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— Para onde quer que eu vá? — indagou Liam, incrédulo com as palavras de Kaiser.
— Império Xin — retrucou Kaiser, sentado em sua poltrona no escritório do imperador.
— Onde é isso?
O imperador se alongou e respirou profundamente. Olhando para seu agente pessoal, respondeu: — Um novo império criado pelos desertores de Mikoto. Eles enviaram uma carta de pedido de ajuda.
— Por que ajudaríamos? São desertores. O problema é de Mikoto.
Kaiser bateu a mão em um mapa na mesa, apontando para a fronteira entre os dois impérios inimigos.
— São cerca de três mil desertores. Eles ficam nos limites da fronteira, no forte de Zang Wei. Desertaram por motivos que não mencionaram, porém, querem nossa ajuda para expandir o território deles e atingir a independência de Mikoto. Em troca, nos fornecerão informações únicas do nosso rival. Quando a carta foi enviada, estavam em confronto contra o general…
— Aparenta ser uma armadilha.
— Sim. Por isso estou mandando você. Se for realmente uma armadilha, não deixe nem pó para trás. Só não morra.
— Acha que os demônios vão me matar?
— Tome cuidado, Liam. Existem os poderosos “Kishin no Kozui.” — Kaiser coçou a garganta. Os dois se encararam enquanto o imperador segurava a risada. Levando a mão até seu rosto, Liam soltou um riso abafado e Egon caiu em gargalhadas. — Mas, sério. Tome cuidado. Envie um tradutor com você. Nos vemos.
Liam assentiu com a cabeça e se retirou da sala. Do lado de fora, James o esperava sentado em uma janela. Os dois trocaram olhares antes de caminharem pelo corredor do castelo.
— O que ele disse…
— Apenas me siga.

Império Xin, 867 A.E.
76 horas de viagem depois.

Atualmente, o novo império domina apenas uma cordilheira pequena chamada de “Tiānshān” (Cordilheira Celestial). A única cidade do império está num vale no centro da cordilheira. Tal cidade foi nomeada “Guanwei,” em referência a um dos generais que auxiliou na conspiração.
Desde que chegou, há poucos minutos, Liam pôde notar várias carroças trazendo pessoas feridas e outras acorrentadas. Ele não pôde deixar de notar o que diferencia tanto as duas raças, mesmo sendo humanas: os olhos estreitos e tão pequenos, destacando também pela pele com um tom mais amarelado.
Liam tentou entender. Se são da mesma raça, compartilham da mesma história, por que estão separados? Apenas pela cor e pelas feições? Sendo sincero, ele nunca se importou com o exterior, apenas com o interior. Por isso, para ele, pessoas que pelo menos fingem não se importarem com os sentimentos são as melhores. Pelo menos até aquele dia, essa era a mentalidade dele.
Ao chegarem no pequeno distrito, Liam e James foram apresentados ao general Li Minghua. Um homem alto e robusto, coberto por um hanfu. Seus cabelos são compridos e brancos, os olhos são fechados devido à cegueira do general.
Sem muita enrolação, Li Minghua explica a atual situação para Liam.
O império Mikoto, com medo de que os habitantes do império Xin vazem informações específicas sobre eles, está desesperadamente, há duas semanas, tentando dizimar um único distrito. Enquanto o império Xin, não só está conseguindo lidar com os ataques, como também resgatando os prisioneiros escravos de Mikoto.
Afinal, o império Xin nada mais é do que o povo de Zhuang. Descendentes distantes do que acreditam ser o criador de todas as coisas. O povo de Mikoto e o povo de Zhuang sempre se trataram como inimigos, justamente por terem culturas diferentes e opostas. Mesmo assim, compartilhavam território de uma forma ilegal…
O povo de Zhuang é constantemente escravizado e tratado como inferior a todos os humanos pelo povo de Mikoto. Liam ligou isso aos homens e mulheres acorrentados hoje mais cedo, deduziu que seriam escravos resgatados de Mikoto.
O próprio Li Minghua pediu auxílio a Egon, o maior inimigo de Mikoto, temendo que Mikoto usasse sua maior arma contra o império Xin: os Kishin no Kozui (Os colossos de Kishin). Demônios de tamanhos colossais e extremamente poderosos. Kishin foi o primeiro deles, por isso se tornou o rei todo-poderoso.
Com isso, em troca da ajuda de Liam e James, o povo de Zhuang iria falar tudo que Egon desejasse sobre Mikoto.
— General Liam — chamou. O tradutor, que Liam trouxe consigo, traduziu o que Li Minghua falou. — Posso dar-lhe um presente?
— Depende — respondeu Liam.
— Corrija-me se estiver errado, mas… Seu reino não possui armas divinas, correto? — indagou.
— Não. Temos apenas armas comuns fortificadas por feitiços…
— Entendo. Sendo assim… Deixe-me lhe entregar uma espada que seja divina. A pele dos Kishin no Kozui é mais dura que qualquer material.
— Consigo anular isso.
— Não, não consegue — retrucou. — Para matar um Kishin, você não deve partir aquilo que é físico, mas sim do que é metafísico. A única forma de matar um Kishin é matando a alma dele primeiro. Ou seja…
— Eu mato. Não há ninguém que escape das minhas leis.
Li Minghua esperou o tradutor, e ainda tentou processar a arrogância de Liam.
— Ninguém está acima das leis divinas…
— Somente aquele que está acima da magia. Perdoe-me ir contra sua crença, mas até o céu está abaixo de mim. No entanto, sim. Aceito seu presente, honrosamente o seu presente.
— Venha comigo — chamou Li Minghua, suspirando para o general.
O entardecer iluminava o pico da maior montanha na cordilheira Tiānshān. Do gume, todo o distrito e o vale no qual se localiza estão cobertos por uma névoa densa. Uma escadaria rodeia a montanha junto de vários portões torii. No topo, estava um templo feito para o senhor criador de todas as coisas: Zhuang.
A estátua de Zhuang é apenas de uma mão segurando uma singularidade, tal que seria o próprio universo.
Li Minghua se ajoelhou frente a um altar de pedra. Sobre este mesmo altar, uma espada ainda com a bainha é banhada pela luz do sol. O general Li ora para o templo, pedindo bênçãos para a espada, enquanto Liam, batendo o pé no chão, pensa o quanto aquilo é irrelevante.
— Respire fundo, general. É uma boa saída para curar a ansiedade — disse Li Minghua.
— Eu sabia que tinha algo de estranho com você. Não estava deixando sequer o Leitzke traduzir minhas palavras — reclamou Liam. — Para que esse ritual todo?
— Estou pedindo auxílio a Zhuang, o criador de todas as coisas, para que ele purifique e abençoe a lâmina de sua espada.
— Se precisa pedir ajuda a algum deus, então vocês são mais decepcionantes do que esperei.
— Hm… Liam Mason. Não acredita no Deus de Egon?
— Não. Acredito que nenhum ser atinge os requisitos para ser considerado perfeito.
— E um criador deve ser considerado perfeito, necessariamente?
— Se tratam ele como o todo-poderoso, então sim.
— Então… O que é o inferno para você? — indagou Li, levantando-se do altar.
Liam mexeu a cabeça e usou um pouco da mente para formar algo entendível para seu conceito.

