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A noite estava gelada, com um vento suave e monótono. A lua brilhava soberana no céu, junto de seu séquito luminoso de estrelas.

A van deslizava sobre o asfalto, veloz. Clara não desviava os olhos da estrada. Em seu colo, repousava a pistola cromada com balas especiais. Uma liga de prata, ouro e alguns produtos trabalhados com alquimia.

No banco ao lado, Renato estava sentado, com o braço apoiado no peitoril da janela enquanto o vento agitava seus cabelos. Sua pistola estava no coldre, mas a arma de primeira escolha eram as granadas que trazia dentro da bag.

O fuzil de Jéssica estava preso ao seu corpo pela alça. Ela estava calada, pensando em como seria voltar ao Priorado. Os Atalaias não eram pessoas que perdoavam, embora dissessem o contrário. Estava com medo, é claro.

Mical, aparentemente, era a única despreocupada. Sentada em seu banco, que estava tão inclinado para trás, que parecia até que ela estava deitada. Acariciava o grande tubo metálico lançador de foguetes: a bazuca. Era uma arma pesada, e a garota era pequena, então tinha dificuldades para segurá-la, mas a garota já estava pegando o jeito. 

Em sua mochila, trazia três granadas propelidas que, carinhosamente, chamava de mísseis. Mais do que três deixaria a mochila pesada demais e ela não poderia carregá-la numa situação de necessidade. Havia, entretanto, mais munição desse tipo no compartimento de armas secreto no assoalho da van.

E, claro, tinha Lírica, a demi-humana que dormia tranquilamente, alheia a tudo à sua volta, deitada sobre os três bancos de trás da van.

E rompendo a calmaria, um clarão cortou os céus feito relâmpago, e algo caiu. Foi como um meteorito, desceu num rastro de luz, rapidamente, e se chocou contra o chão numa colisão violenta. Arrebentou o asfalto, bem na frente da van, rasgou o chão e abriu uma cratera enorme, e jogou estilhaços para todos os lados como projéteis.

Clara teve que girar o volante rapidamente, manobrando o carro, para evitar que fossem atingidos. Os pedaços de pedra batiam nos vidros do para-brisa, trincando-o, mas a blindagem não deixou nenhum atravessar. Porém, Renato estava com a janela aberta, e um estilhaço bateu em seu ombro. Renato gemeu de dor, na hora, e a pedra virou pó com o impacto.

Mical e Jéssica foram seguradas pelos cintos de segurança.

Lírica girou em sua “cama improvisada” sobre os bancos, e quase caiu no chão.

Assim que o carro parou, os ocupantes ainda meio confusos, olharam em volta para se certificar que todos estavam inteiros, e então olharam na direção da cratera. E de dentro do buraco, um par de longas asas negras saiu.

— Sentiu saudades, Clarinha? — disse o demônio, com um sorriso de desdém, enquanto batia a poeira de sua roupa. Estava sujo, cheio de arranhões e um pouco de sangue escorria de seu nariz.

— Abigor! — disse Clara, pulando para fora do carro e já engatilhando a pistola. — Eu não, mas minha arma sentiu!

Nessa hora, a garotinha, com um par de asas brancas e brilhantes, apareceu, posando no chão com graciosidade. Os fios de pura noite se agitavam em volta dela como serpentes.

— Lamento, senhorita súcubo, mas ele vem comigo. Abigor está sob custódia. Não vou dar ele para você hoje.

Abigor deu de ombros.

— Eu sou tão disputado pelas garotas!

Angélica gargalhou, agitando os ombros, com o peito estufado de orgulho.

— Você é uma vergonha como demônio, abigor! É tão previsível! Eu sabia que te acharia se eu ficasse perto do senhor humano e da súcubo! E olha só, você, capturado por mim! — A risada de Angélica foi ficando cada vez mais maligna. — Eu sou mesmo incrível! Veja, senhor humano macaco de barro! Veja o quanto Angélica, a filha número dois do Inferno é incrível! Foi esta incrível princesa demoníaca quem te escolheu como bichinho de estimação! Orgulhe-se!

Abigor, tentando se aproveitar da distração da menina, abriu as asas e tentou sair voando, mas os tentáculos negros deslizaram pelo ar e se enrolaram nele rapidamente. E ele foi jogado contra o chão, de volta para dentro da cratera. O chão chegou a tremer com a força do impacto.

