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Ao ver a garotinha em desespero, abraçada ao corpo sem vida do pai, Renato se encheu de fúria. Não foi algo tão difícil de acontecer. A raiva sempre esteve nele, acompanhando-o de perto como um passageiro,  mas às vezes assumia o controle.

Ele se viu naquela garotinha. Reconheceu o desespero dela. Já experimentou da mesma agonia amarga. Já viu os pais serem mortos de maneira semelhante. A raiva explodiu como bomba atômica. Seus olhos ficaram da cor do fogo, seu elemento principal.

Tâmara, que tinha seu ombro encostado no ombro dele, se afastou num susto.

— Você tá quente…

Renato se levantou, saindo detrás dos assentos, e saltou para o corredor, ficando frente a frente com o bandido de cabelos platinados.

— Tá querendo morrer, moleque?! — gritou o bandido, e apontou a pistola para Renato.

O garoto, num movimento rápido,  meteu a mão no cano da arma e puxou o slide, arrancando-o, e então golpeou o olho esquerdo do criminoso com o slide, afundando-o dentro do globo ocular.

O bandido gritou, e foi um grito agudo, e se mexeu em espasmos, como se dançasse uma dança bem esquisita. A peça metálica da arma estava fincada em seu olho como uma espada na pedra, e escorria sangue e um líquido branco viscoso.

O criminoso que estava perto da porta apontou a submetralhadora em direção a Renato e disparou, enquanto corria, diminuindo a distância entre eles.

Renato segurou o bandido de cabelos platinados pelos ombros e o posicionou na frente de si, usando-o como um escudo humano contra as balas que viam em sua direção.

Enquanto o de cabelos platinados recebia todas as balas, e seu corpo tremia com os inúmeros impactos, Renato correu em direção ao da submetralhadora, ainda segurando seu escudo humano diante de si.

Assim que se aproximou o suficiente, Renato jogou a peneira de cabelos platinados em direção ao da submetralhadora, atingindo-o com força. O bandido quase caiu no chão com o impacto, mas conseguiu recuperar o equilíbrio. Foi quando Renato já tinha chegado perto o bastante pra afundar um soco em seu estômago

O estômago do criminoso foi deslocado para trás, se amassando contra os outros órgãos internos; as costelas próximas foram deslocadas em sentido contrário uma das outras, provocando uma leve abertura da caixa torácica; e o corpo dele foi jogado para trás com muita força, sendo arremessado por uns três metros, e só parou quando se chocou contra a parede do telão.

— Mande o outro — disse Kath, para Andrei.

Andrei acionou o ponto em sua orelha.

Renato estava de costas para a porta, olhando para o criminoso agonizando no chão e vomitando sangue pela boca, quando mais um tiro foi disparado. O garoto sentiu um impacto forte nas costas, e uma ardência tão forte que foi como ser atingido por ácido. Sua vista escureceu e o ar sumiu dos pulmões. Foi um tiro à queima roupa de uma calibre doze. O terceiro criminoso a engatilhou novamente, preparando um novo disparo.

Acontece que Hiro, ao ver que seu amigo tinha entrado na briga, se aproximou lentamente, descendo a arquibancada, e se escondendo entre os assentos. Nesse momento, ele já estava próximo o bastante. E assim que o terceiro reengatilhou a arma e apontou para Renato para dar o segundo tiro, Hiro saiu de seu esconderijo e pulou sobre ele já na voadora.

— Mas nem ferrando! — gritou ele, enquanto a sola de seu pé atingia o ombro do terceiro.

Os dois caíram no chão. A arma caiu longe.

Hiro se levantou e tentou correr até a doze, mas o terceiro conseguiu segurá-lo. Hiro tentou se soltar, mas foi derrubado no chão. O criminoso caiu sobre ele e começou a desferir socos na cara. Hiro não conseguia reagir.

Renato, vendo que seu amigo precisava de ajuda, se ergueu. Notou que suas costas estavam úmidas. Era sangue escorrendo.

