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Ayasaka lutava para respirar, tentando recuperar o fôlego enquanto tossia e se debatia na cama. A sensação de ter os pulmões vazios a deixava desesperada, seguida por uma tontura momentânea.
— Que merda é essa? — A garota tossia, escorada nos cotovelos, olhando para o travesseiro na tentativa de normalizar a respiração.
— Uma floresta… e agora essa falta de ar? — Ayasaka reclamou ao se sentar na cama. — Que horas são? — Ela dirigiu o olhar para a janela fechada, deduzindo pelo delicado feixe de luz que já era o início da manhã.
— Será que tem alguém acordado? — Ayasaka levantou da cama, decidida a descobrir.
Caminhando pelo morno corredor do segundo andar, iluminado por uma grande janela ao fundo, Ayasaka percebeu que a casa estava mergulhada no silêncio da madrugada.
— Acho que acordei cedo demais. — Comentou Ayasaka, observando as portas fechadas ao seu redor. — Talvez eu tome um banho e dê uma volta. — Concluiu, tocando o queixo.
Direcionando-se à sala de banho, Ayasaka despiu-se e adentrou a banheira de águas mornas, encontrando conforto mesmo em uma manhã quente.
— O que foi aquilo? Uma floresta? — Ayasaka se questionou, olhando para cima enquanto afundava na água até o pescoço. — Mais um mistério inexplicável para Mio Ayasaka. Se já não me faltava coisa para fazer, agora é que não falta mesmo.
Ainda imersa em pensamentos, Ayasaka saiu da água, vestiu seu característico manto azul e se preparou para enfrentar mais um dia no mundo alternativo.
— Certo… vamos lá — Ayasaka abriu a porta da frente da casa, Kazewokiru já em suas costas, deparando-se com um dia claro e ensolarado na movimentada rua, repleta de pessoas circulando.
O objetivo da garota era deixar o vilarejo e encontrar Fos para conversar com o dragão.
Caminhando pela movimentada rua central do vilarejo, onde se concentrava o comércio diversificado, Ayasaka observava joias, utensílios e alimentos sendo negociados.
— Eu ainda não entendo como uma vila pode ter um comércio tão forte sem nenhum tipo de moeda, esse Raxy é complicado, cara! — Ayasaka reclamou, mão na nuca, observando a agitação do mercado ao ar livre.
— Ei! Moça do violão! — Uma voz fina cortou o tumulto, enquanto algo agarrava o largo manto de Ayasaka.
— Hã? — Ayasaka, desatenta, olhou para baixo na direção do fraco puxão em sua roupa.
Duas pequenas garotas encaravam Ayasaka, seus olhos brilhando enquanto observavam a barda. Desentendida com a ação repentina, Ayasaka notou algo peculiar nessas crianças. Cada uma possuía um par de orelhas fofas acima da cabeça, semelhantes às de Tuphi, mas com uma aparência mais felina.
— Moça, você é a barda que tem um dragão maneirasso né? — Uma das garotinhas perguntou destemidamente, sua fina cauda cinza se equilibrando atrás dela. Na ponta da cauda, um laço branco um pouco amarrotado.
— Barda…? Ah, o Kaze? — Ayasaka puxou o violão de suas costas, cujas cordas eram transparentes. — Ele é o meu companheiro. — Ayasaka deu uma pequena risada. — E quanto ao dragão… — Ayasaka pensou em uma resposta adequada com a mão no queixo, já que as crianças pareciam esperar algo surpreendente. — Sim, eu tenho um dragão e ele é beeem grande! — Ayasaka gesticulou o tamanho de Fos com os braços, fazendo com que as garotinhas soltassem um som de surpresa.
— Eu sou a Tevina e ela é a Terina. Nós somos as cavaleiras mais novas da linha de frente! Qual o seu nome, barda do dragão maneirasso? — A garotinha da direita disse, olhando para Ayasaka com uma expressão convencida. Sua cauda tinha uma coloração rosada que refletia a luz do sol como o pelo de um gato bem cuidado, enquanto a da esquerda tinha uma coloração mais acinzentada em sua cauda e cabelo. As duas não chegavam na altura da cintura de Ayasaka.
— Grande irmã, acho que isso é demais. Somos só duas crianças… — A garotinha com o laço na cauda retrucou a apresentação de Tevina.
Vendo a garotinha de cabelo rosa encarando a de cabelo cinza com uma áurea assustadora, Ayasaka resolveu intervir.
— Ei, ei! Sem brigas, vocês duas. Querem ouvir uma música? — Ayasaka se colocou entre as duas garotinhas, que pareciam prestes a iniciar um duelo épico.
