Selecione o tipo de erro abaixo

Os pais de Benjamin percorreram uma rota repleta de voltas e reviravoltas, em que as rotas oscilavam entre vitórias e reveses, entre risos alegres e soluços de partir o coração. 

Cada passo era uma dança delicada na coreografia errática da vida.

Em meio a todos esses altos e baixos, uma lembrança se destacou como um ponto brilhante, superando todas as outras: o momento do nascimento de Benjamin Moore. 

O recém-nascido parecia ter a essência de uma vida plena naqueles segundos inestimáveis, mesmo antes de ouvir o primeiro choro. 

O tempo parecia ter parado, permitindo que cada respiração e batida do coração ressoassem como uma sinfonia diferente.

A atmosfera da ocasião sussurrava uma viagem incrível que estava reservada para o recém-chegado. 

Com o passar dos anos, uma amizade começou a se formar com os primeiros raios de sol que iluminaram a casa de Benjamin.

Aos 5 anos, teve pela primeira vez um companheiro devotado e peludo naqueles dias despreocupados.

Rufus era um cão cor de avelã.

Com orelhas que se erguiam como antenas, sensíveis a todos os sons da vizinhança, Rufus era uma bola de energia sem limites. Sua pelagem era tão macia quanto o nome sugere, com uma textura semelhante à de uma avelã. 

Mais do que apenas um amigo, Rufus era um cúmplice em gracinhas ao sol e um confidente silencioso em dias de chuva. 

Juntos, eles construíram fortes improvisados no jardim e suportaram tempestades de areia. 

O tempo gasto compartilhando cochilos na sombra fresca de uma velha árvore interrompia as tardes preguiçosas.

A presença serena e consoladora de Rufus preenchia de maneira especial os dias tranquilos de Benjamin, quando ele ansiava pela solidão. 

Era como se o mundo exterior tivesse desaparecido e a serenidade do tempo entre os melhores amigos permanecesse quando não se fazia nada além de acariciar seu pêlo sedoso.

Benjamin e Rufus encontravam-se no quintal, sob um céu estrelado, com o cheiro de grama recém-cortada enchendo o ar, com apenas os suaves lamentos do vento para quebrar a quietude da noite, eles estavam sentados lado a lado. 

Benjamin acariciou a cabeça de Rufus, absorvido pelo conforto da macia pelugem.

— Você já pensou em como seria incrível ser um herói? Proteger as pessoas, fazer a diferença no mundo…

Benjamin, como qualquer criança, sonhava. 

— Eu sonho com isso, sabe? Algumas vezes fecho os olhos e me imagino em uma capa brilhante, correndo para salvar o dia. Salvando gatinhos presos em árvores, ajudando os vizinhos, coisas assim.

Ele era influenciado pelos quadrinhos que lia. 

— Posso não ter superpoderes, mas posso ser alguém que faz a diferença de alguma forma.

Para ele, um herói é aquele que estende a mão para ajudar os necessitados, enfrentando adversidades com dedicação e determinação, crendo que as coisas podem ser melhores.

— Apenas fazer alguém sorrir, tornar o dia de alguém um pouco melhor. Como um verdadeiro herói faria.

A noite se prolongou, com apenas o sussurro do vento e os pensamentos compartilhados de Benjamin quebrando a quietude. 

— Mas até esse dia chegar, Rufus, eu tenho você. Isso é suficiente para mim.

Os olhos do menino, perdidos mais uma vez nas estrelas, transmitiam a majestade de seus amados sonhos.

Quando os dois se aconchegavam sob as estrelas e se divertiam cientes de que enfrentavam o mundo unidos, Benjamin desenvolveu uma afinidade inexprimível com seu fiel companheiro. 

Esses momentos simples, entrelaçados com a presença amorosa de Rufus, seriam preservados no cofre de sua memória, proporcionando-lhe uma sensação perpétua de realização que transcenderia o tempo e a mudança das estações.

Entretanto, as estações vêm e vão, e a vida é uma tapeçaria complicada. 

Os dias passam como se fossem capítulos de um livro e, por fim, o tempo levou a jornada de Benjamin ao fim com um capítulo de despedida.

A despedida de Rufus não foi amigável. 

Uma doença silenciosa tomou conta do corpo do fiel cachorro, como uma ameaça nos recantos mais profundos. 