Mais um tiro foi disparado. Sangue, gosma e pedaços de carne e cabelo caíram sobre a cara de Hiro como uma cachoeira viscosa. O terceiro criminoso simplesmente caiu sobre ele. A cabeça tinha um buraco gigantesco.

E de pé, logo atrás, segurando a doze, estava a mãe da menina que viu seu marido ser morto por aqueles bandidos.

Hiro limpou a gosma da cara, com uma careta de nojo, e disse:

— Arg, acho que isso vai estragar o velório.

*

— Hum… interessante. Isso me deu mais dúvidas do que respostas — disse Kath. — Acho que vamos precisar de mais testes.

— E por que não matamos ele agora mesmo? — perguntou Andrei, enquanto pousava a mão sobre sua pistola na cintura. — Daqui de cima, ele nem vai ver de onde veio o tiro.

— Você é burro, Andrei? O garoto tomou um tiro de doze à queima roupa e ainda se levantou. Viu aquele soco? Acha que essa sua pistola vai fazer alguma coisa? Esse garoto, ele é como o Lukin. Talvez também tenha feito um pacto com um demônio. Talvez também esteja sendo possuído por alguma coisa.

— Então o que podemos fazer?

— Por enquanto, colher mais informações.

*

Renato sentou no assento da caminhonete e, após apoiar as costas no apoio, sentiu dor, e se afastou instintivamente.

— Ai, merda! Isso dói.

Sua camiseta estava colada às costas devido ao sangue seco.

Os três amigos o encaravam de olhos arregalados.

— V-você tá bem? — perguntou Hiro.

— Tô sim.

— Precisa ir a um hospital.

— Eu concordo — disse Alicia. — Você levou um tiro.

— Pegou de raspão. Foi só de raspão. Vamos… vamos sair logo daqui antes que a polícia chegue. Eu só preciso ir pra casa e descansar um pouco.

Eles, assim como algumas outras pessoas, tinham fugido do cinema assim que a luta terminou. Algumas outras pessoas ficaram lá esperando a polícia.

— Renato… será que… É que eu gostaria de conversar com você um pouco sobre uma coisa — disse Tâmara.

— Agora?

— Não. Na minha casa. Tem algo que eu preciso te mostrar. Poderia ir comigo até em casa antes de ir embora?

— Cê tá maluca, mulher? — Hiro franziu o cenho. — Ele tá machucado! Precisa descansar. Agora não é hora pra…

— Tá tudo bem, Hiro — respondeu Renato. — Me deixa na casa dela, por favor?

— Certo… — respondeu Hiro, meio a contragosto. Depois abriu o porta-luvas e tirou uma cartela de comprimidos. — Pega. É bom pra dor.

— Valeu.

Hiro não sabia onde Tâmara morava, então ela precisou explicar o caminho conforme ele dirigia. Era bem perto da escola onde estudavam.

A casa era murada, com portões altos e sem nenhuma grade. De fora, era impossível ver qualquer coisa lá dentro.

— Tem certeza que quer ficar aqui ao invés de ir pra casa? — Hiro o olhou com preocupação.

— Tá tudo bem. Eu pego um Uber depois, ou sei lá, posso ligar pra alguém vir me buscar.

— Você é quem sabe. — Hiro coçou a bochecha. — Qualquer coisa, pode me mandar mensagem também.

— Certo.

Hiro e Alicia foram embora, deixando apenas Renato e Tâmara. A dor que ele sentia nas costas já tinha diminuído bastante, embora ainda latejasse um pouquinho. “Os socos do Satanakia foram piores” pensou ele.

Entraram. O quintal era grande e espaçoso, com um lindo gramado e algumas flores. A casa não era tão grande. Devia ter uns quatro cômodos, pensou Renato.

Antes de abrir a porta, Tâmara parou e ficou em silêncio por alguns segundos. Engoliu em seco e direcionou para Renato um olhar preocupado.

— Por favor, não me odeie. Eu não suportaria se odiasse.

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Olá, eu sou o Max Sthainy!

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