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23:00 pm.

A noite finalmente lançou seu manto negro sobre a cidade após uma longa espera.

A postura de Mikael era um reflexo das noites sem dormir e do treinamento rigoroso que se tornara uma necessidade para enfrentar os perigos à espreita.

Seu rosto calmo mostrava o custo desse trabalho incessante, intocado pelos desejos óbvios dos monstros que se escondiam nas sombras.

A noite estrelada era de terror, desde o ar mais denso até o vazio, enquanto todos esperavam por aquele cuja boca se abriria para revelar dentes horríveis e garras afiadas, ansiosos para rasgar e saciar desejos primitivos.

Quando se tratava dos ímpios, era preciso ter cuidado, pois eles se escondiam entre as sombras, esperando ver seus corpos dispostos de forma grotesca.

Eles se assemelhavam a formas esquivas, quase indetectáveis, como sutilezas que se esvaíam nas entranhas da escuridão, se retiravam e se fundiam no caos.

Devido à sua natureza, todos eles tinham personalidades distintas e mudavam perfeitamente do amanhecer para o anoitecer, de uma forma quase imperceptível.

Os passos de Mikael nunca paravam sob a luz da lua, garantindo que os inocentes pudessem descansar em paz.

Depois de uma espera tão longa, qualquer indivíduo comum teria desistido, cedido ao cansaço e renunciado ao seu objetivo, mas esse não o fez.

Seu objetivo ao se aproximar dos poucos que permaneciam conscientes era obter as informações mais recentes.

E assim o fez no momento em que encontrou um cidadão andando por uma calçada.

— E aí, camarada. No pique a essa hora, hein? É meio arriscado. — Estendeu a mão para comprimentá-lo, mas somente foi ignorado. — Ah, tudo bem, então. Você notou alguma coisa estranha por aqui? Algo sobrenatural rolando? 

Com um movimento fluido, desvelou o distintivo reluzente da U.E.C. em sua roupa, permitindo que a luz incidisse sobre o emblema da agência de elite.

O distintivo de Mikael, um Agente de Campo de Classe Veterano, era uma peça de metal polido incrustada com um emblema distinto que denotava não apenas sua posição, mas também sua experiência. 

No centro do emblema, um escudo angular se destacava, com sua superfície polida refletindo a luz de forma impressionante, gravado com linhas precisas e detalhes nítidos. 

Em seu interior, havia uma águia majestosa, com suas asas abertas em pleno voo.

— Sou da Unidade Expedicionária de Caça, e estou aqui para resolver esse caso.

Contudo, sua interação não era diferente das demais. Respostas obscuras e comportamentos confusos continuavam a ser a norma:

O céu e a terra em breve estarão envoltos em trevas, e a lua será tingida de sangue.

Esses encontros repetitivos o levava a indivíduos igualmente peculiares, pessoas que pareciam depositar sua fé em algo que ia além da compreensão convencional.

— Outro que acredita nesse papo… — murmurou consigo mesmo, recuando cautelosamente. — Não dá para confiar em ninguém aqui.

Uma sensação de mistério permeava outra rua enquanto Mikael avançava por suas margens. 

Não havia muitos segredos na residência parcialmente escura à sua frente. 

Uma dança de sombras rodopiantes era criada nas paredes pela luz tremeluzente que escapava pela porta entreaberta, produzindo padrões interessantes que pareciam sugerir histórias há muito esquecidas.

A entrada foi invadida por um ar ameno da noite que carregava um sutil toque de melancolia, quase como se a casa estivesse respirando silenciosamente. 

Mikael sentiu a atmosfera tensa, uma tentação sinistra que pressionou seu interesse como profissional.

— Tem coisa escondida por aqui.

As manchas de sangue da soleira indicavam uma viagem turbulenta de dentro para fora. 

Embora Mikael estivesse intrigado, ele entrou, apesar de a escuridão do interior ocultar os detalhes. 

Ele caminhou cautelosamente, mantendo-se atento a qualquer coisa inesperada, ouvindo os rangidos das tábuas do assoalho enquanto explorava o ambiente.

— Se tem algo escondido aqui, vai se arrepender de ter me escolhido como visitante.

