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Svishtar.

11:48 da manhã.

Ponto de vista de Tyrant.

Os elfos acompanharam Rina e Tyrant até o quarto em que ficariam hospedadas, até que pudessem futuramente encontrar um novo local para ficar.

No momento em que ficaram em frente à enorme porta de madeira de um dos cômodos disponíveis, o elfo que estava junto despediu-se das jovens e voltou-se às suas respectivas funções anteriores como auxiliar. Seu trabalho nada mais era do que orientar outros refugiados que chegavam em Svishtar, informando-lhes e auxiliando dentro do possível.

Apesar do cômodo das meninas estar afastado do de Rei e Kazuki, ainda era possível ver a porta de madeira do quarto do garoto do outro lado do corredor, não tão longe assim.

Creak! 

Ao adentrar o cômodo, de repente, a primeira coisa que Rina fez foi jogar-se na cama que estava localizada bem no centro do cômodo.

Sentindo a textura confortável do edredom, ela relaxou a expressão no rosto e abraçou o travesseiro mais próximo, apertando-o com força, quase como se não pudesse acreditar que estava finalmente descansando.

Enquanto isso, do outro lado, Tyrant arrumava os pertences pessoais, alocando-os na estante fixada na parede e o armário encostado próximo a pequenos jarros de mármore e madeira acinzentada.

Deitada na cama, Rina abriu a boca, sem tirar os olhos das costas de Tyrant.

— Você não acha estranho? 

Após ouvir a voz da garota, Tyrant parou de se mover por alguns segundos, ficou imóvel e demorou um tempo para respondê-la de volta. 

— Estranho? Estranho o quê? — perguntou Tyrant, arrumando os pertences mais uma vez, sequer olhou para trás quando recebeu a pergunta. 

— Ah, droga. É sério que você não viu, Tyrant? Você é bem míope — desabafou a menina, debruçada sobre a cama enquanto rolava sobre ela várias vezes.

Uma veia saltou do rosto da vidente nesta hora, após escutar os gemidos e suspiros que Rina não parava de soltar.

— Rina… seja mais específica, pelos céus! Você realmente acha que vou saber o que se passa em sua mente, embora eu seja vidente, não posso adivinhar esse tipo de coisa.

Rina parou de rolar na cama e olhou para as costas de Tyrant, e com um leve sorriso irônico no rosto, disse: 

— Você é tão chata, Tyrant. Ahrr… 

— … Estou falando sobre Rei e aquele outro cara que sempre está junto com ele. Os dois não pareciam muito próximos…? 

— Está falando do Kazuki? Próximo? Está dizendo que… você teve essa impressão deles…? — respondeu a vidente. 

— Impressão? É só ler as entrelinhas, Tyrant. Eles estavam literalmente colados, presta atenção no contato físico deles…. Tipo, tava na cara. 

Tyrant soltou um suspiro em resposta, e declarou balançando a cabeça: 

 — Ah, Rina. Por favor. E se for esse realmente o caso? O que temos com eles? Não vamos nos intrometer na vida pessoal deles, não é da nossa conta. 

— Qual é, Tyrant. Poxa, você não acha que seria legal… Tipo… Sabe… É bem difícil ver um casal assim. 

Ao terminar de escutá-la, Tyrant voltou-se para trás e com uma sobrancelha levantada, encarou a menina que ficou surpresa com a reação repentina.

— Não seria um relacionamento tão incomum assim, você e eu sabemos disso. Mas como eu disse, o que temos com isso? Pela deusa Vênus, Rina, deixe de pensar sobre isso…

— … Você sempre ficava juntando as pessoas na vila… Pensando agora, seu apelido era, como mesmo? … Ah… lembrei… a cupido — acrescentou Tyrant, juntando as mãos.

A expressão de Rina endureceu com as palavras. O seu rosto ficou vermelho e ela abaixou levemente o rosto, diminuindo o contato visual. 

— Ahhhrrr! Cala a boca, Tyrant. Como você sabe disso? Não era para ninguém saber disso.

A vidente começou a rir levemente do susto repentino de Rina, quando a respondeu de volta calmamente.

— Na época, eu trabalhava com poções e criação de elixir, mas ainda conseguia de vez em quando algumas informações dos meus clientes sobre os aldeões… Principalmente sobre a Zardini, e outras pessoas próximos a você. 

— Para falar a verdade, foi algo bem inusitado. Uma certa jovem que não perdia a chance de juntar casais. Sejamos sinceras, você nunca conseguiu ter sucesso nesse seu hobby esquisito — terminou Tyrant, soltando uma risada leve.

Envergonhada com os comentários de Tyrant, que mais pareciam caçoar de suas atitudes passadas, a menina tentou esconder o constrangimento com uma pergunta agressiva, para que pudesse mudar de assunto.

— C-chega… Cale a boca, sua bruxa velha! E-E você? Seu apelido era a vidente doida, sempre se esgueirando pela vila perguntando se as pessoas queriam previsões ou alguma ajuda dessa sua deusa aí! Você era estranha pra caralho. 