Benjamin observou a queda de Rufus com o coração pesado, diante do inevitável.

— É culpa minha, não é?

Como se estivesse consolando seu companheiro humano mesmo em seus últimos momentos, seu olhar dedicado encontrou os olhos lacrimosos de Benjamin. 

— Eu não fui capaz de te salvar…

E, com isso, os olhos de Rufus escureceram, deixando um vazio doloroso em seu lugar.

— Me desculpa, me desculpa, me desculpa…

Com a perda de seu melhor amigo, Benjamin sentiu a culpa se aproximar dele como uma sombra persistente. 

Uma pontada de arrependimento acompanhava cada lembrança, como se ele fosse responsável pelo destino de Rufus. 

Seu coração estava envolto em uma espessa teia de angústia, como resultado de seus pensamentos serem consumidos por um sentimento de impotência e condenação própria.

Benjamin fazia a si mesmo a mesma pergunta dolorosa em cada momento de silêncio: “Eu poderia ter feito mais?” 

Ele foi assombrado pela pergunta persistente que permaneceu sem resposta, deixando-o imaginando se havia alguma maneira de evitar o resultado catastrófico.

— Por que tinha que ser assim…?

A dor estava além da razão ou da lógica. 

Benjamin se considerava responsável por não ter reconhecido os sinais de alerta mais cedo, por não ter procurado atendimento mais rápido e por não ter evitado que seu dedicado amigo sucumbisse à doença que o havia acometido. 

Cada “e se” parecia uma agulha afiada em seu coração.

— Não dá pra viver desse jeito, me desculpa, me desculpa…

E 6 anos se passaram como sombras passageiras, mas Benjamin carregava um peso diário de culpa que foi ficando cada vez mais pesado até que ele se tornou uma criança omissa e indiferente.

Ele era uma casca da pessoa que havia sido no passado, cheia de vida e imaginação. 

Suas brincadeiras e histórias, que antes eram adoradas, tornaram-se menos atraentes e desapareceram no fundo de sua opacidade.

Seus pais o observavam com olhos preocupados, desamparados contra a miséria que envolvia o filho. 

Os esforços para reanimá-lo pareciam murmúrios distantes em meio à indiferença avassaladora.

As relações afetivas com outras pessoas também foram prejudicadas. A emotividade de Benjamin fez com que as amizades que antes floresciam murchassem. 

Ele se afastava das pessoas, temendo que os laços que criava fossem inevitavelmente rompidos, como o que ele mantinha com Rufus.

No entanto, em meio à monotonia de sua vida entorpecida, uma luz persistia, fraca, mas presente.

— Por que você está sempre tão sozinho? Deve ser muito triste ficar assim o tempo todo.

Em meio à agitação da cidade, havia um parque sereno que proporcionava um refúgio de vegetação. 

Árvores majestosas estendiam seus galhos em um abraço de boas-vindas, e bancos de madeira estavam dispostos ao longo das trilhas.

O ar estava cheio de flores vibrantes, que transformaram o local em um santuário calmo.

Foi nesse lugar que Benjamin conheceu uma garota.

— Não é nada.

Ela franziu a testa, não aceitando a resposta desanimada tão facilmente.

— Mas a vida é mais feliz quando você tem amigos.

A garota era a única pessoa que conseguia transparecer sua perseverança gentil. 

— Já tive um e ele se foi. Você também deveria ir embora.

— Não, não.

Longe de ficar desanimada, ela tirou um pedaço de papel dobrado do bolso.

— Eu fiz um desenho, é um girassol. Eles são felizes. Veja.

Benjamin relutantemente pegou o desenho, seus olhos encontraram o girassol colorido que ela havia habilmente desenhado. 

Uma pequena centelha de emoção brilhou brevemente em seus olhos, mas ele a escondeu rapidamente.

— É só um desenho… — disse, virando o rosto. — Mas ficou legal.

A garota sorriu inocentemente. 

— Os girassóis são felizes, e eu quero que você também seja. Posso ficar aqui contigo?

Benjamin lançou um olhar desconcertante para a mesma. Ela se sentou no banco ao lado dele sem esperar por uma resposta.

— Me chamo Amy, e você?

— Benjamin.

— Oh, legal!

Balançava as pernas no banco, com um sorriso contagiante iluminando seu rosto.

