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Aviso do autor

O capítulo era para ser dividido em duas partes, porém, a segunda parte não foi lançada, o que acabou perdendo a ordem dos acontecimentos. Por isso juntei os dois capítulos em um só, tornando-o um capítulo quebrado em relação à quantidade de palavras.

Peço perdão, foi um erro meu.

De qualquer forma, tenham uma boa leitura.

— — — —

Depois de quase nove horas de viagem, chegamos a Hill City, uma pequena cidade no condado de Pennington, Dakota do Sul. A viagem mostrou a imensidão e o isolamento do lugar, o panorama emergente revelou uma sociedade enraizada em sua própria peculiaridade, afastada do barulho e da agitação da metrópole e envolta em uma estranha quietude.

A cidade, por outro lado, parecia ter caído em um silêncio sepulcral. As ruas vazias e os prédios abandonados evocavam uma sensação de desesperança. Não havia vida nas esquinas, e nem mesmo uma brisa soprava pelas ruas vazias. Era como se Hill City estivesse adormecida, despreocupada com a passagem do tempo, um silêncio que criava a impressão de uma cidade presa entre a vida e a inatividade.

Raven estacionou o carro em uma rua estreita próxima ao Hill City Coffee, um estabelecimento, à primeira vista, solitário em meio à tranquilidade da cidade.

— Lembrem-se, evitem problemas e estragos desnecessários. Não quero desperdiçar recursos da organização com reparos nesta cidade. — alertou ela. — E, acima de tudo, não devemos atrair a atenção dos superiores.

Mandy lançou um olhar significativo para Lewis, que estava ao seu lado, antes de responder:

— Ouviu isso?

— Fecha essa boca.

A resposta de Lewis era uma mescla esperada de irritação e desdém.

Eu fui o primeiro a sair do carro, seguido por ambos. 

Uma sensação de silêncio e tranquilidade permeia o ar da cidade. 

Cidades do interior, como Hill City, muitas vezes ofereciam essa atmosfera serena, onde a rotina cotidiana se desenrolava sem grandes agitações. 

A temperatura agradável de 27 °C trazia um alívio bem-vindo, um contraste com o clima inclemente das áreas de treinamento da organização. 

Talvez o tempo tivesse me adaptado a tolerar o calor, ou talvez fosse a ilusão momentânea de normalidade que me tranquilizava.

Antes de Mikael descer do carro, Raven chamou-lhe:

— Espera, quero que me responda uma coisa.

Suas sobrancelhas estavam ligeiramente franzidas.

— Sim?

— O que você vê de tão especial nele? Você sabe que o Krynt deveria estar morto.

Ele mostrava-se confuso antes de respondê-la.

— Tenho motivos para acreditar que há algo muito importante dentro dele. — respondeu, escolhendo as palavras cuidadosamente. — Ele é como um inimigo natural para os Mephistos. Isso é algo que temos a nosso favor, uma qualidade especial que pode ser vantajosa. É tão poderoso que pode…

Raven inclinou a cabeça enquanto esperava que prosseguisse.

— Que pode…?

— Ah… Talvez eu esteja enganado. Parece mais provável que o Krynt se entregue àquela coisa.

No entanto, suas palavras eram apenas um vislumbre do que ele realmente sabia. Mikael ainda mantinha um véu de segredo sobre suas intenções verdadeiras.

— Você está sugerindo que esse Meio-Mephisto possui um poder latente que poderia ser despertado? — questionou, mais intrigada.

Mikael assentiu lentamente, seus olhos fixos em algum ponto distante enquanto ponderava sobre a resposta.

— É, exatamente. Uma capacidade oculta que, se for compreendida e cultivada da maneira certa, pode trazer mudanças significativas.

Raven franziu ainda mais a testa, tentando assimilar a informação.

— E se ele não for devidamente orientado? O que aconteceria então?

Ele suspirou, uma expressão apreensiva tomando conta de seu rosto. 

— Se ele não encontrar o caminho certo, há uma forte probabilidade de que ele se entregue àquilo. E nesse caso, as consequências seriam… devastadoras.

Raven balançou a cabeça, apesar de um tanto incrédula, ela apenas concordou. 

