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O raiar de um novo dia trouxe notícias chocantes para a sociedade japonesa. 

O áudio que circulava na internet não passava de algo feito por inteligência artificial, o que foi confirmado pela polícia quando uma segunda versão do áudio fora vazada no dia anterior, deixando alguns rastros que delatavam isso. 

Assim, pela manhã, o noticiário matinal se prontificou a dizer aos cidadãos sobre o que se tratava. Quanto ao atentado no aeroporto, não havia provas de que algo havia acontecido, então a possibilidade de ter sido um ataque de fato foi sendo deixado de lado, e automaticamente as pessoas associaram-no como sendo uma notícia falsa, assim como o áudio. 

“Então era tudo um rumor da internet?”

“Sério, quem é que fica compartilhando essas merdas?”

Os vazamentos da polícia também foram tratados da mesma forma e eles decidiram manter assim, enquanto ainda prosseguiam com uma investigação sigilosa. 

Afinal de contas, os vazamentos aconteceram, realmente.

Além disso, outro problema surgiu: o policial Masato Tsubaki estava desaparecido e isso chocou seus colegas, amigos e, principalmente, sua família, que não fazia ideia do que aconteceu — com exceção de Hana, obviamente. 

Por outro lado, Zero organizou a Black Room depois do incidente da noite anterior. Eles haviam realizado diversas prisões de portadores e mandaram parte deles para as mãos da Strike Down. Ele também não hesitou em usar a Equipe de Reparo para consertar mágicamente todos os danos causados pela batalha feroz. 

“Os portadores que tentaram resistir foram contidos e foram mandados para prisões no B1. A maioria deles eram de nível 3 e inferior, então não houveram muitos problemas.” Um soldado em seu uniforme relatou com sua voz firme a alguns passos da mesa de Zero. 

“Muito bem. Obrigado pelo relatório. Certifique-se de que tudo esteja em ordem. Não queremos que ninguém saia do controle. Não hesitem em usar a força se for necessário”, ele respondeu e dispensou o soldado, que prestou continência e se retirou. 

Depois que as tropas retornaram, ele não parou de receber relatórios sobre a situação em que estavam. Mais cedo, um outro soldado relatou que houveram cerca de 12 baixas entre os aliados, os quais foram pegos nos ataques poderosos de Kazan, e cerca de 20 soldados, tanto da Black Room quanto da Strike Down, ficaram feridos, mas nada tão grave. 

Isso o deixou aliviado, apesar de serem números maiores que o esperado. 

No fim, as coisas foram apaziguadas. Não sei quanto tempo isso vai durar, mas é bom planejar o próximo passo com muita cautela. 

Seus olhos fechados se abriram com o som da porta se abrindo. Nikkie entrou silenciosamente. 

“Oh, Nikkie. Bem vinda de volta”, disse Zero. 

“Obrigada. Eu vi outro soldado saindo daqui. Sobre o que era?”, ela perguntou se aproximando da mesa. 

“Hmm… ele veio relatar o caso dos prisioneiros. Parece estar tudo em ordem, então não há motivos para preocupações.”

“Entendi. Ficou sabendo das baixas? Tivemos mais que o esperado.”

“É… eu sei. Mas não tinha como prever. Isso estava nas mãos de M-san, afinal.”

Se Mayck cuidaria dos portadores rapidamente ou não, cabia somente a ele decidir. O fato de Kazan lutar com todas as forças também cabia a ele. Em outras palavras, Mayck teria que derrotá-lo rapidamente para evitar baixas desnecessárias. 

“Então ele podia evitar… eu vou aumentar a punição dele mais tarde.” Por baixo da máscara, Nikkie estava com o rosto emburrado. 

“Bem, bem. Não precisa agir assim. Tudo pode acontecer numa batalha de grande escala como essa.” Ele sorriu.

Nikkie cruzou os braços. Ela parecia não querer aceitar esse argumento, mas deixou de lado por um segundo e decidiu mudar o assunto. 

“O noticiário de hoje de manhã… não foi meio conveniente a forma como as coisas acabaram?”

“O que quer dizer?”

