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Renato acordou com Clara o chacoalhando. Ao expirar, saiu uma fumaça branca de sua boca, e seu corpo tremeu. Ainda estava frio.

— Precisamos ir.

— C-certo.

Ele se ergueu e, por um momento, quase deitou de novo. Ainda não estava suficientemente descansado, mas não tinha tempo para se recuperar mais. Teria que ser o bastante!

Na porta da caverna, a luz do sol escaldante entrava e, pela primeira vez, parecia amigável contra o interior gelado. Quando pôs os pés para fora, ao invés da areia macia, pisou em algo duro, que se partiu com estalos. Era gelo. O garoto ficou surpreso.

— Todos os dias, o deserto ferve — disse Clara —; e todas as noites, congela.

Clara se abaixou e, quebrando o gelo com as mãos, completou as garrafas com ele.

— Eu sei que tá sujo de areia, mas acredite, você não vai se importar com isso quando a sede bater.

Comeram o pedaço do peixe que trouxeram, beberam um pouco de água e retomaram a caminhada. As dunas estavam cobertas por um tipo de parede fina de gelo, e por isso era difícil escalá-las. Renato escorregava com bastante frequência. Mesmo assim, as rochas enormes ainda eram quentes e, por causa disso, ao redor delas o gelo já havia derretido totalmente.

Conforme o tempo passava, a camada de gelo se tornava mais frágil ao ponto em que o simples caminhar por ela a quebrava. Cerca de uma hora depois, não havia mais gelo, apenas as areias úmidas e, após meia hora, as dunas voltaram a ser secas e quentes como de costume.

Eram como formiguinhas flutuando na superfície de um mar interminável de areia. Beberam toda a água; comeram toda a comida. O tempo passava e cada passo ficava mais difícil. O sol havia se movido no céu o suficiente para estar se reaproximando de seu esconderijo a oeste. Não demoraria e a noite voltaria. Andaram quase o dia inteiro novamente e nem sinal do deserto terminar.

Clara disse que precisariam apertar o passo, porque não havia mais daquelas rochas gigantescas e, portanto, sem dúvidas congelariam durante a noite. Clara, ao descongelar, ainda estaria viva, mas Renato…

— Não poderia… — disse ele, ofegante — fazer aquele fogo aparecer de novo? Poderiamos suportar o frio dessa forma, não poderiamos? Aí a gente não teria que correr tanto.

— Não funciona assim. — Ela também estava ofegante — Na verdade, aquela magia é proibida e não deveria mais funcionar. Deu muito problema no passado, sabe? É dificil manipular o fogo eterno de forma controlada, e por causa disso, com bastante frequência ele rompia as contenções e voltava a queimar tudo.

— E então eles…?

— Sim. Proibiram a magia que tenta manipular o fogo embaixo de nós, e mais do que isso, botaram um impedimento: um feitiço que trancou completamente o fogo. Dessa forma, nem se tentássemos muito poderiamos usar.

— Mas você conseguiu.

Clara sorriu, de nariz empinado, orgulhosa.

— Existem falhas. E eu, incrível e maravilhosa como sou, descobri algumas dessas falhas. Então apenas nesses lugares específicos o fogo  eterno pode ser usado, e mesmo assim, sem que descubram.

Renato suspirou.

— Então, acho que não tem jeito. Precisamos chegar nessa floresta ainda hoje!

— Sim!

Não importava o quanto andavam. Parecia que o deserto nunca teria fim, mas teve. Pouco antes do sol se pôr, viram aquelas árvores de tamanho descomunal à distância. Deviam passar, facilmente, dos cem metros. Algumas talvez chegassem nos 150.

Era a Floresta Perdida. Ainda estava longe, mas vê-la renovou os ânimos e eles apertaram ainda mais o passo. Sabiam que, apesar de perigos, a Floresta tinha muitos rios com água fresquinha e frutos doces. Os monstros eram só um detalhe.

Chegaram quando o sol tocava o horizonte e metade dele já estava desaparecendo atrás da linha celeste. Parecia uma parede de verde no meio do deserto. As areias terminavam e, instantaneamente, havia solo úmido e ar fresco, embora ainda fedido, e muitas trepadeiras subindo pelos troncos grossos das árvores gigantes. Havia até canto de pássaros! Nem parecia o Inferno. Tiraram o tagelmust, mas mantiveram as roupas de manga compridas por proteção.

