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A expressão de Rina era impassível naquele momento. Seu rosto parecia transbordar um sentimento de decepção, no mesmo instante em que apertava o travesseiro da cama e encolhia seus pequenos ombros. 

Por causa das memórias ainda vividas em sua mente, o corpo da garota com olhos azuis começou a tremer levemente, com medo dos últimos acontecimentos.

Em meio as suas memórias enquanto olhava para sua amiga, Tyrant, ela lembrou-se de como foi difícil experienciar novamente uma memória que mais assemelhava-se a um trauma.

Ela parecia voltar para aquele instante, quando sentiu os olhares fixos dos aldeões sobre si, ao mesmo tempo em que era levada à fogueira à força pronta para ser morta.

A angústia, decepção e medo sentidos pelo descaso dessas pessoas que antes eram muito próximas e conviviam diretamente com ela, foi um verdadeiro choque em sua realidade.

Essa era uma memória que a garota desejava a todo custo enterrar, fingir que nunca sequer existiu. Entretanto, embora sua mente quisesse, ela não conseguia escapar dessa memória que havia se tornado um trauma.

Por fim, com a voz ligeiramente alterada, a menina soltou um pequeno suspiro e continuou o seu desabafo.

— No começo, pensei que talvez eles estivessem seguindo os ideais daqueles loucos, afinal, eles queriam se salvar acima de tudo, então não seria algo incomum para mudarem de lado. 

Mesmo que fosse difícil conversar sobre tal assunto, e sem saber se transmitia de forma clara suas palavras, a garota sem querer, deixou transparecer insegurança e medo em seu tom. 

— Eu sou tão idiota, por que eu não conseguia enxergar esse lado deles antes? No fundo, eu tinha a impressão de que não eram boas pessoas, mas tentei negar, mesmo que as suas ações provassem o contrário. 

Limpando algumas lágrimas que escorriam do rosto, continuou a dizer: 

— Mas, sabe Tyrant, você não sente nada? As mesmas pessoas que conversávamos todos os dias, que ajudávamos, convivemos e confiávamos até certo ponto, nos traíram dessa forma tão ridícula. 

Quando Rina finalizou, ela olhou para a vidente que estava visualmente abalada. 

— …

Tyrant não conseguiu dizer nada em resposta, apenas olhou para as pequenas lágrimas que saíam dos olhos azulados de Rina.

A vidente então se levantou e caminhou até à beirada da cama, e sentou sobre ela enquanto olhava nos olhos de Rina. Tyrant estava surpresa com todo o relato da amiga, mas não deixou visível tal sentimento, e curvou sua cabeça para o lado.

— Rina, você acha que eu realmente estou bem? Eu pareço bem para você? Estou tentando me levantar a todo momento, e cada vez que essas memórias vêm à tona, a minha respiração se torna pesada, e o meu corpo enfraquece. Começo a me sentir estranha, e sempre que fecho os meus olhos consigo me ver no fundo do calabouço, assim como antes, quando estávamos presas. 

Lágrimas involuntárias escorrem do rosto da vidente, no instante em que disse:

 — Até agora, eu tentei me manter de pé, sem mostrar inseguranças… 

— …Mas a verdade é que isso ainda me assusta! A única coisa que ainda me mantém de pé é saber que aquele garoto conseguiu nos salvar, e ainda nos deu uma nova chance de recomeçar. 

Por fim, tentando manter dificilmente o tom de sua voz calmo, e sem a intenção de piorar a atmosfera que já estava melancólica o suficiente para um enterro, Tyrant acrescentou.

— Rina, você nunca conheceu o mundo, você nasceu e conviveu com aquelas pessoas. Não tem noção de como a natureza humana é realmente. As pessoas sempre mostram seu lado egoísta e soberbo, sem se importar com os outros. Visam a própria sobrevivência acima de tudo. 

— Foi por isso que sempre confiei no cosmos e segui a minha ideologia fielmente, mesmo que me chamassem de louca e fanática. Essa era a única forma que conseguia fugir da realidade, minha querida. — Terminou a declaração, com as duas mãos no rosto enquanto secava as poucas lágrimas que escorriam sobre a superfície de seu rosto. 

