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Uma garrafa de vidro. Esse era o objeto usado por Hans Mason para liberar sua angústia no próprio filho, Liam. Por sua vez, Liam ficava apenas calado. Todos ficavam.

Os vizinhos que adoravam Liam, o sorriso e a forma que a criança agia, se calaram. Os colegas de Hans, de vez em quando tentavam intervir escondendo Liam, no entanto, sempre sobrava para o garoto no fim do dia.  Então todos se calaram. Desde autoridades locais até aldeões, ninguém colocava a mão no fogo. Afinal, quem seria louco o suficiente para levantar a mão contra um coronel-general para proteger um Le Fay?

Em Egon, o maior império do continente, há muitos anos existiu uma mulher acusada de bruxaria. Agindo como uma falsa profeta, “Morgana Le Fay” desapareceu repentinamente, deixando apenas resquícios da sua existência em seus descendentes. 

Todos os que carregam o sobrenome Le Fay são julgados como sua antepassada, independentemente de suas ações. Essas crianças eram logo excluídas, quase não tendo nenhum direito na sociedade. Exceto pela nobreza, obviamente.

Mas o que levou Hans a ter esse tipo de comportamento? Afinal, até os quatro anos de Liam, a relação de pai e filho poderia ser resumida a; “uma relação perfeita”.

Tudo mudou quando Liam tinha quatro anos. Em uma manhã de verão, ele recebeu a notícia de que teria em breve, um irmão ou irmã mais nova.  Os olhos da criança brilharam como o sol daquela manhã. Ele chegou a desenvolver ansiedade pela espera duradoura que quase não passava.

Quando o “dia perfeito” finalmente chegou, a vida dos dois homens da família sofreu uma reviravolta. Mavie Müller, a mãe de Liam, faleceu repentinamente durante o parto.  Naquela época, o jovem Liam não conseguia compreender completamente o que havia acabado de acontecer; ele apenas observava sua mãe por trás de uma janela de vidro.

Quanto à criança, era uma menina que viveu tempo suficiente para arrancar o último sorriso de Liam. Os dois irmãos ficaram frente a frente, mas apenas alguns minutos depois, a pequena também faleceu. Como uma criança de quatro anos, ele não entendia o que havia acabado de acontecer.

Para Hans, estava óbvio. Liam portava o sangue Le Fay, e por isso sua esposa e filha morreram. Liam tinha as amaldiçoado. Ele culpou o garoto por algo que sequer sabia. Hans obrigou Liam a treinar como um militar, jogando toda sua infância e adolescência no lixo para fazer “algo de bom”.

Até os quatorze anos, Liam apanhava diariamente de Hans, que usava uma garrafa de vidro para cortar o rosto de seu filho. Ele aprendeu a engolir o choro e ficar reservado, sem falar com ninguém além do necessário.

Hans submeteu o próprio filho há um programa de “reprogramação mental”, onde ele passaria por uma lavagem cerebral.

Liam não tinha o direito de escolha. Sua mente, conhecimento, pensamentos, tudo estava em branco. Uma folha em branco preparada para ser reescrita ao bel-prazer do exército. Aos dezesseis, ele foi obrigado a participar da inscrição para se tornar um militar.

Foi quando, nesse período, começou a se mostrar capacitado como um soldado e foi rapidamente atribuído como tenente do terceiro esquadrão. Título que permaneceu durante três anos, até o dia em que o imperador Egon visitou o acampamento que Liam estava. 

A carruagem do imperador fez com que uma roda de soldados se reunisse ao redor, cercando-o e vangloriando.

As duas irmãs mais velhas do imperador estavam ao lado dele, olhando apenas para os homens mais belos e piscando para aqueles que chamavam atenção. Até que ambas olharam para Liam: ele era alto e com cabelos lisos, compridos e loiros. Seus olhos azuis se destacavam na pele branca e as cicatrizes em seu rosto provocavam uma aparência mais madura.

— Ei, olha aquele. Se não tivesse tantas cicatrizes, acho que eu iria atrás.

— Devem ser cicatrizes de batalha… Talvez eu queira ele.

Já se fazia alguns minutos que suas irmãs falavam das aparências dos soldados, então o imperador se entediou. 

Ele fechou os olhos e estalou a língua, se preparando para oprimi-las, mas por algum motivo do destino, Kaiser Egon olhou para Liam. Seus olhos se arregalaram quando se encontraram com o soldado cabisbaixo. Os dois não tinham tanta diferença de idade. Kaiser era somente três anos mais velho, e acabara de herdar o trono de um pai recém falecido.

Por ser nobre, era venerado. Por vir de uma linhagem vitoriosa, era tratado como um herói mesmo jamais tendo realizado quaisquer desses feitos. Kaiser era o oposto de Liam. Enquanto um sofreu, matou tendo sido traumatizado para chegar naquele degrau, Kaiser sempre esteve lá. Sem nenhuma ferida ou cicatriz, tanto em corpo quanto em alma.

O imperador saltou de sua carruagem e parou na frente de Liam. Ignorando o capitão do esquadrão, e também o coronel-general, Hans Mason, o imperador ordenou para tenente:

— Você, apresente-se.