A fraca luz da lua não era suficiente para revelar todos os detalhes, então procurou um interruptor e, com um pouco de sorte, encontrou-o na sala, iluminando o ambiente com uma luz artificial.

— Cacete, o fedor aqui dentro é insuportável.

O cheiro de algo estragado invadiu a sala, juntamente com o zumbido de moscas. 

Mikael olhou mais uma vez para as manchas de sangue no chão. 

Ele seguiu um caminho que levava à cozinha. 

Um segundo interruptor que ele descobriu ligou a imagem horrível de dois corpos empilhados um sobre o outro. 

O choque da descoberta interrompeu o silêncio da casa.

— Parece que a festa aqui foi para poucos convidados.

O absurdo da cena o deixou um tanto perplexo, e sua busca incessante por respostas só aumentava sua sensação de dúvida e confusão.

— Um Mephisto fez isso? Provavelmente. Não faz sentido que as vítimas tenham acabado assim sozinhas.

Ele se aproximou dos corpos estirados no chão. 

Era um casal, cujo destino final parecia quase sarcasmo, como uma piada macabra:

Até que a morte nos separe. Um destino irônico para amantes.

Ao mover os corpos, Kael revelou algo oculto debaixo deles. 

Empurrou-os para o lado com o pé, expondo um símbolo enigmático que parecia pertencer a algum tipo de ritual desconhecido.

— Isso parece quase clichê. 

Agachou-se para examinar o símbolo: ele foi desenhado com precisão, compondo um círculo perfeito com padrões de linhas entrelaçadas finamente detalhadas, destacando uma figura geométrica que parecia representar uma entidade no centro.

— Usando o sangue das vítimas… Um truque tão barato, só um Mephisto usaria algo assim. É provável que haja mais pistas por aqui.

Com a testa franzida, quanto mais próximo ele chegava da verdade, mais sua apreensão crescia. Cada contradição, cada resposta evasiva, aumentava seu desejo de compreender totalmente.

— Seus truques normalmente levam a alma da vítima. Esses dois devem ter sido os primeiros a serem sacrificados. Tenho que checar outros lugares logo.

No entanto, naquele momento, ele percebeu que precisava sair da casa, coletar seus pensamentos e planejar o próximo passo nesse quebra-cabeça que se desdobrava diante dele.

Os esforços incansáveis de Kael pouco começaram a render frutos. 

À medida que deixava a coleta de informações não apenas sobre os comportamentos peculiares, mas também sobre o enigmático ritual que parecia envolver uma troca de proporções maiores, se permitia uma breve pausa, vagando pelas ruas de Hill City para explorar suas atrações turísticas. 

A grandiosa Prairie Berry Winery, com sua imponente presença, estava entre os locais que ele visitou.

— Uma taça de vinho para resolver meus problemas? Bem, se eu bebesse um barril inteiro, talvez só descobrisse que agora tenho problemas com a ressaca também. — comentou após sua passagem pelo local.

Nesses momentos, o foco em sua tarefa designada começou a desaparecer. 

Seja por um momento de distração, pelo deleite no entretenimento ou apenas para afastar os pensamentos que o intrigava, ele se permitiu ceder à admiração da cidade. 

Por mais atraentes que fossem esses pontos turísticos, era inerente à sua natureza se distrair com o que chamava sua atenção. 

Registrava cada um desses momentos por meio de fotografias, como uma tentativa de capturar a singularidade de sua experiência. Afinal, não era todos os dias que alguém encontrava uma escultura monumental nas montanhas retratando os rostos de quatro presidentes americanos.

— Essa escultura nas montanhas daria um bom jogo para passar o tempo. Algo como encontre o presidente desaparecido.

Consultando seu bloco de notas, Kael reservou um lugar para visitar mais tarde:

— Alpine Inn, um restaurante com quase cinco estrelas… Impressionante. Vou dar uma passada lá para conferir.

Guiado por sua curiosidade, dirigiu-se ao restaurante. 

Sua fachada modesta já era intrigante o suficiente para despertar o interesse dele, mas ao mesmo tempo, seu estômago emitiu um ronco que deixava claro que estava faminto. 

O aspecto exterior do lugar poderia ser discreto, mas sua fome era inegável. 