Rina não conseguiu respondê-la de imediato, tudo que Tyrant relatou tinha sido um impacto sobre o modo pelo qual ela enxergava a vidente. A impressão de que Tyrant se resumia apenas em suas profecias, e a maneira excêntrica e roupas alternativas que usava, havia desaparecido da visão de Rina.

“Tyrant está passando o mesmo que eu? Mas, ela parece tão forte e confiante, nunca pensei que isso pudesse estar acontecendo.” 

Era o pensamento da garota que não havia percebido que a vidente também tinha esse lado, de inseguranças e medos, causando-lhe uma sensação de conforto e empatia.

Nesse momento, Rina percebeu que a diferença entre ela e Tyrant, era que Tyrant preferia guardar suas inseguranças e ressentimentos consigo mesma. Sua postura de confiança e integralidade reforçaram esse estereótipo inabalável, por conta disto Rina sempre tivera tal impressão daquela mulher.

Uma mulher que não tinha medos ou arrependimentos.

“Ah… Não se pode confiar nas aparências.”

A atmosfera tornou-se quieta, e o silêncio parecia agravar-se por toda a região. Rina e Tyrant apenas olhavam para o chão cabisbaixas, sem dizer absolutamente nada. 

Era como se o silêncio subsequente, neste momento, estivesse às confortando, apenas a presença de uma e da outra era o suficiente, por algum motivo inexplicável.

— …

— …

— Olha, eu não sou uma terapeuta ou algo do gênero, mas dá para ver que estamos assustadas e ansiosas com o futuro — disse Rina, colocando as suas mãos sobre as mãos de Tyrant. 

— O que, por experiência, não nos faz pessoas negativas ou melancólicas por estarmos desabafando tão profundamente. Mas, sim, normais… — disse Rina.

Após ouvi-la, um sorriso se formou na face de Tyrant, antes dela olhar para a menina e respondê-la novamente.

— Obrigada por dizer todas essas coisas, eu sempre pensei que você era uma pessoa confiante e sem medos. Nunca pensei que estaria vendo esse seu lado, tão insegura, e frágil, assim como qualquer pessoa. Você sempre se impôs em suas opiniões, falando tudo o que pensava. Fico feliz que não seja bem assim.

Rina ficou envergonhada ao ouvir tais palavras, então tentou mudar de assunto rapidamente. 

— Por hora, por que não esquecemos isso? Se ficarmos remoendo o passado, só ficaremos cada vez mais deprimidas e para baixo. Só de saber que você se sente da mesma forma que eu, isso já me conforta! Chega a ser um alívio, na realidade.

Rina terminou com seus comentários tentando ao máximo forçar um pequeno sorriso no rosto, com a intenção de parecer bem visivelmente, e não pensar mais sobre o assunto ou demonstrar tal comportamento para sua amiga. 

“O fato de que Tyrant está disposta a me dizer tudo isso significa que ela realmente confia em mim, ao menos por hora. Fico muito feliz em saber que sou especial aos seus olhos…” 

Pensou Rina, imersa em pensamentos. 

Assim que acabou de ouvir as suas palavras, Tyrant apenas assentiu com a cabeça: Afinal, o que as duas poderiam fazer naquela situação? Apenas desabafar, e relatar o que sentiam. 

Enquanto arrumava os longos cabelos com a sua mão direita, a vidente com um pequeno sorriso, declarou de maneira calma e suave. 

— Bem, você tem razão, Rina. Não vamos mais pensar sobre isso. Eu entendo que você tenha essa visão de mim, tentei ao máximo não transparecer as minhas fraquezas… mas… quando você começou a falar, eu senti a necessidade de dizer algo a mais, meu coração tornou-se pesado. Não sei explicar…

— No fim, acabei cedendo. Espero que consigamos seguir em frente, ao menos por agora.

— Sim, obrigada, Tyrant — respondeu Rina logo em seguida. 

Continua…


 

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