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Os raios dourados de sol batiam fortemente nos soldados em corrida, brilhando sobre suas armaduras e destacando o suor que escorria enquanto se esforçavam para manter os padrões exigidos por Ana. Cada passo reverberava com determinação e disciplina recém-adquiridas.

Laura, agora promovida a sargento, liderava a corrida com vigor, sua postura ereta e comandos claros incentivando os soldados a darem o máximo de si. As novas insígnias em sua armadura reluziam, um símbolo de seu recente reconhecimento e promoção.

— Vamos, mantenham o ritmo! — gritou ela, sua voz ressoando com autoridade e energia, enquanto os soldados seguiam com determinação.

Muitos desistentes haviam voltado a se inscrever no exército, inspirados pelo desempenho heróico dos que resistiram ao treino pesado, e o campo vibrava com uma energia renovada.

Vários civis assistiam aos treinos das beiradas, os olhos brilhando com fascínio e esperança. As crianças apontavam para os soldados, imitando seus movimentos com sorrisos amplos, enquanto os mais velhos aplaudiam e incentivavam com palavras de encorajamento. O som dos aplausos misturava-se com o clangor das espadas e o ritmo das botas marchando, criando uma sinfonia inebriante.

Dentro de uma sala próxima, Ana se encontrava em uma reunião estratégica com Pedro. A mesa estava coberta por mapas e relatórios, e, diferente do dia anterior, a atmosfera era de seriedade e concentração.

— Os atacantes sempre subestimam Leviathan por não ter muralhas visíveis — começou Pedro, apontando para um mapa detalhado da cidade. — Eles esquecem que todos que sobem aqui enfrentam desafios que apenas aventureiros que se equiparam a caçadores de rank D ou superiores conseguem suportar.

— Apenas ranks D? — respondeu Ana, um sorriso irônico preenchia seus lábios enquanto seus olhos seguiam as linhas do mapa apontadas pelo líder mercenário. A luz do sol que entrava pela janela refletia em seu cabelo, criando um halo dourado ao seu redor.

— Casos como o seu, onde caçadores de rank E suportam a pressão das cordas, são raros. Você deve ficar feliz, tem uma boa equipe.

— Vamos cortar o papo furado. Pra que me chamou aqui no meio do dia? Não podia esperar o treino terminar?

Pedro acenou suavemente em negação, e com uma expressão grave, se dirigiu à janela. Suas mãos estavam agitadas, mas sua postura se mantinha imponente, refletindo a seriedade do assunto.

— Primeiro, vamos aos assuntos mais simples… a ajuda do Ironia Divina no ataque dos piratas irá ser considerada como sua missão obrigatória de patrona de prata, vou registrar isso em seu histórico. Honestamente, eu não tinha mais missões desse nível de exigência disponíveis para você no momento, então pense nisso como um acréscimo bem-vindo na longa rota para a próxima coroa.

— Entendo – respondeu Ana, pensativa, seus dedos tamborilando levemente na mesa. — Mas e se você… omitir que ajudei nisso?

Ouvindo o estranho pedido, o olhar do homem se fixou no rosto da garota por um tempo. Apertando as têmporas ao finalmente entender as intenções dela, ele continuou.

— Quando chegar a hora você vai ganhar a nova coroa de qualquer forma, não vou arriscar represálias apenas para adiar o inevitável… 

Ana suspirou e se encostou na cadeira, aceitando a resposta com um aceno cansado, indicando para Pedro prosseguir.

— Bom, agora vamos falar sobre o motivo de você estar aqui. Apesar do povo de Leviathan adorar os festivais, estamos cada vez mais conscientes de que é algo insustentável. Em Aurórea não tínhamos esse problema, o fluxo de pessoas era constante, mas no novo mundo o número de mortos nas invasões está sendo maior do que o de novos moradores que embarcam em nossas voltas ao redor do mundo — suas palavras eram pesadas, transmitindo um ar triste e nostálgico. — O que construímos nessa cidade é precioso, algo que provavelmente nunca mais será visto na humanidade. Não podemos deixar tudo ruir assim, mas sem meios de contactar outras cidades de forma fácil, estamos isolados, alvos atrativos para todo tipo de poder oculto.