“Eu consigo pensar em algumas coisas, mas quem faria um áudio falso do Primeiro Ministro? A Strike Down? E por qual motivo?”

“Ah! Sobre isso, não. A Strike Down não tem relação nenhuma com isso. Posso afirmar com certeza.” Ele acenou com a cabeça. 

“Mas então o que houve? Além disso, o suposto ataque terrorista realmente aconteceu um pouco antes. Nós até registramos uma energia imensa naquele momento. Você sabe de algo, não sabe?”

Ela levantou uma sobrancelha. 

Todos esses eventos pareciam isolados, mas ela não conseguia largar a sensação de que algo estava faltando. Um calafrio percorria seu corpo só de pensar no que poderia ser. 

Se for colocar a principal atração no meio de tudo isso, eu só consigo imaginar uma pessoa…

Mayck era o único que vinha em sua mente. E como se para confirmar suas suspeitas, Zero começou a falar. 

“Haha. Parece coincidência, não é? Mas, na verdade, isso tudo foi planejado com antecedência por alguém. Você já deve saber quem.”

“Então você realmente sabe…”

Zero se levantou com um sorriso. 

“Em partes. O ataque terrorista, o áudio vazado… isso foi algo necessário para complementar a bagunça que já estava feita.”

“Os vazamentos.”

“Exatamente. A população, a mídia e as autoridades estavam focados nisso, mas no momento em que os dois últimos surgiram, a atenção foi roubada dos vazamentos. Depois de algum tempo, é revelado que tudo não passava de notícias falsas.”

Era uma forma automática de associação. Se alguém contasse uma mentira e outra contasse a mesma mentira, então era natural que ambos fossem associados como se estivessem pregando uma peça.

Nikkie pensou por um momento, então abriu a boca. 

“Você está falando que um único mentor juntou isso para tirar a atenção e abafar tudo o que foi vazado?”

“Algo assim. Como nós sabemos, tudo o que foi vazado da polícia era real, mas ninguém podia provar isso. Sem esse fato, nada teria funcionado realmente.”

“Entendi. Então o plano foi esse… Eu estou certa em afirmar que o mentor por trás disso é M-san?”

“Corretíssima. Quanto à batalha de ontem, eu acredito que tenha sido parte por um motivo pessoal. Por conta disso eu não posso julgá-lo”, Zero gesticulou e pegou uma xícara de sua mesa. 

Nikkie esperou ele tomar seu café e continuar. 

“Ele decidiu usar sua cabeça como isca para reunir os portadores potencialmente perigosos e nos dar a oportunidade de tirá-los das ruas. Assim, a mentira de que tudo é notícia falsa ganha mais força, já que o número de incidentes relacionados a portadores vai enfraquecer por um tempo.”

Consequentemente, a atenção das pessoas seria levada para outro lugar. 

Nikkie pareceu surpresa quando a verdade veio à tona. Ela não imaginava que Mayck pudesse realmente dar um jeito em tudo, mesmo que fosse uma solução provisória. 

Um tremor percorreu seu corpo. 

Ele é um garoto assustador. Me pergunto até onde suas capacidades vão. 

Mais uma vez, ele se provou útil para a sociedade de portadores. Se ele se convertesse em um inimigo, poderia ser do nível de Yang facilmente. 

“Então é assim que as coisas são. Entendi. Quer dizer que ele tinha controle sobre toda a situação a algum tempo.”

“Algo assim. Mas eu não sei o que pode tê-lo motivado a pensar num plano desses. Não posso negar que estou curioso, mas não planejo entrar em sua vida privada. Você talvez até saiba algo sobre, não é?”

“Se eu parar para analisar, talvez me lembre de algo. Mas, como você disse, eu também não quero me meter em sua vida privada.” Nikkie recusou o aprofundamento no assunto. 

“Ótimo. Dito isso, vamos cuidar para que ele não vá longe demais. Seria um enorme problema se ele voltasse contra nós. Vamos manter esse fato entre nós.”

“Sim. Mas eu também quero saber de algo. Foi ele que envolveu Stella nisso tudo?”

“Eu acredito que sim. Stella sabia quem era o assassino de Clair, então ela deve ter pedido ajuda a ele… isso eu posso afirmar, porém, não faço ideia de como tudo se desenrolou. Se quisermos saber mais, é só perguntar a ele. Mas você não deve estar ligando muito, certo?”

