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Cinco anos depois da minha reencarnação, foi quando meu trauma aconteceu.

Ainda era uma manhã de outono, os fazendeiros estavam cuidando da imensa plantação do vilarejo de Midiã.  Eu estava numa floresta ao oeste, gastando o tempo com dois amigos e a minha irmã mais velha. Por algum motivo, no leito de um riacho, minha atenção foi voltada extremamente para o outro lado.  Para a região da morte da famigerada “Floresta das Ninfas”.

Não lembro bem o motivo, mas fui atraído. Eu ultrapassei o riacho e entrei mais a fundo na floresta. O ambiente confortável e agradável da floresta foi gradativamente sendo substituído por uma névoa densa e cheiro de sangue.

Caminhei sem perceber, e já não tinha mais saída. Fiquei imponente abaixo de um morro, a névoa da morte me abraçava por cada molécula do corpo. E ela estava lá; a morte.

Daquela vez, ela se manifestou como um cavalheiro negro: seu cavalo preto fosco era equipado por uma armadura preta metálica, tal que, ele também vestia. Eu busquei pelo seu rosto e para a minha surpresa, não havia nada lá, para não dizer nada, tinha apenas uma nuvem branca escapando pela cavidade que deveria ser seu pescoço. Até a minha alma foi paralisada quando encontrei a cabeça daquele ser; estava entre seu próprio braço.

Uma cabeça pálida era segurada entre seu braço esquerdo, seus cabelos também brancos eram levados pelo vento como um véu de noiva. Os lábios eram secos, mas o que mais me chamou atenção, foram seus olhos. O verdadeiro abismo. Tão negros que a luz era rejeitada, tão sem expressão que somente a morte era seu significado. 

Naquele instante, eu me senti numa frase que outrora ouvi: “Quando se encara demais o vazio, somente o vazio irá lhe restar”. O medo e pavor que senti, foi quebrado pela sua voz.

Uma voz rouca e imponente, que faria qualquer mortal processar a própria existência dizia os nomes de pessoas que eram para mim, familiares. Fazendeiros do vilarejo em que minha mãe, mesmo sendo uma nobre, me ensinou a amar. 

Eu consegui dar um passo para trás com descuido. Desequilibrado, evitei contato visual. Aquele ser desapareceu da minha frente e eu aproveitei a deixa para correr no rumo de onde eu estava com a minha irmã. Ela já havia saído, pois o som de uma explosão se alastrou pela plantação. Eu corri cerca de cento e cinquenta metros para só então, conseguir vislumbrar dezenas de nuvens de fumaça espalhadas pela plantação, seguidas por chamas.

Nós três — eu, Agnes Hansen e Magnum — corremos para dentro da plantação, procurando nossos familiares ou habitantes para sermos informados. Não muito tempo de corrida, Magnum já havia cedido, afinal ele era um humano normal. Mas eu e Agnes continuamos correndo. Nós encontramos uma estrada de barro que separava as plantações, e lá encontramos o caos; diversos fazendeiros estavam batalhando para conseguir se ajudar reciprocamente.

Aquela era a época em que máquinas estavam sendo testadas com a mana — uma partícula massiva de energia. No entanto, eram apenas protótipos que foram vendidos para civis. Naquele dia, não só em Midiã, mas sim em todos os continentes conhecidos, todas as máquinas explodiram. 

Por causa dessas explosões, eu vi pessoas nas quais sempre foram gentis comigo, carbonizadas no chão. Outros ainda estavam vivos, porém, alguns como a mãe de Agnes, estavam com uma placa de aço enfiado em seu estômago ou cortando seus membros.

Um corpo à minha direita estava irreconhecível; metade de seu crânio estava esmagado por uma barra de ferro maciça.

Consegui apenas ver os campos de guerra de Egon. Morte para a esquerda e direita, o desespero se alastrando. O trauma agarrando minha mente e apagando algumas cenas.

Agnes se jogou ao chão para ficar com sua mãe, enquanto eu continuei correndo adiante na estrada de barro pois algo estava me puxando para lá. A maior fonte de fumaça.

Uma enorme cratera causada pela explosão de uma das máquinas, erguendo aos céus a maior das nuvens de fumaça. O calor era tanto que distorceu o cenário e tirou a umidade de tudo. Eu me vi ali, imóvel, sem mover um músculo sequer. 

A máquina ainda estava se autodestruindo, sendo mantida em pé apenas por um campo eletromagnético que envolvia o núcleo dela. Ele também estava se autodestruindo. O cristal azul, foi se tornando negro e soltando raios vermelhos, despedaçando tudo ao redor.

