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Ele respirou fundo, acertando outra machadada na fenda aberta do tronco. Seus braços gemiam de dor, seu peito tamborilava, suas mãos mal conseguiam segurar o machado, mesmo assim, ele continuava batendo repetidamente. De alguma forma sentia prazer naquilo. Por quê? Não sabia. Deu outra batida, com mais força que as demais e então a árvore pendeu. Ele se afastou, deixando o tronco tombar no chão. Não precisava se preocupar em acertar alguém, os grupos de lenhadores tomavam distância uns dos outros para prevenir acidentes do tipo.  

— Madeira! — Uma voz gritou em meio ao bosque, seguida de um grande estrondo quando a madeira acertou o chão. Eduardo suspirou. Não precisavam gritar quando derrubavam uma árvore, mas Caio gostava de fazê-lo. 

Raoul, um homem corpulento de barba espessa, começou a cortar os galhos. Foi acompanhado por Caio e Pierce, um homem jovem, aparentando estar acima do vinte. Eduardo os observou por um tempo, recuperando a respiração, e então se juntou a eles. Logo o grupo de recolhimento viria ao ouvir o barulho para pegar o tronco, e ele já precisava estar “limpo” quando chegassem. Fora a décima sétima árvore do dia. Não demorava muito para cortar, uma vez que os machados eram bem amolados, porém limpá-la era custoso. 

Logo, dois homens apareceram, guiando cavalos de carga. Eles amarraram o tronco aos animais, que se esforçaram em arrastá-lo até o rio, onde seriam conduzidos pela correnteza até o velho moinho, para serem pegos por uma barragem feita na superfície. Havia cinco grupos de coletores recolhendo os troncos caídos, auxiliando os cinco grupos de lenhadores naquela parte do bosque. O restante dos homens estava perto do velho moinho, tratando a madeira que chegava. 

Eles os observaram partir, até que Raoul berrou para que continuassem cortando, agora era a vez de Caio. Faziam um rodízio, organizado por Raoul, com cada um cortando uma árvore por vez, a exceção do próprio Raoul. Caio, no entanto, insistia em cortar duas em sequência, o que ninguém reclamava. 

— Por Ellday, estou cansado — bramou Pierce, descanando sobre o enorme machado que carregava, que chegava até a altura de seu peito. 

— Sorte a nossa que o dia está acabando — observou Eduardo, olhando para cima, onde o céu ganhava os tons do crepúsculo. 

— Ah, sim, não vejo a hora de voltar para casa e abraçar minha esposa. 

— Sem conversa moleques — bronqueou Raoul. 

Pierce era bem alegre e falante. Já tinha casado, mesmo sendo tão jovem, e não parava de se gabar em como queria que seu filho nascesse logo, e de como sua esposa o beijava toda a vez que se encontravam. Eduardo brincou que o motivo de ela fazer isso era para ele ficasse quieto, o que arrancou algumas risadas do rapaz. Raoul, ao contrário do colega mais novo e menos peludo, apenas fungava e grunhia cada vez que Eduardo ou Caio tentavam iniciar alguma conversa. Ele fizera parte dos homens que riram junto de Manon. 

— Madeira! — Caio gritou, anunciando ao mundo que uma árvore iria cair. 

Quando terminaram de cortar os galhos, Raoul anunciou que era hora de ir. Eles deixaram o tronco para trás, os coletores viriam pegá-lo no outro dia. Eduardo suspirou agradecido pelo dia ter passado, descansou o machado no ombro, e arrastou os pés atrás de Caio e dos outros. 

— Há, derrubei oito hoje, quantas você cortou? — Caio perguntou com um sorriso no rosto. 

— Cinco, eu acho — Eduardo respondeu esforçando-se para lembrar. 

Caio lhe deu um sorriso convencido em resposta. Não que Eduardo se incomoda-se com isso, era bom que o amigo estivesse feliz por ter lhe vencido, pelo menos até que eles treinassem de novo aquela noite. 

— És bem forte Caio — Pierce o elogiou. 

