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Todo o corpo de Fernando estava falhando em responder. Muitas áreas não só estavam feridas, como paralisadas devido a descarga elétrica que sofreu.

Reage, reage, reage! gritou mentalmente tentando mover seu corpo, mas apenas sentia corretamente seu braço esquerdo e perna direita.

Devido à descarga elétrica da magia de Kifon atingir seu braço direito, a gravidade elétrica havia percorrido todo o caminho do braço direito à perna esquerda. Não só isso, mas a energia havia claramente passado pelo seu coração, que estava acelerado de uma forma anti-natural.

Fernando tinha certeza que se fosse uma pessoa com um corpo mais fraco, teria morrido instantaneamente.

Vendo Kifon chegar cada vez mais próximo, sabia que sua vida estava por um fio. Rangendo os dentes, usou o Disparo Neural o máximo que podia.

Nesse ponto, Fernando sentia tudo mover-se lentamente, seja os arredores, ou seu corpo. Ele só conseguia isso quando focava-se quase que completamente na ativação dessa habilidade.

Podia sentir o mana correndo por suas Veias expandidas, assim como o sangue correndo por suas artérias. Sua respiração, os batimentos cardíacos não regulares, seus músculos tensionados e enrijecidos. Sentia todo o seu corpo.

O exterior também era percebido dessa maneira, com Kifon caminhando quase que em câmera lenta. Os sons de gritos longínquos também podiam ser vagamente discerníveis.

Não vou morrer para um maldito desses! pensou, rangendo os dentes, apesar de saber que era inevitável.

Sua fúria não poderia ser apaziguada até matar esse homem. Por mais que tentasse viver sua vida em paz com seus companheiros, pessoas como Kifon continuavam aparecendo em seu caminho.

Inicialmente, durante sua vida na Terra vivendo na pobreza, Fernando experimentou e vivenciou diversas coisas. Quando mais jovem, imaginou que o princípio da maldade era o dinheiro, por isso que muitos indivíduos ricos eram tão egoístas e cruéis.

No entanto, quando tornou-se mais velho viu com seus próprios olhos pessoas pobres roubando e matando umas as outras, mesmo que ambas passassem por dificuldades. Não havia solidariedade, não havia benevolência. Foi aí que entendeu que a maldade não era exclusivamente gerada pelo dinheiro. Mas sim, pela busca por poder, ganância, índole e impunidade.

‘Se eu posso fazer algo que quero e não ser punido, por que eu não faria?’

O mero pensamento disso move vontades e traz à tona desejos oriundos das profundezas do coração do homem.

Na Terra, Fernando entendeu vagamente esses conceitos e sentiu na pele. Mas somente em Avalon que tudo era mais discernível, mais claro.

‘Para alcançar o que quero, não importa o que precise fazer, quem irá sofrer e quem irá morrer.’ Esses conceitos eram plenamente aplicados em Avalon.

Na verdade, mesmo na Terra. No entanto, como uma sociedade de espelhos, fumaça e falsas imagens, tudo era feito às escondidas.

De repente, Fernando pensou em algo. Ele era tão diferente dessa gente? Mesmo sabendo que inocentes seriam feridos e que gente do seu lado pereceria, ainda decidiu atacar. Tudo para defender os seus. Se ele deixasse o assunto de lado e buscasse uma solução ‘pacífica’ com auxílio do Salão de Belai, todo o Batalhão Zero seria alvo de terceiros, pois isso seria um sinal de fraqueza.

Naquele ponto, entendeu que ser bom ou mau não era a questão, mas defender ou não o que acreditava e ter a convicção de manter seus ideais até o fim. Se ele vacilasse ou recuasse, outros o devorariam até restar apenas seus ossos.

A mente de Fernando estava trabalhando de forma incessante, pensando em diversas coisas ao mesmo tempo. O Disparo Neural ativado a máxima potência dessa vez havia sido diferente.

Ah, estou com fome, mas tenho que economizar. Será que eles estão bem? Não posso ser demitido dessa vez.

Um pensamento estranho emergiu em sua cabeça, fazendo sua mente confusa voltar a si. Era sua voz, era sua mente, mas sentiu que esses pensamentos não pertenciam a ele.

Então pensou em algo. E se fosse ele, mas ao mesmo tempo não fosse?

Meu outro eu… pensou, com uma pitada de amargura.

Após isso, toda a hesitação, raiva e melancolia se foram. Sua cabeça estava leve e sua mente límpida como água.

Nesse ponto, Fernando entendeu que tinha poucos segundos até ser morto, então fez algo impensável. Parou de usar a Magia de Cura em todo o corpo, bem como suprimiu a ativação passiva da Auto-Regeneração.