— Músi…ca? — Tevina inclinou a cabeça na direção de Ayasaka, que estava envergonhada por estar no meio das duas garotas de braços abertos em uma rua movimentada.
— Sim! Uma música tocada pela cavaleira de dragão exclusivamente para as duas honorárias cavaleiras da linha de frente — Ayasaka respondeu à garotinha de cabelo rosa com um tom amigável, abaixando os braços.
— Olhe, minha pequena irmã, a barda reconhece meus esforços como cavaleira da linha de frente. Você deveria ser igual. Afinal, é sangue do meu sangue, me entristece você não reconhecer minha grandiosidade como ela, sabia? — Tevina disse, fechando os olhos e colocando as mãos na cintura, em uma pose que exalava autoestima.
Ayasaka olhou para a garotinha surpresa com uma expressão forçada e sua sobrancelha levantada.
— Bom, vamos para o canto da rua. Aqui tem muita gente. — Ayasaka gesticulou para que as garotas a seguissem.
As duas pequenas garotas começaram a seguir Ayasaka, que caminhou até encontrar uma viela pouco movimentada.
— Aqui está bom, eu acho — comentou Ayasaka enquanto adentrava a viela na frente das garotas.
— Grande irmã, eu acho que a barda é uma barda que vai nos abus… — Terina foi interrompida por Tevina com uma cotovelada nas costelas.
— Vai nos abster de ficar no tédio! Sim. — Tevina completou a frase de Terina, que estava caminhando ao seu lado com a mão na barriga.

— É impressão minha ou você quase nocauteou sua irmãzinha?…
Ayasaka suspirou, e se virou na direção de um cantinho na viela.
— Vocês duas, sentem ali — Ayasaka apontou para duas caixas de madeira na beira de uma parede na estreita viela onde estavam.
— Eu fico aqui — completou, sentando-se em um paralelepípedo no fundo da viela, perto das garotas.
Ayasaka pensou em algo enquanto balançava os pés e olhava para o nada, tonalizando com sua garganta seus pensamentos.
— Vamos lá. Essa canção… é sobre nobres cavaleiros. — Ayasaka comentou com as duas garotinhas enquanto arrumava Kazewokiru em seu colo. As garotinhas observavam Ayasaka com brilho nos olhos, em silêncio. — Cavaleiros rebeldes, como vocês!

“Não me decepcione, Kaze. Não sei se isso vai dar certo, mas não custa tentar.”
As cordas de Kazewokiru começaram a cintilar um púrpura avermelhado, iluminando a viela onde as luzes solares eram fracas diante das altas construções de madeira ao redor. Kazewokiru parecia convidar Ayasaka para uma dança depois de dias sem interagir com a garota.
As pequenas garotas ficaram boquiabertas com o brilho que Kazewokiru emanava de suas cordas. Ao ver a expressão das garotas, Ayasaka deu um sorriso com o canto da boca e prosseguiu com a canção.
Ayasaka deu três pequenas batidas ritmadas no corpo de Kazewokiru para definir um tempo e prosseguiu com o primeiro acorde de ré maior, dando início à canção com um tom lúdico, ideal para uma canção dedicada a cavaleiros, algo com o qual ela estava acostumada.

A visão de um campo de gramas azuladas começou a surgir ao redor das três garotas, e a viela aos poucos ia desaparecendo diante de seus olhos. As irmãs nekos ficaram impressionadas com a mudança repentina do cenário, enquanto Ayasaka, de olhos fechados, aplicava o terceiro acorde consecutivo em Kazewokiru, que emanava um azul perolado forte de suas cordas.
Ayasaka começou a cantar sobre uma história de cavaleiros que desbravaram campos desconhecidos, dedilhando fortemente as cordas de Kazewokiru. Conforme a garota recitava o canto lúdico, duas figuras montadas em cavalos brancos se aproximaram das três e começaram a galopar ao redor delas. Os sons de galopes abafados pela grama macia enchiam a audição aguçada das orelhas de gato das garotinhas, que estavam boquiabertas diante do que viam.
Kazewokiru, auxiliado pelas mãos de Ayasaka, lançava uma melodia vetusta, semelhante às tocadas pelos bardos nas tavernas de uma terra esquecida. Ayasaka continuava a recitar sua história veemente com sua voz característica, um pouco rouca.
Os cavalos enfim pararam ao lado das pequenas garotas. Os dois ficaram de pé em suas patas traseiras ao comando das figuras com orelhas e caudas felinas, vestindo armaduras de couro. Tampavam o sol em direção às garotas que estavam sentadas, formando uma pequena e momentânea sombra no rosto delas, que desapareceu logo em seguida dando lugar novamente ao sol forte. As garotinhas colocaram as mãos sobre os olhos, protegendo os olhos sensíveis das cores de seus respectivos cabelos.