— Bom, essa é uma explicação melhor para eu ter que treinar soldados em um lugar onde mal vejo uma briga de bar, mas creio que não posso ajudar nisso — Ana cruzou os braços, ponderando sobre as palavras de Pedro.

— Na verdade, você pode. Eu quero estender nosso acordo, gostaria que você fizesse da cidade uma base semi-permanente de operações. Markus está severamente ferido, precisamos de alguém com liderança adequada para ocupar seu cargo de capitão.

— Você mesmo não é capaz disso? Suponho que sua coroa seja muito mais “nobre” que a minha.

— Não é bem assim que funciona… Reis nascem pelos mais variados motivos, e sobem na hierarquia da mesma forma. Tenho meus próprios méritos, mas infelizmente não estão relacionados a minha marcialidade — Pedro respondeu com um sorriso triste, seus olhos refletindo a complexidade de sua posição e contrastando com o olhar desafiador da rainha a sua frente.

Ana ficou em silêncio por um momento, considerando o pedido. Ela pensou em suas responsabilidades e na pressão que viria com o cargo.

— Eu aprecio a oferta, mas ao menos por hora, devo recusar — murmurou Ana. — É um lugar incrível, mas antes de me estabelecer eu quero explorar esse mundo com meus próprios pés.

— Peço que pense melhor nisso… 

— Minha liberdade não está aberta a negociações.

Pedro ainda encarava o horizonte através da janela, e notando a falta de resposta às suas últimas palavras, Ana se retirou da sala. Na saída, a garota parou por um momento, observando os soldados em treinamento e os civis que ainda os aplaudiam. Ela não desgostava dessa vida e estava orgulhosa do avanço dos soldados, mesmo ainda sendo insuficientes de seu ponto de vista, mas não era hora de criar raízes, seus olhos ainda precisavam registrar tudo da nova realidade em que vivia.

— Julia, você está liberada por hoje — disse Ana, parando a garota ruiva que passava correndo ao seu lado. – Reúna os outros, precisamos conversar.


O bar estava animado, com as luzes cintilantes refletindo nos copos e a música suave preenchendo o ambiente. As mesas estavam cheias de aventureiros e cidadãos, todos conversando animadamente sobre os eventos recentes. Alex e Júlia sentaram lado a lado, um sorriso leve nos lábios de ambos, enquanto observavam o movimento ao redor.

— E aí, o que acharam? Não é legal?— perguntou Júlia, olhando para Ana com um brilho nos olhos. Ela estava mais relaxada, a tensão dos dias anteriores parecia ter diminuído um pouco.

— É realmente agradável, mas… o que significa isso? — disse Ana, um leve sorriso curvando seus lábios.

— Bom, faz um tempo que começamos a nos reunir aqui todos os dias depois dos treinos… no fim, deu no que deu — comentou Alex, balançando a cabeça com um sorriso divertido. Ele olhou ao redor, notando a alegria e a energia contagiante dos frequentadores do bar enquanto seus dedos se entrelaçaram mais fortemente com os dedos da garota ruiva.

Ana e Felipe se encararam, ambos notando a surpresa no olhar um do outro ao descobrirem sobre os amantes. O rubor no rosto dos jovens estava deixando o clima levemente constrangedor, então Felipe, com uma tosse fingida e um aceno de parabenização para seu irmão, mudou o assunto.

— Alguém viu o Brayner? Ele não apareceu na reunião e nem foi ao festival, é um pouco estranho.