— A vida. Acredito que o que trilhamos durante a vida é o nosso inferno, já que é feito de dor e sofrimento. O céu? Seria o que vem após isso. Mesmo que eu ache aquele céu cheio de anjos e pessoas boas, um conto dito pelos velhos para que ainda haja esperança, creio que até o mundo em chamas dos mortos pode ser considerado um céu para os maléficos. Porém, um céu ideal seria um descanso eterno.

— Para onde acha que irá após à morte?
— Espero que para lugar algum — retrucou.
— Você será um homem difícil de mudar…

— Posso saber por que todo esse interesse em mudar minha visão?

— Ver uma pessoa igual a você, jovem e com o poder do mundo em suas mãos assim, me agonia. Morrer com angústia e ressentimento seria um peso… Uma última pergunta, qual o valor da vida para você? — indagou com um tom suave, mas, que, no fundo, possuía ódio.
— Nenhum. A vida não tem valor algum. É algo tão complexo quanto tudo, mas tão frágil quanto vidro. Não consigo dar significado a algo tão… temporário.
— Essa fragilidade que dá um significado a vida. Mas, entendo você, Liam Mason, um homem verdadeiramente forte. Contudo, recomendo refletir suas ações e medir suas palavras. — Li Minghua começou a caminhar até Liam, com a espada em suas mãos. — Você não é nenhum deus. E, em algum momento, a cobrança chegará. E um homem como você, não deveria partir com um pensamento tão… fictício.
— Aham.
Liam recebe a espada. Ele a puxa para fora da bainha, apenas para poder ver como será o estilo de combate. Era uma espada tradicional do povo de Zhuang: com a lâmina reta e de fio único, chegando a quase o tamanho de uma catana. Sua bainha é preta com detalhes dourados, que se estendem por toda a bainha e formam um raio de luz. A empunhadura foi feita para ser utilizada com as duas mãos. Já o guarda-mão é em formato de V, sendo detalhado por um par de mãos de cada lado.
Desembainhando a espada, o general ergue-a ao céu. A luz do alvorecer reflete diretamente na lâmina, que encandeia brevemente os olhos de Liam.
— É a graça divina. Deveria sentir-se abençoado abaixo do céu.
— Não… — Liam retrucou, ainda olhando para a lâmina. — Sou amaldiçoado demais para ter essa honra…
— Deveria dar mais valor a si.
— Onde está o Kishin? Quero matá-lo logo — reclamou desconfortado.
— Paciência é uma virtude que deveria aprender também… Enfim, lá. — Li Minghua apontou para o leste. — Nossas proteções estão fracas. As muralhas devem ser derrubadas muito em breve. A única maneira de impedir isso é…
— Matando a grande maioria, aprisionando alguns. Uma guerra. Quanto tempo para chegar até lá?
— Minutos — retrucou Li Minghua.
— Então vamos.
— Antes disso… Tenho uma pergunta. Qual o sentimento que vem à sua mente quando está lutando? Sempre temos algum. Mas… O que o mais forte lutador sente em uma luta? Amor? Ansiedade? Insanidade?
— Não sei. Nunca parei para pensar nisso.
— Quando acabar essa noite, me dê uma resposta.

Os raios laranja do entardecer iluminaram um campo banhado de sangue e corpos sem vida. Uma região dizimada, consumida pelas chamas. Para as antigas crenças, podem chamar esta visão de “inferno”. No fim, sobrou apenas Liam e o que podem chamar falsa divindade.

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Olá, eu sou o Mirius!

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