Empurrando as portas, Kael se viu imediatamente impressionado pela decoração requintada do interior. 

As luzes cintilantes no teto, a atmosfera agradável e o visual encantador eram justificativas suficientes para as muitas críticas positivas que o restaurante recebia. 

Contudo, tudo isso era ofuscado pelo estado apático dos cidadãos que ali estavam. 

Estranhamente, a primeira coisa que ocupou a mente de Kael não foi o mistério que o trouxe à cidade, mas sim um sentimento mundano e comum.

“Apenas ignore. Basta fazer um pedido e pronto.”, pensou.

Escolheu uma mesa próxima à janela e aguardou pacientemente por um garçom. 

O que deveria ser um serviço rápido e atencioso se mostrou bem diferente.

— Preciso chamar alguém aqui? — perguntou-se. — E aí, meu consagrado!

Um assobio suave fez com que o garçom finalmente se aproximasse, um sinal positivo de que seria atendido. 

Caminhando na direção de Mikael, o garçom perguntou educadamente:

— Como posso ajudar, senhor?

— Hum? Será que não tem um cardápio?

— Desculpe?

O rosto imperturbável do garçom refletia a estranheza, enquanto sua voz era tão inexpressiva quanto uma máquina automática.

— Ah, tudo bem. Só vou querer um copo d’água.

A contrariedade de Mikael era inegável, mas as circunstâncias não lhe permitiam muitas alternativas. 

O garçom permaneceu mudo, suas ações falando mais alto que qualquer palavra. 

Mikael optou pelo silêncio estratégico. 

“Este é um desafio difícil que preciso dar conta. Sua capacidade de manipulação é poderosa, tornando suas vítimas escravas dóceis. Mas talvez sua eficácia esteja sendo reservada para indivíduos como nós, em vez de pessoas comuns.”

No entanto, as deduções não eram aplicáveis neste momento.

— Apenas uma teoria. Não acredito que esse ser seja uma ameaça colossal. 

Ele procurava pelo garçom que fizera o pedido.

— Onde será que ele se meteu? Tô só pedindo um copo d’água. Não seria necessário ele mesmo prepará-lo, né?

A espera pela simples água estava se alongando de maneira exasperante, desmantelando todas as primeiras impressões positivas que Kael havia nutrido sobre o prestigiado restaurante. 

Na verdade, assim que o garçom se afastou, parecia ter sumido por completo; sua figura não era mais vista nas prateleiras, e ele não se movia pelo recinto nem atendia a outros clientes famintos.

— Honestamente, começo a pensar que talvez nem devesse ter entrado aqui. Cada coisa nesta cidade parece carregada de suspeitas demais para o meu gosto.

Apesar de sua experiência limitada em Hill City, Kael estava decidido a manter um perfil discreto e minimizar qualquer comportamento que levantasse suspeitas desnecessárias. 

Enquanto ocupava-se com o celular, o tom de sua surpresa era evidente ao atender uma chamada inesperada de Raven.

— E aí! Alguma novidade?

“Um pouco. Parece que algumas pessoas aqui estão agindo de maneira estranha, como se estivessem meio que em transe.”, respondeu, buscando confirmar sua percepção com a dele.

— Notou isso também? Achei que só eu estivesse ficando louco.

“Não, definitivamente não é só você. Parece que elas estão executando atividades cotidianas, mas é só isso. A vitalidade e a humanidade parecem ter desaparecido. É como se elas existissem apenas em um estado de vazio. Estamos enfrentando um Mephisto incrivelmente lógico, quase tão racional quanto nós.”

Impressionado pela dedicação de Raven, Mikael não pôde evitar a sensação de que ela estava à frente dele em muitos aspectos, embora isso não fosse algo fora do comum.

— Uau… Você é realmente boa nisso, enquanto eu… — Deixou sua voz cair, demonstrando um toque de autoconsciência. — Não estou fazendo muito.

“É fácil quando você está focado. Estamos quase no mesmo nível de capacidade intelectual, mas você tende a se distrair com detalhes insignificantes.”, Raven apontou com um tom perspicaz que parecia capturar uma parte essencial de sua personalidade. “Deve ser por isso que mal chegou a uma conclusão.”