— Humpf! Não entendeu ainda que não adianta? Você será julgado por sua traição, Abigor! E será torturado! E depois jogado no Gehenna pra apodrecer até o fim dos tempos!

Abigor lançou um olhar de superioridade.

— E quem vai me torturar? Você?

Angélica riu.

— Eu não. A própria Baalat vai se encarregar de você.

— Ah. — O sorriso desapareceu dos lábios dele. — E que tipo de torturas sua irmã vai usar em mim?

— E-eu não tenho certeza ainda, mas será uma tortura bem horrível! Bem torturante! Daquelas torturas mais horríveis de todas! T-talvez ela comece arrancando seus olhos; ou cortando sua língua fora; ou talvez ela frite partes do seu corpo e te dê para comer! Já vi ela fazendo isso uma vez. 

— Mas isso é um exagero. Não é pra tanto, não acha? Só falta dizer que ela vai me fazer ouvir toda a discografia da Luiza Sona… aí seria tortura demais até para os padrões infernais.

Angélica pareceu confusa.

— E-eu não sei o que significa… mas se for torturante, minha irmã com certeza vai usar!

— Ei! Não fale assim! — reclamou Clara Lilithu. — As músicas dela não são tão ruins. E ela dança bem.

Angélica assentiu, num misto de surpresa e admiração.

— Então você também é admiradora das artes da tortura, senhorita súcubo?

— Não! O Abigor tá te zuando. Luiza Sona é uma cantora. Não tem nada de tortura. Ele mentiu!

— Ah… — Angélica pareceu chocada. Depois, encheu as bochechas de ar, deixando-as inchadas, e Renato achou que ela parecia uma criança qualquer fazendo birra. — Pois por causa disso, vai ganhar mais alguns anos de tortura!

— Oh, droga — lamentou-se ele.

— Eh! Eh! Eh! Vai ver o quanto sou impiedosa! Seus momentos de alegria terminaram!

Nessa hora, ouviram um uivo agudo, estridente feito giz arranhando a lousa. Animalesco. Selvagem.

O brilho da lua esmoreceu. E a noite ficou mais gelada. A brisa cheirou a carne podre.

Abigor sorriu.

— Acho que consegui ganhar tempo o suficiente.

Angélica lançou para Abigor um olhar confuso.

— Ganhar tempo?

— Sim. Nossos convidados chegaram para o jantar.

— Merda! Lobisomens! — gritou Clara, puxando a pistola do coldre e disparando na direção de uma sombra que corria em direção a eles.

Atirou. E a criatura saltou para fora do matagal, com as balas da pistola batendo em seu peito peludo e ricocheteando para os lados.

A criatura se jogou contra Clara. A súcubo largou a pistola e materializou sua Espada do Pecado, e golpeou. E a fera mordeu, e segurou a lâmina entre os dentes.

Então, a fera, ainda prendendo a espada nos dentes, se levantou e ficou em postura bípede, como homem. Devia ter algo entre 2 metros e meio e 3 metros. Do focinho alongado, saía uma gosma nojenta e fedida, escorrendo por entre os dentes.. Golpeou com sua mão cheia de garras.

Clara se tornou em névoa, e sua espada também, e ela reapareceu sobre os ombros da criatura, com a espada em punho, numa pegada invertida, e golpeou mirando as costas. A ponta da lâmina bateu pouco abaixo do ombro, ao lado de onde estaria a coluna vertebral. Local exato onde a espada poderia encontrar o coração pulsante de homem debaixo de toda aquela carcaça de monstro.

Porém, o pelo era denso e duro demais, e servia como uma carapaça. A espada não conseguiu penetrar no corpo do monstro, e então o lobisomem direcionou o braço para trás, e conseguiu segurar Clara, e a jogou com força. A súcubo bateu contra o carro, num impacto forte o suficiente para ele balançar e se deslocar um pouco de sua posição, e o corpo de Clara girou no ar, e continuou sua trajetória até se chocar contra o chão. E a criatura lupina saltou e correu em direção a ela sobre as quatro patas, salivando de fome e grunhindo. 

Acontece que esse lobisomem não era o único. Uma matilha inteira estava atacando-os. E, enquanto Clara ainda lutava contra aquele lobisomem, outros três cercaram Mical e Jéssica.

