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“Parece faltar menos de uma semana, finalmente chegou a hora de partir”, pensou Ana, verificando as linhas da projeção que o pequeno equipamento apresentava. O presente de Júlia era mais útil do que o inicialmente esperado, dando uma posição precisa de onde a baleia se encontrava no globo.

Ana se dirigia para o escritório de Pedro enquanto refletia sobre seu tempo na grande baleia. O período havia passado em um piscar de olhos, mas o desenvolvimento de todos os membros foi notável. 

O treino contínuo de Alex no templo o fez começar a transmitir uma aura estranhamente serena, mas seus músculos se destacavam por baixo das vestes, mostrando que seu esforço não foi atoa. 

Júlia manteve seu aspecto bobo, mas seus olhos perspicazes e seu corpo definido demonstravam com clareza o foco que teve nos treinos de Ana. 

Felipe, por outro lado, tornava-se cada vez mais aficcionado pela engenharia mágica. Faixas de balas de diferentes cores pendiam em sua cintura, protótipos de uma nova forma de se lutar que evoluía mais a cada dia. Sua prótese, antes simples e elegante, contava com uma gama de implantes que iam desde estranhos ganchos até borrifadores dos mais diversos agentes nocivos para serem utilizados em combate.

Por último, Ana caminhava pelas ruas de forma relaxada, mas cada passo parecia acompanhar o peso do mundo. Seu semblante demonstrava uma ferocidade retida que foi obtida durante os combates, uma medalha que exibia com orgulho a experiência que ganhou em seus dias no coliseu.

Saindo de seus devaneios, ela adentrou no “Último Reduto”. Seu nariz coçou um pouco com o forte cheiro de vodka que se misturava ao natural odor da madeira envelhecida, fazendo-a se distrair alguns instantes com a atmosfera sombria, mas ao mesmo tempo acolhedora do local.

— Olha só quem chegou — começou Pedro, vendo a garota entrar em seu escritório. — Recebi sua mensagem, Ana… realmente já está pensando em ir embora? 

— Acabei de finalizar o treinamento do último grupo de soldados que chegou para mim e sobrevoaremos minha cidade em poucos dias, não há momento melhor.

— E não pretende reconsiderar meu pedido? 

— Meu lugar não é aqui, não agora — respondeu a mercenária com as sobrancelhas franzidas. Sua voz deixava claro que o assunto não deveria mais entrar em discussão. — Apesar das perguntas, vejo que já sabia que eu não ia aceitar… isso indica que já temos um novo objetivo?

Ana falou enquanto seus olhos percorriam o mapa que estava aberto sobre a mesa. Olhando com atenção, notou que um alfinete prateado apontava um local no caminho que ela obrigatoriamente teria que fazer para chegar em casa.

— Você está certa, finalmente temos uma nova missão especial. Há uma seita emergente de seguidores das sombras que deve ser investigada.

— Seguidores das sombras? Não sabia que elas mantinham relacionamentos com humanos…

— Bem, tem louco pra tudo nesse mundo, eles parecem ver as sombras como seres superiores — disse o homem, fazendo um gesto exagerado com as mãos — Não sabemos exatamente quais as intenções dessas pessoas, mas queremos investigar e neutralizar a ameaça antes que se torne um problema maior.

— Entendido. Desde que seja apenas uma igreja, meu grupo deve conseguir fazer algo. Devemos matar todos? 

— Sim, o máximo que conseguirem, esse tipo de gente deve ser cortado pela raiz. No entanto, o foco deve ser eliminar Maurice, o bispo da igreja. Ele se aproveita do baixo controle das cidades para fazer discursos abertamente, ganhando força e influência rapidamente. 

— Mais alguma coisa que devemos saber? — Ana já se preparava para sair, sabendo que as motivações específicas das missões obrigatórias nunca eram ditas.

— Por enquanto, nada além disso. Apenas recomendo que foquem na missão, existem outras atividades suspeitas pela área, mas isso está além de suas capacidades atuais.

— Certo, iniciarei os preparativos. Agradeço por toda a ajuda durante nossa estadia, Pedro.

Com uma despedida rápida, os dois agentes do submundo se despediram. Pedro se recostou na cadeira ao ver Ana sair pela porta, e com um longo suspiro, voltou para suas tarefas rotineiras.


