Capítulo 22: Caminhada

Após sair do bar vejo o Kynigos me esperando. Fico ao lado dele, então começamos a caminhar indo em direção a guilda. Ficamos em silêncio no caminho inteiro. Quando chegamos na rua principal, vemos uma pequena multidão à frente da Guilda dos Mercenários. São alguns jovens carregando suas bagagens igual a mim. Boto minha mão no bolso do casaco e ando até eles. O pessoal olha para a gente juntos, principalmente os mercenários, também há alguns burburios.

— Fica aqui — fala o Kynigos, enquanto entra para dentro da guilda.

Observo as pessoas daqui, parece que todos que vão para o centro de treinamento são adolescentes e jovens, os adultos que estão aqui devem ser para acompanhá-los antes de ir, bem, isso é óbvio, porém aqui tem menos gente que esperava, talvez chegamos mais cedo. Olho atentamente para os participantes que irão, todos parecem estar confiante, peitos estufados, cabeça para frente. Já imagino que vai ser um saco lidar com eles.

Ando até a parede da guilda e apoio minhas costas nela com as mãos ainda nos bolsos do casaco, mas quando continuo vendo o pessoal, meus olhos se encontram com um menino de cabelos pretos, ele também usa um casaco preto longo, praticamente sua roupa é toda preta. Seu rosto está indiferente, me impossibilitando de analisar o que ele está pensando. Ficamos nos encarando até que ele se vira e anda para outro lugar.

Após esperar por um tempo, Kynigos chega com um outro homem. Meu pai vem até a mim e fica em silêncio, o homem vai para a frente da multidão, então chama a todos para o seguirem. Além das pessoas de fora conversando, vamos atrás dele com apenas o som dos nossos passos sendo ouvidos. Andamos até chegarmos em um portão, o mesmo de quando cheguei aqui. A situação das casas é um pouco diferente da outra parte da cidade, aqui já é mais vazio e silencioso. Esperando no portão há várias outras pessoas, muito mais do que na frente da guilda. Eles também se juntam à multidão, só que antes de sairmos pelo portão, o homem para e diz para nos despedir dos seus acompanhantes.

Me viro para o Kynigos e o dou um abraço, ele apenas retribui. Depois de terminar o abraço, ele bagunça o meu cabelo e fala:
— Vê se não morre.

— Irei tentar.

Após isso, todos saímos da cidade, vi a grande planície e a floresta ainda maior ao meus lados. Observo a gigantesca planície, com algumas árvores esporadicas, a grama verde. Do meu outro lado tem as árvores da floresta, como está no meio do outono, elas estão laranjas, algumas amarelas, cai algumas folhas de vez em quando enquanto as observo. Também sinto o vento frio, mesmo estando bem vestido e de dia, o sol não faz tanta diferença agora.

Seguimos pela estrada por muito tempo, alguns formaram pequenos grupos e estão conversando, eu apenas mantenho minhas mãos no bolso, também observo a paisagem. Vejo todos eles na minha frente caminhando, já que estou bem no fundo do grupo. Percebo que eles ficam me dando olhadas, principalmente para os meus olhos.

Parece que você chama muita atenção, não é Vicit.

Alguém tromba em mim. Olho para baixo, já que sou maior que ele, seu rosto está franzido. Está com raiva por ele trombar em mim?

— Foi mal — digo isso e continuo a seguir meu caminho.

— Como assim, “Foi mal”, se desculpe direito! — Ouço uma voz atrás de mim.

É sério? As pessoas ao redor param para observar o que está acontecendo. Me viro para olhar direito o rosto desse rapaz. Seu cabelo é bem cuidado e sua roupa parece ser cara, provavelmente não é um nobre, mas deve ser alguém rico. É algum clichê alguém rico ser arrogante?

Chego mais perto dele, só que antes dou uma olhada para trás, então vejo o homem que estava com o Kynigos está nos observando em silêncio, parece que não vai vir intervir, por enquanto.

Esse rapaz não é tão mais baixo que eu, porém ele precisa levantar um pouco sua cabeça para me olhar.