Focando em seus membros enrijecidos, conseguiu sentir os músculos e nervos paralisados. Então focou todo seu mana naquelas regiões, ativando toda a cura que conseguia.

“Morra, seu verme desgraçado!” Kifon gritou, chegando acima de Fernando. Sua mão esquerda, que não havia sido ferida, estava envolta em eletricidade.

De repente, Fernando, que estava parado de forma estática e olhando para o nada, voltou seus olhos para cima, encarando Kifon, olho no olho.

Swish!

Girando suas pernas de forma veloz, chutou o joelho esquerdo de Kifon pouco antes dele atacar.

Crack!

“O que?”

Um som de estalo surgiu. Quando Kifon se deu conta, perdeu a força em uma de suas pernas. Acompanhando Fernando com os olhos, viu o rapaz rolando e se debatendo pelo chão, como um peixe se debatendo na terra, arrastando-se para longe.

Quando pensou em persegui-lo, sua perna esquerda cedeu, fazendo-o cair com um dos joelhos no chão, que estava virado numa posição estranha. Nesse momento, a dor finalmente chegou ao seu cérebro.

“M-minha perna! Ahhhh!”

Então ele entendeu. Fernando havia, numa fração de milésimos, chutado seu joelho e o quebrado.

“VOCÊ NÃO VAI FUGIR!” gritou, num misto de dor e ódio.

Levantando sua mão, apontou dois dedos para frente.

Tziii!

Até então, Kifon havia evitado usar muito de sua magia de forma externalizada. Diferente de Capitães e Majors, ele ainda era jovem e não tinha uma grande quantidade de mana. Então precisava usar tudo de forma milimetricamente calculada.

No entanto, vendo o jovem Tenente, que ele pensou ser uma formiga, feri-lo duas vezes e até acabar com sua Guilda tentando escapar, ódio encheu sua mente.

Uma grande descarga elétrica cruzou o ar, parecendo um raio caindo do céu.  No entanto, o ponto de origem era a ponta dos dedos indicador e médio de Kifon e o alvo era o jovem Tenente, que fugia por sua vida.

Fernando estava coberto de terra, sangue e queimaduras. Usando toda sua força para forçar seus músculos paralisados a moverem-se, enquanto se arrastava para longe.  Quando sentiu a descarga elétrica se aproximando, sabia que era seu fim.

Estranhamente, não estava com medo ou com raiva. Sua mente estava calma e serena.

Eu fiz o que pude. pensou, lembrando-se de Karol, seus companheiros e sua família na Terra.

BRUM!

Um clarão branco levantou-se, atingindo a visão de todos no campo de batalha, seguido por um poderoso estrondo, assemelhando-se aos trovões do céu.

Hah! Hah! Hah!

Kifon estava sem fôlego. Depois de usar tanto mana num único ataque, seu corpo tremia. Mas ele estava satisfeito, matar o Tenente do Batalhão Zero valia o esforço.

No entanto, quando olhou para o local do ataque, algo estava errado. Todo o solo estava negro, com marcas que espalhavam-se para longe, como uma grande teia de aranha. Mas o estranho não era isso, mas o fato de não haver cadáver!

“Heh, eu não posso tirar os olhos de você por um minuto e já está levando uma surra, líder.” Uma voz brincalhona e feminina soou.

Fernando, que até então estava preparado para morrer, sentiu-se estranho. Quando olhou para cima, viu o rosto de uma mulher com longos cabelos negros e um grande sorriso de deboche.

“Oi, princeso.” Theodora falou, rindo.

Nesse momento Fernando entendeu, Theodora havia o salvado!

“Quando você….” Antes de continuar a falar, percebeu algo. 

Theodora estava o segurando nos braços, uma mão em suas costas e outra segurava próximo a suas nádegas. Realmente parecia a clássica cena do príncipe salvando a princesa!

Então sentiu algo que o fez tremer. A mão estava apertando forte na região da bunda.

“Hm, essa área é bem musculosa.” disse, rindo.

“M-me larga!” Fernando gritou, saindo dos braços de Theodora e mal ficando em pé.

Tsc!

“Acabei de te salvar e nem posso tirar uma casquinha? Que mesquinho, líder.”

Fernando não sabia o que dizer. Ele havia acabado de escapar da morte, mas Theodora ainda fazia algo assim. Não sabia se deveria agradecer ou repreendê-la.

Quando estava prestes a dizer algo, notou as pernas trêmulas da mulher, bem como um leve dano em sua armadura. Mesmo que tentasse parecer descontraída, resquícios do ataque pareciam tê-la atingido.

