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O mundo havia se coalhado diante de nossos olhos. O momento, um quadro grotesco, havia se solidificado em uma terrível permanência fora de nosso alcance. Ficamos parados, mudos diante da tragédia que se desenrolava.

A minha visão perdeu-se enquanto ali estava. O meu coração acelerou e partiu-se em pedaços frágeis, soando como o estalido de um vidro a estilhaçar-se. Um pavor glacial se infiltrou em meus ossos, gelando-me até o âmago. Esse desespero sufocante, eu sabia, poderia facilmente me consumir.

À medida que nos aproximávamos, o caos foi-se sucedendo. Enquanto Edward observava a tragédia ao meu lado com olhos desolados, eu apenas contemplava apaticamente a comoção. 

— O que eles…

Nesse turbilhão de emoções e ações, as fronteiras entre certo e errado começaram a se desfazer. 

Uma necessidade insaciável e pungente me atormentava, um impulso primordial que beirava o precipício da barbárie. A linha entre a civilização e a fera dentro de mim ficava embaçada a cada batida frenética de meu coração infernal.

— Ei, ei, fica na tua! — Edward me segurou pelo braço, impedindo-me de avançar.

— Que porra é essa, cara?! — me virei, irritado. — Qual é o teu problema?

— Não se mete, você só vai se dar mal! São vários contra um, só vai ser espancado!

— Espancado? É sério isso? Cê quer que eu fique parado aqui, esperando eles terminarem?

Edward me encarou, os olhos cheios de preocupação.

— Krynt, você não entende…

— Não entendo o quê? — o interrompi. — Que eu não posso fazer nada enquanto eles machucam a Marie, caralho? Que eu tenho que ficar parado, como um covarde?!

— Escuta… 

— Não! — Gritei, libertando meu braço à força. — Foda-se você e sua covardia! 

Edward retirou a mão rapidamente, quase como se estivesse tentando se livrar da sensação que o havia dominado.

Suas sobrancelhas se franziram ligeiramente.

“O que é isso?”

Perguntou-se curioso a respeito do que acabara de sentir.

Ouvindo as palavras daquela boca, com o tom de voz mais sincero, meu coração afundou ainda mais em raiva.

Talvez, mesmo um pouco, eu precisasse me acalmar. Talvez, apenas talvez, eu… não precisasse entrar em pânico.

“Eu avisei pra ela! Eu disse pra Marie ficar longe dessa garota!”

Tive que investigar cuidadosamente minhas fraquezas e depois esmagá-las. Poderia funcionar dessa maneira.

“Não… É quase impossível.”

Mesmo que o cenário mais desafiador se concretize e todos os meus esforços fracassem, ainda era essencial que eu protegesse Marie.

Somente o sangue poderia me acalmar, por isso desejava que alguém tivesse a coragem de repetir tudo isso para mim e poder transmitir minha fúria.

Vamos lá… não perca tempo, mate-os a todos. Não é isso que você quer? É isso mesmo que você deseja.

Um pensamento, uma voz semelhante à anterior me passou pela cabeça por um momento. Só que eu precisava deixá-la fora disso e impedir algo pior.

Deixe-me sair. Eles não merecem esta misericórdia.

Aquele sangue escorrendo pertencia à Marie. Os abusos físicos que ela sofria me faziam sentir ódio, como se as minhas emoções estivessem instáveis. 

Eu fiquei tão despreocupado que ignorei que algo assim pudesse acontecer.

— … tinha avisado…

Isso faz sentido agora. As pessoas podem mudar, mas, na maioria das vezes, é para pior. 

Embora tenha me irritado, essa foi uma etapa importante do processo. Um procedimento que torna o esgotamento impossível. Embora seja trabalhoso e demorado, ele se alterava no instante em que alguém começa a usá-lo.

Todos os sonhos da garota para o futuro, que antes eram altos, agora foram destruídos. Por causa de sua ingenuidade, ela cometeu um erro e se perdeu completamente. 