— Espero que o que esteja planejando fazer não nos leve à ruínas. Os Mephistos são apenas isso, Mephistos, e, portanto, merecem encontrar seu fim. Esse garoto é um homicida que ceifou a vida de várias almas inocentes.

Mikael sorriu fracamente, reconhecendo o desafio que tinha diante dele.

— Você e ela são praticamente iguais nessa questão. Não é como se eu fosse ter um baita trabalho para lidar contra aquela criatura.

— Você tem certeza disso?

— Absoluta.

Dissera confiante, suas feições transmitindo a certeza de que estava no caminho certo.

— Talvez enfrentar aquela criatura me custe uma exaustão, mas tenho meros 3 minutos para aniquilá-la — enfatizou, suas palavras imbuídas de uma firme convicção.

Raven então não interveio com suas palavras de advertência, mas trouxe uma pergunta:

— Você acredita que há redenção para alguém tão maligno?

Essa pergunta ressoou dentro dele, tocando-o profundamente.

No entanto, ele replicou:

— Acredito na capacidade das pessoas de mudar, mesmo as mais obscuras entre nós.

O sol de verão lançava um brilho dourado sobre a cidade, enquanto o vento carregava consigo a promessa de descobertas e desafios que estavam por vir. 

Mikael sabia que as respostas que buscava eram tão esquivas quanto a brisa que soprava, mas ele estava determinado a desvendar quaisquer mistérios.

Enquanto descia do carro, uma sensação de leveza e liberdade o envolveu. Ele aproveitou um momento para respirar o ar puro e revigorante da cidade. Era uma mudança bem-vinda em relação aos corredores frios e estéreis das instalações da organização. 

A atmosfera da cidade era convidativa, deixando para trás as preocupações que o assombravam.

— Bem, de agora em diante, não tenho ideia do que pode acontecer. Vasculhem a cidade em busca de pistas que revelem rastros do Mephisto. Se encontrá-lo em carne e osso, não o deixe escapar. — instruiu.

Cada um de nós respondemos com o mesmo sinal de aprovação: jóia.

— O resto é por minha conta, apenas certifiquem que ele não fuja. Eu vou indo, se cuidem.

Mikael dispensou-se para um local arbitrário com um aceno de cabeça. 

— Ouviram? Tomem cuidado, pessoal, sério. — alertou Mandy.

— Quem devia ter cuidado era o Krynt. — disse Lewis, me encarando de lado.

— Só porque sou o novato aqui? — perguntei, esboçando uma cara de aborrecido.

— Também, mas não é só por isso. — Apontou o dedo na minha direção. — Essa coisa dentro de você é perigosa. Por isso acho melhor você ficar por perto.

— É, Krynt, eu concordo. — Mandy me lançou um olhar significativo. — Vem com a gente, é mais seguro.

— Nah. Sem chance.

Coloquei minhas mãos nos bolsos enquanto seguia em frente, desconsiderando o que acontecia ao meu redor.

— Vou dar uma volta também. Eu posso lidar com qualquer coisa. — Olhei para eles de relance, com um sorriso provocador. — Principalmente com vocês.

Minha despedida tinha um tom desafiador. Em outras palavras, eu estava determinado a ficar sozinho. 

No entanto, tinha em mente que ninguém me deixaria sair voluntariamente. 

Mandy voltou para Raven, que ainda estava no carro com o celular na mão, e perguntou:

— Ei, ei, olha lá, ele tá saindo. O que a gente faz?

Raven, calma e autoritária, respondeu:

— Está tudo bem. Se algo der errado, a culpa é do Mikael.

Ela manteve o celular na mão, mas fez um gesto tranquilizador com a outra, como se estivesse minimizando a situação.

Mandy, por outro lado, ficava inquieta, mexendo nos cabelos e olhando ao redor nervosamente. No entanto, assentiu, confiando nela.

— Ah, quando eu pegar aquele idiota… — Lewis disse, deixando transparecer sua raiva.

— Não sou fã dele também. Mas, enquanto isso, vamos andar pela cidade.

— Você ao menos conhece os lugares daqui? — perguntou, curioso.

A verdade era que ambos sabiam muito pouco sobre Hill City. 

