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Ayasaka, aos poucos, tentou abrir os olhos, deparando-se com uma visão um pouco embaçada. Algo à sua frente respirava delicadamente, mas ela não conseguiu distinguir do que se tratava. Uma sensação arenosa incomodava suas pálpebras, fazendo-a piscar algumas vezes até que sua visão se normalizasse lentamente.
Diante de seus olhos estava uma bela garota de cabelos cinzas, quase prateados, que descansava ao seu lado de olhos fechados, em uma visão semelhante à de um anjo. Ayasaka percebeu que, pela primeira vez em sua vida, tinha dormido com alguém. Mais especificamente, Ayasaka dormiu abraçada com uma garota. Uma princesa demi-humana.
Quando sua mente processou a cena que passava diante de seus olhos, o coração de Ayasaka acelerou, e a garota começou a tremer levemente, sem muitas reações físicas sobre a situação em que se encontrava. Uma sensação de algo macio, como um cobertor de lã, estava sobre suas coxas, esquentando-as. Ayasaka olhou na direção do objeto que fazia peso sobre suas pernas e, para sua surpresa, era a volumosa cauda cinza com a ponta branca de Tuphi, que a envolvia.
— Ok, é pior do que eu pensava. — Ayasaka sussurrou enquanto olhava para Tuphi, que estava tão próxima dela. O olhar da garota percorreu o corpo de Tuphi, da cauda até seu rosto, que estava deitado em uma espécie de panos, na direção de Ayasaka, intimamente próximo.
Ayasaka corou suas bochechas levemente enquanto analisava cada traço do rosto de Tuphi, mais especialmente sua boca. Lentamente, Ayasaka levou a ponta de seus dedos à bochecha de Tuphi, na intenção de acariciá-la. No entanto, um grande choque percorreu seu corpo no instante em que tocou a pele branca da garota lobo.
Um grande castelo imperial, uma fortaleza majestosa de ângulos retos que se erguia com imponência, agora era engolida pelo inferno das chamas. Sua arquitetura, reminiscente da grandiosidade da Europa medieval, tornava-se uma carcaça em ruínas, perdendo-se em meio ao crepitar de fogo voraz.
Dezenas de guardas reais, cujas armaduras excêntricas brilhavam à luz das labaredas, evacuavam freneticamente as ruas circundantes. O castelo, outrora símbolo de poder e soberania, cedia à destruição imparável, desmoronando em pedaços como testemunha da queda iminente.
As paredes paralelas ao castelo ardiam em um espetáculo de destruição, lançando sombras distorcidas sobre a cidade que, por sua vez, também se rendia ao abraço devorador das chamas. Uma metrópole bem construída, outrora exuberante e arborizada, agora sucumbia à ira do fogo que devorava cada estrutura com avidez voraz.
A visão, de alguma forma, ecoava os terrores de um pesadelo anterior. Figuras moribundas, corpos retorcidos em uma dança macabra, lutavam entre si, exalando fogo de suas bocas carbonizadas. Seus olhares agonizantes se perdiam em todas as direções, como se a própria essência da cidade gritasse em desespero.
Em meio ao caos apocalíptico, a figura misteriosa, aquela que assombrava os recônditos de seus sonhos mais sombrios, emergia novamente. Vestida com sua venda enigmática, permanecia imperturbável no epicentro do desastre, ao lado de um dragão colossal cujas mandíbulas trituravam os corpos ensanguentados dos civis caídos.
A cena desdobrava-se como uma pintura distorcida de horror, onde a destruição se entrelaçava com a presença sinistra da figura encapuzada. Cada detalhe alimentava a intensidade do pesadelo, acentuando a tragédia que se desenrolava diante dos olhos de quem ousasse testemunhar.
As labaredas ascendiam como serpentes vorazes, lambendo o que restava da grandiosidade imperial. Os gritos ecoavam, misturando-se ao rugido do fogo e à cacofonia dos últimos suspiros da cidade. As figuras distorcidas continuavam sua dança macabra, enquanto o castelo se desfazia em cinzas e memórias de uma era perdida.