“Tem razão. Foi uma luta que Stella decidiu lutar.” Ela suspirou, não havendo mais nada a discutir sobre aquele assunto. “Enfim, eu ainda tenho algumas coisas a fazer, então vou me retirar por ora.” 

“Certo. Bom trabalho.”

A garota balançou a cabeça e prestou continência antes de sair, deixando Zero a sós com seus pensamentos. 

Ele encarou o monitor atrás dele. Havia informações e registros da cidade em tempo real, os quais ele monitorava constantemente. 

Tudo parecia estar correndo bem. A cidade seguia sua vida ordinária como se nada tivesse acontecido na noite passada, o que era bom. 

“Como é pacífico”, Zero sussurrou. “Anos atrás, não se via isso com tanta frequência. Será que vamos conseguir manter essa era de paz ou será que meu irmão… aquela coisa vai vencer e nos destruir?”

Não importava o quanto ele se perguntasse isso, a resposta não viria de repente — ele precisava lutar para conseguir o que tanto almejava. 

“Espero que Mayck Mizuki não se perca… ele tem o que é necessário para colocar essa geração na frente.”

Seus olhos brilharam com a determinação enraizada em sua alma. Tudo o que ele mais queria era evitar a catástrofe que poderia se repetir caso aquela pessoa vencesse essa guerra. Zero estava disposto a sacrificar sua própria vida em prol de evitar a ressurreição daquele ser que fugia de todo o entendimento humano. 

“The Fake human… Essa coisa precisa ser apagada… Mas, mudando de assunto, está na hora de começar a planejar aquela missão. Acho que vou chamá-la de… Operação Glacial. Sim, isso é perfeito.” Ele assentiu, como se tivesse acabado de ter a ideia mais incrível do mundo.

<—Da·Si—>

Mayck começou mais um dia normalmente. O acontecido de alguns dias atrás não parecia ter interferido em nada, mas isso era só na superfície. 

Após se levantar da cama, ele foi tomar seu café da manhã solitário. Takashi e Suzune já tinham ido trabalhar, mas ele não sabia onde Haruna estava, ele só sabia que ela ainda estava com medo dele, embora não parecesse mais como antes. Era mais como uma cautela em relação a ele. 

Aquele pavor de antes desapareceu.

Eu ainda me pergunto que tipo de evento ela presenciou para ficar assim. 

O mundo daquela Haruna estava tão decaído que nenhum ser humano comum poderia aguentar? E o mais importante, qual era a relação de Mayck com isso?

Essas perguntas ainda não tinham respostas, mas Mayck esperava encontrá-las em breve, antes que algo saísse do controle. 

Ouvi de Rika que ela tem estado com a mente bem longe depois de tudo. Isso está começando a ter efeitos negativos demais. 

Além de seu pai interpretar errado e tirar conclusões precipitadas, outras pessoas poderiam pensar a mesma coisa, devido à linha dos acontecimentos. 

Mas essa era só a forma negativa de pensar sobre isso. Mayck também conseguia ver outra possibilidade à sua frente. 

“Tudo isso é ruim e tal, mas… não seria um evento que poderia despertar a ID dela?”

Experiências ruins, medos e traumas eram só algumas formas que fariam uma pessoa despertar suas habilidades e Haruna estava com uma ótima condição para isso. Se aquela Haruna tinha despertado, então a Haruna original também deveria ser capaz. 

Em contrapartida, ter Haruna como portadora seria apenas mais problemas. 

Mayck suspirou depois de beber o restante de seu café em uma xícara de porcelana. 

“Bom, vamos deixar isso pra depois”, disse a si mesmo. Olhando o relógio, ele percebeu que já estava na hora de ir, então se levantou e saiu depois de pegar sua bolsa. 

O clima ligeiramente frio o fez se encolher. Faltava pouco para o inverno, estação onde as pessoas se agasalhavam o melhor possível; ele mal podia esperar por vestir suas roupas mais quentes e andar confortavelmente por aí. 

