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Ponto de Vista de Saki:
Há 6 anos atrás, o povo de Everwood viviam em paz em seus campos de trigo. Um vilarejo próximo ao litoral do continente, bem visto pelo mundo e com uma boa relação econômica com a capital. Todos tinham felicidade em sua vida, eram próximos uns aos outros e se ajudavam por pura compaixão. Em mais um dia normal no vilarejo, estrangeiros chegaram em suas terras, como de costume. Um grupo de 4 pessoas cobertas por um manto negro com um símbolo de uma cruz que em seu ponto de intersecção formava se um “X” e no topo dela havia um circulo. De todas as pessoas que passaram por ali, eles eram os mais terríveis e perversos, eles incendiaram suas plantações, exterminaram seus gados e por fim deixou os que se opuseram gravemente feridos. Enquanto todo o terror era feito, eles riam com satisfação, sem dar a menor importância para os danos causados e quando terminaram as atrocidades, foram embora deixando apenas lágrimas sofridas para trás.
O povo se reergueu, cooperando para que tudo voltasse ao normal, mas em menos de um ano, os apelidados de Túnicas Negras, retornaram, pessoas diferentes, mas ainda vestiam os mesmos mantos e andavam em um grupo de quatro pessoas. Dessa vez, sem destruição, o que se denominava líder, deu um passo à frente e ergueu um pergaminho, trazendo a mensagem de que a capital iria cortar relações comerciais com o vilarejo caso o povo não cumprisse a sua parte do acordo de exportação novamente. Todos sabiam da injustiça que estava acontecendo, então um dos responsáveis pelo cultivo de trigo, um homem alto de cabelo preto, viajou até a capital para que pudesse explicar a situação. Como resposta, foi dito que os subordinados do rei estavam sendo acusados injustamente e que suas desculpas eram infundadas.
O homem voltou enfurecido, mas tudo que poderia fazer era honrar com sua parte do acordo. Everwood, então, mais uma vez usou de sua terra fertil para aumentar a sua lavoura. A época de colheita chegou e todos estavam satisfeitos com os resultados, tudo já estava preparado para entregar sua mercadoria. Em meio a viagem, o homem avistou em seu caminho os Túnicas Negras, sendo novamente, novas pessoas, mas seus mantos eram inconfundíveis. Ele pediu piedade e implorou para que parassem, mas a maldade em seu coração era maior do que suas súplicas e todos os seus esforços viraram fumaça. O governante de Antares mais uma vez ouviu suas lamentações e decidiu ver por si mesmo o estrago, mas a colheita já havia sido feita e as cinzas restantes dos trigos se foram com o vento, não havia rastros de destruição e assim, Everwood perdeu sua maior fonte de renda e consequentemente perdeu sua reputação.
Pouco tempo depois, os Túnicas Negras voltaram ao vilarejo, eles diziam que não fariam mais mal para o povo, mas que iriam eliminar algo que pessoalmente os incomodava, dito isso, o homem que agora não havia mais nada além de sua família e seu povo, foi morto em frente a todos, incluindo sua esposa e seu filho, ficando como exemplo para que ninguém entrasse no caminho dos Túnicas Negras.
Júlia contou sua história com o choro em sua garganta, mas no fim, não aguentou e mais uma vez caiu em lágrimas. Akira tentava a acalmar, mas nenhum de nós sabia o que fazer naquela situação. De repente, alguém bateu à porta.
Eu andei calmamente até ela e a abri, Noelle voltou, juntamente com a criança.
— Noelle, ainda bem que você chegou.
— Erick! — Júlia levantou rapidamente correndo para seu filho que estava estranhamente quieto — Muito obrigada! — ela abraçava seu filho enquanto chorava.
— Ele estava chorando há algumas ruas daqui. Foi um pouco difícil conversar com ele, mas acho que deu certo — deu com um sorriso aliviado.
— Me desculpe por incomodar vocês! Caso não tenham onde ficar, deixe-me abrigá-los por essa noite — ela implorou.
— Sem problemas!
Após os ânimos se acalmarem, eu contei a Noelle o que havia acontecido em Everwood, sua reação não foi surpreendente, a indignação que sentíamos era igual. Dessa forma, nosso primeiro dia em um novo continente se encerrou, o sol nasceu, Júlia nos informou a direção em que ficava a capital e logo partimos.
Na estrada de terra cercada por pinheiros enormes, andamos em direção a “A Muralha de Diamantes, Antares”.
— Isso ainda não faz sentido… — Noelle disse em voz alta.
— Do que você tá falando? — perguntou Akira.
— Se os túnicas negras trabalham individualmente, o que eles ganham fazendo isso com o vilarejo e se eles estão a comando da capital, o que o governante ganha com toda essa situação?
— É realmente uma pena que isso tenha acontecido, mas desde que eu cheguei aqui, pouca coisa fez sentido, sinceramente, tenho preguiça demais pra pensar nisso.
— Mesmo assim, é estranho demais…
— Sabe o que mais é estranho?
— O que?