— Ele está na biblioteca — respondeu Ana, se acomodando na cadeira. — Disse que tinha algo importante para ler, a mesma resposta de sempre desde que entrou na biblioteca — a mercenária deu de ombros, mas seu olhar demonstrava curiosidade sobre o que poderia ser tão importante.

— Não é como se pudéssemos obrigá-lo, ele não entrou oficialmente pro time — resmungou Júlia, com uma expressão de descontentamento pela atitude do companheiro — Com ou sem ele, acho que temos muito o que comemorar. Um brinde a nós, por estarmos no pico do rank E após tantas lutas!

— Um brinde por sobrevivermos a ontem! — propôs Alex, erguendo seu copo. Sua voz estava cheia de orgulho e satisfação.

— Um brinde pelo novo casal! — falou Felipe, acompanhando o gesto dos demais.

“Fofos, mas cansativos”, Ana também levantou sua bebida, com um sorriso ainda mantido em seu rosto, mas seus pensamentos vagando longe dali. A animação do grupo a cansava aos poucos ao longo dos últimos meses, mas ela sabia que a estabilidade gerada por esses momentos era algo crucial para evitar traições ou desavenças que poderiam a deixar em perigo durante as missões.

O barulho dos copos se chocando ecoou pelo ambiente, misturando-se harmoniosamente ao som da música e das conversas ao redor.

— Então, o que vocês planejam fazer agora? — perguntou Ana, seu olhar percorrendo cada um dos membros do grupo. Ela estava curiosa sobre os pensamentos de seus companheiros e suas possíveis aspirações.

— As adagas rúnicas que pegamos dos piratas vão ser uma grande dica para meu estudo sobre a prótese — explicou Felipe, inclinando-se para frente com um rosto iluminado pela empolgação. — Não parece fácil, mas pretendo tentar diferentes formas de imbuir magia nas balas.

— Isso parece fascinante, e os dois pombinhos? 

— Vamos seguir com os treinos, talvez tentar aproveitar alguns passeios a mais pela cidade, mas nada demais… — respondeu Alex, falando também em nome de Júlia enquanto ficava novamente vermelho pelas palavras de sua líder.

Ana observou o grupo por um momento, sua mente vagando pela conversa que teve com Pedro mais cedo enquanto ponderava sobre suas próximas palavras.

— Vocês gostariam de ficar na cidade? 

O grupo ficou em silêncio por um momento, trocando olhares. Havia uma mistura de relutância e curiosidade em suas expressões, refletindo a complexidade da decisão que estavam prestes a tomar.

— Vamos te seguir, Ana, seja lá o que escolher. Sem você teríamos entrado em algum emprego de escritório em Barueri, te devemos muito por nos dar a possibilidade de uma vida tão emocionante — respondeu Júlia, com uma determinação tranquila na voz. Seus olhos encontraram os de Ana, transmitindo confiança e lealdade.

— Estamos juntos nisso. Leviathan é incrível, mas nosso caminho está com você — Alex assentiu, sua expressão séria enquanto seu irmão concordava com suas palavras. 

“Parecem animais adestrados”, pensou Ana, encarando de volta os olhares de fascínio. 

De repente, antes que a garota pudesse responder, a porta do bar se abriu com um estrondo, e um mercenário entrou. Ele era alto e musculoso, com uma expressão determinada e confiante ao apoiar as mãos em dois grandes machados que pendiam em seu cinto.

— Você é Ana, a instrutora do exército, não é? — perguntou o mercenário, com um sorriso desafiador. — Vi sua luta contra aquele pirata, quero testar minhas habilidades contra você.

Ana se levantou lentamente, avaliando o intruso. Sua postura era relaxada, mas seus olhos brilhavam com energia.

— Faz tempo que os loucos não apareciam… você não tem mais o que fazer?

— Não sou louco… formalmente te desafio a uma troca de pontos de vista no coliseu. Encarecidamente peço que aceite! — disse o homem, apontando para um cartaz no canto do bar.