Nos últimos dias, ele havia se sentido assim; relaxado em relação a maioria das coisas. O número de portadores nas ruas durante as noites frias caiu de forma incrível, de modo que se ouvia um silêncio sobrenatural em qualquer caçada ou patrulha. 

Por outro lado, o número de Ninkais aumentou, o que significava mais trabalho para os corajosos que ainda saiam de suas tocas para conseguirem dinheiro extra. 

A interferência da Black Room naquele dia serviu para eles relembrarem o pessoal de sua existência. As coisas estavam prestes a sair de controle se não fosse isso. 

Caso continuassem soltos, os portadores problemáticos apenas iriam causar mais caos e denunciar de vez a existência dele ao mundo. 

Não é perfeito, mas…

Aquela caça aos portadores se mostrou útil. 

Algum tempo depois, Mayck chegou à escola e se dirigiu a sua classe sem hesitar. Havia alguns colegas ali que ele cumprimentou ao entrar, mas sentou-se em silêncio. 

A atmosfera parecia a mesma de sempre. Os estudantes conversando despreocupadamente nem podiam imaginar o que se passava na escuridão da noite. O mesmo valia para os professores que lecionavam suas matérias tranquilamente. 

Os períodos avançaram como sempre. Apenas alguns poderiam dizer o que havia de errado na classe, e isso se tratava do relacionamento de Chika com Mayck e também com todos os outros colegas. 

Desde aquela conversa com Mayck, ela havia se fechado um pouco para os outros e falava menos. Raramente se via um sorriso em seu rosto. 

O porquê disso era óbvio. Akari sofreu danos severos ao lutar contra Ryuu. Ela não morreu imediatamente graças a sua resistência física, que foi elogiada pelos especialistas em medicina da Black Room, mas as chances dela de sobreviver às cirurgias que seriam necessárias eram muito baixas. Afinal, além dos danos aos ouvidos, ela sofreu danos nos pulmões, além de outras lesões internas e trauma craniano. 

Ou seja, sua situação não era nada boa. Motivo o suficiente para preocupar a equipe Delta e seus amigos da equipe Alfa. 

Chika não perdoaria Mayck, por fazer Akari lutar sozinha contra Ryuu, tão facilmente, mas só isso não era o suficiente para fazê-la mudar. Seu coração não acreditava que ela conseguiria derrotar o assassino de sua amada veterana. 

Como se dizia “vingança é prato que se come frio”, ela definitivamente estava provando desse prato amargo. 

“Mayck, quer ir comigo comprar algo?”

Quando mais uma aula terminou e o sinal do horário de almoço tocou, Haruki foi até ele. 

“Vou. Não trouxe nada hoje por falta de tempo”, ele respondeu, levantando-se. 

“E você, Chika, quer ir com a gente?”

“Não, obrigada. Eu trouxe meu almoço hoje, então vou ficar por aqui.”

Ela recusou o convite diretamente, como sempre, com um sorriso e calou-se rapidamente, encarando Mayck com um olhar duro no rosto. 

Era óbvio o motivo, mas Mayck ainda sentia uma punhalada com isso. 

“É mesmo? Bom, tudo bem. Até depois.”

Ele acenou e acompanhou Mayck para fora da sala. Haruki parecia não ter percebido, mas nem ele era tão desligado assim, ele era um portador, afinal de contas, e sendo membro da GSN, não poderia se dar ao luxo de não observar detalhes em pessoas e lugares. 

Estando nos corredores, ele tocou no assunto. 

“Chika te olhou estranho hoje. O que foi que você fez?”

“Você já assumiu que eu fiz algo?”

“Hehe… Bem, é natural. Afinal de contas, não é de hoje que isso acontece. Ela tem parecido menos comunicativa esses dias.”

“É…” Mayck lembrou que Haruki não era um idiota. 

“Ela tem me tratado mais friamente, mas é o mesmo com os outros. Com você, no entanto, eu sinto mais hostilidade. É algo muito sério?”

Ele estava curioso em relação a isso. Era normal, considerando que eles eram amigos há um bom tempo e qualquer mudança sutil no relacionamento deles seria facilmente detectada por qualquer um deles. 

