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Havia pouca luz. 

O sol começava a se render ao domínio do horizonte e a penumbra já cobria os céus. A floresta se modificava durante a noite, mas aquela alteração em nada poderia estar relacionada com a natureza estranha daquilo que Jiten enxergava.

A criatura que encontrara na floresta antes. Podia enxergar a escuridão se dissolvendo do corpo dela para o ar que o cercava. As espadas e os ramos retorcidos que extravasam de seu corpo dificultavam a percepção de que aquilo era vivo. Contudo, sua voz era indistinguível e seu sorriso estava ali, presente no que deveria ser uma cabeça.

Jiten se colocou em pé. Sacou sua arma, a lâmina assobiando delicadamente em sua saída da bainha. Podia notar que muitas das espadas que compunham aquela amálgama horrenda eram também como a dele. 

Concentrou sua respiração e sentiu o coração bater mais rápido. Posicionou o pé direito bem a frente, enquanto flexionou o joelho da perna esquerda, apoiando-a no chão até sentir o solo ceder sob si. Segurou o cabo da espada com ambas as mãos, mantendo-a apontada para baixo, os braços retraídos junto ao corpo. 

O Carneiro. As fagulhas alaranjadas giraram ao redor de seus ombros e concentrou mais força em direção às pernas, seus pés afundando mais no solo. Seus olhos fitaram aquela criatura com determinação. Não tinha como fugir, não haveria mais o rio para lhe proteger. Restava-lhe o combate direto. 

Sem escolhas, escolheu lutar. 

A aberração se moveu por entre os arbustos com imensa velocidade. Jiten permaneceu parado, imóvel, não houve tempo em seu coração para hesitar. Quando ela se aproximou, ele rebateu o golpe dela com um movimento ascendente. Foi possível ouvir o som de madeira se partindo e as fagulhas se espalharam. 

Saltou para trás e então defendeu mais um golpe. O monstro agitou os braços na frente dele com ataques que eram apenas bestiais. Não havia técnica, apenas força bruta e a necessidade de destruir. Jiten bloqueou um golpe que veio de sua lateral e redirecionou a força do golpe para baixo. Usando o impulso que o lançou para baixo, concentrou sua força das pernas para cima e em um movimento ascendente cortou a criatura. 

O som foi de madeira sendo espatifada, um grito agudo como metal arranhado e fragmentos de escuridão saltaram sobre ele, chovendo como uma tempestade de sombras logo em seguida. As fagulhas da postura o envolviam com cada vez mais potência e utilizando-se do ataque, ele mirou mais dois golpes, um descendente e outro com uma estocada firme. 

Perfurou a criatura profundamente, até mais da metade da lâmina estar imersa no corpo aberrante de seu adversário. Quando tentou puxar a arma, teve dificuldade. 

A espada estava presa. O corpo do monstro se entrelaçava ao redor da lâmina e sem a força do movimento inicial de uma postura, Jiten não conseguia aplicar força o suficiente para se libertar. Seus olhos encontraram o sorriso de dentes afiados e sombrios da criatura. Soube ter caído em uma armadilha. 

Teve que pensar rapidamente. Saltou e acertou o peito da criatura com os dois pés. Puxou a arma com toda sua força, usando o impulso dos pés como fonte de energia para o movimento. A arma se soltou cortando o que havia pelo caminho e com uma cambalhota no ar, Jiten aterrissou sobre as folhas de outono. 

A criatura tinha vários pedaços de si pendendo de seu corpo, mas não parecia afetada por alguma dor ou debilitação. Jiten não sabia o que precisava acertar ou quebrar ali para conseguir impedi-la de continuar se movendo. Ela simplesmente permanecia com seu sorriso cheio de dentes. 

Jiten sempre discordava com Renji sobre as ferramentas que tinha. Queria posturas mais brutais, que causassem destruição, mas Renji insistia que ele permanecesse no aprendizado de posturas mais defensivas. O Carneiro era exemplo disso. Era uma técnica incapaz de administrar força suficiente de maneira ofensiva, motivo pelo qual ele havia quase perdido sua arma. 

A noite já estava quase sobre ele e se tudo ficasse escuro, perderia. Não havia tempo para uma luta de contra-ataques e nem para debilitar o inimigo com impactos. Ele precisava de algo que despedaçasse por completo seu inimigo ou morreria ali mesmo. 

Mudou a postura, mais rápido do que seria o ideal. Os pés posicionados paralelos, a lâmina erguida até o alto e então, as fagulhas que o cercaram eram diferentes. Pontos de luz azulada e ciano rodopiaram sobre seu corpo. A energia não estava focada mais em suas pernas e ombros, mas no torso inteiro. Podia sentir como se alguma coisa repuxasse seu estômago, pressionasse as costelas e o coração batia tão rápido que seu fôlego quase fraquejava. 

