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Na manhã seguinte, Diane apareceu na sala com uma mochila maior do que o comum. Colocou ela em um canto da sala e se sentou para comer. O desjejum deles foi à base de pão, frutos e uma carne seca que Deckard não sabia de qual animal era.

— Espero que esteja pronto — ela disse em tom de desafio — já que eu vou começar a te treinar de verdade a partir de hoje.

— Não poderia me dar mais um dia de descanso, né? — ele resmungou, emburrado.

— Cada dia de descanso, é um dia a mais que você fica para trás, Deckard. Você está aprendendo agora coisas que outros cavaleiros já sabem há tempos, desde a tenra infância.

Ele se sentou para comer também, enquanto refletia sobre o que ela havia lhe dito.

— Então, em quanto tempo as crianças costumam aprender o que você tem a me ensinar? — ele perguntou, curioso.

— Você aprendeu apenas o básico. Isso te colocaria a par com um jovem por volta dos seus doze anos. Em um ano, nós vamos tirar qualquer diferença que você possa ter com um filho de um nobre no ápice da sua juventude. Mas, já adianto, terá momentos em que você irá desejar ter morrido naquele incidente da cachoeira.

Conforme ela falava, ele não pôde deixar de se espantar. As crianças costumavam treinar duro por aqui, pelo visto. E, apesar de preocupado, estava ansioso para ver como se condensa uma década de treinamento em apenas um ano.

— Vocês costumam pegar pesado com as crianças por aqui. Antes dos doze, eles já passaram por esse inferno todo.

— Não é bem assim que funciona Deckard. Geralmente, eles começam por volta dos oito anos a praticar controle de mana, o que permite que eles sejam ensinados de uma maneira mais branda. E, por volta dos seus quatorze anos, eles começam a treinar o físico, para que possam passar a treinar combate aos dezesseis. Aos vinte ou vinte e um anos, eles terão uma base sólida para encarar as academias de batalhas. Já você, não terá esse tempo, então a alternativa que me resta é forçar você além dos seus limites todos os dias, para que você libere o seu pleno potencial.

— Esse é um regime de treinamento interessante — Deckard se viu obrigado a admitir, pois jamais imaginou como funcionaria com os outros.

— Isso se trata de um plano básico de preparação. Famílias nobres tendem a investir muito em seus magos, para forçar seus limites, tanto em treinamento quanto com recursos. E há alguns casos, em famílias pobres ou de guerreiros do exército das cidades, onde os filhos são treinados exaustivamente desde cedo, para que possam atingir um patamar maior de vida, do que seus pais. No fim de tudo, o talento natural e a capacidade de explorá-lo plenamente variam de um mago para outro e isso que conta no final, o quão poderosos você pode se tornar com as armas que tem.

— Em qualquer mundo, o dinheiro abre portas, no fim das contas. Não me surpreende nenhum pouco.

— Mas, em Principale, as coisas não são tão preto no branco Deckard. Há famílias de comerciantes que se tornaram nobres, há figuras importantes do exército da cidade que tiveram seu status aumentado em muito. Dinheiro é uma forma de poder. Quando bem usado e investido, pode fazer milagres maiores do que a mana. Não se esqueça jamais, aqui impera a lei da força, o mais forte caça o mais fraco, o mais fraco se submete ao mais forte.

— Mas, a vida se torna bem mais fácil quando se tem uma fortuna — até para ele mesmo, a reclamação de Deckard soou meio infantil e rabugenta.

— Sim, é verdade. Mas a vida não é justa Deckard. Todos temos que sobreviver como podemos. Tem até casos de pessoas que começaram com menos que você e chegaram muito longe, ao ponto de se tornarem forças a serem reconhecidas até pelos que nasceram em berços nobres. E todos têm uma forma de conseguir dinheiro, através de trabalhos, de contratos com oficinas ou até mesmo através da Guilda de Caçadores. As oportunidades estão aí para os que estão preparados e é isso que estamos fazendo aqui, te preparando para extrair o máximo dessas oportunidades.

Após a lição, que o deixou pensativo, Diane se levantou e seguiu rumo a porta.

— Não se esqueça do seu casaco, afinal nossos vizinhos ainda rondam por aí — ela lhe jogou o casaco de lá de onde estava.

— Mas, se eu vou ter que tirar ele depois, não tem motivo para levá-lo.

