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— E aí, desde aquele dia, não consegui mais invocar minha espada. Tentei na casa da Tâmara, mas não deu. Só senti um formigamento, e apareceram algumas faíscas na mão, e só — disse Renato, com olhar distraído, vendo a paisagem passar rapidamente através do vidro da janela do carro.

Clara, que dirigia a van, deu de ombros.

— Ela se quebrou em algum momento?

— Sim. Durante a invasão dos anjos. Entrei em confronto com um deles, e, quando cruzamos espadas, a minha se partiu em vários pedaços. Acho que aquela espada de fogo era forte demais.

— Você lutou com um anjo? — Mical pareceu assombrada.

— Ah, sim. Foi uma luta bem equilibrada: uma hora ele batia, outra hora eu apanhava…

Clara deu um sorrisinho no canto da boca; Mical pareceu não entender a ironia:

— Incrível! Renato é incrível! Ele lutou com um anjo! E a luta ainda foi equilibrada! Igualzinho Jacó!

— Acho que não foi muito igual não — disse Renato, coçando a bochecha ruborizada.

Jéssica, que estava calada, olhando para a demi-humana dormindo deitada sobre os três bancos de trás, olhou para Renato e assentiu:

— Pois pra mim se parece com Jacó.

— Chegamos na Agrovila. A gente pode comprar algumas coisas aqui antes de seguir viagem.

Ela foi diminuindo a velocidade do carro, procurando um local para estacionar.

— Tem alguma coisa errada — disse a súcubo, finalmente, farejando o ar. — Tem cheiro de…

— Sangue — concluiu Jéssica. — Alguma coisa morreu aqui. Posso sentir a morte em volta.

Mical se encolheu em seu assento e abraçou forte a bazuca, apertando-a contra o peito.

— Vamos dar uma olhada — disse Clara. — Tragam as armas.

A súcubo abriu a porta da van e saltou. Sentiu algo molhado em seu pé. Olhou para baixo e viu que tinha pisado numa poça de sangue escurecido. O odor de podre chegou à suas narinas.

— As portas das casas… estão todas postas abaixo! Foram derrubadas à força! — Jéssica, com a mão no coldre, segurando a pistola com balas enfeitiçadas.

— Tem sangue em vários lugares! Está espalhado pelo chão! E também… há manchas de sangue nas paredes e portas — constatou Renato.

— Alguém?! Tem alguém aí? — gritou Mical. Mas tudo o que recebeu em resposta foi o silêncio sepulcral.

Clara se aproximou de uma das casas, foi até a porta, que estava derrubada, e viu as marcas sobre a madeira maciça: marcas de garras e mordidas. A madeira tinha sido estraçalhada.

— Não tem ninguém vivo, Mical — disse Clara. — Estão todos mortos.

— Então cadê os corpos? — A garotinha parecia aterrorizada.

— Não sobrou. Eles não deixaram nada pra trás.

— Eles? Eles quem? — Jéssica ergueu uma sobrancelha. Também parecia assustada com a cena de morte em volta.

Clara suspirou.

— Lobisomens.

— O quê?

— Lobisomens. Comeram tudo. Não deixaram nem os ossos; nem os cabelos e unhas. Normalmente, essas partes eles deixam. Estão mais famintos e mais violentos do que antes.

— O que faremos? — perguntou Renato.

— Deveríamos procurar a alcatéia agora, enquanto é dia, e matar todos. Mas… na situação atual… é imprevisível. Não tem como saber o que vamos encontrar. 

— Situação atual? O que quer dizer?

— Durante a lua cheia, lobisomens são tão fortes quanto os demônios de alto nível, Renato. Uma união maldita de selvageria, fome e força bruta. Mas agora… a lua tá diferente. Tá maior. Desde o dia em que voltamos do Inferno, eu notei. Alguma coisa mexeu com o equilíbrio do mundo; toda a criação parece que foi desregulada. Talvez, eles continuem transformados durante o dia; talvez estejam infinitamente mais fortes e famintos. Vai saber?! E ainda é uma alcatéia assim. A melhor coisa que fazemos agora é ir embora o mais rápido possível. E deixem as armas sempre prontas!

*

Num beco escuro, cuja iluminação fraca e vacilante de um poste distante era a única fagulha de luz, Tâmara estava sentada no chão da calçada, de ombros caídos e as costas apoiadas numa lixeira.

O cheiro de lixo e coisa podre beirava o insuportável, e as moscas voavam nas proximidades, procurando seu manjar entre a imundície.

Tâmara nem ligava. Estava silenciosa, perdida dentro de seus próprios pensamentos.