Era o Urso. Avançou até o monstro e desceu sobre ele com sua lâmina. Foi a primeira vez que aquele ser se esquivou, saindo do caminho dele completamente. A lâmina foi prolongada por uma onda de choque que amassou a casca de uma árvore logo atrás. 

Mudando seu posicionamento, Jiten ergueu a espada e mais uma vez atacou, ao que seu adversário reagiu defendendo com parte do que seria seu braço. Duas lâminas retorcidas bloquearam a espada de Jiten, mas elas pareceram ceder dentro da carne anormal do monstro. Mais um ataque, a criatura foi pressionada a mais uma defesa.

O Urso não era uma postura rápida, ela era apenas destrutiva, mas Jiten sequer estava usando o máximo de sua força. Ele pressionou seu adversário com um ataque atrás do outro, a lâmina cortando o ar com um som grave, como um grunhido feroz a cada golpe. 

Finalmente enxergou a brecha. Após tantas defesas seguidas, o adversário tentaria defender mais uma. Ele concentrou toda sua força. Canalizando a energia que tinha até completar um movimento inteiro. Um arco descendente rasgou o ar e acertou o monstro. 

Fragmentos de madeira se espalharam por todo o lado. Uma árvore se partiu ao meio atrás do monstro. As fagulhas azuladas inundaram o ar como em uma tempestade de energia. O impacto moveu as copas das árvores e fez os animais remanescentes fugirem. 

Jiten caiu com um joelho na terra e apoiou sua espada no chão. Havia gastado muita força e fôlego naquele movimento. Tendo quebrado tantas partes de seu adversário, finalmente se permitiu respirar normal e profundamente. 

Tinha uma longa noite pela frente. 

Mas a penumbra ainda escondia uma surpresa. 

Ele sentiu algo agarrar sua perna. Girar seu tornozelo e se fincar na carne com espinhos. De imediato, Jiten olhou para seu pé, para ver a criatura destroçada logo atrás dele o agarrando com um de seus ramos. 

O monstro o puxou e o arremessou contra uma árvore. Jiten não teve força para se libertar antes de ser jogado pelo ar. Perdeu o chão e se desorientou. Sentiu a casca da árvore rachar no impacto com o lado esquerdo de seu corpo. Mas temeu sentir o mesmo para algumas de suas costelas. 

Ele soltou o ar, sendo tomado pelo medo absoluto. A postura do Urso era a mais forte que ele conhecia. Nada podia ter sobrevivido àquilo. Mesmo assim, seu adversário monstruoso permanecia, mesmo que parcialmente destruído, não só vivo como ainda com força o suficiente para o dominar. 

Sentiu uma dor absurda quando encolheu o corpo, mas puxou o joelho o mais perto que pôde do peito ainda no chão e cortou com sua espada o ramo que o prendia ao monstro. Arrastou-se pelas folhas até conseguir ficar em pé. 

Mesmo com o torso protegido pela energia da postura, a dor ainda se irradiava pelo seu corpo de maneira absurda. Ele vislumbrava o que o sol e os olhos lacrimejantes ainda o permitiam ver. O monstro desfigurado pelos ataques agora se reconstituía em uma forma muito mais humanoide. 

A cabeça do monstro adquiria um formato mais circular, seus ombros mais definidos e alinhados e as partes de seu corpo que foram separadas eram preenchidas pela escuridão da penumbra. O pouco de luminosidade agora já não o restringia de se regenerar completamente. 

Jiten mal podia entender se era algo diferente de uma silhueta, mas era uma criatura sólida, com um sorriso vermelho de sangue e espadas que lhe brotavam do corpo, agora ainda mais afiadas e alinhadas. 

O rapaz foi assombrado pela ideia de que logo a espada de seu pai faria parte daquela coleção.

Então, começou a correr. 

Seguiu por entre as árvores, mas era difícil enxergar o que havia muito à frente. Tropeçou em algumas raízes e ralou seu braço em uma árvore tentando se segurar para não cair. 

Ouviu metal raspando pela madeira e não conseguiu olhar para trás, apenas tentou correr mais rápido. Inútil. Sentiu um impacto no lado direito do corpo e se desequilibrou. Atravessou um arbusto, ficando preso parcialmente nos galhos e teve que forçar os membros, cortando sua pele e rasgando sua roupa. 