— Nós chegamos no litoral do continente em um clima tropical, mas não tão longe da costa tem uma grande planície cercada por montanhas de neve e como se não fosse suficiente, agora estamos cercados por pinheiros e só andamos alguns minutos desde que saímos do vilarejo.
— Isso é estranho? — Akira parecia não entender o que eu falava.
— É sério que vocês não acham nada disso estranho? — Eu olhei para todos buscando confirmação, mas cada um deles negou.
“Nada, NADA nesse lugar faz sentido” eu desisti de tentar compreender como a geografia funcionava naquele mundo.
Ponto de Vista de Akira:
A trilha de barro até a capital estava estranhamente calma, Saki e Noelle conversavam amigavelmente enquanto eu e Shosuke apenas andávamos para frente. Eu já estava cansado de caminhar por horas seguindo os três, felizmente, Antares não seria uma parada inútil para mim.
Tudo parecia tranquilo, até que algo que eu imaginei nunca mais ver apareceu em minha visão. Na grama ao lado da trilha e próximo às árvores, havia uma peça de madeira.
— Mas… o que? — eu não conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo.
Parei tudo que estava fazendo e me aproximei da peça. Ela parecia ter sido esculpida a mão, com entalhes delicados e perfeitos, uma pequena peça de madeira escura estava transformada em uma espiral extremamente semelhante a uma cauda de macaco enrolada.
— O que foi? — perguntou Saki ao me ver parar repentinamente.
— Nada… eu só achei uma coisa…
— Isso é… madeira?
— Não… quer dizer, sim, mas não é só um pedaço de madeira — mesmo tocando e vendo aquilo diante de mim, minha mente não poderia processar tudo que estava rodando dentro da minha cabeça.
Memórias antigas vieram sem avisar e assim eu fiquei imerso em meus pensamentos.
— Akira! — Saki gritou.
— Hã? O que foi? — era como se eu tivesse acabado de acordar.
— Você tá bem, cara?
— Tô… — rapidamente me virei para Noelle e pedi sem hesitar — Pode farejar isso pra mim? Pode ser pedir muito, mas… por favor.
— T-Tá bem, sem problemas — ela estava nitidamente desconfortável com o pedido e me senti mal por aquilo.
Em poucos segundos, Noelle conseguiu um rastro e apontou para o meio das árvores à sua esquerda.
Mais uma vez, sem pensar ou hesitar, minhas pernas se moveram naquela direção, pulando de galho em galho o mais rápido que podia, enquanto o passado era lembrado a cada segundo.
Ponto de Vista de Saki:
— Por que ele tá assim? Ele nunca esteve tão sério antes — eu me preocupava com a situação estranha do meu amigo — Tipo, tem um buraco bem no meio de uma peça de madeira e ele não fez nenhuma piadinha. Tem alguma coisa errada!
— Nem mesmo ele parece saber o que é, mas é estranho que ele tenha ficado assim de repente — Noelle respondeu.
Nós o seguimos preocupados por toda a floresta, até que ele finalmente parou de se mover. A penumbra repentina nos impediu de ver o que estava à nossa frente de imediato e tudo que conseguimos ouvir foram as suas palavras.
— Não pode ser… — Akira desacreditava da realidade.
Nossos olhos enfim foram capazes de enxergar além da floresta, nos mostrando algo que eu não queria acreditar que existisse neste mundo.
Casas por cima de casas, a água podre do esgoto escorrendo pela ladeira de terra onde as pessoas moravam, os olhares angustiados dos adultos que não sabiam o que iriam comer no jantar e crianças inocentes brincando com a sujeira à sua volta. Nas paredes externas das casas havia o mesmo símbolo dos Túnicas Negras, porém, marcados por um grande “X”.
A precariedade do lugar me deixava aflita, mas nada se comparava aos olhos incrédulos e o corpo trêmulo de Akira.
— Akira… — eu me aproximava lentamente do meu amigo — Você conhece esse lugar?
— Não… eu não faço de que lugar é esse…
— Entã…
— Mas eu conheço aquele símbolo — Akira curvou sua cabeça para o céu, fixando seu olhar em uma bandeira no topo da favela. Uma bandeira amarela que eu seu centro tinha uma espiral em vermelho.
— Isso…. Isso é igual aquele pedaço de madeira!
— Saki, isso não era pra estar aqui. Essas pessoas não deveriam estar aqui! Nada era pra estar nesse lugar! — ele levantou a voz.
— Do que você tá falando?
— Essas pessoas… olhe para todas elas.
— São só pessoas normais… Claro, essa situação não é normal, mas…
— Agora olhe pra mim — Assim que virei meu rosto para Akira, ele estendeu seu braço para mim — entendeu agora?
Finalmente eu percebi.
Uma criança corria até nós, enquanto isso, Akira terminava de falar.
— Todos eles são da minha família.
A criança se aproximou sem falar uma palavra, apenas estendendo a sua mão. Nós não estávamos entendendo o que ela queria até apontar para a mão de Akira que segurava a espiral firmemente.