— Vi-Vidente doida?… como ousa falar isso de mim?— respondeu de volta em espanto, com uma expressão de indignação estampada no rosto.

— Convenhamos Tyrant, você é muito esquisita! Desde a época em que você veio morar naquela cabana destruída perto da vila. Se não fosse a ajuda dos elfos para reconstruí-la, você estaria acabada agora. Duvido que conseguiria montar um telhado ou derrubar uma parede sequer daquela casa maltrapilha! 

Tyrant colocou as mãos sobre a boca, como se estivesse a pensar sobre isso. A intenção dos comentários de Rina era apenas diminuir a vidente, no entanto pareceu ter um resultado diferente.

— Você tem razão, se não fosse a ajuda dos elfos, eu nem sei o que eu poderia ter feito. 

O clima tornou-se ligeiramente tenso, e um silêncio subsequente invadiu o espaço. Rina, ao perceber que talvez tivesse dito algo que pudesse ter acertado algum ponto fraco na vida da vidente, respondeu em seguida com sinceridade. 

Afinal, apesar de toda a insinuação negativa sobre a  imagem de Tyrant, a menina não sabia o seu passado, e, apesar de ter uma personalidade questionável, Rina tentava ao máximo desvencilhar-se de uma possível impressão insensível de sua parte. 

— N-não fiquei assim… Oras, eu só estava brincando, Tyrant. Não leve para o emocional. 

— Não, Rina, está tudo bem. De verdade. Eu nunca parei para pensar nessas questões.

“Por que as coisas ficaram assim? Em um segundo estamos falando naturalmente e brincando, e no outro ela fica depressiva.” 

Pensou Rina, coçando a cabeça enquanto observava a expressão da vidente cabisbaixa. 

Haviam muitas incertezas, e tudo que ocorreu com Tyrant e Rina até o presente momento em suas vidas poderia ser resumida em duas palavras; repentino e trágico.

Na realidade, apesar das brincadeiras e risadas, as duas meninas estavam a tentar constantemente esconder o sentimento lamentável dos últimos acontecimentos. 

Tanto suas mentes quanto seu emocional, ambos estavam uma bagunça internamente.

A memória era desagradável, e até certo momento, nenhuma das duas teve tempo de discutir ou organizar os pensamentos sobre o incidente da vila em diante. 

Antes que os pensamentos de Rina se intensificassem com essas memórias, a voz de Tyrant interrompeu sua linha de raciocínio.  

— Você se sentiu assim? — indagou Tyrant.  

— Hã?

Perguntou Rina,  movendo a cabeça para o lado, sem entender o questionamento de sua companheira.

— Você se sentiu assim com as pessoas da vila? — perguntou novamente Tyrant, olhando para baixo.

Assim que escutou a indagação, Rina hesitou momentaneamente e seus olhos se encheram de incerta e tristeza. Sua visão parecia afastada, como se olhasse diretamente em suas memórias enterradas.

A garota levantou-se e sentou sobre a cama e pegou um travesseiro, e o apertou com força, com o propósito de tentar tomar coragem e desabafar. Seu coração estava pesado.

Ela não esperava conversar sobre esse assunto do vilarejo naquele momento, ainda mais levando em consideração que poucos minutos antes, estava brincando como se não houvesse amanhã.

Mesmo que a pergunta se Tyrant tivesse sido de forma abstrata, a maneira que a vidente havia dito, conseguiu-se ter uma ideia sobre a sua real intenção. 

— Bem, a vila não é mais a mesma que antes, as pessoas mudaram, Tyrant. Eu mudei.

— Tipo… Você sabe, lembra quando aqueles fanáticos começaram a tomar conta da região? Eles reivindicaram a prefeitura e criaram leis absurdas, e foi nessa época que começaram caças às bruxas. 

Com um olhar fixo para o edredom da cama, perdida em suas memórias, a menina continua a relatar. 

— Eu estou tão decepcionada sobre tudo isso, sabe, Tyrant? No começo tiveram pessoas que apoiaram esses ideais, pessoas que conhecíamos. O senhor Berley, a senhora Yart, os padeiros Bresley e Nicky, entre diversas outras… Eles apoiaram as atrocidades daqueles idiotas. 

— Eu pensei que os conhecia, já que todos da vila se consideravam uma grande família. Mas na hora que estávamos sendo presas e quase fomos mortas, as mesmas pessoas de antes nos deram às costas. — Sua voz tornou-se densa e falha, enquanto suas mãos e pernas tremiam levemente ao relembrar de coisas que jurou enterrar.

— E tipo, isso foi muito forte, eu não posso culpar eles, o que eles poderiam fazer… sabe? 

— Eles só estavam tentando sobreviver, e começaram a concordar com a ideologia daqueles desgraçados. Foi o que eu pensei, Tyrant, mas eu acho que talvez eu esteja errada. 

Continua… 


 

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