E, enquanto isso, uma parte de mim, há muito adormecida, começava a despertar, sussurrando que estava farta de viver como um prisioneira.

Era como se uma voz interna estivesse finalmente quebrando as correntes da conformidade.

A convergência de sentimentos sombrios davam origem a uma força inominável e insaciável, um poder maligno que se alimentava da escuridão intrínseca da alma.

Emoções negativas podem evoluir para monstruosidades interiores que eclipsam a própria humanidade, transformando o indivíduo em algo assustador, uma figura que mal se reconhece.

E isso é precisamente o que aconteceu comigo. Minha essência estava sendo corrompida por essa sombra interna, transformando-me em algo que, na minha sanidade anterior, eu teria temido.

À medida que minha essência se desvanece e uma deformidade emerge, torna-se evidente que um coração limpo esconde uma natureza desagradável que nunca foi emancipada do ambiente em que vive.

— Tudo isso nos trouxe até aqui. 

A luz da vida parece distante e inalcançável.

E veja, não é nada agradavél.

Minha voz era silenciada em um lamento que não encontrava palavras.

Pessoas tão bondosas sofrem por causas injustas.

A estranheza interior foi finalmente exposta.

— Preciso dar um fim nisso. Deixe que eu assuma este dever.

A pupila do meu olho esquerdo estava no centro de um padrão poligonal invulgar que se assemelhava a uma estrela formada por cinco linhas retas que irradiavam do centro.

A sua cor inicial, um castanho-escuro, era agora bordejada por um toque de vermelho-vinho, a condizer com a cor do meu braço direito.

A estranha combinação de cores e formas captava um aspecto totalmente estranho.

O mundo se reduziu a uma visão em túnel de raiva fervente. Meu alvo era uma massa fervilhante de fracos. 

Cada fibra do meu ser vibrava com uma sede de sangue – um motor alimentado pelo fedor da injustiça e pela promessa de vingança. Desviar de alunos, professores e qualquer pessoa em meu caminho tornou-se um borrão. O único pensamento que importava, um mantra que pulsava a cada respiração irregular – eles pagariam. Todos eles pagariam. 

O mais próximo estava distante deles. Apertei seus lábios trêmulos com a mão, silenciando qualquer gemido antes que ele pudesse se formar.  A outra encontrou seu ombro.

O silêncio foi um aliado de confiança no meio deste ato medonho, e a vítima permaneceu contida, incapaz de transmitir a sua agonia. Suas lutas eram patéticas, uma mosca presa no âmbar.

Desloquei seu ombro com grande precisão, separando os ossos e as articulações escapulares de tal forma que qualquer movimento seria agonizante. 

Eu lancei seu braço na direção deles, um estandarte sangrento proclamando minha chegada. Os atacantes ao redor de Marie congelaram, seus olhos se fixaram no quadro diante deles. Era uma obra-prima brutal, um testemunho das consequências de sua transgressão. 

Eles eram lobos, cercando suas presas. Agora, eram coelhos pegos pelos faróis de um monstro. 

Enquanto isso, Marie, deitada no chão, coberta de hematomas, arranhões e feridas, conseguiu manter um olho aberto. Ela teve a coragem de considerar o pior dos mortos.

— Isso não parece mais tão errado, parece?

Contanto que ninguém me pare…

— A história está só se repetindo.

… eu também não vou parar. 

Assim o fiz com o aluno que fiz minha primeira vítima: puxei meu pulso à esquerda, eventualmente fazendo a cabeça do garoto girar. Desta forma, seu corpo inanimado cedeu ao piso.

“Desde quando…? Como o Krynt…”

Edward se questionava. Frente a um absurdo, pela primeira vez sentiu-se imponente e amedrontado mais pelas aparências do que pelo fato de um companheiro seu se revelar um assassino.

— Corram! — gritou outro aluno.

Esta atitude violenta permaneceria inabalável caso alguém não fizesse nada. 

Muitos intencionavam seguir em direção à saída, no entanto, falharam.

Eles falharam no momento em que surgi diante deles.