Como Liam estava olhando para o chão, ele demorou alguns segundos para responder. Mas ao ser cutucado por Hans e retornar a realidade, Liam respondeu:

— Liam Mason Le Fay, tenente do terceiro esquadrão.

— Sua idade e etnia.

— Dezenove, egoriano. 

— Dezenove? — uma das irmãs cochichou, suas bochechas tornaram-se coradas.

Kaiser puxou Hans para o lado, procurando conversar a sós.

— Sabe o que isso significa, né? — disse James, o sub-tenente do esquadrão de Liam.

Igual ao seu tenente, James era um Le Fay. Tendo, infelizmente, a mesma experiência de Liam. Aquilo os aproximou, mesmo com o grau de parentesco distante vinculado à bruxa Morgana.

— Não — cochichou Liam.

James jogou o braço por cima do ombro de Liam.

— Veja só, nós somos amaldiçoados por simplesmente não termos herdado nada de ninguém. Já a nobreza, possui alguma característica hereditária…

— Eu sei, idiota.

— Me deixe ser expositivo! — James coçou a garganta. — Dizem que a característica da família Egon são os olhos. O antigo imperador conseguia detectar sua ligação com Morgana, era assim que escolhia seus soldados mais próximos. Já Kaiser…

O sub-tenente olhou de canto para as irmãs do imperador e para o próprio Kaiser, visando distanciar mais.

— Pode ver o fluxo de energia mental que reside em cada um de nós. Algo além do que o mundo físico está proposto a entregar. Quanto maior for o brilho em você, mais fácil morrerá em combate. Porém, quanto mais escuro for o seu Weltna 1, mais poderoso você é. Isso é impactado pela mentalidade e força do indivíduo.

— O que isso deve significar para mim?

— Moleque, olha tua vida. Você já matou vários tenentes de Mikoto e venceu duelos inimagináveis dentro de Egon. Presenciou o massacre de Xianzhu. Como acha que estará seu Weltna para o imperador?

O vazio.

Aos olhos de Egon, Liam estava coberto por uma linha de energia negra. Uma mancha, para ser mais específico. Era isso que causava tanta admiração no imperador.

— Coronel — O imperador disse olhando para Liam, estampando um sorriso no rosto. — Seu tenente, a partir de hoje, servirá a mim. Talvez se torne um general em poucos anos.

Sim, eu me tornei…” Liam pensou brevemente. “O mais forte deles, mas em troco de… Quê?

De fato, ele havia se tornado. Se tornara algo tão grandioso há proclamado “absoluto”. O primeiro e único homem a ser divinizado em Egon.

Assassino de colossos. Salvador de Zhuang. O filho legítimo do universo. Para Liam, nunca deixaram de ser somente termos. Afinal, eram isso. Apelidos não reviveria as mortes causadas, e nem arrependimento.

Se deixar de atacar, quem morre é você. Este era o lema que Liam carregava nos ombros. E foi este o motivo de sua morte repentina.

Seus olhos pesaram, a barriga estava sangrando e envolta um frio imensurável. Tudo ao seu redor foi tomado por um silêncio ensurdecedor.

A lembrança de cada batalha e cada morte que causou caíram como chuva nos olhos de Liam. O brilho carmesim da lua de sangue se transformara no sangue que ele derramou.

Em seu leito de morte, Liam não sabia sequer quem o feriu daquela forma. Ele não estava tão surpreso por não sentir dor e nem medo da morte, pois era algo que Liam implorava para que chegasse todo dia. 

Liam Mason Le Fay…’ sussurrou, uma voz rouca e imponente.

Uma névoa gélida o agarrou, tocando suas entranhas quase expostas.

Como em seu leito de morte, é natural que as pessoas se arrependam de certas coisas e tenham seus pecados perdoados. No entanto, por incrível que pareça, Liam não sente isso. Ele não se arrepende de nenhuma vida que tirou, de nenhum ato dele; ele não se arrepende de absolutamente nada.

— Sei que está me vendo de cima, e deves me odiar já que não me deixa pagar pelos meus pecados… — Ele brincou olhando para o céu. — Espero que não tenha inferno após a morte, não estou afim de viver novamente.

Seus olhos pesaram novamente e Liam pode soltar seu último suspiro no mundo. Seus olhos permaneceram abertos, mas sua última sensação foi de que seu corpo estava sendo puxado contra o chão. 

E foi aqui, que com vinte e oito anos, Liam Mason ficou a mercê da morte; o brilho da lua de sangue tornou-se a “luz no fim do túnel”.

Para você, o que vem após a morte?

Para mim, Liam Mason, me veio a oportunidade de escolher.

  1. Weltna: Em alemão, “Welt” pode ser traduzido para “Mundo”. Enquanto o “Na”, é referente à bruxa; Morgana. Fazendo um breve jogo de palavras e levando em consideração o vocabulário do Império Egon, Weltna significa; mundo de Morgana.
    Este conceito pode ser facilmente entendido como “A energia que trás maldições”, a responsável pela magia. Para um melhor entendimento, imagine isto sendo apenas alguma substância que torna os poderes algo possível, como a mana ou conceitos parecidos.
Olá, eu sou o Mirius!

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