Mandy parecia perplexa por um momento, mas rapidamente respondeu com otimismo:

— Ouvi dizer que tem um museu, algumas lanchonetes e… Não importa! Só vem comigo, ficar parado aqui é um tédio.

— Não seja tão idiota assim. Estamos em uma missão séria.

— Eu sei, burro. Sei o que tô fazendo.

— Se algo der errado, a culpa será sua, entendeu?

Mandy começou a rir, achando o pessimismo de Lewis um tanto cômico.

— Caramba, você é muito dramático! Anda logo, para de enrolar.

Lewis soltou um suspiro, erguendo as mãos em sinal de rendição.

— Tá bom, eu vou. Só porque é necessário, senão eu ficaria aqui só de guarda.

— Guarda? Pra quê? — Mandy fez uma cara de deboche, balançando a cabeça. — Se é assim, me proteja, então. Pode ser?

Ela sorriu e piscou para ele, acenando com as mãos para que seguissem.

Assim, os dois embarcaram na excursão que os libertaria do tédio, entrando nas ruas da cidade com uma sensação constante de expectativa.

O acesso à Internet era quase inexistente, deixando apenas Mikael e Raven com seus celulares, à disposição para informar qualquer descoberta pertinente.


The City of Eugene, sede da agência, 15h:35.

A vice-líder estava envolvida em uma intrincada conversa telefônica com o líder da organização na privacidade de seu escritório. A tensão de uma questão problemática pesava sobre o ambiente, que antes exalava confiança e controle.

Do lado oposto da linha, o líder se encontrava numa reunião conciliatória com os diretores da escola em Boston, o cenário da tragédia recente. O murmúrio distante de pessoas falando ecoava através da linha. 

A gravidade da situação lançava uma ameaça oculta, envolvendo os dois líderes em um estado de apreensão.

— Então? — A voz dela soou através da linha, carregando a expectativa de respostas.

“Está sendo completamente exaustivo. Se ao menos eu pudesse, teria resolvido essa situação em questão de segundos. Você sabe como é.”

As palavras dele carregavam um misto de frustração e impotência. 

Ele sabia que nem sempre podia controlar todos os desdobramentos das missões e dos eventos, mesmo com os recursos e habilidades que a agência dispunha.

— Você não mencionou que o jovem foi poupado da execução, certo?

Claro que não. Isso mancharia a nossa reputação. Além disso, instruí a todos a omitir o nome do garoto caso qualquer notícia sobre o incidente surgisse.

— Entendo. Então, o que você está fazendo agora?

Estamos sendo responsabilizados pelo atraso na intervenção. Quando chegamos ao local, já havia várias vítimas, e eles presumiram que tudo foi premeditado. Vim pessoalmente para esclarecer qualquer mal-entendido.

A complexidade da situação transparecia em suas palavras. A agência normalmente era eficaz em suas ações, mas algumas situações eram incontroláveis devido a fatores externos e imprevisíveis.

Um suspiro longo e cansado escapou dos lábios da vice, refletindo o peso que ela carregava em seus ombros.

— Tente se antecipar aos problemas. Precisa lidar com isso de forma eficaz. A credibilidade da organização está em jogo. 

A expressão da vice era de preocupação.

“Eu farei o possível. Se conseguirmos apresentar evidências sólidas, talvez possamos minimizar o impacto negativo em nossa reputação.

— Deixe que eu me dê conta dos custos médicos. Vou prestar assistência de todas as formas possíveis. Quanto às repercussões, lidaremos com elas internamente.

“Estou confiando em você.”

O homem assentiu, reconhecendo a urgência da situação.

“Tenho que ir. Quando essa reunião terminar, entrarei em contato novamente.”

— Certo, até mais tarde.

A conversa com o líder da organização chegou ao fim, marcada pelo consentimento da vice-líder. 

Ela se recostou em sua cadeira, deixando-se envolver pelos pensamentos que percorriam a intrincada teia de complexidades e responsabilidades que sua posição exigia.

Com um gesto decidido, ela estendeu a mão e pegou uma caixa de cigarros da prateleira próxima. 

O som do deslize da tampa ecoou suavemente pelo escritório. 

Com cuidado, retirou um isqueiro com zíper do bolso de sua calça. 