 — Ainda não… — Os encarava com um sorriso abominável. — Ninguém vai fugir até eu me satisfazer.

 A escuridão se agarrou a mim como uma mortalha, apagando as fracas chamas da coragem onde quer que eu fosse. Alguns, tolos adornados com uma bravura descabida, ousaram se opor a mim. 

Punhos insignificantes choveram, chutes bateram ineficazmente, agulhas brilharam pateticamente. Todos encontraram o mesmo esquecimento arrepiante. Isso não era uma luta.

Massacre. A palavra se esgueirou por minha mente, uma cobra venenosa. Minha mão direita, um instrumento de brutalidade requintada, encontrou seu ponto – uma incisão precisa na cavidade torácica de uma alma infeliz.

Quando retirei meu braço, trouxe o coração, uma joia carmesim, pulsando em minha mão. Eu o levantei e espremi. O sangue escorreu até minha boca em uma trilha de rubor.

E então, o horror. O gosto, uma mistura grotesca de sabor metálico e vísceras, detonou em minha boca. Vomitei, e a expulsão foi um espelho grotesco da carnificina que causei. 

Recuei, com um lampejo de algo parecido com surpresa em meus olhos. Mas o ato foi passageiro. A fome, uma besta devoradora, voltou a se agitar.

Meu olhar, um fragmento enferrujado de desprezo, fixou-se em uma figura rebelde no canto. Uma garota, toda trêmula e desafiadora, segurava um telefone apontado para mim, filmando a carnificina que eu orquestrei.

— O que é isso?

Houve uma falha em sua respiração.

— U-uma coisa dessa… — Ela engasgou em suas próprias palavras, a frase foi engolida e cuspida de volta com um verniz de bravata forçada.

Um sorriso lento, gosto de sangue em minha língua. 

— Isso é algo bonito, você não acha? Uma pequena lição sobre a fragilidade da vida.

O celular balançou em seu punho. Ainda assim, ela perseverou.

— Todo mundo vai ver isso… Você é um monstro. Seu lugar é no inferno.

A repugnância, genuína e consumidora, contorceu minhas feições. Mas, por baixo dela, uma faísca acendeu. O riso, uma erupção gutural, escapou.

— Hahahaha! Inferno, você diz? É um lugar familiar. Nessa terra, nós o criamos.

Seu rosto se encolheu, a bravata finalmente se desfez. Mas através das rachaduras, algo mais cintilou: um vislumbre de medo tão requintado, tão absolutamente delicioso, que eu queria capturá-lo, engarrafá-lo, saboreá-lo por toda a eternidade.

Em um movimento meu, o celular dela tentou capturar imagens da terrível situação, mas, à medida que eu prosseguia, deu-se um imprevisto.

O visor do aparelho exibiu uma representação ilegível do que estava acontecendo diante de seus olhos, como uma confusão de borrões.

A garota olhou em volta, incerta, algumas vezes. Movendo-me em um ritmo que o olho humano, muito menos a lente de um celular, não conseguia acompanhar, parecia que eu estava desafiando as próprias leis da física.

— Tá muito longe ou tenho que chegar mais perto?

Fiquei diante dela de repente.

Meu aperto foi forte em seu pescoço, um escultor cruel moldando a argila com a intenção de quebrá-la. Meus dedos cravaram na carne que cedia, a traqueia delicada era uma resistência patética contra a pressão que estava exercendo.

Seus olhos se turvaram com uma onda de pânico doentio. Sua visão oscilava, o mundo se transformando em um nauseabundo pandemônio. Ela apertou suas unhas contras as minhas mãos em um ato desesperado de defesa, mas foram afastadas como se fossem insetos irritantes.

O ar, antes um direito de nascença, tornou-se um luxo desesperado. Cada célula, traída por seu próprio sangue vital, voltou-se contra si mesma em uma rebelião lenta e agonizante. 

Um suspiro final e irregular escapou de seus lábios, um sinal de pontuação na sentença de sua vida. Soltei meu aperto, o corpo dela outrora vibrante se desintegrou no chão como uma boneca descartada. Um sorriso cruel se estendeu em meu rosto. Apenas mais uma obra-prima em minha galeria de condenados. 

