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Angélica estava sorrindo, de pé, sobre o teto do camaro, com o vento balançando suas marias-chiquinhas, e olhava pelo buraco na lataria para Clara e Jéssica.

Clara tentava manter o carro na estrada, enquanto fugia das viaturas policiais. O giroflex refletia nos retrovisores e o barulho de sirene retumbava alto.

A viatura que estava mais próxima conseguiu bater o para-choque na parte traseira do camaro, fazendo o carro de Clara dançar um pouco na pista. Angélica quase perdeu o equilíbrio, o que a deixou bastante irritada. A garotinha direcionou seus fios de noite escura em direção à viatura, e a torceu, fazendo-a girar no ar de tal modo que deu duas voltas de 360 graus no ar, antes de capotar, enquanto começava a pegar fogo.

— Humpf! Humanos não deveriam se intrometer em assuntos oficiais do Inferno!

— Q-quem é ela? — perguntou Jéssica, assustada.

— A filha do chefe. — Clara respondeu com um sorriso malicioso no canto da boca, tentando esconder o nervosismo.

— Senhorita súcubo, tenho algumas perguntas pra te fazer! Você saiu sem se despedir junto do meu bichinho de estimação! Me pergunto se não tiveram nada a ver com a invasão dos anjos…

Clara girou o volante, saindo da avenida e entrando numa rua menos movimentada que tinha muitos becos nas proximidades. Os giroflex já estavam um pouco longe. Seria fácil despistar os policiais por ali.

— Não tivemos nada a ver com aquilo. Quem abriu o portão pros anjos foi o…

— O Abigor. Eu sei. Aliás, tô procurando por ele. Sabe de alguma coisa?

— Não sei. Se soubesse, já o teria matado.

— Entendo. — Angélica movimentou as asas. — Vou ficar de olho. Ah, e avisa o senhor humano que assim que  eu resolver isso, vou buscar ele com uma coleira.

Ela bateu as asas e subiu em direção às nuvens. O helicóptero, que ainda seguia o camaro, estava logo acima, então Angélica moveu seus tentáculos de sombras para tirá-lo da frente. E o helicóptero girou no ar, perdendo o controle, e quase caiu. Por sorte, o piloto conseguiu recuperar o controle e forçar um pouso de emergência num local próximo.

*

— Sim, ele disse que guarda os troféus no quarto. Sei lá, ele devia ter bebido demais e acabou abrindo o bico. Deve ter sido isso. Vocês deviam investigar. Sim. Não, não vou me identificar por motivos de segurança, essa é uma denúncia anônima. Eu tenho direito de manter minha identidade anônima, não tenho? Pois é! Certo. Ok.

Hiro finalmente desligou o celular e pegou uma batatinha da bandeja sobre a mesa. Estavam na praça de alimentação do shopping.

— Os policiais disseram que vão lá averiguar. Conseguimos. Pegamos o bandido.

— Graças a Deus! — disse Alicia.

Tâmara curvou os lábios num sorriso gentil.

— Ainda bem. Sabia que tudo ia dar certo.

Renato bebeu um gole de seu Guaraná Antartica e comeu uma batatinha.

— Fala alguma coisa, Renato! Tá tão silencioso! — provocou Tâmara.

— Ah, eu não sei o que dizer. Ainda sinto que tem algo errado.

— Como assim “algo errado”? — Tâmara ergueu uma sobrancelha.

— Renato é paranóico! Sempre foi! Sempre viu coisa onde não tinha! — disse Hiro, dando de ombros. — Para de procurar cabelo em ovo e vamos indo pro cinema que o filme já vai começar!

— É verdade! Já vai começar mesmo! A gente tomou muito tempo aqui na praça de alimentação — disse Alicia.

— Certo! Então vamos! — disse Hiro, pegando a última batatinha e se levantando.

Entregaram os tíquetes na entrada e seguiram pelos corredores até a sala de cinema.

Hiro levava um balde grande de pipocas, que compartilhava com Alicia. Renato preferiu levar amendoins e água mineral, e Tâmara tinha um balde de pipoca médio e uma coca cola.

Conversavam despreocupadamente, e Alicia se segurava pra não dar spoiler do filme. Os lugares do fundo estavam todos ocupados, só tinha assentos na frente e pelo meio da arquibancada, então sentaram pelo meio.

No telão, já passava alguns trailers de outros filmes.

*

Na sala de projeção, o projecionista estava morto, ainda sentado em sua cadeira, com a cabeça caída sobre o teclado do computador.

— Ele chegou — disse Andrei, olhando pela janela, onde podia ver o telão e toda a arquibancada do cinema.

— Ótimo — respondeu Kath, antes de tragar seu cigarro. Ela estava sentada numa cadeira próxima à parede.

— Ainda não me acostumei com você fumando… Logo você que dizia que nunca colocaria nada nocivo no seu corpo.

— Percebi que todo mundo morre, Andrei, se cuidando ou não. Então, já que vou morrer mesmo, que se dane.

Ele soltou um sorriso com tom de ironia.

— Percebeu que vai morrer só agora?

— Parei pra pensar só agora. Quase morri daquela vez. Não foi legal.

— Entendi. E aí, mando os assassinos entrarem agora? 

— Daqui a pouco. Vamos esperar todos se acomodarem nos lugares primeiro.

— Certo. Sabe, eu não entendo o porquê disso, Kath. Não é mais fácil a gente só ir lá e matar ele?

A garota suspirou.

— É por isso que sou eu quem faz as estratégias, Andrei. Lúkin era a pessoa mais forte que conhecíamos, não era? Ele parecia invencível.