Porém, Mayck não poderia se dar ao luxo de revelar detalhes, até porque parte do acontecimento envolvia as organizações, portanto, informações confidenciais também estavam em jogo. 

“Sim, sim. Algumas coisas aconteceram, mas eu não posso te contar. Tudo o que posso te dizer é que eu fiz algo que ela não gostou”, disse Mayck. 

“Oh? Que tipo de coisa? Você tentou beijá-la à força?” Ele sorriu maliciosamente. 

“Cara, vai se ferrar…”

Haruki sabia que não era nada disso, mas ele era do tipo que faria uma piada em qualquer situação. Por outro lado, se o que ele disse tivesse acontecido, talvez afetasse a garota menos do que o que realmente aconteceu, Mayck pensou. 

“Não foi nada disso. E não tente arrancar informações de mim, é irritante.”

“Foi mal, foi mal, era só brincadeira. Eu sei que tem a ver com aquilo, então não vou insistir. Só não hesite em pedir minha ajuda de novo caso precise.”

“Claro. Eu vou pensar duas vezes na próxima.” Mayck apertou o passo e seguiu em frente, deixando Haruki para trás. 

“Ei! Isso foi rude pra caramba. Peça desculpas.” Haruki correu atrás dele. 

Depois que chegaram na cantina e enfrentaram uma multidão terrível, conseguiram obter alguns lanches caros e se dirigiram para o pátio interno em seguida. Não parecia muito agradável comer do lado de fora, devido ao frio. 

Boa parte dos estudantes pensaram a mesma coisa, então o fluxo deles dentro do local deixou até mais aquecido. 

“Ei, se liga nesse jogo que eu comecei recentemente. É um metroidvania muito bom. As músicas, a arte, a mecânica… são dos melhores que já vi.”

Empolgado, Haruki esfregou o smartphone na cara de Mayck, mostrando um vídeo do tal jogo. 

“É… parece interessante.” Ele tentou se afastar um pouco.

“Não é? Cada uma das lutas te dá uma recompensa que vale o esforço. Os chefes são poderosos e as batalhas empolgantes”, ele dizia, apertando o celular como se fosse um troféu. 

Certamente, se tratando de jogos, Haruki não parava de falar ao começar. Cada jogo novo era uma experiência fenomenal para ele — por isso que Mayck ficava por dentro das notícias mais recentes do mundo dos jogos, havia quem o contasse mesmo que ele não perguntasse. 

Então Mayck foi obrigado a ouvir Haruki aclamando aquele jogo, dizendo que ele era uma das maiores obras primas já feitas. 

Enquanto isso se desenrolava, alguém se aproximou por trás de Mayck. 

“Oi, meninos, posso me sentar aqui?”

Hana era a dona da voz calma e levemente num tom mais baixo. Mayck acabou ficando surpreso com isso, até porque Hana, se aproximaria com um comentário sobre o que ouviu de um dos dois. 

Por exemplo, ela teria dito que Haruki só sabia falar sobre jogos ao se aproximar. Mas isso não aconteceu. 

“Claro”, o garoto respondeu, recuperando a compostura.

Ela, então, sentou-se e colocou sua marmita na mesa. O vapor que saira dela mostrava que fora aquecida pouco tempo atrás. Era um almoço saudável, diferente dos lanches que Mayck e Haruki pegaram. 

“Chika não está com vocês… aconteceu algo?” Ela perguntou, vendo que sua amiga não estava nos arredores. 

“Ah, Tsubaki-san. Sabe o que é? Mayck fez…”

Haruki estava prestes a dizer algo inconveniente, mas um chute forte em sua canela o fez se calar e gemer de dor. 

“Ela disse que ficaria na sala. Ela parece estar se sentindo mal por Akari”, Mayck afirmou por cima da fala do inconveniente Haruki. 

“Ah, entendo. Akari-san não tem aparecido na escola, então ela deve estar bem ruim. Eu estava pensando em ir até a casa dela, o que acham?”

“É uma ótima… Gah—!”

Mayck silenciou Haruki outra vez. 

“Está bem fazer isso? Quero dizer… Chika não falou muito sobre o assunto, então talvez nós não possamos fazer uma visita agora, não é?”

