Capítulo 15: Morrigan

O Presidente da Guilda faz uma cara de desgosto e começa a ler a carta em voz alta.

— Nós a família, Hagihel, gostaríamos de pedir para que a Guida Mercenária libertasse o Senhor Kergis, também conhecido como, Dieke, porque ele é um grande amigo da nossa família. Caso não o libertem, teremos que tomar algumas providências. — Ele termina de falar e joga a carta em cima da mesa.

Porra!

— A gente consegue reverter isso? — pergunto para ele, enquanto pego a carta para confirmar o que ele disse é verdade.

— Infelizmente, não. Eles nos dão grandes fundos para a guilda, nós iríamos ter que sacrificar vários serviços só para manter a guilda de pé.

Bato na minha cadeira com raiva. Todo mundo sabe que essa família tem um pé no mercado negro, mas não conseguimos prever que eles iriam fazer um movimento tão grande. Eles não têm medo da pressão dos outros nobres? Ou será que os outros não ligam? O Contrabandista é um dos principais mercadores da cidade, ele deve ter também a sua influência nos nobres. Se ele consegue controlar os nobres, não há como fazemos algo contra.

— Não há mesmo para fazer? Podemos pedir ajuda para a Associação das Guildas, ou para a principal guilda dos mercenários — eu pergunto.

— Duvido muito que ambos nos ajudem — ele me responde e solta um suspiro.

Tanto trabalho para nada. Me levanto da cadeira, pego uma chave que o Miriari jogou para mim, abro a porta com raiva, desço as escadas e vou para a prisão da guilda. Entrando lá, vejo o Contrabandista com as costas apoiadas nas grades me olhando. Seu rosto está miserável, com sangue escorrendo, completamente inchado em vários lugares, várias feridas.

— Oi, Senhor Mercenário, como vai? — ele me pergunta sorrindo.

— Seu desgraçado! — Ando até sua cela, seguro ele no pescoço e o levanto pressionando seu rosto contra as grades.

— Calma, calma. O que eu fiz agora? — Vejo seu sorriso aumentar, mesmo com a sua cabeça sendo amassada pela grade.

Ele já sabia que isso iria acontecer. Por isso, nunca se preocupou em morrer. Ouço a porta rangendo atrás de mim e quando olho para ver quem é, observo a criança de olhos vermelhos entrando com a cesta de compras na mão. Solto o Contrabandista, fazendo ele cair no chão. O menino deixa a cesta anda lentamente até nós dois, ele para na frente da cela e olha para a pessoa dentro dela, sua expressão enquanto observa é vazia e fria. O Kergis se levanta do chão olhando para ele.

A criança aponta para o cadeado. Hesito um pouco, mas abro a cela. Ele entra e ambos ficam na frente um do outro. Antes de eu consiga reagir, o menino move sua mão para trás e soca a barriga do Contrabandista, que produz um som alto e abafado, fazendo ele se encolher e cuspir sangue. Kergis fica cambaleando e se ajoelha no chão enquanto geme de dor. Consigo ver ele tendo dificuldades para respirar, também parece que vai vomitar. Força impressionante. Com ele se espremendo de dor no chão, o menino se agacha e agarra a cara do Kergis. Ele fica olhando os olhos dele por um tempo antes de bater a sua cabeça no chão. O garoto se levanta, sai da cela e fica ao lado da cesta esperando.

Observo o Contrabandista tossindo com dor e percebo que não tenho mais vontade de fazer nada com ele, essa criança já fez isso por mim. Tranco a cela e saio da prisão. Já chega de passar raiva por hoje. No corredor o Presidente me pergunta se o matei, eu respondi sim e fui embora.

Depois eu dou um jeito de assassinar esse sequestrador desgraçado. Tenho que o matar após ser solto, se eu fizer isso agora, a guilda irá se ferrar. Só preciso fazer em segredo, com uma operação rápida. Como já peguei todos os seus cativeiros, ele não vai ter negócios no mercado negro por um tempo. Se tiver coragem de continuar com seus negócios, é capturar e espancar até aprender, mas agora não posso fazer nada, só vou ter que achar um jeito de fazer os nobres saírem de perto dele. Esses caras estão cada vez mais ousados, será que o rei está ignorando eles?

Chego em casa e sou maravilhado com a visão da minha filha correndo até mim, me agacho esperando seu abraço, mas ela passa direto indo para os braços do menino de olhos vermelhos. Minha mulher olha para mim, agachado, e ri. É essa atmosfera que gosto, não a de ódio. Coloco a cesta em cima da mesa na cozinha e sento em umas das cadeiras que tem no balcão, observando minha filha brincando com o garoto.

 

#34

A menina e eu estamos sentados em uma mesa do bar, ela está perguntando meu nome. Estou hesitando falar, porque não quero continuar com ele. Aqueles dois o escolheram, mas não vou continuar seu legado, eles já arruinaram minha vida na Terra, não preciso deles também nessa nova vida. Além de fazer eu e a minha irmã sofrerem, nos mataram. É tão repugnante pensar neles. Vicit é um nome bom, porém traz memórias que não tenho de lembrar. Tenho que seguir em frente, esquecer o passado, lembranças não vão me ajudar nisso. Já estou em um novo corpo, então não tem porque continuar pensando no que já aconteceu. Espero que me ajude. Morrigan. Esse era o meu nome em vários personagens de jogos. Pode ser esse, não vou pensar muito nesse assunto, é inútil.