Ana deixou a taverna e caminhou até a muralha principal de Leviathan, onde seus companheiros a esperavam. 

Em algum momento virou um costume tomar as principais decisões do grupo à luz dos lampiões em cima dos altos muros. O vento frio clareava a mente, e a visão do horizonte dava um ar fantasioso à conversa.

— Temos uma nova missão — anunciou Ana, sentando-se em um dos beirais. — Vamos ter que eliminar uma igreja de seguidores das sombras. Fica no caminho de Barueri, então isso já é um retorno para as origens.

— Parece interessante — comentou Felipe, ajustando a prótese em seu braço. — Pelo menos teremos algo para testarmos nossas habilidades.

Alex e Júlia concordaram, mas um toque de tristeza estava no olhar do casal ao sentir que os dias calmos estavam acabando. 

Brayner, o bibliotecário, apareceu nesse encontro após muita insistência dos membros da Ironia Divina. Ele tinha uma expressão diferente dos demais, hesitante, como se algo o incomodasse. 

— Brayner, tudo bem? — perguntou Ana, notando a estranheza do leitor.

— Eu… não vou com vocês desta vez — disse ele, com voz firme, mas com um tom de tristeza. — Leviathan se tornou meu lar. Há muito conhecimento aqui que ainda não explorei.

A declaração pegou todos de surpresa, ele era um membro externo, mas a maioria já o considerava um companheiro.

“E novamente estamos sem magia…”, refletiu Ana, mas tentou não deixar transparecer seu descontentamento.

— Entendo. Mas saiba que sua companhia seria muito bem vinda — respondeu Ana, forçando o sorriso.

— Vou manter isso em mente. Espero que algum dia voltemos a nos encontrar, sabem onde me achar.

Com a decisão clara, os jovens se perderam em conversas despretensiosas e histórias de aventuras passadas. 

A semana seguinte à notícia foi corrida para todos. Os membros juntaram suas coisas, compraram mantimentos e se despediram dos novos conhecidos, mestres e amigos que surgiram em Leviathan.

Com a promessa de retornar algum dia, eles foram para uma plataforma em uma das bordas da baleia. Tratava-se de um grande aeroporto, o qual encontrava-se deserto no momento, mas seus enormes galpões deixavam claro que aeronaves impressionantes haviam passado pelo local.

— Vamos fazer isso rápido e eficientemente. Lembrem-se, nossa prioridade é neutralizar o bispo da seita — disse Ana, sua voz firme e autoritária. — Tentem cair próximos a mim, não vai sair nada de bom se ficarmos isolados na floresta.

Com todos prontos, o grupo se dirigiu à plataforma de salto. De repente, de canto de olho, Júlia notou a Colecionadora também vestindo um paraquedas.

— O que a Natalya está fazendo aqui? Ela também está nessa missão? — perguntou a garota ruiva aos outros integrantes, mas seu sussurro foi ouvido de longe. 

— Parece que tenho um trabalho bem próximo a vocês. Pode chamar de destino — respondeu a mulher intimidadora, a qual se aproximou com um meio sorriso confiante.

Ao invés de uma resposta, Ana deu apenas um breve aceno de cumprimento para Natalya, mergulhando em seguida entre as gigantes nuvens. O grupo, surpreso pelo salto repentino, seguiu logo atrás.

O vento frio cortava seu rosto enquanto descia. O som do ar rasgando ao seu redor era ensurdecedor, mas também libertador. À medida que passava pelas nuvens, o mundo abaixo começava a se revelar em um caleidoscópio de cores e formas.

A primeira coisa que viu foi um vasto campo de girassóis que se estendia até onde a vista alcançava, seus cabeçotes dourados balançando suavemente ao vento. No centro desse mar floral, erguia-se uma imponente igreja. Suas torres altas e escuras contrastavam drasticamente com a vibrante paisagem ao redor. A arquitetura gótica antiga e sombria parecia deslocada naquele cenário idílico, mas ao mesmo tempo, trazia um atraente ar de mistério.

Ana ajustou seu paraquedas, controlando a descida para garantir um pouso suave. Seus olhos não deixavam a igreja por um segundo sequer. Ela sentia um misto de excitação e apreensão. 