As figuras possuíam cachecóis esverdeados que cobriam boa parte de seus rostos, como se estivessem voltando de uma área arenosa. No entanto, as orelhas e caudas felinas não negavam suas identidades…
— Não… não pode ser… — Terina comentou enquanto ficava de pé diante da visão das duas figuras, que estavam de cabeças abaixadas e a mão sobre o peito em cima de seus cavalos, demonstrando respeito em relação às garotas.
Por mais que seus rostos fossem pouco visíveis por conta dos cachecóis, estava claro que as figuras demonstravam um amoroso sorriso diante das pequenas garotas, em meio a olhares afiados de aprovação e esperança.
— Existem pessoas que respeitam sua determinação aparentemente — disse Ayasaka em um tom um pouco cansado após o último acorde em Kazewokiru, dando por encerrado o canto acompanhado do misterioso par de cavaleiros.
Ayasaka sentiu uma leve tontura enquanto via as silhuetas montadas em seus cavalos brancos paradas à observando com um leve sorriso de agradecimento, ao mesmo tempo que aos poucos se desfaziam como uma miragem na paisagem, dando convite à viela pouco iluminada a voltar a ser o cenário inicial.
“Exagerei”, pensou Ayasaka, levando uma das mãos à testa.
— Que incrível! Isso é o poder de uma cavaleira de dragão? Barda, barda! Onde eu consigo um dragão? Da pra comprar um?! — Tevina comentou enquanto puxava o manto de Ayasaka. A garota estava de pé em frente a Ayasaka, que não tinha notado a aproximação dela devido à tontura que acabara de sentir.
— Não seja tola, grande irmã. Um dragão não é um bichinho de estimação… — Terina comentou após o choque das figuras que aparentemente ela conhecia.
— Mas eu quero ser como a Varett! – Tevina retrucou, batendo o pé no chão.
— Você sabe que fim Varett teve. Igual a todos os outros três. — Terina respondeu.
— Baboseira, hunpt — Tevina virou o rosto e cruzou os braços em negação a Terina, que estava com um olhar acolhedor em direção à sua irmã.
— Acho surpreendente alguém ainda falar “baboseira”, isso sim — Ayasaka passou a mão na cabeça de Tevina, que estava com uma expressão emburrada.
— Você pode ser como eu sim. Não sei quem é Varett, mas sei que tudo é possível. E eu acredito em vocês duas. Se Kazewokiru as presenteou com aquela visão, em vão eu garanto que não foi. Tá bom, pequenas? — Ayasaka completou enquanto ajoelhava na frente das pequenas garotinhas. Tevina estava com as orelhas cabisbaixas, decepcionada com o comentário de sua irmã, enquanto sua irmã estava pensativa em relação ao ocorrido.
— Muito obrigada, barda do dragão, pelas palavras carinhosas! — Tevina quebrou o silêncio que durou alguns instantes com uma voz falha e o rosto encharcado de lágrimas. A garotinha estava puxando a roupa de Ayasaka com o nariz escorrendo enquanto gaguejava para formar frases à medida que Ayasaka acariciava seus cabelos rosados.
— Não foi nada. Considere nosso segredinho e um presente da cavaleira de dragão. — Ayasaka sorriu em direção às garotinhas que olhavam para cima, em direção ao rosto de Ayasaka.
— Como você os conhecia? — Terina perguntou a Ayasaka com uma expressão mais séria, enquanto Tevina se afogava em seu próprio choro distraída.
— Quem? Você está falando da visã…
— Nossos pais. — Terina interrompeu Ayasaka, que engoliu em seco as palavras após o comentário curto e sem expressão da garota.
— Hã? — Ayasaka ficou imóvel e sem reação diante da pequena garota que a encarava em busca de respostas.
Terina suspirou em resposta à reação de Ayasaka e balançou a cabeça em um gesto de “tanto faz”.
— Nossos pais saíram em uma expedição da guilda há quatro anos e não voltaram mais. Desde então, fomos adotadas pela linha de frente, por isso Tevina se apresenta como cavaleira. O sonho dela é se tornar uma cavaleira para resgatar nossos pais, cavaleiros da linha de frente. – Terina disse enquanto olhava sua irmã em prantos com um fraco sorriso. — Ela é a minha esperança.