— Morrigan. — Enquanto falo e aponto para mim, uma voz fina sai da minha boca.

Isso é estranho de ouvir.

A menina me olha e fica repetindo “Morrigan” várias vezes. Ela chama seus pais e fica gritando meu novo nome para eles. O pai dela anda em minha direção, enquanto aponta para mim repetindo também. Aceno com a cabeça concordando com o que ele disse. Kynigos parece estar feliz por isso, não sei porquê.

Algumas pessoas estão descendo as escadas conversando, são dois homens musculosos e ambos têm pouco cabelo. Eles sentam em uma mesa perto da janela ao fundo do bar, enquanto falam com a esposa pedindo algo para comer. Sinto o cheiro da comida vindo da cozinha invadindo todo o recinto, parece ser delicioso, deve ser algo salgado, talvez uma sopa. A esposa do Kynigos não fala muito, fico observando ela cortando algo. Eu fui à feira comprar os legumes, mas eles são completamente estranhos aos que são da Terra, formato e cores, provavelmente até o gosto é diferente.

O nome da mulher do Kynigos parece ser Friggia, ouvi os dois conversando e ele repetia essa palavra. Ela parece ter um corpo forte e definido, mas não consigo ver direito, porque sempre veste uma saia longa. Acho que também lutava, já que tem uma postura firme. Seus cabelos castanhos escuros sempre estão presos com um rabo de cavalo, igual ao marido dela. A vejo cortando os legumes rapidamente, mostrando que é hábil, talvez era uma mercenária, por isso ambos se conheceram.

Mais pessoas descem a escada. O bar está enchendo aos poucos, não faz muito tempo que voltei da rua. Quando estava fora, nós fomos para um lugar estranho, mas lá encontrei o mesmo homem que estava no cativeiro. Achava que ele era um comprador ou algo tipo, mas quando vi a reação Kynigos, percebi que foi a pessoa a qual me fez sofrer. Não fiquei com raiva dele, mas sei que iria me arrepender se não fizesse nada, então o bati com todas as minhas forças. Bem, não ligo tanto assim para ele.

A Matys pega no meu braço e me arrasta para fora da casa. Saindo vejo algumas crianças brincando, ela me arrasta para eles, me obriga a brincar com eles também, infelizmente tive que fazer isso, porque é a filha da pessoa que deixa eu dormir na casa dele, não quero magoá-la. Teria que fugir para a floresta de novo caso isso acontece, mas estou bem dormindo embaixo de um teto e sem o risco de um animal me matar enquanto durmo. Bem, já que não consigo falar com eles, fico apenas de fora observando, não há muito o que fazer quanto a isso e até prefiro assim. Não estou acostumado a conviver com crianças, minha infância não teve muita interação com elas, são muito agitadas e cheias de energia, não consigo acompanhar isso.

Apenas sigo a garota e tentando evitar pensar. Olho para cima e observo o céu azul, nele não há nenhuma nuvem, está límpido. Como parece ser verão, sinto o sol em mim, ainda é de manhã, então não está muito quente. No meus ouvidos, ouço as crianças brincando e gritando palavras estranhas. Abaixo minha cabeça e observo eles correndo um atrás do outro. Como não participo da brincadeira, me movo para o canto da rua apoiando minhas costas na parede. O tempo passa rapidamente enquanto isso olho eles brincando, várias pessoas diferentes entram na pousada ou passeiam na rua. Esse lugar é bem mais cuidado do que para onde corri quando fugi do guarda. Uma clara diferença. A rua é bem mais larga, limpa, até as casas são mais bonitas, firmes, caprichadas na construção, parece até ser outro local.

Acima dos telhados, vejo uma muralha ao longe. Ela parece estar no centro desta cidade. Essa muralha também aparenta ser diferente da outra. Essa é mais quadrada, como um castelo, vejo também algumas torres nela, até sua parede é mais grossa e robusta. Ela é distante daqui, porém consigo perceber isso. No céu após essa muralha, vejo várias fumaças. O que será isso? Fogueiras? Não parece ser uma chaminé de alguma casa. Bem, isso não tem nada haver comigo.

As crianças param de brincar, então volto para dentro de casa com a garota. Passado pela porta do bar, vejo vários hóspedes, já acordados, comendo nas mesas, alguns estão no balcão bebendo e conversando com o Kynigos. A menina corre até o pessoal para conversar com eles, eu apenas fico ao lado da porta do bar observando eles.

O Kynigos olha para mim, então me chama. Caminho até ele lentamente, após isso, me indica para entrar na cozinha. Lá dentro, em cima da mesa, vejo dois pratos de comida com um pedaço de pão cada. A garota do nada passa por trás de mim e pega um prato. Olho para a esposa do Kynigos, e ela acena para pegar o prato que sobrou. Lentamente ando até ele. Quando o pego, ouço uma voz fina chamando “Morrigan” nas minhas costas, por isso viro minha cabeça para ver quem é. Metys está sentada em uma das mesas acenando para mim. Caminho até ela devagar, com o prato e o pedaço de pão na mão, sento na mesa e fico parado vendo ela devorar a sopa rapidamente. Com fome, pego o pão preto e arenoso e o como. A sopa é salgada, cheia de legumes, também com alguns ossos. Nada tão luxuoso. Parece que esse pessoal é gentil, acho que não preciso mais me preocupar em sobreviver.

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