Quando seus pés finalmente tocaram o chão, ela rapidamente desativou o equipamento e olhou ao redor, garantindo que todos conseguiram a acompanhar. O cheiro doce dos girassóis preenchia o ar, misturado com o aroma fresco e terroso do campo. A mercenária respirou fundo, tentando acalmar sua mente antes de se concentrar na missão.

Os outros membros do grupo pousaram próximos a ela, seguindo sua instrução de não se espalharem. Alex e Júlia logo se aproximaram, ajustando suas armas e equipamentos, enquanto Felipe verificava os dispositivos em sua prótese, sempre preparado para qualquer eventualidade.

Natalya aterrissou suavemente ao lado deles, removendo o capacete de paraquedista com um movimento elegante. 

— Aqui nos separamos — comentou ela, olhando para a estrutura imponente à distância. — Se tivermos sorte, nos encontraremos novamente.

— Espero que consiga completar o que quer que tenha vindo fazer aqui — respondeu Ana. Por algum motivo, uma sensação de desconforto se instalava em seu peito cada vez que olhava para a Colecionadora, como se algo sombrio estivesse observando-a por trás daqueles óculos redondos escuros.

— Vamos nos mover. Fiquem alertas e sigam meus comandos — ao ver Natalya seguindo seu caminho, a rainha de prata falou com uma voz firme. — Não sabemos o que vamos encontrar lá dentro.

O grupo começou a caminhar em direção à igreja, com os olhos atentos a qualquer sinal de perigo. Cada passo do grupo era acompanhado pelo suave farfalhar dos girassóis, uma trilha sonora quase hipnótica. A beleza e a tranquilidade do cenário quase escondiam a tensão crescente no ar. O sol alto no céu criava um jogo de luzes ao bater nas flores, o que fazia com que se sentissem observada de todos os lados.

Enquanto avançavam, uma melodia doce e suave começou a surgir, flutuando pelo ar.

— Vocês ouviram isso? — perguntou Alex, franzindo a testa.

— Sim, sou eu, bobo. Como não reconhece minha voz? — disse uma jovem loira que caminhava ao lado do grupo.

— Marina! — exclamou Júlia, com os olhos arregalados. — Não acredito que você está aqui!

— É tão bom ver vocês de novo! Ficaram com saudades? — disse Marina, sua voz doce e tímida enchendo o ar.

— E tem como não ficar? — disse Alex, sorrindo. — Esse lugar estava muito quieto sem você.

Enquanto conversavam, nenhum deles parecia perceber a impossibilidade da situação. Era como se a lógica tivesse sido suspensa, e a presença de Marina fosse um conforto em meio ao campo florido.

— Mas e aí, o que fez no último ano? Tem estado ocupada? — perguntou Alex, seguindo com a conversa.

— Sim, bastante. Estive aprendendo novas magias e explorando lugares incríveis.

— É bom ter você de volta — Ana, que até o momento não havia dito nada, se aproximou, abraçando a pequena garota. Ela sentia algo estranho na voz de Marina, um leve eco que não deveria estar ali, mas balançou a cabeça tentando afastar a sensação de estranheza.

De repente, a rainha mercenária sentiu um aroma diferente, doce e enjoativo, com um toque de putrefação. Era um cheiro familiar, mas deslocado naquele campo amarelo. Ela fechou os olhos por um momento, tentando identificar a fonte do cheiro. Quando abriu os olhos novamente, uma grande boca, com dentes rosados e serrilhados, estava prestes a devorá-la. Reagindo instintivamente, a garota puxou sua espada e deu um preciso corte vertical para cima.

— Acordem! É uma ilusão! — gritou ela, sua voz cortando o ar.

Os outros membros do grupo despertaram com um pulo, vendo a verdadeira forma do ser à sua frente. A criatura parecia um tipo de verme, com um corpo esguio feito inteiramente de sombras e flores entrelaçadas. Sua mandíbula continha fileiras e mais fileiras de pétalas rosadas, a princípio bonitas, mas tão mortais quanto navalhas.

— Sussurradores de Pétalas! — gritou Júlia, vendo a arma de Ana transpassar a criatura em um corte limpo, mas sem causar dano algum. — Armas comuns não vão funcionar, temos que fugir! 

Enquanto falava, bateu com seu novo martelo diretamente no monstro. Era uma arma grande e pesada, muito semelhante ao seu martelo antigo, mas feita com materiais de um monstro tartaruga. A cabeça do martelo, feita com o casco verde musgo do desafortunado ser, continha padrões delicados que davam um certo charme ao usuário, mas seu formato arredondado tornava os ataques um pouco cômicos.