A figura vendada, imperturbável diante da destruição, parecia ser a personificação da própria desgraça. Seus olhos ocultos testemunhavam o colapso, uma testemunha silenciosa da queda da grandiosidade imperial. E o dragão, símbolo de terror, alimentava-se vorazmente dos vestígios do que um dia fora uma próspera civilização.
Um homem imponente, de estatura avantajada, ostentava uma cascata de cabelos longos e volumosos que caíam como uma cortina selvagem. Suas orelhas, peludas e pontudas, lembravam as do lobo, tingidas por uma tonalidade avermelhada que ecoava a intensidade de sua determinação. Esse ser, dotado de uma presença quase sobrenatural, investia incansavelmente em direção à figura enigmática envolta em sua venda, que permanecia ao lado do majestoso e infernal dragão de escamas carmesim.
No entanto, todos os esforços do homem pareciam ser engolidos pela futilidade, como se estivesse preso em um ciclo inescapável de desespero. A figura, com suas mãos vazias, mantinha-se imperturbável a alguns metros de distância. Seu olhar, oculto por trás da venda misteriosa, capturava a tragédia iminente sem expressar emoção, enquanto o homem se via submetido a uma tortura inimaginável.
O ar ao redor deles parecia vibrar com uma energia sinistra, como se o próprio ambiente reagisse às tensões crescentes. Labaredas surgiam do nada, manifestando-se de forma etérea, como se queimassem o próprio éter. Cada tentativa do homem de se aproximar da figura era recebida com um agravamento das chamas, como se o próprio tecido do espaço estivesse saturado de uma queimadura invisível.
As facas do grande homem, maculadas por correntes que serpenteavam ao redor delas como serpentes enraivecidas, cintilavam à luz do fogo que dançava ao seu redor. Seu intento de alcançar a figura vendada sem expressão era uma dança desesperada com a morte, uma coreografia impregnada de agonia e desesperança.
A figura permanecia imóvel, observando com uma serenidade aparentemente desprovida de compaixão. Não havia necessidade de gestos ou palavras; sua presença era suficiente para ditar o desenrolar trágico daquele momento. O dragão ao seu lado, símbolo da desgraça e tragédia, aguardava como um espectador silencioso a morte do homem que era acompanhado de um dragão que não chegava nem na metade de seu tamanho. Suas escamas carmesins refletiam a luz do inferno que consumiam o ambiente.
Cada estalo das correntes, cada rugido do dragão, reverberava como uma trilha sonora sombria para o espetáculo terrível que se desenrolava. O homem, já envolto em chamas vorazes, parecia estar em uma batalha não apenas contra o fogo que o consumia, mas contra as próprias forças que transcendiam a compreensão humana.
Assim, naquela dança macabra entre o homem em desespero e a figura enigmática, a agonia se entrelaçava com o mistério, e o destino desenhava linhas indeléveis em um quadro de tormento e desolação. O cenário, imbuído de uma aura sobrenatural, testemunhava o embate entre dois seres destinados à tragédia, com o dragão da figura vendada como testemunha silenciosa de um drama que ultrapassava as fronteiras do entendimento humano.
O homem de cabelos avermelhados resistia tenazmente às inúmeras queimaduras que se alastravam por seu corpo, arrancando férteis pedaços de sua carne. Entre gemidos de dor, suas palavras ecoavam como um desafio furioso no cenário caótico.
— Seu desgraçado! Mova-se! Lute comigo dignamente, maldito! Me enfrente! — Vociferou o cavaleiro, cuja expressão feroz permanecia incólume mesmo sob o tormento das chamas.
A figura vendada, em resposta, soltou um suspiro pesado, como se o esforço para manter aquele estranho equilíbrio entre dois mundos que ele parecia transitar fosse uma tarefa árdua. Virando o olhar em direção ao homem, a figura emitiu uma aura de tranquilidade que, paradoxalmente, contrastava com a carnificina ao redor. Nesse momento, uma estranha calmaria pareceu cair sobre o cavaleiro, enquanto as labaredas que o envolviam diminuíam em intensidade, cessando os ataques inclementes.