— É verdade…

— Mas ele foi derrotado. Quero saber porque. Quero ver o que esse garoto tem pra mostrar numa situação de perigo, antes de enfrentá-lo.

*

Enquanto os trailers ainda eram exibidos, e a sala tinha algumas luzes acesas, Renato olhou em volta e viu uma garotinha empolgada, com os olhos bem arregalados e grudados na tela, enquanto abraçava um balde gigante de pipoca quase do tamanho dela.

         Ele achou engraçado. Se lembrou da própria irmãzinha que detestava esses filmes e só curtia aquelas comédias românticas açucaradas.

A menina percebeu e olhou de volta, acenando com um sorriso simpático. Os pais dela também acenaram, cumprimentando Renato.

As luzes se apagaram. A única iluminação na sala vinha da grande tela presa à parede. O som do cinema dava um ar épico ao filme.

Um clarão correu a sala de cinema como um flash, trazendo consigo um estampido semelhante à explosão. Um grito abafado. Mais um flash. Mais um tiro.

Um homem e uma mulher que estavam sentados na fileira da frente caíram no chão, engasgando em sangue.

Enquanto as pessoas mais distantes ainda tentavam entender o que tinha acontecido, aquelas que estavam próximas se levantaram de seus assentos, em desespero, e tentavam se afastar, aos empurrões e gritos. Era como uma onda desgovernada de gente. Qualquer um que ficasse em seu caminho poderia ser pisoteado.

Na penumbra do cinema, tendo apenas a luz do telão como iluminação, Renato pôde distinguir dois homens armados na frente da arquibancada.

Um deles, de cabelos platinados, apontou uma pistola em direção às costas das pessoas desesperadas que fugiam para o fundo da sala, e puxou o gatilho mais duas vezes.

O segundo homem estava parado próximo à saída. Segurava uma submetralhadora.

— Atenção, cambada! — disse o de cabelos platinados. — Qualquer um que tentar alguma gracinha vai morrer! Vai todo mundo pro fundo da sala agora!

O que estava próximo da porta segurou a submetralhadora entre o braço e o corpo e tirou de dentro da camiseta uma carteira de cigarro. Acendeu um e deu um trago generoso. Então voltou a segurar a arma com uma das mãos.

Renato se abaixou, escondendo-se atrás dos assentos. Seus amigos fizeram o mesmo.

Alicia parecia em choque. Os olhos estavam arregalados e ela tremia feito vara verde.

— Meus Deus! Meu Deus! Vamos morrer! — Ela murmurava sem parar.

Hiro levou a mão à boca tentando conter o vômito. 

Tâmara, por outro lado, parecia calma. Ela olhava para todos os lados, procurando alguma forma de escapar dali sem ser vista pelos bandidos.

E então Renato viu o balde gigantesco de pipoca da garotinha caído no chão, e escutou seu choro alto. Os pais, em estado um pouco catatônico, tentavam mantê-la calma e escondida. Mas era inútil. Ela estava com tanto medo que não podia evitar o choro.

— Calem a boca dessa criança! — gritou o bandido de cabelos platinados, enquanto apontava a arma em direção à família..

— Vamos, filha, o papai vai te proteger, não chora… — dizia seu pai, abraçando-a, tanto para consolá-la quanto para protegê-la.

O que estava próximo da porta soltou fumaça da boca e lançou à menina um olhar neutro.

— Odeio choro de criança — disse.

— Calem a boca dela, senão eu vou calar! — disse o de cabelos platinados, sacudindo a pistola ameaçadoramente em direção a ela.

Tâmara cutucou Renato no ombro.

— Renato, talvez a gente consiga fugir por ali — apontou para  a porta, que era vigiada pelo cara da submetralhadora — enquanto eles estão distraídos com a menina. Talvez dê pra pegar ele de surpresa.

O garoto não conseguiu entender direito as palavras dela. Sua cabeça fervilhava a milhão.

— O que vocês querem? — disse uma voz chorosa da multidão de pessoas empilhadas umas sobre as outras. — O que querem com a gente?

— Por favor, não nos machuque! — disse outra voz.

— Se essa criança não calar a boca, eu vou dar um tiro na cabeça dela! —  O rapaz de cabelos platinados se aproximou da família, mirando a arma, e com o dedo roçando no gatilho.

— Não faz isso! — gritou o pai.

O bandido atirou.

As duas balas atingiram as costas do pai, que tinha pulado na frente e abraçado sua filha, protegendo-a. Sangue saiu da boca dele, e ele gemeu de dor, e então caiu.

A mãe da menina gritou de desespero e dor, vendo seu marido caindo morto.

A menina ficou em estado catatônico, coberta pelo sangue do pai, e parou de chorar. Apenas tremia. Então ela tentou levantar o pai, sacudí-lo, tentando acordá-lo, mas não adiantou.

O criminoso sorriu.

— Bom. O silêncio é bom.

O da submetralhadora deu mais uma tragada prazerosa no cigarro.

Na sala de projeção, Andrei e Kath assistiam tudo pela janelinha. Ao ver as mortes lá embaixo, a garota de franja sentiu um calor emergindo no meio de suas pernas. Ela quase soltou um gemido dos lábios.

— Devia ter trazido minha câmera — disse ela.

*

Palavras do autor:

Esse capítulo deveria ter saído ontem. Porém, mais uma vez, meu provedor de internet resolveu me sacanear. Já é a segunda vez. Se voltar a acontecer, vou ter que mandar a Clara pra ir lá explodir uma galera.

De qualquer forma, desculpem pelo atraso. E obrigado a todos aqueles que acompanham a história.

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Olá, eu sou o Max Sthainy!

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