Respirou fundo e se levantou. A espada em sua mão apontada para as árvores. Aquela coisa havia desaparecido e ele forçava os olhos para tentar enxergar na penumbra. Ficou assim por alguns momentos. Tentando manter a respiração controlada. Ainda podia sentir que pouco da postura ainda estava sendo efetivamente mantida em seu corpo. Já sentia seu corpo enfraquecido demais para manter a técnica. 

Virou-se e tentou continuar a correr, mas poucas dezenas de metros depois, sentiu mais um golpe atingindo agora seu lado esquerdo. Bateu em uma árvore e agitou a espada a esmo. Golpes que não cortaram nada além do vazio.

Gritou. 

Começou a sentir desespero verdadeiro ao perceber que aquela criatura o estava torturando. Que coisa maligna era aquela, feita de restos de árvores e espadas, alimentada pela escuridão e portando um sorriso como uma arma? Nada que ele já conhecera em sua vida parecia como aquilo. 

Pensou ter visto o sorriso do monstro por entre as árvores. Olhou novamente. Nada.

Precisava viver. Não podia morrer ali. Renji lhe havia dito que não podia morrer. Não tinha escolha. 

Ou será que tinha? Podia apenas largar a espada e deixar aquilo acabar. 

Sem obedecê-lo, suas pernas se colocaram a correr quando alguma coisa se mexeu na copa das árvores a sua frente. Manteve o ritmo da corrida, já antecipando que algo o golpearia. Estava difícil correr. Galhos o acertavam e ele se assustava toda vez que tocava em algum arbusto. 

O caminho se tornava um grande vazio. A atmosfera mais densa, mais difícil de transpôr. A criatura o perseguia brincando com ele. Jiten atingiu uma árvore e por instinto se esquivou, ao ouvir o sibilar do ar, viu em seguida a casca da madeira sendo rachada por uma lâmina recurva que a acertou.

O monstro estava ali. Mais humanoide, mais próximo de uma pessoa, mas ainda uma amálgama de sombra e lâmina. O sorriso dele era brilhante, mesmo na penumbra, quando a escuridão já tomara o céu, era possível vê-lo zombar.

Jiten o manteve afastado. Usando sua lâmina e o braço direito para manter a alguns centímetros de distância. Podia sentir como o ar não era normal ao redor da criatura, como mexer com um móvel empoeirado. Perturbava os olhos e as narinas, fazendo-o querer tossir.

O monstro agarrou seu braço esquerdo, envolveu um ramo seco de escuridão e madeira ao redor dele e apertou com força. Jiten sentiu uma dor excruciante, os espinhos fincados fundo na pele. Sangrava e sabia disso, mesmo que na escuridão pudesse enxergar muito pouco.

Olhou para o alto, tentando respirar ar puro. Tentou puxar ar para os pulmões, fora do sufocamento que aquela criatura o expunha. Os olhos para o céu, viu por entre a copa das árvores, o brilho da lua. 

Seus olhos cristalinos reluziram sob ela. 

Apertou com força o cabo da espada. Com o ar que puxou concentrou sua força no torso. Viu as fagulhas azuis. Cerrou os dentes e com tudo o que lhe restou de força moveu o braço direito. Ergueu a espada com tanta força que repeliu a criatura para trás.

O Urso. Um golpe firme logo em seguida, debaixo para cima como uma besta que lança todo o peso do seu corpo contra sua presa. A lâmina desceu envolta em uma onda de impacto. Rasgou a madeira e a escuridão. 

Seu braço estava livre. 

Mesmo que agora tivesse seu corpo envolto mais uma vez na energia oriunda da postura. Não conseguiu iludir-se mais do que por um momento. Sentia medo verdadeiro. O coração ainda estava acelerado. O corpo rígido pela tensão. 

Voltou a correr.

Como sempre o fizera. Fugiu na escuridão. As fagulhas o abandonaram, ficando para trás quando ele largou a chance que teve de lutar. Feixes de luz lunar cortavam a copa das árvores, mas não lhe davam o suficiente de luz. Ele correu no escuro, a mão fraquejando querendo largar sua espada. 

Um galho se prendeu em seu rosto, cortando sobre a sobrancelhas e o deixando confuso. Ouviu o monstro se movendo, tão rápido como um lobo atravessando uma pradaria para vitimar uma ovelha. 

Jiten gritou.

Sentiu um impacto na coxa. Não era como os golpes da criatura. Era uma pedra. Tropeçara em uma pedra e foi lançado no chão, rolando pela relva e por sobre as raízes. Abriu os olhos doloridos em desespero.

Não estava mais tão escuro. Havia vagalumes. 

Muitos vagalumes. 

Tinha luz o suficiente. 

Olá, eu sou o ODA!

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