Vendo isso, Fernando ficou em silêncio.

Theodora sorriu largamente ao ver o rosto confuso de Fernando, mas então seu sorriso lentamente diminuiu e seus olhos voltaram-se para um homem tentando se levantar não muito longe.

“V-você!” Kifon disse, com uma voz trêmula ao ver Fernando vivo e bem. Não só isso, mas sentia uma estranha ameaça vinda da mulher que o salvou.

“Bem na hora.” Uma voz sem fôlego soou do outro lado.

Argos chegou, todo seu corpo suado e sua respiração instável.

“Desculpe a demora, é difícil de acompanhá-lo.”

Desde o início da batalha, Argos vinha tentando alcançar Kifon e Fernando, mas sempre que estava próximo, os dois se distanciavam.

Somente quando o impasse chegou num momento crítico e pararam, é que ele enfim conseguiu alcançá-los.

Sacando suas espadas azuis, Argos caminhou com passos lentos em direção a Kifon. Do outro lado, Theodora também começou lentamente a aproximar-se.

Fernando, por outro lado, estava usando sua espada Lumeris para tentar se manter de pé. Naquele momento era impossível para ele ajudar, mas confiava nos dois.

Kifon tinha olhos arregalados. Seus cabelos na altura do pescoço balançavam de um lado para o outro, enquanto olhava ao redor, como se buscasse algo.

Sua mão direita estava ferida, sua perna quebrada e estava quase sem mana. Fernando, por outro lado, estava num estado pior, mas aliados apareceram para ajudá-lo. Enquanto ele próprio, o grande líder da Guilda Fúria, não via nenhum dos seus vindo em seu auxílio.

Pelo contrário, um de seus Vice-Líderes, Petr, havia o traído e declarado que a guilda estava se rendendo.

Kifon sentiu seu peito arder. No fim, a guilda que ele construiu com tanto esforço não parecia significar nada.

Sem pensar duas vezes usou seu mana, então seu corpo começou a levitar.

“Está tentando escapar!” Argos gritou. Após isso, avançou cortando com sua rapiera azul para frente.

A lâmina espalhou-se pelo ar, como se fosse um chicote, correndo em direção ao Líder da Guilda Fúria.

Do outro lado, Theodora correu para frente, empunhando sua espada Céleres.

Kifon não se intimidou mesmo vendo o ataque de ambos os lados. Um escudo de energia surgiu ao seu redor, se chocando com os ataques de Argos e Theodora.

Tziii! Bang!

Tanto Theodora, quanto Argos, foram jogados para trás com violência, caindo pesadamente no chão.

Fernando observou, enquanto Kifon levantava-se no ar, usando magia de levitação.

Como seu último ato antes de fugir, olhou em direção ao jovem Tenente. Seus olhos ardiam com ódio e raiva. Naquele dia, ele havia sido derrotado por esse homem e sua guilda destruída.

“Eu juro, Fernando, do Batalhão Zero, um dia farei essa dívida ser paga com sangue!”

Fernando levantou o rosto, olhando de volta. No entanto, sua expressão era calma. Olhando o homem, que já estava a alguns metros no ar, um leve sorriso abriu-se em seu rosto.

“Não há dívida a ser paga, nossas pendências acabaram hoje.”

Kifon ouviu aquilo com um rosto confuso, sem entender porque seu inimigo disse isso e sorria para ele.

Kii!!

De repente algo atravessou ele. Era uma fina linha vermelha e quente que cruzou o ar, soava como o chilrear indistinto de um pássaro cantando pela manhã.

Quando olhou para seu abdômen, um buraco redondo de três dedos de espessura havia sido aberto.

“Eu… Eu…” Sem conseguir falar, Kifon perdeu suas forças, caindo. Todo seu corpo estava esparramado como uma casca de banana no solo, com seus longos cabelos espalhados de forma irregular pelo chão frio. 

No fim, a última coisa que viu foi o céu claro e as nuvens brancas, que eram lentamente levadas para longe pelos ventos frios do sul. As palavras de Fernando ressoando em sua mente ‘Nossas pendências acabaram’.

Naquele dia, naquele momento, o Líder da Guilda Fúria havia perecido.

—–

Numa casa ao longe, Tom estava em pé no telhado. Seu rosto calmo era completamente incondizente com seu estado. Sua mão esquerda segurava seu braço direito, que tremia violentamente.

Na ponta de sua mão, era possível ver uma fraca chama vermelho-rubi, que queimava fracamente.

“Missão cumprida, chefe.”

Olá, eu sou o Glauber1907!

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