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Meu controle sobre a escuridão era superficial e básico, afinal escutei de Roger e Vivian que esse tipo de magia era um dos tipos mais versáteis.

Seus usos na consciência humana eram inúmeros. Desde forçar sonos profundos até escravizar mentes. Claro, não se era conhecido muitos magos que eram capazes disso, pois a escuridão era muito difícil de se especializar.

Roger mencionou um amigo antigo que era especializado em escuridão, e o mesmo estudava para evoluir o uso da magia de escuridão para além de ataques mentais. 

Não descobri mais, já que Roger me disse que nem ele entendia as teorias por trás.

Desci com cuidado a escada para a cozinha. Usei de meu peso leve e infantil para não causar nenhum barulho com meus passos, me certificando que o alquimista não acordasse.

Cheguei até o alçapão em que o dono da loja desceu e observei o ambiente. Um corredor vertical de pedras lisas se mostrou por alguns metros, e uma luz iluminou o que estava lá no fundo.

Ali seria o momento mais arriscado. Pensei em esperar até que o dono voltasse para descer depois, mas percebi um tipo de tranca no alçapão. 

Poderia tentar roubar as chaves depois, mas não sabia se teria alguma oportunidade. Tinha chance dos dois discutirem até o amanhecer.

Suspirei e parei de hesitar. Desci a escada rapidamente e me encontrei em uma sala iluminada por poucas tochas em paredes de pedra.

Uma parede de barras metálicas separava a sala em que eu estava de outra, mas essa possuía várias jaulas. Um portão metálico que agora estava aberto era a única garantia de liberdade de quem quer que estivesse do outro lado.

Percebi o dono da loja no final da outra sala, virado de costas para mim. Ele parecia agachado, interagindo com uma das jaulas.

Engoli seco quando senti o cheiro de fezes e urina que dominava o ambiente. Mas não foi isso que mais chamou minha atenção, e sim a presença de quase vinte crianças desacordadas em diferentes jaulas.

Elas estavam em um estado deplorável, um estado em que ninguém da idade delas deveria estar.

‘Por que meu caminho sempre se cruza com sequestradores de crianças?’ Indaguei a mim mesmo. Meu primeiro problema com humanos foi a mansão nobre, onde me vi em uma situação parecida.

Pouco a pouco vi aquele mundo com os mesmos olhos que via o lugar infernal.

A única coisa que separava os humanos de demônios era a pele que cobria sua podridão interna. 

‘Talvez eu deva virar o mesmo monstro de antes e exterminar tudo nesse mundo.’ Esse foi um dos primeiros pensamentos sanguinários que surgiram em minha mente naquele momento.

Não era meu sadismo e nem meus instintos falando aquilo. Minha razão concordava com tais palavras.

Eu não era nenhum tipo de justiceiro ou herói e nunca seria. Meu egoísmo, sede de vingança e indiferença já eram partes permanentes de meu ser.

Mas a raiva que aquela cena me causou não tinha limites. Não era empatia pelas crianças, não era rancor dos sequestradores.

Era o mais puro e genuíno desprezo. 

‘Acho que faz sentido, afinal os deuses que criaram vocês são piores ainda.’ Pensei enquanto me escondia atrás de uma das jaulas.

Algumas delas eram cobertas com mantos sujos, aproveitei disso para ocultar minha presença.

Puxei a parte de baixo do manto para estudar o que tinha dentro da jaula, quando encontrei duas garotas nuas dormindo e com o corpo esquelético.

Elas pareciam ser um pouco mais velhas que eu, não sabia dizer há quanto tempo estavam ali.

‘Por que deixariam elas assim se vão vender para nobres?’ Indaguei enquanto abaixava o manto. Algo ali não batia.

Logicamente, as crianças deveriam estar em um estado decente para serem vendidas mais facilmente, mas não parecia ser o caso.

‘Qual seria o outro motivo para sequestrar tantas delas?’ Continuei a me indagar, nada ali fazia sentido. 