— Me desculpe, não quero causar confusão.

— Você sabe quem eu s—-

Antes que ele possa completar a frase genérica, o homem que está guiando o grupo grita para parar. O menino se encolhe de medo, então se afasta de mim. Me viro para voltar a caminhada e agradeço esse homem com a cabeça, ele apenas me ignora e continua guiando a todos.

Continuamos a andar por bastante tempo, até que esse homem para. Ele chama todos para uma trilha que aparece na floresta. Cada um entrou na trilha por vez, fomos em uma fila organizada. Sou um dos últimos da fila, já que estava no final do grupo. Como adentramos na floresta, o lugar é cercado de árvores, o chão tem vários galhos e folhas caídas. O caminho é bem tranquilo. Os raios de sol entram iluminando esse lugar, o deixando mais laranja do que já é. Enquanto observo a floresta, tentando minimizar um pouco do tédio de andar por muito tempo, vejo uma folha amarela caindo, sendo apenas levada à ordens do vento, sem se importar para onde ia, só… Caminhando pelo ar sem nenhum objetivo.

No meio do trecho, há uma árvore caída no chão. Já tem algumas pessoas que a atravessaram, outras em cima dela tentando atravessar. O tronco é largo, talvez da largura e tamanho de um adulto. Quando é minha vez de pulá-lo, tiro minhas mãos do bolso, dou uma pequena corridinha, quando chego na sua frente, uso minha mão de apoio e passo por cima dele rapidamente. Os outros que demoram alguns segundos para passar, ficam me olhando.

Olho para trás, então vejo um menino de cabelos castanhos fazendo o mesmo movimento que o meu, mostrando sua destreza. Não é um movimento difícil, só necessita um pouco de explosão. Depois que fiz isso, as poucas pessoas que estavam atrás de mim também me imitam e conseguem facilmente. Quase todo mundo aqui deve ter algum tipo de condicionamento físico ou treino extra. Como não são pessoas ordinárias, isso não é uma surpresa.

O caminho continuou normalmente e lentamente, a coloração amarela, laranja e vermelha predominou na minha visão, o som dos passos quebrando os galhos e folhas, além do frio que está passando um pouco, já que é quase meio dia. Estou com fome, não trouxe nada comigo, porque pensei que eles providenciaram quando chegamos, só que horas se passaram e não terminamos de caminhar.

Mesmo tendo esquentado, ainda sinto o frio. A tendência daqui para frente é piorar isso. O inverno vai chegar bem no meio do treinamento, parece que fizeram isso de propósito só para piorar nossa situação. Deve estar uns quinze graus celsius aqui, de manhã devia estar cinco e de noite pode até passar de zero.

Mais tempo se passa, percebo aí alguns pequenos grupos foram formados, mas a maioria é igual a eu, caminhando sozinho e vendo a paisagem. Bem, vai ser três meses aqui, mais grupos serão formados. Cada um está andando no seu espaço em silêncio, até os que estão acompanhados. Parece que estão aproveitando a vista, ou cansados. Há grandes chances de ser o segundo caso. Como o terreno da trilha é irregular, dá para se cansar facilmente, as raízes das árvores, pequenos buracos, até as folhas podem te fazer escorregar, bem, eu me acostumei a andar nesse terreno.

Isso está demorando, meu calcanhar até começou a doer um pouco. Já são várias horas que andamos. Para onde vamos? Sinto que ainda não chegamos perto do local, isso é um teste? Acho que não, porque ninguém ia sair só por isso, talvez seja mesmo longe. Faz tanto tempo que não venho a uma floresta e com certeza não sinto um pingo de saudades daqui. Poderia tranquilamente ficar bem longe dessas árvores gigantes.

Você sempre quis fugir de tudo, meu irmão, não é uma novidade.

Desisti de contar quanto tempo passamos caminhando, porém agora consigo ouvir o som de alegria mais a frente. Vou chegando mais perto, até que consigo sair das árvores e minha visão estar livre para observar o local que irei passar nos próximos meses.

Bem, é grande.

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