Enquanto o acendia, a chama crepitante criou um brilho etéreo que parecia iluminar seus pensamentos. 

Aproximando o cigarro dos lábios, ela inclinou-se em direção à chama e acendeu a ponta com um movimento preciso. 

A fumaça ondulou e subiu, dissipando-se gradualmente no ar, como se estivesse levando consigo um fragmento do peso que carregava em seus ombros.

— Para compreender a criatura que habita dentro dele, talvez nossa única opção seja permitir que ele viva. — murmurou para si, mesclando uma aura intrigante de incerteza. — Ah, você tem alguma pista a respeito…

Seus olhos deixaram o monitor do computador, desviando para os formulários digitais que exibiam meticulosamente informações detalhadas de todos os Mephistos capturados.

Ao lado de cada perfil, um selo virtual de Licença de Morte estava carimbado, uma medida necessária, um protocolo escuso.

 — … Mikael?

Seu olhar se aprofundou em um formulário específico, refletindo o conflito interno que ela estava enfrentando, um quebra-cabeça que ela estava tentando montar peça por peça.

— Ele não pode sobreviver por muito tempo, não com isso dentro dele. Mas ainda assim, há algo que me incomoda. — Suspirou. — Maldição…

A palma de sua mão direita pressionou contra a testa, como se buscasse conter as tensões que fervilhavam lá dentro. 

O caminho para a verdade muitas vezes era tortuoso, cheio de ideias conflitantes, planos quebrados, erros cometidos e desafios imprevistos.

 A intensidade de seu trabalho incansável revelava a fragilidade que se escondia sob sua fachada implacável.

— Só quero que isso termine logo.

Uma vez mais, ela liberou a fumaça do cigarro entre os lábios, deixando-a dissipar-se no ar como se estivesse expulsando parte do peso que carregava consigo. 

O ato de fumar se tornava um breve refúgio, um momento de alívio em meio à agitação interna de sua mente.

— E um pouco de descanso também. — murmurou, um anseio sincero que frequentemente se perdia em meio às urgências e responsabilidades que ocupavam sua vida.

Ela continuou sua busca incessante por soluções enquanto era engolfada em seu conflito interno à medida que se cercava pela fumaça espessa presente na sala. Ela estava empenhada em decifrar os impasses ao seu redor e encontrar uma solução.


O ponto exato designado, onde o carro repousava como um espectador silencioso, Raven encontrava-se mergulhada em um oceano de pensamentos que rivalizavam com as cores do céu que a envolvia. 

Ela estava reclinada sobre o capô do veículo, seus braços cuidadosamente cruzados sob o peito.

— Como é possível esquecer… — sussurrou, as palavras escapando de seus lábios com um peso que só ela entendia.

Um avião cruzava o céu, sua trajetória cortando as nuvens em uma dança efêmera, e os olhos de Raven seguiram o rastro luminoso como se fossem faróis em busca de respostas nas alturas inatingíveis.

Entretanto, o espetáculo celeste e aeronave não eram as únicas visões que povoavam a mente de Raven. Um turbilhão de imagens do passado, ora belas, ora perturbadoras, ecoavam em sua mente como fantasmas de uma história já vivida.

Se o destino não tivesse pregado essa peça maldita… — disse, um lamento que parecia vir de um lugar profundo dentro de si. — Talvez eu não estivesse aqui, perdida entre as dobras desse inferno.

A lembrança da tragédia, um eco remoto que persistia nos recessos sombrios de sua memória, continuava a ser uma presença assombrada mesmo após o passar dos anos. 

Com seus 21 anos de idade, ela carregava um fardo que rivalizava com o próprio tempo, e a perspectiva de que sua própria realidade se entrelaçasse cada vez mais com essa memória dolorosa era um mistério angustiante.

— Porque o céu naquela época era mais azul, disso eu me lembro bem.  

Os pensamentos de Raven vagavam pelo passado, cada lembrança era uma onda que arrastava seus sentimentos em uma nova direção em meio à sinfonia de tons do céu. 

Somente aqueles que experimentaram o peso do destino poderiam compreender a determinação e a força de aço que eram vistas em seus olhos, que agora estavam contraídos devido à intensidade das lembranças.