— Valeu, sempre fazia cinquenta flexões todos os dias. 

— “Flex… soes”? — Pierce ergueu uma sobrancelha. 

— Não conhece, é um exercício, outro dia eu te ensino — Caio bateu no ombro de Piece, que apenas sorriu em resposta. 

— Deixem de conversa fiada e apressem os pés seus bastardos, quero chegar logo em casa — grunhiu Raoul. 

Caio bufou. 

— Posso falar e andar ao mesmo tempo coroa — afirmou entre dentes. 

Raoul apenas escarrou e cuspiu no chão enquanto andava, sem dar-lhe a menor atenção. 

Eles avistaram o moinho. A hélice girava vagamente no alto da torre de madeira envelhecida a margem do rio. Homens musculosos arrastavam os troncos que desciam pela água e paravam na barragem feita na superfície do rio, juntando-os em uma pilha, para que outros os cortassem em tiras com golpes pesados. Paul que estava entre esses, gritava ordens para os demais. Como já estavam no fim do dia, decidiram amarrar os troncos ainda não cortados para que não deslizassem a noite devido ao vento. Caio e Pierce decidiram se juntar a eles. 

Eduardo optou por sentar-se em um toco, observando-os trabalhar. Sentia-se exausto. Os calos em suas mãos latejavam, tanto os velhos, como os novos que conseguira naquele dia. Olhou para o moinho, onde meia dúzia de guardas descansava em uma pilha de feno observando o movimento dos trabalhadores. Havia outros rondando em volta do moinho, a maioria carregava lanças, mas o que chamou sua atenção fora os dois segurando bestas em meio ao pequeno grupo. Eduardo nunca vira uma antes, mas sempre escolhera personagens que a carregassem em jogos de mmorpg. Tanto ele como Theo gostavam de usar personagens de ataque a média distância. Caio, no entanto, preferia os de combate físico, como guerreiros e tanques. 

Eduardo sorriu ao lembrar de suas tardes perdidas jogando com os seus amigos. Esses dias pareciam ter se passado a uma eternidade naquele momento. Provavelmente nunca mais pegaria no controle de um videogame, nunca mais assistiria um episódio de sua série favorita, nunca mais comeria um pedaço do bolo de banana que sua mãe fazia. 

“Eu devia tê-la apresentado a Júlia”, pensou. 

Eduardo olhou para o céu alaranjado e suspirou, lembrando-se das palavras do deus. Seria verdade que eles poderiam voltar? Algo dentro de si duvidava daquilo. Mesmo agora acordava todos os dias torcendo para ver o teto lajeado de seu quarto, ao invés do de Thierry. Mas aquilo não era um sonho ruim, lembrava a si mesmo todos os dias, era a pior das realidades. 

Suspirou outra vez, e então escutou uma agitação estranha. Ele se levantou, tentando entender o que estava acontecendo. Gritos vinham da floresta, seguidos de homens correndo desesperados, então um rugido feroz ecoou, e uma grande criatura de pelos avermelhados surgiu de entre as árvores, atacando aqueles que estavam próximos. A criatura agarrou um homem com suas patas dianteiras, abocanhou sua cabeça e, pondo-se em pé sobre as patas traseiras, separou-a do corpo, estraçalhando-a em sua boca logo depois. 

— Urso Carmim, fujam — Alguém gritou. 

Eduardo sentiu-se nauseado, seu corpo esqueceu de como se mover, conforme observava aquele monstro dilacerar o cadáver caído no chão. O caos se instalou em volta da criatura, enquanto os homens que fugiam se misturavam com alguns mais valentes que avançaram com machados em mãos para enfrentar o monstro, que estava em pé, balançando suas garras, estraçalhando quem se aproximava. Parecia um urso com uma pelugem vermelha, percebeu Eduardo, porém era assustadoramente grande, tendo o dobro do tamanho dos homens que o enfrentavam. 

— Evacuem os jovens e os feridos, deixem os guardas passarem — Paul bradava tentando imputar ordem na situação. 

