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— …sabe? Eu realmente quero voltar para casa, mas aí tipo, não rola… — O jovem G7 desabafa pelo que deve ser a 100° vez, com a irresponsiva Bruxa, quando subitamente um leve tremor o interrompe.

— Pera… que? A base não é reforçada contra terre… — mais uma vez uma série de leves tremores o para.

O garoto fica com puro horror em seu semblante. Entretanto ele não tem tempo de reagir.

Explosões, gritos e sons de batalha são ouvidos do outro lado da instalação. Uma onda de energia roxa atravessa a instalação e no instante que toca a bruxa, os olhos se acendem, pontos brancos na névoa.

Imitando a Bruxa, os olhos do garoto também mudam de forma súbita, ganhando uma cor branca.

Ambos se encaram por alguns segundos, ninguém disposto a dar o primeiro passo.
Depois do que seria o último tremor perceptível, o garoto, agora com feições neutras, dá um passo à frente aproximando-se da cela.

— Desculpe minha súbita aparição, mas tenho assuntos urgentes a serem tratados com você. Estou aqui pois sua vida está em grande perigo.

A única resposta é um leve levantar de sobrancelha e a mais pura onda de sarcasmo.

— Isso é maior do que suas lutinhas na arena nos últimos meses, risco real.

O olhar dela não muda.

— Reconheço que é difícil acreditar em um desconhecido. Entretanto, o que eu mais desejo é oferecer a minha ajuda.

Ela observa a figura com cautela, o fato de sua expressão se manter sem qualquer pingo de sentimento durante a conversa, não é um ponto positivo para interação.

Finalmente a figura muda, uma leve carranca de frustração.

— Muito bem. Tenho outra proposta então, além de garantir a sua segurança, eu tenho mais um objetivo — A frustração some e depois de uma certa hesitação — Você deve lembrar do seu pai ao menos? O nome Sr. Sundown lhe lembra de algo?

Primeiro ao citar um pai, confusão completa é vista no rosto da Bruxa, mas assim que ele o chama pelo seu apelido, uma onda de fúria parece tomar conta de toda a sala, uma sede de sangue palpável no ar e um olhar que faria a maioria cair de joelhos e pedir perdão.

O ser mantém-se neutro, não sendo afetado por tudo aquilo.

— Ótimo, desejo eliminá-lo, e imaginei que isso seria um ponto em comum entre a gente.

A fúria acaba, substituída por um amargo sentimento de angústia, a Bruxa cerra o punho.

— Saiba de uma coisa, estou falando de uma eliminação completa. Irei ter a certeza de que nenhuma Matriz de Renascimento Ilegal possa o salvar, não dessa vez…

A angústia ainda se mantém ali, mas uma semente de esperança já foi plantada.

— No fim ainda depende de sua iniciativa. Caso considere minha oferta, vá para o pátio de naves. Boa sorte.

O garoto pisca mais uma vez, agora recobrando o controle, ele pula para trás, pálido, ao perceber o quão próximo está da Bruxa.

O jovem fica encarando, pois ali nos olhos, vê uma confusão de sentimentos, uma raiva cansada, mas que muda para uma determinação que fez ele engolir as desculpas que estava prestes a dizer.

De volta naquele cenário claustrofóbico que é sua mente a Bruxa olha mais uma vez a densa muralha, ela sabe que detrás estão as memórias de uma vida inteira. Arrependimentos. Pecados. Talvez algo melhor do que o poço de miséria que foi nos últimos meses. Talvez pior…

Algo na sua intuição dizia que sua mente não aguentaria o que está atrás da muralha, mas ela precisa saber. A onda de ódio que ela sentiu ao ouvir aquele nome tinha sido irreal, aquilo trouxe algo de volta, revitalizou a Bruxa. Aquele ódio foi o suficiente para atravessar a muralha impossível.

A Bruxa então entende. A oportunidade chegou.

Ela sente a energia psiônica se reunindo no espaço mental e direciona-se a presença por ali, a muralha na sua frente treme diante de toda a energia ali. A Bruxa sente a presença mais uma vez mexendo com sua cabeça, tentando distraí-la, como fez durante tanto tempo.

“O nome Sr. Sundown lhe lembra de algo?”
“O nome Sr. Sundown lhe lembra de algo?”
“O nome Sr. Sundown lhe lembra de algo?”

Desta vez a Bruxa não foi distraída.

Uma raposa branca com pontas vermelhas na sua longa pelagem, surge da muralha, ela observa a mulher humana, sua imagem mental quebrada, ela assemelha-se a um monte de tintas de diferentes cores em uma forma vagamente humanoide.

A Raposa tinha posto tanto trabalho nesta pequena armadilha, aquela humana tinha superado suas expectativas, por tanto tempo ela ficou passiva, sem resistir até o momento que tivesse certeza da possibilidade de fuga. Talvez ela soubesse que resistir alertava a insidiosa Raposa da sua localização…

“Uma verdadeira pena. Será um pouco mais trabalhoso do que imagi-”

O monte de tinta se vira em direção da Raposa, interrompendo sua trilha de pensamento.

“Quem diria. Você não só consegue me ver, como consegue ouvir meus pensamentos. Uma verdadeira caixin-”

O monte de tinta não deixa a Raposa terminar, uma explosão de energia psiônica destrói a Raposa de dentro para fora.

As muralhas tremem, mas continuam de pé, agora mais silenciosas.

A Bruxa olha para trás, seu espaço mental dividido entre a muralha e o espaço claustrofóbico, ela nunca foi capaz de perceber muito do local das muralhas, apenas transitar entre os dois.

Agora ela finalmente é capaz de ver grandes campos que parecem estender infinitamente.

Os campos são expressionistas, cheios de miséria e loucura, eternamente vazios, completamente feitos de tinta, assim como sua criadora. O local claustrofóbico é destruído enquanto a Bruxa continua a apreciar os campos, devorando seu significado.

Arte. Um dia ela já amou arte de forma tão profunda, que a mais pura torrente de melancolia a consumiu, quando não conseguiu lembrar o porque.

É como encontrar um grande amigo, sem conseguir lembrar seu nome.

Ainda assim, mais uma pista de seu nebuloso passado, é muito bem vinda.

Quando fugisse da instalação iria explorar aquele lugar de forma melhor. Ali ela não sentia-se patética ou fraca em momento algum, ali o mais puro poder forma seu ser.

Talvez tentaria pintar também depois de sair dali…

Voltando à realidade, a Bruxa finalmente desperta de forma definitiva, depois de muito tempo.

Com um movimento rápido às barras da cela são cortadas e a Bruxa caminha com certo pesar até a porta, passando reto do garoto. Agora percebendo que esta é a primeira vez que a vê com tamanha lucidez no olhar.

Energia psiônica emana principalmente na cabeça. Fios roxos se formam em um cabelo longo e selvagem chegando até os pés da monstruosidade.

Se esconder não adianta mais, fugir não adianta mais, agora está na hora de encarar a realidade e lutar até o fim.

Poucas memórias restam no mar de confusão e estranheza que agora é a mente da Bruxa, mas uma coisa é óbvia.

Sr. Sundown é o seu pai e não importa o que aconteça, mesmo sem lembrar os motivos exatos, ele precisa morrer.

Ele precisa morrer pelas mãos da Bruxa.

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Olá, eu sou o Mulo!

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