— Isso é seu?
Ela assentiu com a cabeça.
— Certo… — ele a entregou em suas mãos sem questionar e logo após a criança foi embora com um sorriso no rosto.
— Você nunca falou sobre sua família, o que aconteceu? — perguntei com um certo medo de ter sido insensível.
— É uma história entediante, não tem motivo pra você saber — eu não insisti por respeito — de qualquer forma, isso não é da conta de vocês, a gente se separa aqui.
— Você não disse que ainda tinha que atravessar o continente?
— Não tô com pressa, é só uma mudança de planos…
— Se você diz — eu queria insistir um pouco mais, mas senti que nada do que dissesse o faria mudar de ideia.
A criança novamente voltou e ainda calada, puxou Akira pelo seu braço.
— Calma aí criança! — ele acompanhava seus passos enquanto virava suas costas para mim — Aí, Saki! — gritou.
— O que é!
— Não venha atrás de mim!
— …
Sem resposta, eu voltei para perto de Noelle e Shosuke e logo, com o olhar convencido, perguntou minha amiga.
— Acha que ele vai ficar bem?
— Não sei, mas seja o que for, se ele precisar, não posso deixar ele na mão.
Ponto de Vista de Akira:
A criança correu alegremente em direção ao emaranhado de casas me puxando pelo braço. Ela me apresentou a sua família, composta por sua mãe e seu irmão.
— Foi você quem devolveu o brinquedo da Alice? Que belo rapaz, qual o seu nome? — a mãe dela perguntava.
Seu rosto levemente enrugado sorria para mim como o sorriso único de uma mãe, sua cor de pele escura fazia com que eu me lembrasse da minha família e eu me arrepiava a cada segundo.
— Eu sou o Akira! — respondi com um sorriso — Me desculpe por perguntar, mas… onde conseguiu isso?
— Ah, isso é muito antigo… — seu filho mais novo se escondia atrás de sua perna lentamente — eu ganhei ainda nova, minha mãe fez para mim.
— Caramba… — eu ainda duvidava da realidade, era algo inconcebível para mim — sabe, eu tenho tantas perguntas…
— Não sei se conseguirei responder a todas, mas ficaria feliz em poder ouvi-las. Aliás, é um prazer, Akira, me chamo Mônica — estendendo sua mão.
Após nos cumprimentarmos, Mônica me guiou para sua casa. Apesar da situação de todo o local, sua casa era organizada, com gambiarras ali e aqui, mas nada fora do lugar.
— É uma casa bem organizada pra quem tem duas crianças.
— Fufufu — ela riu — por mais que sejam encrenqueiras e às vezes desobedientes, elas sabem que esse é o único lugar que podemos chamar de lar e por isso cuidamos tão bem daqui
— Então… o que aconteceu? Por que nosso povo tá vivendo em um lugar como esse?
— Sigh… — em um suspiro — é uma história trágica.
— Por favor, me diga.
— Tem certeza que quer ouvir?
— Eu preciso… Eu vi meu pai ser esmagado por aquele monstro bem na minha frente, minha mãe foi partida ao meio como uma folha de papel e por anos eu acreditei que só havia restado a mim.
— É uma pena que uma criança tenha visto uma cena como essa… muito bem, eu vou te contar.
— Obrigado…
— Todos que estão aqui são descendentes da geração de xamãs do clã Hiken, provavelmente a geração dos seus avós. Eles foram mandados em uma expedição para estudar as mais diversas formas de manejar as partículas de mana, por conta dessas expedições, o nosso clã ficou conhecido como “O clã que porta a chama da sabedoria” justamente por termos todo tipo de conhecimento e ensinamentos deste mundo. Infelizmente, a última expedição que foi feita acabou sendo interrompida pelo Reino de Antares. O seu rei, Welt, nos acolheu com a promessa de nos proteger, mas suas intenções não eram puramente boas e no fim, todos aqueles que sobraram foram escravizados, apenas por diversão. Como minoria, não tínhamos o que fazer, seus subordinados o apoiaram e nos oprimiam, mesmo que a única coisa que nos diferiam de seu povo era a nossa cor, rapidamente, tudo virou um inferno e apenas alguns de nós conseguiram fugir, mas grande parte dos remanescentes do clã ainda estão sofrendo em suas mãos.
Eu entendi como eles acabaram naquela situação, mas ainda havia algo que não entrava na minha cabeça: Por que aquilo estava acontecendo? Suas razões não eram claras e “diversão” não me convencia por nada.
— Se eles não tinham motivos para tratá-los assim, se vocês eram iguais, então por que? Por que eles fizeram tudo isso?
— Já se passaram tantos anos… tanta coisa aconteceu e você continua inocente como uma criança… — não havia maldade em suas palavras, mesmo naquele estado, ela sorria enquanto dizia — desculpe-me por estragar sua essência infantil, mas… o mundo tende a ser frio e cruel. De fato, como humanos, éramos todos iguais, mas nem todos os humanos têm um coração bom.

Olá, eu sou o Smaell!

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