Uma construção circular com uma grande arquibancada era apresentada. Seus rústicos detalhes lembravam Roma, mas havia um toque de modernidade nos hologramas de anúncios que giravam ao seu redor, causando certa estranheza ao observador. 

Ana se lembrou da pequena arena do Madame Eclipse, onde se perdeu no doce ecstasy da brutalidade durante a disputa. 

— Certo, vamos ao coliseu — Um sorriso malicioso preencheu seus olhos enquanto as palavras saiam inconscientemente de seus lábios. 


A luta foi breve, mas intensa. O mercenário era habilidoso, mas Ana usou sua técnica superior para desarmá-lo rapidamente. Eles trocaram golpes com fluidez, cada um testando o que o outro era capaz. Em um movimento final, Ana desferiu um golpe que fez o mercenário cair de joelhos, admitindo a derrota.

— Obrigado pela luta — disse ele, levantando-se com dificuldade, mas com um sorriso no rosto. — Foi uma honra enfrentar você.

— Até que não foi tão ruim — respondeu a garota, limpando o suor da testa e sentindo a adrenalina ainda pulsar em suas veias. 

A primeira luta no coliseu acendeu algo dentro dela, uma paixão que não sentia há tempos. A adrenalina, a excitação e o desafio tornaram-se um vício

Após conhecer o local vibrante e brutal, Ana começou a se dirigir à arena após cada sessão de treino dos soldados. Sua presença tornou-se tão comum que até os guardas e organizadores a saudavam com familiaridade. 

— A Eterna está aqui! — o anúncio ecoava pelos corredores, atraindo tanto veteranos quanto novatos dispostos a desafiar a rainha de prata que visitava Leviathan.

Cada dia trazia um novo adversário. Algumas lutas a viam vitoriosa, derrotando seus oponentes com precisão e força. Outras, porém, a levavam ao extremo, recebendo golpes brutais que a deixavam, por vezes, com alguns ossos trincados. A regra clara do coliseu proibia mortes, mas isso não diminuía a intensidade dos combates.

As batalhas tornaram-se um ritual que Ana passou a ansiar. O som das armas colidindo, os gritos da multidão, a sensação da luta. A brutalidade do coliseu trazia um sentimento de realização que a vida cotidiana não oferecia. A arena transformou-se em seu campo de treinamento pessoal, onde a teoria se encontrava com a prática em um balé brutal de sobrevivência.

Ana acordava todos os dias com o corpo marcado por hematomas e cortes profundos. Ela se perguntava se a violência era o caminho certo. A resposta, sempre clara em sua mente, era um retumbante sim. O combate a fazia sentir-se viva e conectada a algo maior, uma dança entre dor e triunfo que ela abraçava com fervor.

As lutas na arena eram uma válvula de escape, uma forma de canalizar sua energia e testar seus limites. Ela se divertia, mesmo nas derrotas, pois cada golpe recebido e cada queda ao chão eram lembranças de que ela estava viva.

Apesar dos ferimentos constantes, Ana nunca faltou aos seus deveres. Os soldados olhavam sua pele arroxeada e os arranhões visíveis com preocupação, mas também com uma admiração crescente. 

Com o tempo, a cidade começou a falar sobre ela não apenas como uma mercenária ou instrutora, mas sim como um tipo de lenda viva. As crianças simulavam seus combates, os adultos contavam história de sua destreza pelos cantos. Ela não era a mais forte, mas até os mais céticos reconheciam as habilidades da mulher conhecida como “A Eterna”.

Com o tempo, a rotina de Ana se estabilizou. Os dias eram divididos entre o treinamento dos soldados, as reuniões estratégicas com Pedro e as batalhas na arena. Algumas noites, na taverna de sempre, ela se encontrava com seus companheiros, compartilhando risadas e bobeiras do dia a dia.

E assim, um ano se passou em Leviathan, com todos aproveitaram os pequenos prazeres de uma vida estranha, mas pacífica.


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