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Assim que o anjo caiu no chão, morto, Renato cambaleou e também caiu. Fez uma careta de dor e se levantou com dificuldade.

— Tô todo dolorido…

Clara riu.

— Eu não. Eu tô de boa.

— Sei…

Olhou na direção onde Jéssica e Mical tinham caído, e o que viu foi algo digno de um pesadelo. Mesmo depois de tantos horrores, coisas como essa ainda o chocavam.

Ele correu até elas. 

As duas irmãs estavam flutuando. Seus pés não tocavam o chão, mas deslizava no ar a uns dez centímetros de altura.

Giravam em volta uma da outra, como um sistema estelar binário, e dos olhos delas saía um fraco brilho alaranjado, como a chama de uma vela.

— Mas o qu… — Renato quase tocou em Jéssica, mas Clara o deteve, segurando seu braço.

— Não sabemos que tipo de feitiço é. Melhor não tocar.

— Mas…

— É magia angelical.

— Angelical? Então pode ser algum feitiço que Uriel lançou?

— Não. O feitiço teria se desfeito com a morte dele. Foi outro anjo.

— O que diabos… ?

*

Primeiro Mical sentiu aquela textura farelenta e o gosto de areia na boca; cuspiu. Depois percebeu o calor terrível que tocava cada centímetro de sua pele. Era como estar dentro de um forno.

Tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras pareciam coladas. Tentou muito até conseguir. E viu, caminhando próximo de seu olho, com oito patas e um ferrão na cauda, um escorpião amarelo. A garota, no susto, se afastou rapidamente.

Depois, ficou de pé e encarou  o bicho por alguns segundos, e corajosaente o chutou para longe. Olhou em volta, e tudo o que viu foi areia. Amarelada. Dunas ondulantes tomavam toda a paisagem, refletindo o sol. Os olhos arderam. O suor descia pela testa e, devido a quantidade, venciam a barreira da sobrancelha. O vento soprava, erguendo areia e pedaços secos de alguma gramínea morta.

— Jés!

Sua irmã estava caída, inconsciente.

— Jés! Jés! — Mical começou a sacudi-la, desesperadamente.

— Jés! Acorde, por favor!

— Ai, minha cabeça… — disse a irmã mais velha.

— Jés!

— Mica… onde… o que aconteceu?

— Eu não sei.

— Onde estamos?

— Não sei.

Por falta de opções, fizeram a única coisa que podiam: andaram. Cruzaram aquele deserto imenso, subindo e descendo as dunas, tropeçando, com o sol lhes queimando a pele.

A boca seca; o ar arranhava ao passar pela garganta. Volta e meia, uma miragem as confundia. Viam um lago distante, e quando finalmente se aproximavam, encontravam apenas mais areia e calor.

Até que algo mudou na paisagem. Uma grande sombra negra serpenteando no fim do horizonte, como se fosse uma cobra de proporções estratosféricas deslizando através das dunas.

— Por favor, Deus… que não seja outra miragem! — disse Mical, ofegante.

— Não é!

Quanto mais se aproximavam, mais evidente ficava que aquele sombreamento em volta da serpente eram árvores. E a serpente era na verdade um grande rio que cruzava o deserto.

Apesar de cansadas, correram. A esperança de finalmente matar aquela sede infernal dava-lhes força. E as árvores, com suas sombras frescas, eram a coisa mais sedutora do mundo.

Assim que chegaram perto o bastante, viram surgir no campo de visão aquela gigantesca pirâmide de pedra. E, logo em seguida, as outras duas também ficaram visíveis.

— isto é… — Mical não podia acreditar nos próprios olhos.

— O… Egito… ?! — Jéssica parecia ainda mais surpresa.

— Ah, eu tô com tanta sede! — Mical, sem pensar duas vezes, pulou em direção às águas do rio.

Mas Jéssica a segurou pelo braço.

— Cuidado! Veja… crocodilos.

Mical engoliu em seco.

— A sede passou.

Nessa hora, um grito agudo, estridente, ecoou pelos ares.

O som era uma mistura de grito de mulher com o piado de alguma ave de rapina.

E aquela criatura terrível pousou sobre a maior das pirâmides, na parte mais alta. Tinha um corpo de leão e um par de asas como de pássaro. Mas era o rosto humano que a deixava mais assustadora.

A criatura olhou diretamente para Jéssica e Mical. Seus olhos eram azuis. Olhos humanos.