Os guardas avançaram contra o monstro. Oito lanceiros fizeram uma fileira com as pontas erguidas, tentando mantê-lo afastado, enquanto os besteiros tomavam posição na retaguarda, carregando as armas com setas. Os lenhadores recuaram, alguns gravemente feridos, dando espaço para os soldados lutarem contra o monstro. Os besteiros encaixaram os dardos, apontaram e então dispararam, fazendo um rosnado ecoar quando elas atingiram a criatura, que avançou contra a fileira de lanças mesmo com os dardos cravados em sua carne. 

— Edu, acorda — Alguém o agarrou e sacudiu, gritando. 

Era Caio, seu rosto estava pálido e seus olhos arregalados. Pierce estava ao seu lado. 

— Edwardo, precisámos sair daqui — disse ele em pânico. 

— “Vamo” cair fora, a galera tá se abrigando no moinho, vem — Ele puxou Eduardo, arrastando-o. 

Quando se aproximaram do moinho, se uniram ao grupo que buscava se refugiar na torre. Embora a maioria fosse lenhadores, Eduardo viu alguns homens com bestas e lanças nas mãos. 

 Provavelmente os membros mais covardes da guarda. Ele olhou para trás, onde os membros mais corajosos enfrentavam o monstro. Viu meia dúzia de lanças o empalando, o urso abocanhou a arma de um dos homens e ficou em pé nas patas traseiras, erguendo o lanceiro, que não soltara a arma, o lançando no ar com a boca. Logo em seguida despedaçou outro com um balançar de suas enormes garras. O resto dos lanceiros vacilou por um momento até outra saraivada de dardos acertar criatura, que recuou. As lanças então avançaram novamente. 

Por um momento Eduardo pensou que o mostro seria derrubado, até que escutou um rugido atrás de si, e ver outro monstro surgindo de dentro do rio, atacando aqueles que se refugiavam no moinho. Ele balançou suas garras, e Eduardo pode ver pedaços de corpos sendo arrancados, enquanto uma nuvem vermelha se espalhava pelo ar. 

— Que merda — Caio praguejou. 

— Socorro! 

— Saiam da frente! 

— Por Ellday, alguém nos salve. 

As súplicas se alastraram enquanto o grande urso vermelho perseguia os lenhadores. Eduardo se viu separado de Caio em meio as dezenas tentando fugir do monstro carmesim a sua frente. Tentou entrar no moinho, porém a porta tinha sido fechada por dentro. Ele então se viu prensado contra ela pelos outros lenhadores, que também tentavam entrar. Foi então que uma sombra o cobriu. Era o urso em pé, bem em frente a ele. Não era possível ver o sangue devido a coloração do pelo, porém podia-se sentir o seu cheiro. Eduardo viu quando a pata do monstro se levantou, de algum modo sabia o que aconteceria logo em seguida. Pensou que essa seria sua última visão, porém seu corpo se moveu, quase ao mesmo tempo, não, um pouco antes, e assim pode escapar do golpe que viria. 

Ele se agachou no momento em que a pata do monstro desceu, afundando suas garras no que acertasse. Ouviu gritos esganiçados de dor, e algo quente acertando seu rosto. Ele caiu no chão, sentindo um peso, uma pessoa. Eduardo o empurrou para o lado se desvencilhando, reconheceu a pessoa, era Raoul, mas apenas a parte superior dele. A outra metade estava na boca do urso, que mastigava sua carne. 

Algo abriu caminho através da garganta de Eduardo, e jorrou por sua boca. Ele tossiu, sentindo a ardência amarga em seu paladar. “O que era aquilo, por que estava acontecendo?”, perguntou-se. Quando levantou a cabeça, viu olhos negros, puros, e ao mesmo tempo assustadores, o encarando. Viu-se refletido neles, e, por um momento viu-se como o urso o via. Apenas mais uma presa. 

Foi então que a criatura berrou, virando todo o seu corpo em direção a Pierce, que havia acertado uma machadada nas costas do monstro. Talvez por reflexo, o homem conseguira saltar para trás, a tempo de evitar as enormes garras sujas de sangue, deixando o machado fincado. 