As jaulas posicionadas de maneira desorganizada me permitiram aproximar do dono da loja sem me preocupar em ser visto.

Ele parecia estar conversando com um garoto parecido comigo. Tinha os cabelos lisos e escuros, batendo no ombro, mas seus olhos eram verdes. 

“Vamos, coma logo.” O dono falou enquanto oferecia um pão seco, mas foi recusado. Tentou forçar a comida na boca do garoto, mas o mesmo continuou teimoso.

“Já falei, vou apodrecer aqui pro cheiro subir pra rua e vocês serem descobertos, seus merdas.” O garoto declarou em um tom zombeteiro, tentando cuspir no rosto do dono, mas falhando.

Parecia estar tão desidratado que não tinha saliva o suficiente para fazer isso.

Admirei sua determinação silenciosamente. 

“O mesmo papo de sempre, mas você acaba comendo uma hora ou outra. E se você morrer, a única coisa que vai fazer será obrigar seus amigos a conviverem com cheiro de cadáver pra sempre, é isso que quer?” O dono falou, imitando o tom zombeteiro do garoto. “Não acha que eles já sofreram o suficiente?”

Uma expressão conflituosa e hesitante surgiu no rosto do garoto. Ele enfim desistiu e comeu o pão seco que foi atirado no chão da jaula.

O dono então levantou e caminhou até uma jaula ao lado, onde uma garota de cabelos loiros estavam chorando.

Ela disparou em direção ao pão enquanto ele ainda estava no ar. O dono soltou algumas risadas com a cena.

Algo crescia em meu peito.

Uma voz distante gritava no cerne da minha alma. Uma voz que tentava me convencer em envolver o mundo na escuridão.

Ela clamava para eu destruir tudo, me mostrava imagens do mundo corroendo em uma escuridão eterna.

Logo dispersei esses pensamentos para me concentrar na situação, ainda não sabia o que fazer ali.

Eu precisava salvar elas, mas desconhecia como. Não queria receber os créditos por salvá-las, isso chamaria muita atenção.

A opção mais óbvia era fugir e denunciar para os guardas.

Entretanto, o problema principal era seu líder. Um mago poderia facilmente conseguir mais subordinados e continuar sequestrando crianças.

Eu precisava descobrir sua identidade antes de fazer qualquer coisa que pudesse me fazer perder seus rastros.

Um sorriso tentou surgir no canto de meus lábios, mas o suprimi. Eu iria torturá-los até conseguir as respostas que queria.

Meu sadismo não influenciou essa decisão. O desprezo que senti me garantiu a vontade de fazê-los sentir muito mais dor que os bandidos do outro dia.

Vários minutos passaram. Tomei cuidado para não ser visto pelas poucas crianças acordadas e pelo homem.

Rodeei a sala várias vezes, até que enfim todas as crianças foram alimentadas e o homem foi embora.

Esgueirei atrás dele e acompanhei seus movimentos em silêncio enquanto o mesmo se virava para trancar o portão.

Ele começou a subir a escada e silenciosamente o imitei. Precisava tomar cuidado naquele momento para não ser trancado lá embaixo.

Quando o homem se apoiou no chão da cozinha e subiu, rapidamente saltei em suas costas e preenchi seu crânio com escuridão.

Não tive tempo de me preparar, então a densidade de escuridão prismática não era grande, logo demorou alguns longos segundos para o homem desmaiar.

Ele tentou gritar, mas prendi sua garganta em meus braços. Ele não era atlético nem grande que nem os bandidos, então meu corpo fortificado facilmente suprimiu sua voz.

Senti o impacto quando ele se atirou contra a parede atrás, mas persisti. O dono enfim caiu no chão enquanto convulsionava. 

Suspirei enquanto prendia o corpo dele e do alquimista de costas um para o outro com magia de gelo e uma corda que encontrei por perto.

Era hora das súplicas e respostas.

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Olá, eu sou o Kalel K. Dessuy!

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