“Ah, sim, claro… você tem razão. É melhor deixar isso para outra ocasião.”

A garota desistiu da ideia rapidamente e começou a comer seu almoço. 

Desde o incidente, ela tinha se mostrado bem indisposta. Suas falas eram mais lentas e desligadas que o normal, além de que ela estava falando menos e parecia estar nas nuvens o tempo todo. 

Esse comportamento acabou assustando não só os amigos próximos, mas também os professores que conheciam-na por ser uma das estudantes mais excepcionais do colégio; séria, amigável, inteligente e atlética. Ela, com certeza, era uma aluna ideal para aqueles professores que queriam lecionar para ótimos alunos. 

No entanto, nos últimos dias, isso foi diferente. Em uma chamada oral, Hana, além de não conseguir entender a pergunta nas duas primeiras vezes, respondeu errado as duas. E isso porque ela tinha estudado a matéria na semana anterior. 

Eu fiquei sabendo que Masato escapou de alguma forma. Eu não a culpo por isso, afinal, eu também não conseguiria lutar contra meu pai com a intenção de machucá-lo. 

Imaginar isso o fazia sentir que era um lixo de ser humano. Provavelmente era o que Hana estava imaginando também. 

Foi péssimo da minha parte fazê-la passar por algo assim. No entanto, eu sei que ela é capaz de superar. Ela cresceu comigo e me aguentou naqueles dias horríveis e tem enfrentado muita coisa sozinha. Eu vou fazer o que eu puder para ela evoluir. Nem que seja da mesma forma que eu consegui. 

Mayck teve uma infância turbulenta, então ele conhecia bem o que era dor, angústia e medo. Foi obrigado a superar sozinho, mas tinha quem o ajudasse. 

Os ensinamentos que teve nesses dias o ajudaram a não decair, então ele era extremamente grato a todos que lhe deram apoio e não demoraria em estender a mão da forma que só ele conseguia fazer. 

O que aconteceu em sua família vai servir como um obstáculo que ela deve vencer a todo custo, mesmo que isso altere seus ideais de justiça.

Seu foco estava em ajudar ela a superar seus problemas. Uma luta com Yang poderia acontecer em algum momento, não dava para saber quando, poderia ser naquela noite, talvez anos depois. Portanto, Mayck precisava que seus aliados estivessem prontos para tudo o que viesse. 

Yang é poderoso. Eu não sei qual a dimensão dos seus poderes, mas tenho certeza que não poderia nem  arranhá-lo como estou agora. Não sei também quanto ao futuro, mas se tiver pelo menos alguém tão forte quanto eu, posso acabar dando um jeito. 

Tudo no seu tempo. Antes de Hana, ele tinha que resolver seus assuntos com Haruna. Ele se lembrou disso ao ver a garota ao longe, acompanhada por Rika. 

Com tudo isso, o que ele faria? Era hora de começar a pensar sobre o assunto. 

Depois que terminaram o almoço, eles retornaram para suas devidas classes, prontos para encerrar outro dia de aula. 

****

O céu escuro pairava sobre a cabeça de Mayck, enquanto seus passos acelerados o levavam até sua casa. 

Eu sabia que não devia ter aceitado ir até o fliperama com ele. 

Depois das aulas, Haruki o desafiou para uma partida no fliperama. Mayck aceitou relutantemente e perdeu algumas partidas seguidas. Uma aposta foi feita depois de ser espancado nos jogos e ele acabou se excedendo. 

Por que eu tenho que ser tão orgulhoso nessas horas? Perdi todas as partidas e agora estou devendo um favor e mil ienes. 

“Ahh… que porcaria.”

Ele suspirou e deixou de lado aquele fato vergonhoso, parando de frente a sua casa. 

As luzes estavam acesas, como esperado, então tinha alguém lá. Sem hesitar, ele entrou e notou um par de calçados diferentes do que ele já tinha visto ali. 

Temos visita?

“Estou em casa.”

Curioso sobre quem os visitava naquela noite, ele foi até a sala e se deparou com Takashi e Suzune sentados à mesa, conversando animadamente com uma mulher de cabelos escuros e pele negra. 

Quem é essa?

