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1

Ayasaka agoniava, sofrendo com uma dor latejante na cabeça que a despertara de seu estranho sonho.

— Não… não posso gritar — Ayasaka disse, encolhendo-se em uma superfície semelhante à de uma cama macia.

À medida que a dor começou a aliviar, Ayasaka aos poucos se acalmou, recobrando a noção de espaço. Ela percebeu que ainda estava deitada na cama de Tuphi. Lágrimas começaram a escorrer irrefreavelmente pelo rosto fino de Ayasaka, chorando enquanto olhava para o teto do quarto.

— Tantas pessoas… mortas… não pode ser real — Ayasaka sussurrou em prantos. Ela não parecia se lembrar da segunda parte do sonho.

— Eu não sei o que fazer. Não tem nada que eu possa fazer, quem é aquele cara… — a garota disse, virando de lado com dificuldade devido às dores no corpo.

Ayasaka ficou sem reação ao subir seu manto e observar o lado esquerdo de seu corpo de pele branca, de onde vinha a dor. Perto da região das costelas, inúmeros hematomas e alguns cortes ligeiramente abertos, mas que não sangravam. Ela estava imóvel, com o manto levantado e o seu delicado corpo exposto, observando as feridas enquanto lágrimas caiam, sem expressão.

— O que?…

Ayasaka estava tendo um colapso emocional, e aparentemente nada poderia ajudar naquele momento. Nenhuma linha de pensamento concreta vinha à mente da garota, apenas um desespero melancólico aumentado pelo quarto vazio e rústico, que só tinha ela no momento, sem nenhum sinal de Tuphi ou Beatrice.

Ela sentiu como se todos os seus sentidos estivessem aguçados — tato, olfato, audição — uma posição desconfortável. Até a temperatura parecia ter se tornado mais incômoda para ela. Não sabia se era algo relacionado a ela ou simplesmente a sensação de mais uma crise de ansiedade, algo a que estava acostumada em sua vida.

Segundo ela, as crises eram as piores sensações de sua vida e o seu pior medo.

“Eu não quero… me mexer… não quero sair desse quarto, nem dormir… não queria existir”, pensou Ayasaka enquanto arrumava seu manto com suas mãos enfraquecidas, que não conseguiam pegar nada com firmeza.

— Mestre?

Uma pequena garota com um semblante preocupado entrou no quarto silenciosamente, olhando para Ayasaka. Era Tuphi, que carregava uma muda de roupa limpa em suas mãos. Ayasaka, deitada de frente para a parede, não demonstrou interesse algum em responder à voz da garota lobo.

“O estado dela realmente piorou né?”

— Enfim, estou entrando

A garota lobo se aproximou da menina de aparência fraca que estava acordada deitada em sua cama.

— Trouxe isso para você. Você precisa se trocar, mestre — Tuphi disse após sentar-se na ponta da cama ao lado de Ayasaka, colocando a muda de roupa dobrada ao lado de seus pés.

— …Sinto muito.

— Mestre?

 Tuphi, desentendida, olhou para o lado em direção a Ayasaka, que ainda estava deitada de costas para ela.

— Eu não sou a garota da profecia. Não sou digna de ser chamada de cavaleira de dragão. Não chego nem perto de um Cavaleiro de Dragão de verdade.

— Mestre…

— Eu não sou salvadora de ninguém.

— Mestre…

— Eu sou incapaz, não sei cuidar nem de mim mesma, sou um…

Em um movimento delicado impedindo que a garota continuasse a se lamentar, Tuphi envolveu os braços por cima de Ayasaka, apoiando suas macias orelhas de lobo em seu cabelo que estava espalhado no travesseiro de penas de ganso onde Ayasaka estava deitada. Momentos após o movimento repentino, Ayasaka percebeu o que estava acontecendo, era um abraço.

— Você é a luz.

— …

— Você é o meu motivo de seguir em frente, você é o meu motivo de querer continuar viva, você é o meu motivo para querer mudar esse mundo regado de injustiças, você é um símbolo, você é o espírito da profecia… Não, você é o espírito da resistência, a esperança de milhares de famílias que ainda sonham em ver a Terra da Liberdade novamente. E eu jurei quando menor que iria ser seu braço direito, lembra disso, mestre?

O silêncio pesado que havia se instaurado no quarto rústico após a declaração de Tuphi foi rapidamente quebrado por um choro ameno e arrastado que de Ayasaka deitada de costas para a menina lobo, que estava abraçando-a por cima de seus ombros quase deitada por cima dela.

Minutos se passaram até que o choro de Ayasaka lentamente cessasse, enquanto Tuphi permanecia ao seu lado a todo instante, esperando que a garota se acalmasse, em silêncio.

— Tuphi… — Ayasaka disse em uma voz rouca e abafada, com o rosto afundado no travesseiro.

— Sim, mestre?

— Eu não consigo… me… mexer… para me trocar — Ayasaka disse com extrema vergonha e um tom quase nulo.

— Eu te visto, mestre. Na verdade… Você deveria tomar um banho, faz três dias que você está aqui deitada. Vou te banhar. — Tuphi sugeriu, e Ayasaka balançou a cabeça em sinal de discordância à menina lobo. — Você não tem escolha! Vamos!

2

Tuphi tirou Ayasaka de suas costas e a colocou delicadamente sentada no chão de madeira, perto da banheira do cômodo da casa de banho. A garota, fragilizada, permaneceu imóvel, suas bochechas coradas, assemelhando-se a uma boneca de seda artesanal.