— Eu vou te dar a honra de ter a morte por meus olhos, pois você é um Cavaleiro de Dragão assim como eu. — A figura vendada proferiu com uma serenidade que beirava o divino. Com um movimento gracioso, levou seu dedo à venda que ocultava seus olhos, erguendo-a levemente para revelar o mistério por trás do véu.
À medida que a venda ascendia, a verdade oculta se desvelava. Olhos profundos e intensos, tão escuros quanto o abismo, emanavam uma luz indescritível. Era como se essas orbes vissem além do físico, transcendo para reinos mais amplos e esotéricos.
O cavaleiro, mesmo em sua agonia, se encontrou cativo por aquele olhar enigmático. A revelação da identidade da figura vendada lançava uma nova perspectiva sobre o conflito que se desenrolava, abrindo um sorriso em seu rosto. O fogo, antes impiedoso, agora pulsava em harmonia com a aura do cavaleiro e da misteriosa figura.
A revelação da identidade da figura vendada lançava uma nova perspectiva sobre o conflito que se desenrolava. O fogo, antes impiedoso, agora pulsava em harmonia com a aura do cavaleiro e da misteriosa figura.
Com um gesto lento, a figura estendeu a mão em direção ao cavaleiro. Um véu de sombras se desprendeu de seus dedos, serpenteando em direção ao cavaleiro como tentáculos etéreos. A serenidade inicial transformou-se em uma sinistra dança enquanto as sombras se enroscavam ao redor do corpo do cavaleiro, como se o tecessem em uma mortalha etérea.
O cavaleiro, ainda cativo pelo olhar, começou a sentir sua essência sendo sugada. A luz em seus olhos se desvanecia, substituída por uma escuridão que se espalhava por sua existência. Cada parte de sua alma era entrelaçada por aquelas sombras vorazes.
A figura, com uma calma imperturbável, observava a morte do cavaleiro como se fosse uma obra de arte macabra. O fogo ao redor, antes em harmonia, começou a dançar de maneira distorcida junto das sombras que se misturavam em sua extensão, refletindo a escuridão que consumia o cavaleiro.
O corpo do cavaleiro, agora envolto completamente pelas sombras, começou a se desintegrar em partículas etéreas. A escuridão se erguia como uma neblina negra, absorvendo tudo que restava do guerreiro. Não havia dor física, mas uma agonia metafísica, uma desintegração de sua essência.
Enquanto o cavaleiro desaparecia nas sombras, a figura vendada permanecia imperturbável. Os olhos profundos, ainda intensos, refletiam a vitória da escuridão sobre a luz. O fogo ao redor, agora distorcido e corrompido, continuava a dançar, marcando a passagem de um cavaleiro que ousou encarar a malignidade nos olhos do indesejado, apenas para sucumbir às trevas que residiam além do véu.
O cavaleiro, agora envolto completamente pelas sombras, parecia se fundir com a própria escuridão. Seu corpo desvanecia-se em partículas etéreas, dispersando-se como cinzas em um vento sombrio. Cada fragmento de sua existência era absorvido por aquela neblina negra, deixando para trás apenas o eco daquilo que já foi um destemido defensor.
A figura vendada, mesmo após consumir a essência do cavaleiro, permanecia imperturbável.
Seus olhos profundos, agora tingidos por uma escuridão que parecia transcender a própria noite, refletiam a vitória da escuridão sobre a luz. Aquela aura maligna, antes apenas sutil, agora emanava com intensidade, como se cada sombra que circundava a figura fosse um testemunho da maldade interior.
O fogo ao redor, uma vez em harmonia com a aura do cavaleiro, assumiu uma dança ainda mais distorcida. As chamas, agora corrompidas pela presença sinistra, ondulavam como serpentes vorazes, consumindo tudo à sua volta. O calor que antes proporcionava vida, agora irradiava um frio gélido, como se o próprio inferno tivesse sido invocado.