Jéssica segurou o dedo no gatilho e disparava seu fuzil enlouquecidamente, em todas as direções. Mical teve que se abaixar para não ser atingida. Porém, um deles se aproximou da garotinha, resistindo aos tiros. Era maior e tinha aspecto mais assustador. De seus dentes, escorria saliva, e de seu rosnado, quase saiu uma voz de homem. “Faminto” dizia ele, num tom gutural.

E o monstro segurou o calcanhar de Mical e a puxou. A garotinha abraçou a bazuca, trazendo-a junto de si, e assim que o monstro abriu a boca para dar a primeira mordida, Mical enfiou a ponta da bazuca na boca dele.

— Então come isso! — gritou ela, e atirou.

A cabeça explodiu em pedaços, com pelos, carne e ossos voando para todos os lados, junto de uma bola de fogo que se ergueu; e enquanto Mical era jogada para longe por causa da força da explosão, viu uma segunda explosão acontecendo bem pertinho, mas seu cérebro nem teve tempo de entender o que acontecia. Ela caiu desacordada sobre o asfalto, próxima do carro.

Dois lobisomens tinham se aproximado de Renato e atacavam ao mesmo tempo. Cada um tentando puxar um pedaço do garoto para si.

Ele desviava como podia. Se lembrou do treinamento que teve com Kazov, o reptiliano, onde também teve que lidar com garras e dentes. Se não tivesse passado por aquilo, provavelmente já estaria morto.

E, enquanto desviava dos ataques, evitando as mordidas e garras, meteu a mão na bag e puxou uma granada, arrancou o pino e jogou contra um dos monstros. Mas, aparentemente, o lado humano da besta reconheceu o objeto e, num tapa, mandou a granada para longe. 

E, logo em seguida, a criatura pulou sobre o garoto, e Renato desviou do ataque, movimentando seu corpo para o lado. Foi quando  viu que um dos monstros estava sobre o carro, e rasgava a lataria com suas garras, farejando a demi-humana inconsciente; e também viu Mical sendo agarrada por um deles, e o garoto se desesperou, e ficou em dúvida sobre o que fazer. 

Ele viu Mical metendo a bazuca na boca do lobisomem que a segurava.

— É isso! Vamos explodir todos! — gritou ele.

E o garoto jogou mais uma granada, em direção ao lobisomem que estava sobre a van. A criatura estava tão faminta, tão concentrada na demi-humana indefesa, que nem viu o pequeno objeto ovóide se aproximando. A granada explodiu próximo ao rosto do monstro, poucos milésimos de segundos depois de Mical disparar sua bazuca contra o outro.

Porém, logo depois de jogar a granada, sua guarda ficou baixa por um momento muito curto. Tão curto que seria imperceptível para um humano, mas um lobisomem poderia notar. Uma das feras atingiu uma patada em Renato, e ele rolou no chão, sangrando, e a fera correu até ele numa postura de quatro feito um lobo, e Renato concentrou toda sua raiva no punho, e direcionou a energia, como tinha aprendido, e desferiu o soco mais forte que conseguiu.

O soco de Renato fez a fera ser empurrada para o lado, e ela grunhiu de dor, e suas patas ficaram trêmulas. E o garoto aproveitou para desferir mais um soco. O segundo golpe pegou na parte de baixo do pescoço. Foi um soco de baixo para cima, como um gancho, e sua força fez o corpo da criatura se erguer; e, enquanto  o monstro diante de si estava atordoado, Renato tentou o terceiro golpe. Mas foi aí que o segundo lobisomem pulou sobre ele.

As garras do bicho deslizaram sobre a carne das costas de Renato. O garoto sentiu que estava sendo cortado ao meio. E, então, o monstro afundou os dentes em seu ombro.

Renato caiu, com aquela coisa gigantesca e monstruosa grudada nele, mordendo seu ombro, próximo ao pescoço, e com o sangue vermelho vivo escorrendo como correnteza. Suas forças estavam abandonando-o. A visão foi ficando embaçada, e a luz desaparecia de sua visão.

E muitos mais lobisomens estavam saindo da mata. A matilha parecia não ter fim. Era como um exército animalesco, selvagem, faminto, feito de garras e dentes. Um rugido grave e gutural veio de algum lugar, e se transformou num uivo, assustador a ponto de congelar os ossos.

Olá, eu sou o Max Sthainy!

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