— Achei que você iria continuar sendo resmungão até me matar de tédio e decepção — ela respondeu.

Enquanto levantou o rosto para encará-la, Deckard pôde vê-la sorrindo. Ele tinha que admitir, isso estava se tornando uma visão um tanto acalentadora nesses dias de treinamento difíceis.

Sairam da cabana e seguiram em direção ao sul, o que o deixou um pouco surpreso. Afinal jamais seguiam em direção ao sul.

— Para onde estamos indo, Mestra?

— Aproveitando a nossa conversa sobre oportunidades, eu vou te mostrar uma dessas. Você vai perceber que mesmo uma fortuna neste mundo não vale de muita coisa, quando não se tem o poder para aproveitá-la.

Ele ficou sem entender bem o que ela queria dizer. Mas, não insistiu em fazer perguntas. Uma das primeiras lições que aprendeu foi que nada faz Diane falar, quando ela quer manter o mistério.
Seguiram mata adentro por cerca de uma hora, até que chegaram em um pequeno descampado. Não chegava a ser uma clareira, pois apesar de ser um espaço aberto, ainda está coberto de árvores bem espaçadas. Diane colocou as coisas dela encostadas em uma das árvores e foi em direção a uma árvore firme, que parecia ser bem firme para sua aparência frágil.

Ela então se cobriu de mana e deu um soco na base da árvore. Depois, pegou o galho e, usando mana para cobrir a mão, limpou os galhos em volta do tronco. Quando voltou para perto de suas coisas, ela jogou aquele galho para Deckard.

— Vamos improvisar uma lança aqui, antes de continuar até o nosso destino. Afinal, você vai precisar de uma arma com um alcance maior e não temos uma forja por aqui.

Depois disso, ela falou para Deckard ir até as árvores e pegar um cipó, o mais resistente que encontrasse. Levou algum tempo, mas ele conseguiu.

Então, ela lhe disse para pegar a sua velha adaga e amarrar bem firme na ponta daquele bastão.

Após terminar, Diane o ensinou alguns golpes básicos de lança, para que ele pudesse lutar contra mais de um oponente e manter um espaço para não ser suprimido pelos seus inimigos.

Passaram cerca de duas horas repetindo aqueles movimentos, até que ela estivesse satisfeita.

— Vamos comer um pouco antes de seguir, para recuperar as energias gastas — Diane disse, assim que pediu para ele encerrar os exercícios.

Depois de uma breve refeição, seguiram em frente. Após alguns minutos, eles chegaram à uma caverna. Sua entrada não era muito grande, apenas o suficiente para três ou quatro pessoas passarem juntas. Era cercada por um lamaçal e não parecia haver qualquer som dentro dela.

— Nós vamos treinar na caverna, então. Achei que iríamos lutar contra algum inimigo.

Deckard se sentiu bem confuso, enquanto olhava em volta e não ouvia um som sequer.

— Acho bom você chamar seu amiguinho, você vai precisar da ajuda dele. E ele precisa deixar animais para outros caçarem também.

Ele nem se importava muito com o que Fang estava fazendo. Deckard sabia que o contrato de sangue os ligava e os permitia sentir como o outro estava ou quando precisavam de ajuda. E já estava acostumado a ver Argenti saindo e passando o dia todo sumido.

Deckard mal pensou no nome de Fang, e já sentiu que o tigre se eriçou e seus sentidos se alarmaram, como se algum inimigo houvesse surgido de repente.

“Oh ho, calma garotão”

Deckard precisou dizer para ele se acalmar mentalmente.

— Venha até aqui, vou precisar da sua ajuda.

— Bem, enquanto ele não vem, vou te passar algumas instruções. Nós vamos e não vamos treinar na caverna. Vai ser apenas uma parte do seu treinamento.

— Agora me senti meio confuso.

— Bem, essa não é uma caverna normal, é uma dungeon.

— Vocês tem até dungeons neste mundo, ha ha — ele não pôde esconder o ar surpreso.

Esse mundo estava se tornando cada vez mais parecido com os jogos de RPG e com os filmes que Deckard costumava assistir na Terra.

— Então, havia dungeons no seu mundo, isso facilita nossa vida.

— Ah, não. Não havia — agora foi a vez dela ficar confusa. — Elas são meio que mitos em nosso mundo, que os jovens costumam gostar bastante. Temos até livros de fantasia que falam sobre elas.