Inicialmente a caçadora insistiu que Ana refizesse sua Nodachi, mas os suprimentos estavam cada vez mais escassos em Leviathan, impossibilitando que os materiais necessários fossem obtidos. No fim, entre uma arma sem propriedades feita de aço comum e uma feita com materiais de um monstro rank C, a garota escolheu a última. Brayner havia feito algumas runas semelhantes a manopla de Alex, mas sem os condutores de mana adequados, a eficácia era baixa, apenas permitindo um controle sutil do peso durante o combate.

Com o poderoso golpe, o sussurrador explodiu em todas as direções, formando uma bela cena que lembrava a primavera. Infelizmente, seguindo a explicação da caçadora ruiva, ele logo voltou a tomar forma em um amontoado de pétalas.

— Saiam da frente, vou tentar algo — colocando um cartucho escarlate de aproximadamente dez centímetros diretamente na palma de sua prótese, Felipe se aproximou com passos rápidos.

Os demais integrantes se espalharam enquanto ele estendia seu braço em direção a criatura semi-formada.

“Espero que dê certo”, pensou o jovem, enquanto uma luz azulada percorria seu braço, juntando-se na ponta de seus dedos.

Com um alto estrondo de disparo, uma explosão contida surgiu na mão de Felipe. As chamas incontroláveis lançaram o jovem para trás com uma força avassaladora, mas as pétalas sombrias também queimaram em um vermelho vivo, acompanhadas de um grito gutural.

— Você foi incrível! — disse Alex, ajudando o irmão a se levantar após ver o monstro desaparecer aos poucos. Felizmente, além de um olho anormalmente vermelho e queimaduras superficiais por todo o corpo, não parecia que o garoto tinha se machucado seriamente.

— Parece que a Colecionadora realmente te ensinou algumas coisas — disse Ana, com um tom que misturava zombaria com surpresa — Mas… quantos desse você tem?

— Balas explosivas? Apenas essa, mas por quê? 

A mercenária apenas deu alguns toques no ouvido direito como resposta, indicando que ele deveria focar em ouvir. O som era distante, mas também próximo. Lembrava uma forte ventania, mas se misturava a um som metálico sutil, como de espadas se chocando.

— Vamos nos mover, precisamos alcançar a igreja antes que mais deles apareçam!

O grupo correu com toda energia, um avanço rápido em direção ao objetivo inicial de estarem ali. Os inimigos surgiam ao longe, como moscas atraídas por uma luminária, um mar de pétalas tão afiadas quanto lâminas que se aproximava de todos os lados, prestes a cobri-los. 

Finalmente, após correrem por minutos em uma ameaça crescente, chegaram à entrada da igreja. A sensação de opressão aumentou, mas suspiraram aliviados ao sair do perigo iminente. A estrutura parecia ainda mais intimidante de perto, suas sombras profundas parecendo sussurrar segredos perigosos.

Com um forte empurrão conjunto, as pesadas portas de carvalho escuro rapidamente se abriram, produzindo um incômodo rangido e, com a mesma pressa, foram firmemente fechadas. O intenso som das batidas dos sussurradores era ouvido do lado de fora.

— Bem, um ótimo começo para nossa missão, né? — perguntou Ana, com um sorriso irônico preenchendo seus lábios.

Os membros reviraram os olhos para a brincadeira, se sentando em um canto do quarto escuro enquanto tentavam regular a respiração ofegante.

— Que diabos é isso? Que lugar sinistro — falou Júlia, seus olhos arregalados enquanto olhava para uma estátua de um anjo negro no centro do salão de entrada. A figura era extremamente realista, e seus olhos vazios pareciam seguir cada movimento que faziam.

— Na verdade… parece bem reconfortante — murmurou Ana, mais para si mesma do que para a caçadora ruiva ao sentir uma estranha sensação de familiaridade com a estátua.

Os outros a encararam por alguns segundos ao ouvirem seus resmungos baixinhos, levando em seguida os olhares de volta para o anjo, tentando entender minimamente a visão de sua líder. No entanto, um calafrio atingia suas nucas a cada vislumbre, fazendo-os desistir de buscar respostas nas ações da garota.


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