— Meus sentimentos em relação aos seus pais. — Ayasaka levou sua mão direita ao peito e abaixou a cabeça, deixando seu cabelo tampar seu rosto, imitando o gesto de cumprimento que viu diversas vezes em sua estadia em Kratkar. Ayasaka achou que era o gesto certo em se fazer naquela situação.
— Hã? Por que você está assim, barda? — Tevina notou Ayasaka fazendo a posição de respeito após parar de chorar repentinamente.
— Nada, grande irmã. Ela está mostrando respeito em relação à grande prodígio que você é.
— Perfeitamente! Pode relaxar, barda, só me dê seu dragão e está tudo bem. — Tevina comentou, fazendo novamente sua pose que exalava autoestima.
Ayasaka deu um peteleco na testa da garotinha, que fez um som semelhante ao de um gato.
— Ei, quer brigar é? Tá achando que esse violão vai te livrar de uma facada é? — Tevina comentou, levando suas pequenas mãos à testa em uma expressão de dor. — Doeu cara…
Ayasaka deu uma leve risada ao ver Terina passando a mão na cabeça de Tevina como uma espécie de consolo.
“Elas são fortes”, Ayasaka pensou.
— Vamos voltar para a rua principal, anãozinhos – Ayasaka comentou enquanto se levantava e colocava Kazewokiru novamente sobre suas costas.
As irmãs concordaram com a garota em um balançar de cabeça e a seguiram, saindo da viela não muito bem iluminada.
“Que horas são? Acho melhor eu voltar para casa. Não vai dar tempo de ver o Fos.”
— Barda, qual o seu nome? — Terina perguntou curiosa com a mão no lábio.
— Meu nome? Eu não falei? — Ayasaka respondeu surpresa. — Meu nome é Mio Ayasaka.
— Mikoko… Ayaya? — Tevina olhou para Terina com um semblante de dúvidas.
— Meriko Ayayaya. — Terina respondeu à irmã com grande certeza em seu tom de voz.
— Entendi! Mitaryiotaki Ayayayaya! – Tevina levantou os braços e começou a repetir o nome de Ayasaka de maneira errada, enquanto sua irmã concordava acenando com a cabeça.
— Meridional Ayayayayako!
Ayasaka olhou para as garotas de maneira incrédula como se quisesse dar um peteleco em cada uma delas.
— …foi de propósito né seus anãozinhos?… pode ser barda mesmo. Mas de qualquer forma, a Cavaleira de Dragão aqui tem que resolver assuntos de Cavaleira de Dragão, coisas bestas como restaurar a liberdade e coisas do tipo. Tudo bem por vocês nos despedirmos aqui? — Ayasaka comentou sem jeito, levando a mão à nuca com um sorriso envergonhado. Ela não estava acostumada a se despedir e encerrar diálogos.
— Está tudo bem, cavaleira. Foi uma honra poder conhecê-la e do fundo de nossos corações, obrigada pelo maravilhoso presente, Init Tibt Va Dilun. — As duas garotinhas disseram a frase ao mesmo tempo, levando suas mãos ao peito e agradecendo em uma leve reverência de olhos fechados. A sincronia das duas fez com que Ayasaka levantasse as finas sobrancelhas em surpresa à atitude delas.
— Ei ei, que isso, relaxem! Só um toca aqui está bom. – Ayasaka levantou as duas palmas da mão sem jeito diante da formalidade das pequeninas.
– Toca… aqui? — Terina perguntou enquanto ela e sua irmã inclinavam a cabeça em sinal de dúvida ao mesmo tempo.
— Isso. Toca aqui! — Ayasaka fechou os dois punhos enquanto se agachava com um sorriso meigo na direção das garotas.
As garotinhas seguraram os punhos fechados de Ayasaka com a palma da mão aberta, sem entender o que Ayasaka estava querendo dizer.
— Assim serve eu acho… — Ayasaka completou com uma risada sem jeito. — É um cumprimento da minha terra!
— Que legal, barda Mirokoto Ayayano! Vou usar agora. Toca aqui, pequena irmã! — Tevina se virou para Terina com o punho fechado. Terina segurou o punho da sua irmã com a palma aberta, envolvendo-o em sua mão com um sorriso. Ayasaka olhou com a mão na nuca e um sorriso desajeitado.
“Barda, né?” Ayasaka pensou, seguido de um leve sorriso.
— Enfim! Vou indo! Se cuidem, honorárias cavaleiras! — Ayasaka acenou enquanto desaparecia na multidão, olhando para trás e vendo as duas pequenas garotas acenando de volta com um sorriso alegre em seus delicados rostos.
— Tchau Mitaryokotsu Ayayatsu!
— Que sincronização foi essa?!

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Olá, eu sou o Flugelu!

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