Enquanto as chamas dançavam, a figura vendada permanecia imóvel, observando o espetáculo macabro. Cada crepitar das chamas ecoava como uma risada sombria, uma sinfonia de destruição que celebrava a vitória das trevas.
Agora, o campo antes iluminado pela intensidade das labaredas tornou-se um palco para a sombra, onde o cavaleiro, outrora orgulhoso e imponente, fora reduzido a nada. O cenário parecia uma pintura grotesca, um retrato da decadência da luz frente à ascensão da escuridão.
A figura, ainda de pé entre as chamas corrompidas, voltou a cobrir seus olhos com a venda, ocultando novamente o abismo que residia por trás. O dragão ao seu lado, antes devorando os corpos ensanguentados dos caídos, ergueu suas asas em uma reverência sombria.
A figura e seu dragão, como espectros das trevas, deslizaram para o enigma das sombras, envolvendo-se em um manto de mistério enquanto abandonavam o cenário enegrecido. A ausência do que antes fora um valente Cavaleiro de Dragão deixava uma lacuna no coração da cidade, um vazio que ecoava como um suspiro melancólico.
O fogo, outrora impiedoso e voraz, agora queimava em silêncio, uma chama enfraquecida que dançava ao sabor do vento, como um lamento pela perda da luz que um dia havia iluminado aquele lugar. O crepitar das chamas se transformava em uma melodia triste, ecoando pelos destroços da cidade devastada.
Em meio à desolação, uma garotinha de orelhas felpudas cinzas emergiu das sombras, observando a figura com uma coroa de chamas envolta de sua cabeça. O fogo controlado pela figura parecia não apenas consumir as sombras, mas também acalmar os ecos do caos que ainda ressoavam na atmosfera.
Mesmo que a atmosfera ainda permanecesse caótica, com gritos angustiados e o som inquietante de lâminas colidindo ecoando pelas vielas vazias da cidade em chamas. Um homem, montado em seu cavalo, cortava pelo tumulto, habilmente desviando-se dos conflitos carmesins que banhavam as calçadas.
Sem diminuir a velocidade, o homem galante agarrou a garotinha, que permanecia imóvel diante das ruínas do castelo. Ele a acolheu em seu colo no cavalo, um ato de resgate em meio à carnificina. A cena, no entanto, tornava-se cada vez mais abstrata, envolta na penumbra crescente, com o preto tomando conta.
A última coisa distinguível naquele cenário distorcido era o símbolo na roupa do misterioso cavaleiro, que se afastava da violência, como uma silhueta desvanecendo-se na escuridão. Enquanto isso, a garotinha observava, com olhos curiosos e uma aura de esperança, o desenrolar do enigma que se desdobrava diante dela.
A recuperação repentina da consciência fez Ayasaka sentir arrepios percorrendo sua espinha. Seus pulmões, desesperados por ar, provocavam um solavanco no peito. Paralisada, com os olhos arregalados, Ayasaka observava a palma de sua mão, que tremia ao lado do rosto de Tuphi. Lágrimas escorriam por suas bochechas enquanto mantinha um silêncio absoluto.
Num movimento involuntário, Ayasaka levou as mãos ao rosto e olhou para cima, permanecendo imóvel por alguns instantes.
“O que… o que foi isso? Era… era ela? De novo aquele Cavaleiro de Dragão…?” pensou Ayasaka, ainda com o rosto coberto pelas mãos.
A cauda de Tuphi acariciava suavemente sua pele enquanto a garota lobo dormia. Ao sentir o toque delicado dos pelos macios de Tuphi sobre suas pernas, Ayasaka deu um sorriso fraco, iluminado pelos cristais que cintilavam em um tom amarelado em seu rosto.
“Tuphi… o que foi isso?” pensou Ayasaka, virando o rosto na direção de Tuphi, com os olhos encharcados de lágrimas rasas que não eram grandes o suficiente para escorrer de suas pálpebras.

Olá, eu sou o Flugelu!

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