— Não é bem isso. Veja só, nada nessa cidade contribui para coleta de informações, então como espera eu conseguir ter um resultado preciso? É um pé no saco.

“Isso parece mais uma desculpa sua.”

Um sorriso despretensioso curvou os lábios de Kael. Ele sabia que estava sendo negligente, mas preferia ignorar essa faceta de si mesmo.

— Você também encontrou os desenhos rituais, certo?

“Sim, havia um em um beco. Três corpos foram encontrados lá, aparentemente usados como sacrifício. Acredito que isso você já saiba.”

— O que realmente me intrigou foi o motivo de você estar em um lugar como esse.

“Não é relevante agora.”, sua resposta carregava um tom misterioso. “O que demais tem nisso?

— — —

A cena mental mudou para um ambiente sonoro vibrante e animado, enquanto continuava:

“Isso me parece conversa fiada sua.”

Em seguida, alguns sons altos invadiram a ligação, como se a atmosfera festiva também tivesse se infundido em sua conversa. 

“Você anda se divertindo bastante, né?”

— Existe um clube aqui que me chamou a atenção, o Sick N Twisted Brewing Co.

A ironia pincelou a voz de Mikael quando ele respondeu:

“Oh, entendi… Agora você gosta de frequentar clubes? Isso é um grande salto considerando o quanto você não curte bebidas alcoólicas.”

— É verdade, não sou fã. Mas a música é animada, então acabei indo por isso. — Raven admitiu com um tom leve de brincadeira.

“Vou fazer de conta que acredito.”, retrucou, deixando no ar um traço de sarcasmo mútuo que permeava sua relação. “Mas tem dias que a gente merece uma pausa.”

No ambiente em que Raven estava inserida, notava-se a sua exigência. 

Nenhuma conversa conseguia cativá-la, e embora as músicas pudessem entreter, nenhuma quantidade de bebida parecia suficiente para satisfazê-la. 

A situação era atípica; há tempos não se sentia dessa forma, e essa noite parecia não haver nada capaz de atender suas expectativas. 

Apercebeu-se, então, da solidão que carregava, pois outrora desfrutar de festas e socializar com amigos era um prazer habitual.

Apesar disso, resistiu à tentação de se entregar à bebida. 

Era importante ser cautelosa.

 A juventude daquela cidade era efêmera, ávida, desenfreada e perpetuamente insatisfeita, um encontro de cores, fragrâncias e revelações. 

A existência, a vida e o tempo haviam lentamente dado forma a circunstâncias mais intrépidas, estáveis, sensatas e racionais.

“As pessoas nesse restaurante parecem estar na mesma situação. Você acredita que eu pedi apenas um copo d’água e já se passaram 3 minutos sem resposta?”, desabafou Kael. “Isso é inquietante. Se eles estão sob algum tipo de influência do Mephisto, temos um problema real em nossas mãos.”

Raven reprimiu uma risada.

— Mas por que só um copo d’água?

Ela fingiu surpresa, ciente de que, dentre as situações mais ridículas, ele nunca passava despercebido.

Por essa razão, Raven nunca antecipava o desfecho.

“Quem sabe o que esses malditos estão tramando.”

— E as crianças, como estão?

“Os três devem estar juntos, está tudo bem.”

— Aí que tá, ele saiu sozinho. O que você acha disso, Mikael?

“Bem…”

Reconhecendo a barbárie implacável e a sede insaciável de sangue que a própria natureza dela carregava, até esse ponto, como uma entidade que habitava seu corpo, todos tinham que ser extremamente cautelosos. 

Mikael manteve a fé de que nada de ruim aconteceria.

“Enquanto ele não retirar a coleira, a criatura interior dele permanecerá contida.”

— A Vice-líder não deve descobrir que você está agindo irresponsavelmente. Enfim, só isso que queria verificar. Tenho que voltar ao trabalho.

“Espe— “

A frase pairou no ar, carregando um pedido que estava prestes a ser feito.

Com o som do telefone sendo encerrado abruptamente, Kael mal teve a chance de expressar seu pedido a Raven. 

Ela já tinha uma noção do que ele poderia querer, e não estava disposta a desperdiçar tempo com algo que lhe parecia trivial.

— Vejamos o que tem por aqui.

Olá, eu sou o Nyck!

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