— Garotas… — disse a criatura. Sua voz era tão aguda que dava gastura.

— Vieram até aqui. Conseguiram. Ele as encontrou.

— O que é você? — perguntou Jéssica.

— Sou aquela que guarda os portões. Respondam o enigma ou nunca mais despertarão. — Da voz da criatura, um sibilo de serpente pôde ser distinguido.

— Um enigma… ? — Jéssica engoliu em seco.

A criatura prosseguiu:

— Quanto mais os homens ganham, menos os homens têm. Machuca, dói, mas ninguém quer largar. É tudo o que existe pra você; mas não é nada dentro de tudo o que existe. Descubram a resposta!

Assim que terminou de falar, a criatura pôs pra fora aquela língua bifurcada, passando-a pelos lábios, como alguém ansioso por uma refeição saborosa.

E vapor saiu de suas narinas.

— O-o que acontece se errarmos? — perguntou Jéssica.

— Ora, mas que pergunta tola, menina! Se errarem, eu as estrangularei, quebrarei seus pescoços e comerei seus corpos antes que esfriem.

— Esfinge…

— O quê? — Jéssica ergueu uma sobrancelha.

— A esfinge, Jés! É a esfinge da história de Édipo!

UmAlnGI

Jéssica baixou a cabeça e começou a pensar.

— Precisamos descobrir a resposta.

— Sim!

As duas sentaram-se à sombra de uma palmeira, à beira do rio Nilo, e começaram a pensar. Pensaram por horas, mas não conseguiram chegar a uma resposta que se encaixasse com o enigma.

— Andem logo! Têm até o pôr do sol. Se até lá, não responderem, eu as matarei! — Novamente a Esfinge passou a língua bifurcada nos lábios.

Mical se levantou, eufórica.

— E se for o tempo, Jés?

— O tempo? Como assim?

— Quanto mais tempo de vida os homens ganham, menos tempo de vida eles tem pra viver! Faz sentido, né? Só pode ser isso!

Jéssica parou pra pensar na possibilidade.

— Não é o tempo.

— Mas… faz sentido! Veja…

— Não é. O tempo que temos realmente parece tudo. Mas ele também é indissociável do próprio universo. O tempo é importante pra Criação inteira. Não faz sentido com a última parte do enigma em que diz que “não é nada dentro de tudo o que existe”. O tempo é tudo dentro de tudo o que existe.

Mical suspirou.

— Droga! Você tem razão…

— Tá vendo? Eu não lia só livros de teologia. — Jéssica respondeu com um sorriso. — Mas seu raciocínio está certo.

— Hum?

— Existe algo que realmente é tudo o que temos, mas se comprarmos com a perspectiva geral, não é nada. Algo que quanto mais o homem ganha, menos lhe resta.

— Jés…

— É a própria vida. Quanto mais tempo de vida o homem ganha, menos tempo de vida lhe resta. A vida do homem é todo o seu universo. Todas as lágrimas e sorriso, todos os amores e ódios, todas as lutas e comemorações. Tudo tá dentro da vida do homem. Mas, se comparar isso com o Universo, não passa de nada. É um mísero milésimo de segundo. Ainda menos que isso! Tudo o que temos é nada perante o Todo! Tudo o que temos é a Vida! Essa é a resposta, Esfinge!

A criatura fez uma careta de puro ódio. Vapor saiu de suas narinas e ela gritou. Bateu as asas e, no alto, voando em círculos, gritou:

— Trapaça! Elas trapacearam! Trapaceiras! Devem ser comidas! Trapaceiras! Devem ser comidas!

E, de repente, um forte terremoto se iniciou.

A terra sacudia, as águas do rio ondulavam e chacoalhavam ferozmente. Os crocodilos, assustados, mergulharam. Alguns apenas nadavam desesperados para lá e pra cá.

— Jés! O… o que tá acontecendo?!

— P-parece o fim do mundo!

As árvores do oásis tombaram. Uma tempestade de areia se iniciou.

E uma fenda se abriu, partindo a terra ao meio.

A água do rio começou a escorrer pra dentro.

A fenda não parava de crescer. Parecia que todo o planeta seria dividido.

As pirâmides desmoronaram.

E enquanto o chão desaparecia, Mical e Jéssica caíram no vazio que se abria sob seus pés.

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Olá, eu sou o Max Sthainy!

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