Meu estômago revirou ao ver os vermes se contorcendo. 

A maravilhosa sensação de poder vinha do fato de desafiar a vida e vencer. Não havia espaço para misericórdia nesse jogo, apenas para a matança justa dos fracos. Eles não sabiam que estavam olhando para o seu superior.

O sangue manchava o chão de um carmesim brilhante, um monumento à minha técnica. Esse espetáculo escarlate exigia concentração total, pois continuava a se mover em um ritmo mais rápido. Meus reflexos cantavam uma melodia letal, e a devastação atingiu um crescendo impressionante.

São os caídos que eu abominava – lixo descartado espalhado pelo campo de batalha. Tanta carne desperdiçada. Um movimento de meu pulso fazia chover um jato de vermelho.  

No final, o êxtase corria em minhas veias, um coquetel inebriante feito de violência e vitória. Cada contração de meus músculos cantava um coro triunfante, mas o silêncio antinatural que se instalou sobre a carnificina era inquietante.  

Então, um movimento. Uma barata solitária corria, o medo transformando suas feições em uma caricatura grotesca.  

— Hahaha! Parece que esqueci de você.

Sarah era a única sobrevivente. Ela paralisou, tremendo.

— Oh, m-merda! — Ela se afastava. — Me desculpa, me desculpa! 

— Não se preocupe, é um erro fácil de cometer. — Dei um passo predatório para mais perto. — Considere isso como uma rodada de bônus.

— Não! Por favor! — gritou ela entre lágrimas. — Eu farei qualquer coisa! Tudo o que você quiser!

Seus olhos se arregalaram, procurando por fuga, por salvação. Suas súplicas eram como uma mosca zumbindo contra um furacão. Divertido, de uma forma mórbida. 

— Essa é a piada, não é? Hilariante, na verdade, porque aqui está você, implorando por misericórdia, quando momentos atrás estava tão ansiosa para bancar a poderosa.

Os olhos de Sarah foram abertos até a morte. Ela estava em seu leito de morte neste dia, com a expressão aterrorizada em seu rosto, o que deixou seus músculos inativos e incapazes de obedecer às ordens da mesma.

— P-por favor… espere! V-vamos conversar! 

Nada importa mais, o meu desejo era apenas matar.

— Você entende, eu quero sua vida, não suas desculpas.

Minha fome ansiava pela finalidade da morte, não pelas justificativas frágeis de uma rata encurralada.

— Krynt…? — Edward chamou-me

Me virando para ele, notei uma expressão confusa, enquanto Marie, no fundo, sentia um grande horror à atrocidade que ele havia cometido.

— Ah, ele? — respondi, sorrindo. — Ele ainda é o seu amigo? Idiotice da sua parte.

Enquanto isso, ouvi uma voz que me atraiu.

— Seu puto… Desgraçado! — gritou Sarah, outra vez. — Como você ainda pode ser um ser humano?

O meu olhar, que transmitia ódio, voltou para a garota desamparada

— Cala a boca. Eu não…

Tum-tum

Meu coração me traiu. Uma batida irregular, uma falha no sistema, jogou toda a orquestra no caos. De jeito nenhum eu iria cair agora, não depois de tudo o que eu havia feito.

A pressão aumentou, apertando meu peito. O pânico se apoderou das bordas da minha visão, mas eu o reprimi. Isso não deveria ter acontecido. Não comigo.

“Não…”

O mundo ficou escuro. Não a escuridão de uma sombra passageira, mas um preto espesso e sufocante que me engoliu inteiro. Uma maldição? Talvez. Mais como um motim. 

Este pesadelo manifestou-se numa clara violação dos princípios da fisiologia, num ato de desobediência por parte do órgão que deveria ser o controlador total do ritmo do coração, levando-me a ceder, desacordado, sobre o piso.

Olá, eu sou o Nyck!

Olá, eu sou o Nyck!

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