremos até ele. 

“O que foi que aconteceu?!”

“Pra quê gritar desse jeito?!”

“Você é idiota por acaso?”

Nós nos aproximamos e encontramos um Shidou com uma expressão chorosa no rosto, mantendo a mão direita fechada. 

“É que… eu achei uma coisinha brilhando e acabei segurando…” ele acenou para um objeto disforme no chão. 

Eu olhei mais atentamente. Possuía um brilho fraco e avermelhado, eu também podia sentir um pouco de calor vindo dele. 

“Que porcaria é essa?” Eles perguntaram.

Enquanto trocavam olhares de dúvida, meus olhos rapidamente se iluminaram e, sem hesitar, peguei aquele objeto estranho. Ele estava realmente quente. Em seguida, olhei para meus companheiros. 

“Suzuki, me dê um pouco do seu sangue.”

Meu pedido repentino deve tê-lo chocado, já que ele demorou alguns segundos para processar. 

“Como é?”

“Anda logo”, eu ordenei. 

“Quê?! Você tá maluco?! Porque que vou te dar meu sangue?!” 

“Apenas faça isso. Não temos muito tempo.”

“Mas precisa ser o meu sangue?!”

Ele realmente ficou atordoado com isso. Porém, não havia outra escolha. Qualquer um serviria, eu só escolhi Suzuki porque ele foi a primeira pessoa que eu vi quando virei para eles. 

Já fazia quase uma hora desde a morte de Kazan, então se eu não me apressasse perderia uma chance valiosa. 

Relutante, Suzuki pegou uma faca de sua cintura e cortou a mão com ela. 

Eu lhe entreguei aquele objeto que já havia queimado minha mão, mas minha regeneração daria conta, por isso eu não me preocupei em pegá-lo. Diferentemente de mim, Suzuki teve problemas em segurar aquele objeto, que foi coberto com o sangue da palma de sua mão. 

“Ótimo. Segure-a firmemente. Eu vou começar. Se afastem.”

Todos acataram minhas ordens. 

“Espera… vai fazer isso na minha mão?!” Ele reclamou, mas era tarde, pois eu já tinha começado. 

O procedimento que eu segui foi o de usar o sangue de Suzuki como uma troca pelo corpo de Kazan. Era assim que meu poder <Restauração> funcionava. Em troca de algo, eu poderia realizar alguma restauração em um corpo, mas eu não sabia os limites disso. 

O que eu estava prestes a fazer poderia ser confundida como uma ressuscitação, mas não era bem assim. O que eu realmente faria era reconstruir o receptáculo chamado corpo e prender a alma de Kazan dentro, como um item amaldiçoado de filmes e outras obras de ficção. 

Assim que eu coloquei minhas mãos acima do objeto, o sangue começou a brilhar e finos fios vermelhos partiram dele — cerca de milhões ou até bilhões deles. Eles se dispersaram e foram em direções diferentes, cada um buscando um resquício do corpo pulverizado de Kazan. 

Aquele laser elétrico do Olhos azuis provavelmente havia transformado o corpo dele em poeira, mas devia haver algo por ali. 

Os pedaços foram chegando, mas não pareciam ser o suficiente, então eu tomei a faca de Suzuki e cortei um pedaço da minha coxa, oferecendo-a como sacrifício. 

Em alguns minutos, um corpo humano começou a se formar em volta do objeto, que flutuou no ar. 

“Perfeito…” Resmunguei, vendo o corpo quase cem por cento reconstruído. “Kazan agora faz parte da minha coleção.”

Dali para frente, meus planos seriam cumpridos mais rapidamente. 

<—Da·Si—>

Meu corpo estava lento. Eu sentia minhas forças se esvaindo lentamente, ao mesmo tempo que minha cabeça parecia explodir com os mais diversos e deprimentes pensamentos. 