“Ah, Mayck. Seja bem vindo de volta.”

“Bem vindo de volta.”

Seus pais o cumprimentaram. 

“Deixe-me apresentá-la. Essa é uma amiga minha, que me ajudou muito no passado. Olívia Cesarini. Olívia, esse é meu filho, Mayck.”

A mulher virou seus olhos prateados para Mayck e sorriu gentilmente, deixando o garoto paralisado, como se houvesse um efeito de petrificação naqueles olhos que refletiam o brilho da lua. 

“Eu sou Olívia Cesarini, muito prazer. Eu peguei você no colo quando era bebê, mas você não deve se lembrar, né?”

“Ah…, eu sou Mayck Mizuki… muito prazer.”

“Sim. Eu fico feliz em ver como você cresceu. Está bem bonito e alto. Deve ter a idade do meu filho.”

“Está falando de Dave? Eu me pergunto se ele se lembra de mim. Hahaha.”

“Já faz tanto tempo desde que ele te viu pela última vez. Talvez ele não se lembre muito bem.”

Os três riram juntos. Eram como velhos amigos se reencontrando. 

Olívia parecia mais velha que Takashi. Ela devia estar na casa dos quarenta, mas Mayck não perguntaria algo tão insensível naquele momento, além de ser desnecessário. 

“Ela veio fazer uma visita para nós, já que está aqui a trabalho”, disse Takashi. “Ela sentiu saudades de você também.”

“Hahaha. Não seja tão direto, Takashi. Meu filho também está por aqui. Espero que vocês se encontrem e sejam amigos, okay?”

“É… sim, claro”, Mayck respondeu sem reação. Ele encontrou os olhos de Suzune, que sorria gentilmente, mas ele podia sentir uma pitada de ciúmes na aura de sua madrasta. 

“Bom, eu vou ir até o meu quarto. Vou deixar vocês à vontade.”

“Certo. Mas venha para o jantar, está bem?”

Mayck assentiu com a cabeça e se retirou, não antes de notar que Takashi parecia mais feliz comparado aos últimos dias. 

Masato foi dado como desaparecido durante o trabalho, isso afetou negativamente o pai do garoto, visto que eles eram grandes amigos de longa data. A polícia certamente estava atarefada, mas não deixaria de procurar por um dos seus, e Takashi estava pronto para responder a qualquer chamado e assumir o caso. 

O problema era que ele estava assumindo trabalhos demais. Dava para ver em seu rosto que a exaustão estava o consumindo. 

Espero que essa visita o ajude a relaxar um pouco. 

Algum tempo depois do jantar, Mayck saiu de seu quarto para o banheiro. Olívia já tinha ido embora, ou era o que ele pensava, já que Suzune e Takashi haviam subido para o quarto. 

Após fazer o que precisava, ele estava prestes a voltar ao seu quarto, mas acabou notando um pequeno murmúrio vindo de fora, então se esgueirou até a porta, com a curiosidade pulsando.

Tem alguém lá fora?

Ele notou que a porta estava entreaberta e olhou pela fresta. Não dava para ver quem estava ali, mas as vozes ficaram mais claras. 

“Eu não pude vir antes, me desculpe. Muita coisa tem acontecido ultimamente.” Era Olívia. 

“Está tudo bem, não se preocupe. Não quero exigir muito de você. Eu só estava preocupado demais e acabei sendo apressado.”

Pai? Mayck reconheceu as duas vozes. Sobre o que estão falando?

“Está tudo bem. Não há nada de errado com isso. Agora, falando sobre o que você me disse, tem certeza absoluta, sobre Mayck ter usado seus poderes novamente?”

“Sim. Eu tinha um pouco de receio em acreditar, mas agora posso dizer com certeza. Ele tem agido estranho ultimamente, quase como se fosse outra pessoa.”

“E isso foi o suficiente para te fazer pensar nisso?” Olívia inclinou a cabeça, duvidando dos motivos de Takashi. No entanto, ele não deu sinais de recuar. 

“Você mesma disse, não foi? Disse que aquele bloqueio de memórias não duraria muito tempo. Isso também foi parte do que me faz acreditar que Mayck tenha voltado a ser um portador”, disse ele com confiança. 