— Fique atento, Renato. Não faça muito barulho e sempre olhe para os lados, para trás e, principalmente, onde pisa.

— Certo.

— Ali pra aquele lado tem um córrego. Vamos!

— Vamos!

Andar pela floresta não era tão difícil. Não havia arbustos; era como se as árvores e as trepadeiras fossem as únicas plantas; e as árvores ficavam a uma distância considerável umas das outras. O chão era coberto por folhas secas do tamanho de um pneu de carro.

As trepadeiras eram de vários tipos: algumas tinham cipos, que se enroscavam no tronco da árvore hospedeira ou se esparramavam pelo chão; outras tinham belas flores das mais variadas cores; e também tinha as com espinhos. Clara explicou que a trepadeira com cipós que tinha pintinhas azuladas nas folhas eram carnívoras e que poderiam atacar qualquer coisa que se aproximasse.

— Mas também tem as carnívoras falsas. Plantas que se parecem com ela, mas são de outro tipo — concluiu.

Já podiam ouvir a água corrente do córrego. Estavam com pressa. Tinham bebido até a última gota cheia de areia das garrafas e a garganta, apesar do ar mais úmido, ainda estava seca.

Enquanto andava, Renato sentiu uma resistência no ar, e algo macio e gosmento o empurrou de volta, como se fosse elástico. Tentou se mover, mas não conseguiu. Alguma coisa pegajosa, porém resistente, o manteve preso e imóvel.

Foi quando viu os fios transparentes, quase invisíveis à pouca luz, formando um tipo de rede. E então caiu a ficha: era uma teia de aranha. Mas cada fio era da espessura de um cordelete.

Olhou em volta e não viu Clara. Tentou se afastar, mas o movimento só o fez ficar mais preso, colado naquela substância pegajosa dos fios.

E, no momento seguinte, viu a coisa mais aterrorizante de toda a sua vida: uma aranha gigantesca, que tinha o corpo do tamanho de um cavalo, e as patas, longas e esguias, eram peludas e se moviam rapidamente. Ela descia do alto das árvores, escalando aquela teia quase invisível, com as tenazes da mandíbula batendo uma na outra, faminta, produzindo um som semelhante a metal batendo contra mental.

Ela desceu rapidamente, com os muitos olhos fixos em Renato. Uma gosma saia de sua mandíbula.

O rapaz se desesperou. Nunca vira um pesadelo tão aterrorizante. Tentou se soltar, mas ficou ainda mais preso.

A aranha estava muito perto, batendo as tenazes. Pronta para dar a primeira picada e injetar o veneno e, dessa forma, poder desfrutar de sua refeição.

Ela deu o primeiro bote.

Renato, no desespero, vendo o monstro atacando-o, pensou na Espada do Pecado, e na mesma hora, ela apareceu em sua mão. Com um giro do pulso, cortou sem dificuldade a teia que mantinha seu braço direito preso. E conforme a mandíbula da aranha se aproximava, no bote extremamente rápido, ele golpeou com a espada.

A lâmina perfurou a mandíbula e entrou fundo no crânio do bicho. Renato cortou de cima para baixo, e a cabeça da aranha foi partida tão facilmente como se fosse uma faca quente deslizando na manteiga.

Uma gosma verde caiu sobre ele e a Aranha despencou no chão, com a cabeça partida ao meio.

— Ah, que merda! Essa porcaria caiu na minha boca! — resmungou, cuspindo. — Arg, que gosto amargo! E isso fede!

Nessa hora, ouviu a risada de Clara. Ela estava sentada sobre um tronco, no alto de uma árvore, enquanto passava uma lixa nas unhas.

— Até que enfim! Já estava ficando entediada aqui — disse a súcubo.

Renato franziu o cenho, irritado.

— E me ajudar não passou pela sua cabeça não, caraio? Tinha uma… essa coisa… tentando me devorar!

— É, eu vi. Vai te dar pesadelos, não vai? — Ela riu e saltou da árvore.

— Hora de continuar — completou.

Renato soltou um “humpf”, ainda irritado, e usou a espada para cortar a teia e se livrar.

— Vamos logo ver esse córrego! Eu tô com sede.

Olá, eu sou o Max Sthainy!

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