Ao lado dela, uma faca suja de sangue era o sinal do que tinha acabado de fazer. Tâmara não lidava bem com frustração e mal compreendia os próprios sentimentos. Era imatura, sabia disso, mas o que poderia fazer? Não sabia ser de outra forma.

Foi quando ouviu passos vindo em sua direção. E viu a silhueta de uma mulher. Pequena, magrinha e baixa. No escuro do beco era difícil ter certeza, mas ela parecia ter uma franja cobrindo a testa.

— Ah, menina… por que está aqui tão sozinha? — perguntou Kath, com doçura na voz.

Tâmara hesitou em responder. Seus dedos se apertaram contra a faca que segurava. Ela até pensou em matar essa mulher aleatória, como tinha feito com um homem há alguns minutos. Sem motivo mesmo, apenas para tentar aplacar essa sensação ruim no peito, esse desespero crescente que a oprimia; mas faltou vontade. Talvez fosse por causa da falta de medo dessa mulher. Por que não tinha medo? Tâmara segurava uma faca suja de sangue, e o pescoço da mulher estava tão perto, e mesmo assim ela não demonstrava medo. Apenas sorria esse sorriso repugnante! Repugnante e falso! Tâmara já tinha sorrido daquela forma antes. Reconheceria esse sorriso falso de longe!

— Porque não sei mais pra onde ir — respondeu finalmente.

— Sofrendo por amor?

Tâmara não respondeu. Lançou para Kath um olhar de desdém. A garota de franja sabia lidar com esse tipo de situação. Lia as pessoas como ninguém. Sentou-se ao lado da menina, mantendo uma distância respeitosa, apoiando as costas numa parede suja e começou a mexer na bolsa.

— Gosta de fotografia?

Tâmara a olhou, confusa.

— Fotografia… gosta?

Tâmara balançou a cabeça.

— Não entendo muito de fotografia.

— Ah, eu adoro fotografia. Sou fotógrafa amadora. — Kath tirou algumas de suas fotos da bolsa e entregou para Tâmara. — Esse aí — apontou para um cadáver na foto — implorou para morrer. Eu arranquei os olhos dele usando uma colher. Legal, né? Só de lembrar, ah, já me sobe um calor!

Tâmara olhou para a fotografia por um longo tempo, analisando cada detalhe. Era uma cena de homicídio eternizada numa imagem. Ela começou a olhar uma por uma, atentamente, sem dizer nenhuma palavra.

— Eu gosto de poesia — disse, entregando as fotografias para Kath.

A garota de franjas sorriu.

— Então essa é sua expressão artística. Todo mundo gosta de algum tipo de arte. Musica, poesia, cinema, fotografia. Arte é o que nos faz humanos, não acha? É o que nos separa dos outros animais. Até a violência pode ser bela. É o que eu acho. Aliás, adorei sua apresentação.

— Apresentação?

— Sim! Do poema! Adorei a forma que apresentou. Cada cadáver preparado cuidadosamente, com um verso do poema! Lindo! Era um recado para alguém?

— Sim! — Tâmara ergueu a voz, alegremente. — Era uma carta de amor! E acredita que ele nem notou?! E quando eu falei pra ele, ele fugiu! Aquele ingrato!

— Homens, né? Não entendem o coração das mulheres. Não sabem lidar com nossa paixão.

— Verdade! Eu odeio isso neles, sabia?!

— Acho que todo mundo odeia — Kath sorriu, e dessa vez, Tâmara achou que era um sorriso sincero.

— Suas fotos… são muito boas.

— Obrigada.

— Não sei mais onde ele está. Eu o deixei bravo.

— Sempre tem alguém bravo num relacionamento. É normal. Deixar quem se ama bravo faz parte do charme. E, se não sabe onde ele está, eu posso te ajudar.

— Ajudar? Como?

Kath sorriu.

— Ah, tem muito que você precisa aprender ainda. Eu vi você no outro dia. Foi descoberta porque os seguiu perto demais. Deveria ter mantido uma distância maior. 

— Você me viu? Estava me seguindo?

— Estava só curiosa. Vem, levante-se daí. Vou te ensinar umas coisas. Em troca, só preciso que você me dê algumas informações. O que acha?

Tâmara sorriu. É claro que era um sorriso falso, assim como todos os outros sorrisos que fizeram parte dessa conversa. Nem uma das duas ali falava a verdade com muita frequência e perceberam isso, mas mesmo assim fingiam que acreditavam uma na outra. Era uma disputa de quem mentia melhor; e as duas eram muito boas.

Aquela noite viraria notícia, certamente.

Olá, eu sou o Max Sthainy!

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