Sua base, sem dúvidas, era um pouco estranha, mas Takashi já presenciou muita coisa no passado, então Olívia pensou que talvez ele tivesse razão. 

Afinal, ela viu nos olhos de Mayck que ele carregava uma grande perturbação. 

“Entendo. Suponhamos que ele tenha voltado… não. Ele nunca deixou de ser um portador, apenas se esqueceu disso. Você consegue imaginar o que possa ter trazido seus poderes à tona?”

“Eu não sei… mas… os poderes despertam nos momentos em que os portadores precisam, não é? Talvez eu tenha feito algo…” os ombros do policial caíram. 

“Não se culpe desse jeito. Pode ter sido algo que você não poderia ter previsto ou evitado. Afinal de contas, aquelas pessoas estão agindo por aqui. Não seria surpresa se elas tivessem culpa.”

“Aquelas pessoas…?”

“Há alguns meses, tivemos um incidente problemático. Não conseguimos descobrir como aconteceu ou quem desencadeou, só sabemos que a Strike Down foi para lá às pressas.”

“Há alguns meses…” ele refletiu. “Espera. Se estivermos falando de junho, então Mayck estava lá, visitando os avós. Será que aconteceu algo com ele por lá?”

Olívia ouviu e pensou um pouco. Quando Takashi estava para descartar a ideia, dizendo que seria muita coincidência, ela o interrompeu. 

“É bem provável”, disse ela. “Os incidentes ocorreram perto da casa de Takafumi e Tomoko. Mais especificamente, alguns poucos quilômetros de lá. Talvez Mayck tenha se envolvido nisso.”

“Realmente?”

“É só uma suposição. Mas eu vou investigar isso um pouco. Mantenha em segredo, está bem?”

“Oh, claro. Farei isso. Mais uma vez, me desculpe por incomodá-la.” Takashi curvou-se ligeiramente. 

“Não, não. Está tudo bem. Eu prometi a Sophia que protegeria sua família a todo o custo. Eu tenho que pedir desculpas por deixar tudo aquilo acontecer.”

Olívia baixou os olhos. A imagem de Sophia sorrindo para ela pela última vez antes de desaparecer surgiu em sua mente de novo. Ela não poderia esquecer — nunca. 

“Sophia foi minha aluna e uma grande amiga. Eu não me importo de pôr a mão no fogo por ela”, disse, por fim. 

Takashi sorriu, percebendo que não era de desculpas que os dois precisavam. 

“Muito obrigado, Olívia. Eu, sinceramente, não sei o que fazer. Tudo o que está acontecendo agora é demais para absorver. Eu fico feliz por poder contar com você.”

“O que é isso? Haha. Está tudo bem. Eu faço porque quero ver todos vocês felizes. Eu também gostaria de ver Alana… ela teria crescido e se tornado uma linda garota.”

“Com certeza, sim.”

Ambos riram, como se lutassem contra uma mesma solidão, e a única coisa em que podiam se apoiar era um no outro e nas lembranças que restaram.  

Eles se despediram e Takashi voltou para dentro e trancou a porta, indo para seu quarto em seguida. 

Entendi… Então eu venho fazendo ele sofrer… 

Mayck estava encostado na porta de seu quarto. Ao perceber que o assunto estava encerrado, ele voltou rapidamente. 

Eu não sei nem o que dizer sobre isso… Meu pai sabe que eu sou um portador… mas parece que é só isso. Não posso deixá-lo descobrir mais. Ainda não. 

Seus motivos eram simples. Se seu pai descobrisse tudo naquele momento, ele quebraria primeiro. Takashi talvez não suportasse a verdade que Mayck e Masato carregavam. Isso poderia destruí-lo junto com suas esperanças, e a vida tranquila que Mayck desejava para ele seria jogada no lixo. 

A única forma que eu tenho é essa?

Um plano que ele tinha formado, mas com uma baixa chance de sucesso. Ele hesitava em dar um passo à frente, mas não parecia haver outros caminhos que protegessem o máximo de pessoas e principalmente sua família. 

“Droga… isso vai ser muito perigoso. Eu preciso ficar mais forte.”

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