De qualquer forma, apertou os olhos por um momento, como se pudesse afastar as lembranças indesejadas, buscando controlar a ansiedade que ameaçava dominá-la.

— Não sei ao certo o que posso fazer aqui. Ficar parada e esperar não é o meu estilo.

Com um movimento fluido, ela se desvencilhou do capô do carro, voltando a se colocar de pé. 

Seus olhos percorreram o cenário ao redor, explorando as possibilidades que se estendiam diante dela.

— Um café, talvez? — perguntou-se, como se buscasse uma resposta de si mesma. — Hill City Coffe. Acho que é o lugar mais próximo para passar o tempo.

Ela contemplou o letreiro do lugar, ponderando se deveria ou não ceder à tentação de um breve momento de distração.

— Mas talvez não seja uma boa ideia.

Um sorriso irônico brincou em seus lábios, revelando o autodomínio que ela impunha a si própria, mesmo em meio às tentações. No entanto, suas tentativas de distração não eram suficientes para afastar as memórias persistentes. 

Com um movimento decidido, ela tirou o celular reserva do bolso de sua calça, ligando a tela para verificar o horário.

— 02h32. Melhor agir.

Com essa decisão, guardara o celular, desprendendo-se do capô do carro, se preparando para a tarefa que a aguardava. 

Seus passos a guiavam rumo à missão que lhe fora designada, disposta a resolver os impasses que envolviam o dilema que a organização lhe confiara.

Embora estivesse ensolarado o dia, uma sensação de inquietação pairava sobre Raven enquanto percorria as vazias ruas da cidade. 

Um pressentimento incômodo a impelia a continuar caminhando, como se algo a esperasse na próxima esquina.

Após virar em um beco estreito, o ar parecia ficar mais pesado. 

As paredes sujas de tijolos cinzentos se fechavam ao seu redor, criando um cenário claustrofóbico. Era um lugar que muitos evitariam, mas Raven seguiu em frente.

Enquanto avançava, quaisquer sons afora desapareciam gradualmente, substituídos apenas pelo eco de seus próprios passos. 

Foi então que ela viu algo que a fez parar abruptamente.

— Olha só…

No chão, junto a uma lata de lixo enferrujada, havia um corpo estendido no chão. O rosto da vítima estava deformado, impossível identificá-lo, mas o sangue que se espalhava pelo chão e as roupas rasgadas deixavam claro que a pessoa tinha encontrado um destino cruel.

— Ele tem seus truques.


Pelos meandros urbanos, podia me encontrar perdido involuntariamente, uma vítima da encruzilhada das possibilidades. 

A noção de normalidade, muitas vezes, se desfaz como neblina matinal, e a tontura se insinuava, como se a própria cidade, viva e inquieta, brincasse de distorcer a realidade. 

O mesmo se aplica às pessoas intrigantes, afinal, por detrás de suas máscaras, existia algo misterioso. 

Pelo menos foi o que tenho notado desde que me deparei com um deles.

— E aí, licença, sou funcionário da U.E.C. Então, uh, será que você pode me dizer como anda por aqui? Se tá tranquilo e tal.

Um silêncio profundo foi a resposta que colhi. 

Cada detalhe desse indivíduo era uma esquisitice à parte, desde suas atitudes peculiares até sua aparência que parecia ter sido esculpida pelo próprio mistério; havia uma estranheza quase sobrenatural em sua maneira de existir, como se estivesse acima das regras que governam o cotidiano comum. 

Os olhos dele, sombras profundas em meio a um rosto pálido e inexpressivo, pareciam conter segredos que o mundo jamais ousaria desvendar.

— Tá bom…

Um calafrio percorreu minha espinha quando finalmente me dei conta de que estava olhando para muito mais do que um simples indivíduo. Era como se ele fosse a personificação de uma esfera oculta da realidade, uma dimensão que poucos ousam explorar. 

Assim, dei a partida para outro lugar da cidade.

Pelo que entendi, essa cidade estava diante da colisão de duas realidades diferentes. 

Senti uma mistura de curiosidade e apreensão enquanto estava no desconhecido. 

Esse não foi um dia típico – em vez disso, foi uma revelação, uma visão das camadas da vida que estavam ocultas.