— Uma vez perdi meu gatinho. Fiquei muito triste e chorava todas as noites. Mas, um dia, minha mãe me trouxe um novo amiguinho. Ele não é igual ao meu primeiro gato, mas também é legal.

Ao ouvir isso, uma mistura de emoções dançou nos olhos de Benjamin.

— Sério?

— Uhum. Mas coisas novas podem ser boas de uma maneira diferente. Eu amo meu novo gatinho, mesmo que ele seja estranho.

Ele olhou-a, suas palavras ressoando em seus pensamentos. Não esperava a clareza que o exemplo direto dela proporcionou.

— Enfim, posso ser sua amiga?

Abby, entusiasmada com a possibilidade de uma nova amizade, olhava para Benjamin que tinha os olhinhos brilhantes de entusiasmo.

— Uh..

Sua voz interior começou a duvidar da lógica gelada que ele havia construído em torno de si mesmo, e foi aí que a preocupação apareceu pela primeira vez em sua consciência como um sussurro suave. 

Para Benjamin, a noção de deixar alguém se aproximar dele, de compartilhar momentos e criar memórias, era estranha e até mesmo aterrorizante.

Entretanto, a menina, alheia à tempestade interna do garoto, continuou sua avalanche de alegria. 

— Vamos lá, Benjamin! Pode ser divertido, prometo.

A insistência dela, que se fazia com um entusiasmo infantil contagiante, parece-lhe um abraço surpresa.

Num primeiro momento, o seu olhar deteve-se nas feições determinadas da jovem que estava ao seu lado, enquanto ele se perdia em pensamentos.

— É mais fácil eu ficar sozinho.

Amy inclinou a cabeça em descrença.

— Não é, posso te prometer. Vai, diga sim!

Mesmo com a sua hesitação inicial, não pôde deixar de sorrir timidamente perante a alegria desenfreada de Amy.

Um lampejo de felicidade emergiu das profundezas da sua indiferença.

— Você é uma pessoa estranha. — disse, zombando dela. — Mas eu não posso prometer nada a você.

Ao ouvir a resposta inesperada, ela riu-se inocentemente com doçura, balançando a cabeça com confiança.

Embora ligeira, a mudança foi substancial.

Sua confusão inicial acabou por dar lugar à aceitação do novo entendimento que Amy lhe tinha dado.

Uma pitada de interesse tomou o lugar da aversão, e breves explosões de felicidade genuína começaram a coexistir parcialmente com a melancolia.

Cada pequena ação de bondade e cada encontro que ele tinha semeava as sementes da transformação na alma de Benjamin.

Os dias sombrios deram lugar a estados de espírito mais felizes, e o riso de Abby era como um pincel suave, dando vida à vida de Benjamin de uma forma que ele nunca tinha imaginado.

Seu coração, que antes era insensível, estava começando a receber um pouco de calor e um senso de pertencimento. 

Ambos compartilhavam ocasiões modestas, mas significativas, que quebravam a rotina monótona que antes parecia interminável. 

Cada encontro, cada brincadeira se transformava em um pequeno oásis de felicidade no meio de seu deserto deprimente.

Portanto, o coração de Benjamin começou a bater de forma diferente na presença de Amy – uma melodia suave que sugeria o início de um novo capítulo em sua vida.


— Meu Deus…

O olhar atônito de Benjamin encontrou o de sua mãe, mas agora não havia risadas, apenas o eco de um silêncio perturbador.

Ele segurava a faca sangrando enquanto o corpo de sua mãe jazia no chão, um boneco sem vida. 

Os olhos de Emma, que antes eram sensíveis e calorosos, tinham apenas o vazio da morte. 

— O que eu fiz…?

Sua pele pálida se destacava contra o carmesim profundo que a cercava.

Uma poça de carmesim envolvia-a, uma representação macabra da força vital final que estava desaparecendo dela.

Com o coração partido, Benjamin não conseguia parar de se perguntar sobre o porquê e os equívocos confusos que envolviam aquele momento terrível.

— Você fez apenas o que deveria ser feito. — Uma voz inquietante na sua cabeça lhe respondeu.

Picture of Olá, eu sou o Nyck!

Olá, eu sou o Nyck!

Comentem e Avaliem o Capítulo! Se quiser me apoiar de alguma forma, entre em nosso Discord para conversarmos!

Clique aqui para entrar em nosso Discord ➥