— Já que são mitos, vou retomar. Dungeons tem algumas classificações atribuídas pela guilda de caçadores, que vão do E até o S. Essa aqui é uma de rank E bem fraca, então não representa um risco. Quando limpamos a dungeon, nós obtemos materiais que são tirados dos monstros e, em alguns casos, pegamos o sangue deles para fazer poções também. Quando matamos todos os monstros em uma dungeon, ela entra em um período de recarga, que varia de rank para rank. Nesse peŕiodo, se torna um lugar comum, sem nada de especial. Quando não limpamos as dungeons, elas se rompem e os monstros passam a viver como bestas na natureza e passam a viver e procriar como animais normais. Como é o caso do Argenti e do seu tigre.

— Fang. Coloquei o nome dele de Fang — disse Deckard, lembrando que não havia compartilhado essa informação com ela.

— Ah, certo. Bem, nessa dungeon não tem monstros muito fortes, mas eles costumam atacar em bandos. Como se tratam de lobos, não tem muita inteligência, se guiam mais por instinto. Por isso, não vou chamar o Argenti, isso faria eles recuarem.

— Levar o Fang não vai afugentar eles? Você mesmo disse que ele é um predador feroz.

— Se fossem lobos normais, talvez. Animais de dungeons costumam ser extremamente territorialistas e só recuam frente à líderes de suas próprias raças. Levar o Fang com você vai fazer com que eles tentem expulsá-lo. Mas, vai ser bem importante, afinal o Chefe da dungeon é um líder de alcateia como o Argenti.

Deckard não pôde esconder o seu susto. Ainda tinha calafrios de lembrar como Argenti poderia ter arrancado sua cabeça como se não fosse nada no dia em que o encontrou pela primeira vez. Isso ainda lhe causava calafrios.

— Bem, não exatamente — Diane lhe disse, ao ver o medo tomando conta dele. — Apesar de ser um líder, ele não tem a força do Argenti, que é treinado há anos e tem um contrato comigo.

— Que bom! Eu não gostaria nenhum pouco de descobrir como seria quando um lobo como o Argenti te vê como inimigo.

— E você também não está sozinho — relembrou Diane, enquanto apontava para Fang, que já havia se juntado a eles.

Ele podia perceber os sentidos do Fang fazendo hora extra, por causa do seu medo.

— Desculpe garotão, vamos lá — Deckard se virou para Fang, enquanto colocava a mão sobre suas costas, na tentativa de lhe passar alguma tranquilidade.

— Uma última coisa, pegue a pele, os caninos e as garras do líder e deixe o Fang se alimentar dos lobos mortos, vai ajudar no crescimento dele. E passe essa lama no corpo, vai ajudar a evitar o faro aguçado deles por um tempo — Diane lhe deu os últimos conselhos antes dele entrar na dungeon.

Ele se sentiu meio triste, pois era a primeira vez que ele usava a armadura leve que ganhou e já iria precisar limpar o barro dela depois.

Mas, sem perder tempo, ele passou a lama no corpo como uma pintura de guerra. Até tentou passar um pouco no Fang, mas desistiu depois de ficar tentando alcançar ele.

— Acho que estou pronto. Lança? Ok. Adaga? Ok. Colete? Ok. E calça com proteção? Ok. — Deckard fez uma última revisão mental dos preparativos e uma checagem dos seus atributos.

Nome: Deckard Crowford
Idade: 20
Nível: 3
Status (Saúde): Saudável
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Título: “Caçador fora do comum” (+1)
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Profissão: Não atribuído
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Atributos:
Força: 28 (+2) (+8)
Destreza: 30 (+9)
Inteligência: 27
Carisma: 27
Magia: 27
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PONTOS NÃO DISTRIBUÍDOS: 1

— Agora que percebi o quanto essa armadura leve vai me ajudar — Deckard estava reparando nos bônus em seus atributos.

Com todos os preparativos prontos, ele já podia entrar na dungeon. Como era sua primeira vez, só restava rezar para ser o suficiente e torcer para ser o deus certo.

— Vamos, Fang. Está na hora de caçar.

– VOCÊ ENTROU EM UMA DUNGEON RANK: E –
– NOVA CONQUISTA: DESBRAVADOR –

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Olá, eu sou o Ricky Saintz!

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