O caminho para uma solução geralmente é árduo quando se tem de enfrentar um problema. Viajar sem um plano pode ser tão arriscado quanto fugir de um assaltante. 

Para aqueles que desejam sobreviver para viver uma vida autêntica, eles não têm escolha a não ser se perder para se encontrar, existir no limite sem ver que isso é impossível.

— Hm?

À beira de um parque, a paleta de cores urbanas deu lugar ao verde sereno. No balanço, um garoto estava lá, solitário em sua busca por diversão. 

Ou, pelo menos, era isso que eu conseguia supor.

— Ei! 

Minha voz cortou o ar como um chamado, ecoando entre os espaços vazios.

Num átimo, quando me viu, levantou-se e partiu em disparada.

— Hã? Espere, espere aí!

O desejo de alcançá-lo se transformou em movimento, enquanto eu começava a perseguição frenética.

As passadas nos conduziram através de um cenário onde árvores se entrelaçavam, criando sombras emaranhadas. 

A criança desviou da rua para uma passagem entre duas casas. 

O instinto aguçado me fez girar à esquerda, desviando habilmente de uma fruta que ele arremessara em minha direção.

— Sério? — murmurei, um sorriso leve dançando nos cantos dos meus lábios diante da sua audácia.

Mas a fruta, uma manobra de distração, me fez desviar o olhar do garoto, que agora estava na rua, dobrando à direita. 

Sem perder tempo, dei um passo para trás e retomei a perseguição, contornando a casa com uma precisão calculada. 

Como um orquestrador maestro, sabia que este era apenas o início do plano que já estava há muito escrito.

— Pegue–

No entanto, o que se desdobrou diante de mim era um turbilhão de eventos que desafiava a própria natureza das minhas expectativas. 

A sensação gélida de um metal contra a minha palma revelou um segredo sombrio: ele carregava consigo uma arma. 

Mas antes que minha mente pudesse compreender a verdade, uma dor lancinante rasgou o meu corpo. 

Uma lâmina afiada e impiedosa havia perfurado meu estômago, uma agressão súbita e desumana que despedaçou qualquer vestígio de normalidade.

Ele, atônito com o desfecho trágico, retrocedeu em um movimento desajeitado, abandonando o objeto.

— Ah… porra… — As palavras escaparam dos meus lábios em meio a um gemido rouco quando meu corpo se prostrou de joelhos sobre o solo áspero. — … Por que cê tem isso…?

Minha voz tremeu em consonância com as convulsões do meu corpo, enquanto me debatia com as ondas da agonia que pareciam não ter fim.

— D-desculpe… hã… foi sem querer.

— Hah… é?

Apesar do furor da dor, com as mãos trêmulas, segurei o cabo da lâmina que perfurara meu estômago. 

O ato, tão ousado quanto insensato, provocou um grito rasgado da minha garganta e me fez morder meus próprios lábios, como se buscasse suportar a dor física ao sacrificar outra forma de sofrimento.

Um gemido abafado escapou quando, com um esforço hercúleo, puxei a lâmina de volta. 

Era uma sensação dilacerante, como se cada centímetro de avanço da lâmina dentro de mim deixasse uma trilha de dor insuportável. 

Meu corpo arqueou sob o impacto, e eu pressionei meus lábios juntos outra vez, uma tentativa inútil de conter os sons agonizantes que escapavam.

— Nngh… merda…

— Ah, não… de novo não…

A voz do garoto soava frágil, quase quebrada, carregada de remorso e incredulidade perante o que seus próprios atos haviam desencadeado.

O cabo da faca estava úmido com o meu próprio sangue, uma lembrança cruel da ferida que havia se aberto em mim. 

O sangue vermelho-vivo escorria entre os meus dedos, manchando o solo ao meu redor. 

Com um esforço titânico, pressionei a minha mão contra a ferida, como se a própria pressão pudesse conter a hemorragia que ameaçava me levar embora.

— … Desculpe… E-eu… uh… preciso ir.

Enquanto se voltava para partir, imediatamente o agarrei pelo braço.

— Espera um instante, não vá embora assim.

O movimento dele congelou, sua figura esboçando uma interrogação silenciosa, uma expressão de surpresa misturada a um rastro de apreensão.

— H-hã?