Eduardo se pôs em pé, recompondo-se. O monstro iria avançar em Pierce, ele sabia, o transformando em um amontoado de carne e sangue em um piscar de olhos. Um amontoado de carne e sangue que nunca veria o filho nascer. Eduardo olhou para o lado, havia uma lança jogada no chão. Sem pensar muito, ele a pegou, e pulou fincando-a abaixo da pata dianteira do monstro, no momento que este a levantava para atacar Pierce. O monstro rugiu, talvez por dor, talvez por raiva, não importava, pois sua atenção se voltou novamente para Eduardo, que se esquivou, soltando a lança quando as garras vieram novamente ao seu encontro. Rolou pelo chão, se pondo em pé atrás dele, e, com muita força, retirou o machado preso lá. Queria crava-lo nas patas de apoio da criatura, porém ela foi mais rápida do que o imaginado, e em poucos instantes, seus horrendos dentes estavam a centímetros da cabeça de Eduardo. 

“É o fim”, disse para si mesmo, quando, porém, o monstro se contorceu, virando o pescoço para o lado, revelando um dardo cravado em sua carne. Eduardo não teve tempo para pensar, ele apenas afundou o machado na cabeça do monstro com toda a força que tinha em seus braços. Como se tentasse derrubar uma árvore em um só golpe. Um espesso liquido negro fluiu através do pelo vermelho do urso, que bramou e berrou, tentando agarrar Eduardo com suas enormes patas. Mais dardos o acertaram. Um no ombro, outro nas costelas, e um último em um dos olhos. Eduardo então puxou o machado e golpeou novamente, sujando seus braços com o que parecia ser o sangue da criatura. Quando ela parou de se mover, ele estava coberto de negro, tentando retomar o folego que havia deixado seu peito. 

Eduardo nem percebera que estava prestes a cair. Pierce o apoiou em seu ombro. 

— Edwardo, muito obrigado, louvado seja Ellday por você — disse ele, entre lágrimas. 

— Não precisa agradecer, é sério, se não fosse você, eu também teria batido as botas — respondeu ofegante. 

— Batido as botas? 

— O que quero dizer é, obrigado — Eduardo reiterou. 

— Igualmente — Pierce sorriu. 

— Edu — ouviram alguém gritar. — Cara, que bom te ver inteiro. 

Caio correu até eles segurando algo, era… 

— Isso é… — Eduardo perguntou olhando confuso para as mãos de Caio. 

— Quando vi, aquele bicho estava prestes a te partir em dois, ainda bem que deu tempo de carregar essa coisa — Afirmou ele exibindo uma das bestas que a guarda usava. 

— Foi você? — Pierce perguntou com uma expressão de perplexidade. Eduardo compartilhava o sentimento. 

Vários dardos acertaram o monstro em pouco tempo, atrasando suas reações. Sem isso Eduardo teria sido morto. Mas a quantidade disparada o fez pensar que se tratava de mais de um besteiro, como o grupo que lutava com o outro… 

— E o outro urso? — Ele perguntou assustado. 

— A guarda tá cuidando dele — Caio olhou para onde a luta acontecia. 

Isso sendo que, agora se tratava mais de um abate do que de uma luta, com os homens estocando suas lanças no monstro, que permanecia caído no chão, repleto de dardos sobre o corpo, dando poucos sinais de vida. Podia-se ver vários corpos em volta dele. Porém o mesmo podia ser dito do lugar onde eles estavam. 

Eduardo olhou para o urso que tinham matado. A cabeça fora praticamente desfigurada pelas machadadas que sofrera, e alguns dardos eram visíveis em seu pescoço, e em outras partes de seu corpo, além dos que tinham acertado o olho e boca da criatura. Olhando com mais calma, conseguiu perceber que era visivelmente menor do que o primeiro, mesmo assim partira o corpo de Raoul pela metade. O monstro que minutos antes estava prestes a matar a todos, e eles o mataram, não lhe parecia real. 

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Olá, eu sou o Dellos, o panda!

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