E para o meu pesadelo, aquilo que volta e meia retorna a minha mente para atormentar. Uma das placas de metal da máquina estava lá, deslizando contra o chão gradativamente conforme o que o núcleo entrava mais ainda em colapso. 

Ele estava lá. Sabe aquele amigo da família, idoso que você admira e trata você tão bem que assume o papel do avô ausente? Para mim, ele era isso. Michel Hansen, o avô de Agnes, a pessoa que me ensinou praticamente tudo sobre socialização, estava sendo esmagado aos poucos pela falha industrial. Além disso, sendo carbonizado e sufocado vivo.

Eu vi ele lutar contra as toneladas de ferro enquanto tossia sangue e se enfraquecia. Em um certo momento, ele simplesmente desistiu. Apenas olhou para o céu, que naquele instante estava coberto pela fumaça e fechou os olhos, provavelmente para agradecer a algum Deus. 

Aquele momento me banhou de ódio. Nenhum Deus se importava o suficiente para salvá-lo, para salvar ninguém naquela catástrofe…

Ele abriu os olhos novamente, mas desta vez me encontrou. Eu estava parado, uma criança frágil e passando por uma crise de ansiedade vendo uma das pessoas mais importantes morrerem sem que eu pudesse sequer mover um músculo.

Se eu tivesse essa força, este poder naquele dia…

Até a segunda explosão chegar. Senti apenas meu pai me agarrar pelo estômago e jogar-me para longe dali, enquanto tudo era destruído pela explosão. Eu acordei depois de dois dias, com um braço fraturado gravemente pela explosão. Por causa do fragmento no estômago, a mãe de Agnes morreu algumas semanas depois. Foi o que levou a minha família a adotá-la como minha irmã, já que a família dela era próxima da minha.

Por algum tempo, eu fiquei apenas encarando o mundo como ele realmente era. Tendo apenas o conceito de quem eu sou, refleti sobre o porquê eu estaria ali, por que estou vivo? Eu tinha a mentalidade de um adulto, mas não sabia o motivo de lutar contra o tempo. Afinal, o que será da vida sem um objetivo? Mas eu estava exatamente assim; a mercê do destino.

E foi à mercê deste mesmo rio que guia o caminho entre a vida e a morte, chamado de destino, que decidi arriscar minha segunda vida novamente. Como um agente de Vagus. Eu engoli em seco antes de falar isso ao meu pai; Ethan.

— Você quer ser o quê? — ele reforçou minha certeza.

— Um cavaleiro de Vagus.

— Não! — Camille, minha mãe, exclamou em negação. — Você vai estudar em uma academia normal, ser um gerente do laboratório de pesquisas Romeriano e se tornar um grande físico.

— Não quero mais isso.

— Como não? — ela balançou a cabeça. — Não, não. Você tem cinco anos, eu mando em você e estou falando o que você vai ser.

— Camille. — Ethan chamou. — Calma. Por que você quer ser um agente de Vagus?

— Por causa do Michel. — respondi cabisbaixo. — Não quero ver aquilo acontecer de novo.

— E não vai! Se for o que estou falando para ser…

Ethan a interrompe, colocando a mão na frente e olhando para mim. Camille suspirou e continuou.

— Você quer passar anos para se tornar alguém forte e longe de todos nós?

— Bom, a senhora demorou mais de dezoito anos para se tornar uma desenhista. Então, por que não? — eu retruquei, e logo me arrependi. Eu vi o ego da minha mãe ser espetado por uma lança poderosa.

— Doeu em mim. — Ethan brincou.

— Você deveria me ajudar a dizer não! — exclamou irritada. Ethan resmungou antes de se abaixar na minha frente.

— Eu não tive escolha, fui obrigado a me tornar um cavaleiro de Vagus e consequentemente um soldado do exército. Essa é a última coisa que eu quero para você e para o Edward. Por isso, pela última vez; O que você quer ser?

Engoli em seco antes de afirmar uma última vez:

— Um agente de Vagus!

— Ótimo. — Meu pai afirmou. — Vou ser o seu mentor pelos próximos nove anos, até que você entre para a ordem. Começando de agora, vinte flexões por responder a sua mãe com uma entonação alta.

Mesmo com um braço fraturado, Ethan me jogou no tapete e me forçou a pagar vinte flexões. Saudades de quando flexões eram os menores dos meus problemas…

Olá, eu sou o Mirius!

Olá, eu sou o Mirius!

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