— Agora cê fica aqui, não quero mais correr.

Minha mão deixou a ferida que, para meu assombro, estava cicatrizada, sem qualquer vestígio da lâmina que momentos antes havia me trespassado. 

Era como se a mesma força que havia restaurado meus ossos quebrados no dia anterior também tivesse atuado para reparar o dano interno que o objeto provocara.

A criança diante de mim exibia uma mistura de perplexidade e fascinação, um olhar que denunciava a maravilha de testemunhar algo que desafiava todas as leis do mundo conhecido.

— Melhor assim. 

Minha voz refletia uma calma que mascarava a tempestade de emoções que me invadia.

As feições deste eram contorcidas entre o choque e a inquietação. 

Era natural que a facilidade com que um ferimento que poderia ter sido fatal fora reparado o deixasse preocupado.

— V-você não… como…

— O quê? — A resposta era enigmática, uma mescla de distância e curiosidade. — Veja bem, poderia ter sido meu fim, e tô puto por isso ainda. Mas a questão é: por que você carrega uma faca? Que tipo de problema cê tem na cabeça?

Ele hesitou por um momento, um olhar trêmulo de alguém que estava prestes a revelar um segredo obscuro.

— Não… — Ele começou a recuar lentamente. — … Não é nada. Eu só… hã… quero me manter afastado.

Percebendo que ele estava escapando, reagi instintivamente, agarrando a gola de sua camisa com força, como se essa ação pudesse prender o destino que ele estava tentando evitar.

— Tudo bem se você não quiser me contar. — O tom de voz estava carregado com uma ameaça controlada. — Posso te arrancar a resposta no murro.

A pressão nas minhas palavras era uma promessa velada de que eu estava disposto a ir aos extremos para descobrir o que ele estava escondendo.

Em situações como essa, quando nada vem fácil, o que sobra é agir sob pressão, acreditando que só assim as verdades emergiriam. 

Com seu corpo trêmulo e seus olhos arregalados de medo, finalmente cedeu, sua voz ecoando como um lamento.

— Eu… matei meus pais!

O que ele disse caiu sobre mim como uma bomba, uma confissão chocante que reverberou em minha mente. 

Fiquei paralisado, incapaz de formular uma resposta imediata. 

A gravidade do que ele havia admitido era avassaladora, uma revelação que abalava as bases da minha compreensão da situação.

Hein?

A confissão dele era tão chocante que eu mal conseguia articular uma resposta coerente.

— Me desculpa, me desculpa, me desculpa…

As palavras foram repetidas como um mantra, ecoando como um pedido de redenção.

Antes que começasse a explicar, sua voz misturou-se de tristeza e remorso, abrindo um olho lentamente, como se estivesse testando minha reação. 

— Apareceu um homem e–

— Como assim, cacete? Que história mal contada é essa?!

A raiva se insinuou à medida que minha incredulidade deu lugar a uma indignação justificada. Era quase impossível assimilar totalmente o que ele havia acabado de revelar.

Em um impulso desesperado, eu estava prestes a ceder à vontade de agredi-lo com os punhos cerrados, mas algo dentro de mim hesitou.

— Espera! —  gritou, desesperado. 

Seus olhos estavam quase lacrimejantes implorando por misericórdia. 

— Por favor, não me machuque! Me deixa explicar! Por favor!

A cena diante de mim era um retrato do desespero humano, um reflexo da fragilidade que todos nós carregamos, mesmo aqueles que cometem atos impensáveis.

O soltei, e ele caiu de volta para o chão.

— Tudo bem, vou ouvir o que você tem a dizer. — confirmei em tom contido, uma concessão a uma conversa necessária. — Mas se estiver mentindo, vou te encher de tapa.

A confissão dele havia transformado o curso das coisas de uma maneira que eu não poderia ter previsto. 

Enquanto ele começava a explicar os detalhes do que o levou a cometer um ato tão terrível, eu me encontrava dividido entre a revolta pelo que ele havia feito e uma estranha empatia por sua situação. 

No fundo, a revelação dele me forçou a confrontar a realidade complexa da natureza humana e a sombra que pode habitar até mesmo nas mentes mais jovens e vulneráveis.

Olá, eu sou o Nyck!

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