— Pronto, mestre. Vou te despir — disse Tuphi com uma voz amena e reconfortante, aparentemente tentando deixar Ayasaka o mais confortável possível.

Na medida em que Tuphi levantou o sobretudo amarrotado de Ayasaka, expondo sua delicada pele branca, ela teve um choque inesperado. O lado esquerdo do corpo de Ayasaka, mais precisamente próximo às suas costelas, estava repleto de hematomas e cortes profundos. Ayasaka tentava omitir isso de Tuphi para não a preocupar, mas a ideia do banho arruinou completamente seus planos.

Tuphi parou de subir o manto da garota por um instante, perplexa com a cena à sua frente, enquanto Ayasaka olhava para o lado. Porém, como se nada tivesse acontecido, ela continuou a despir Ayasaka com o maior carinho que conseguia no momento, ignorando a visão de um corpo incrivelmente machucado.

— Não precisa falar. Nós iremos cuidar disso, não se preocupe, mestre — afirmou Tuphi.

Ela torceu um pano branco regado de água morna pronto para passar no corpo de Ayasaka.

— Sabe, eu fico triste em não poder fazer nada sobre a sua situação no momento, por não ter poderes curativos, mestre — lamentou Tuphi, colocando atenciosamente o pano morno sobre os finos ombros de Ayasaka e começando a passar por toda a superfície ao redor de seu pescoço e da parte de cima de suas costas, colocando seus cabelos curtos pretos para o lado.

— Tu… Tuphi…

— Sim, mestre?

— O que é… a Terra da Liberdade?

Tuphi soltou uma risada meiga e afundou o pano novamente na água morna.

— Então você prestou mesmo atenção na minha declaração de amor para você, mestre?

— Isso foi de um banho para um genocídio a pessoas tímidas em instantes, cachorro idiota… — Ayasaka sussurrou.

— Dessa vez, eu vou deixar passar, já que aparentemente você ainda é capaz de formar frases completas, isso é bom.

— Me senti uma deficiente — Ayasaka disse com uma risada baixa.

3

— A Terra da Liberdade, né?… — Tuphi suspirou enquanto limpava com cuidado a pele machucada de Ayasaka.

— Um dia, Ataraxia foi conhecida como a Terra da Liberdade, protegida pelos quatro Cavaleiros de Dragões e pelos Celestes, com o apoio do Deus dos Ventos, Gale. Ele dizia que a liberdade de Ataraxia residia nos ventos matinais, espalhando o orvalho delicado pela manhã pelas gramas azuis das planícies infinitas. Se o vento fosse forte demais, o orvalho sumiria. Se fosse espesso demais, o vento não o espalharia. Equilíbrio entre ambas as partes fazia o orvalho platinar os vastos campos, espalhando a liberdade.

Tuphi com um sorriso ameno, dirigia-se à garota de costas para ela enquanto torcia o pano.

— Gale, entre todas as Divindades, foi quem liderou nosso reino por completo, incluindo todas as raças. Todos o respeitavam, dos Cavaleiros de Dragões à Família Celestial, e até mesmo as outras Divindades, mesmo ele tendo um humor bem… duvidoso.

— Divindades?… — Ayasaka perguntou, com a cabeça abaixada enquanto Tuphi passava o pano úmido em seu corpo.

— Sim, as Divindades dos Destinos Sagrados. Seres ancestrais que habitam Ataraxia desde os primórdios. Cada um, detentor de um dos Destinos. São sete destinos no total, onde cada um representa uma parte de Ataraxia. Sendo o Destino dos Ventos o pilar de todos e o princípio para Ataraxia: a liberdade.

— E… os outros destinos? — Ayasaka perguntou, intrigada.

— Zytlhon, Deus dos Contratos: cuidava das negociações, priorizando a lealdade. Agnus, Deus da Igualdade: uma entidade luminosa que garantia igualdade a todos. Lyuv, Deusa da Razão: implacável com incoerências, justa com os simples que buscavam lógica. Laud, Deus da Fartura: garantia águas cristalinas para colheitas férteis. Quartz, Guardião dos Portões da Eternidade: mentor do submundo. Miyan, a Eterna Criança: zelava pelas crianças, protegendo-as. E por último… Gale. Deus da Liberdade. Aparecia como um garoto simples, foi o pilar de Ataraxia, ensinou a liberdade e estabeleceu “A Terra da Liberdade”. Todos, filhos de Pryia, a Deusa da Criação, Deusa dos Deuses.

Tuphi torceu o pano que passava no corpo de Ayasaka, encerrando o banho.

— Pelo menos costumava ser assim, antes dele.

— Dele?

— Avidus. — Tuphi prosseguiu, com voz pesada. — Desafiou as Divindades, deu início à Era da Trapaça e à Terra sem Deuses. Lendas dizem que ele é uma Divindade esquecida, corrompida pela amargura, tornando-se o Vazio Corruptor, uma Divindade Inferior.

— E os Celestes?

— Derrotados ao lado de Gale. Nada puderam fazer sem o Destino da Liberdade… Os Cavaleiros de Dragões, ninguém sabe o paradeiro. De todo esse caos surgiu a profecia — a garota lobo começou a vestir Ayasaka, encerrando a sessão de banho.

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Olá, eu sou o Flugelu!

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