Eu não sabia para onde meu pai tinha fugido e tudo o que eu queria era desistir de tudo, tudo o que conquistei até ali. Mas o que foi que eu conquistei mesmo? Não conseguia dizer uma única coisa. 

Eu era ingênua. Muito ingênua. Pensei que a justiça estava fadada a vencer, mas não vi isso acontecer nenhuma vez, pelo menos, não pra mim. 

Meu objetivo inicial de proteger Mayck foi desperdiçado quando ele despertou novamente. A partir daí, foram falhas e mais falhas e, no fim, destruí minha família. 

Meu pai queria ressuscitar seu irmão mais velho… mas porque ele não se importava comigo e com a minha mãe? Porquê?

Enquanto um calafrio passava pelo meu corpo, eu podia sentir todas as perdas que tive em um só dia. 

Eu me perguntei onde Mayck estava e porque ele não estava ali quando eu precisei. Porque ele não apareceu para trazer meu pai de volta?

Que pensamento egoísta. Eu mesma tinha decidido parar meu pai, mas falhei terrivelmente. Frente aos meus medos, tremia igual uma criança. As lágrimas embaçaram meus olhos e eu nem conseguia levantar minha voz para dar vida ao meu sofrimento. 

Porque eu lutaria, sabendo que não poderia salvar nada? Meu ego estava prestes a levantar uma bandeira branca e deixar que a vida seguisse como quisesse. 

Eu estou sozinha. 

A tempestade de neve parou minutos atrás. Logo a Strike Down viria para consertar o Tokyo Bunka Kaikan, e tudo seria escondido com a luz do dia. 

Minha equipe devia estar atrás de mim, já que eu sumi a noite toda. Uma bronca de meia hora não seria o suficiente para minha professora Amélie. Ela viria dizer que eu tinha fugido das minhas obrigações e daria mais uma aula sobre responsabilidade. 

E parando pra pensar, talvez eu precisasse de uma aula mais intensa quanto a isso, vendo minha situação naquele momento. 

O quanto Mayck ficaria decepcionado comigo? Ele passou por diversos problemas, mas continuou lutando. Eu, porém, não era como ele. Minha justiça não era nada. Eu não era nada. Nada mais que um fracasso, que decepcionou todo mundo. 

Eu me levantei lentamente e comecei a caminhar para o meu abrigo, que costumo chamar de casa. Eu queria ver Mayck, esperando que ele me confortasse e resolvesse toda a situação por mim. 

Um pensamento ridículo, eu sabia disso. Mas o que mais eu poderia fazer? Eu não conseguia lidar com nada sozinha. 

Durante todos esses anos, eu pensei que estava evoluindo como pessoa e me tornando mais forte. 

“Hahaha… Idiota…”

Foi apenas uma ilusão. 

Eu não conseguia acompanhar minha equipe. Airi-san era forte e confiante, além de super gentil. Ryuunosuke-san era carismático, um ótimo líder que se preocupava com os amigos. Asahi-kun era inteligente e compreensível e Yui-chan era alegre e enérgica. 

Já eu, eu era uma garota medrosa que estava sempre dependendo dos outros para dar um passo à frente.

Eu estava cansada disso, não sabia como continuar e nem queria…

Minha mãe não iria entender nada do que estava acontecendo. Ela iria ficar confusa, gritar e me chamar de mentirosa, mas eu não poderia culpá-la. 

Isso era tão cansativo… 

“Mayck … o que eu faço?”

Minha forças se foram por completo e eu caí de joelhos no pouco de neve que restava. Ela era fria, mas nem tanto comparada ao que havia no meu coração. Meu corpo estava trêmulo. O medo do que viria a seguir me fazia querer fugir para qualquer lugar que não fosse esse mundo. 

Para a lua que estava no céu, eu tristemente clamei por ajuda. 

Mas ninguém apareceu para socorrer meus lamentos de dor que desciam pelo meu rosto em forma de lágrimas. 

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