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Jogo dos desafios, dia 5. 

Na noite anterior, pelo não cumprimento das tarefas determinadas, quatro participantes foram eliminados: Aiko, Midori, Saori e Yuriko.

Participantes restantes: 3 (três).

Já pela manhã, tal email foi enviado para os participantes. Para Mayck e Hana, um alívio — isso confirmava que o plano havia dado certo, embora o custo fosse desconhecido. Para Keiko, porém, foi totalmente inesperado. Apesar de ter se sentido um pouco abalada, no fim, ela não deixou que isso a derrubasse. 

É melhor assim, ela pensou. Com isso, ela poderia continuar sozinha, mas era claro que tinha o dedo de Mayck no meio disso tudo, então ela percebeu que deveria ser mais cautelosa. 

Se ele e Hana tivessem calculado aquilo, então existia a chance deles estarem preparando uma armadilha. Keiko estava pronta para isso, e já tinha preparado o terreno para sua vitória esmagadora. 

Entretanto, não seria uma vitória no jogo, mas, sim, no seu objetivo verdadeiro. Aquele jogo não fazia sentido para ela, mas ela decidiu encará-lo como um meio de evitar que suas amigas sujassem as mãos. Então a eliminação delas acabou sendo conveniente. 

Após terminar de vestir seu uniforme, ela se dirigiu para a saída do seu dormitório e, em seguida, para o colégio. 

Ela só precisava esperar até o fim do dia, mas acabou mandando uma mensagem durante as aulas. Era certo que sua ansiedade estava ficando cada vez mais forte. 

Está chegando ao fim. A vingança que eu planejei há tempos. 

Ela passou os últimos meses observando Mayck, até que encontrou com ele em Shibuya quando decidiu que era o momento certo. 

Era indescritível o rancor que ela teve que prender dentro de si enquanto agia como uma garota boba na frente dele. Mas ela teve que manter seu orgulho em silêncio — tudo pelo bem da sua vingança. 

A mensagem que ela enviou foi visualizada após algum tempo. Era justificável e até poderia ser considerado uma visualização rápida dado o fato que o remetente também estava em aula. 

Mas a resposta que recebeu não era o que queria. 

Depois de presenciar o surto de Takafumi, ela esperava que Haruna tivesse alguma informação útil sobre, mas a garota disse que não teve contato com eles desde então. 

Isso significava que ela teria que fazer uma visita por conta própria.

Por sorte, ela poderia usar Jade como desculpa. 

Mas isso fica pra depois. 

Ela guardou o celular na bolsa e voltou sua atenção para a aula. 

No horário do almoço, ela procurou por suas amigas de longe, mas não as encontrou. Como foram eliminadas, elas não poderiam fazer contato com ela, como dito nas regras do jogo, então mesmo se as visse seria apenas de longe. 

Porém, elas não estavam lá.

Que estranho… o que será que aconteceu? Elas evitaram vir por conta própria?

Existia tal possibilidade, mas também havia uma chance de ter acontecido algo nada bom. 

Elas devem ficar bem. 

Keiko não as deixou de lado por ser uma péssima irmã, mas por saber que elas poderiam cuidar de problemas sozinhas, então não havia muitos motivos para ela se preocupar tanto além do que quebrava sua cabeça há bastante tempo. 

“Keiko, vamos nos sentar ali.” Uma garota de cabelos longos e pretos a chamou e gesticulou para uma mesa vazia. 

“Ah, sim, já tô indo.” Com seu sorriso habitual, ela pegou sua bandeja e se juntou a sua amiga. Logo depois, mais duas garotas apareceram para fazer companhia a elas. 

Após conversas e mais conversas despretensiosas e que não levavam a lugar algum, o horário de almoço acabou sem problemas ou algo de especial. 

Voltando para a sala, ela teve que acompanhar o restante das aulas até o fim do dia, quando o sinal tocou e todas as garotas começaram a deixar a escola. Keiko também o fez e seguiu para a casa dos Mizuki, no intuito de convidar Jade para sair — apenas um pretexto para averiguar se a semente plantada já havia germinado. 

Entretanto, não foi possível. Ela parou na última esquina, de onde podia ver a residência desejada. Havia algumas figuras na frente da casa, entre elas estava Haruna. 

O que foi que aconteceu? 

Ela espreitou pelo muro, mas a distância não permitia que a conversa fosse ouvida. Então se ela quisesse entender o assunto naquele momento teria que se aproximar. 

Sem hesitação, ela deu um passo em frente e pouco tempo depois estava ao lado de Haruna. 

Fingindo ignorância, ela cumprimentou a garota alegremente. 

“Haruna-chan~!” Ela a abraçou casualmente por trás.

“Ah, Keiko…” a voz apreensiva de Haruna, porém, era contrária ao seu falso entusiasmo. Keiko se afastou. 

“Tem bastante gente aqui… aconteceu alguma coisa?” Ela olhou para o quintal, observando as figuras ali. Tratavam-se dos parentes de Haruna e amigos da família, cerca de oito pessoas. 

“Você me mandou mensagem mais cedo… eu não sabia, mas depois minha tia me ligou na escola…” ela parou de falar de repente. Sua feição parecia preocupada. 

Havia acontecido algo ruim na residência dos Mizuki, e embora ela não conseguisse dizer o que foi que aconteceu, parecia que suas sementes haviam brotado. Sua suspeita foi confirmada quando Takashi saiu pela porta e foi conversar com os demais adultos com seu semblante caído. 

Enquanto observava o rosto abatido de Takashi, Haruna continuou:

“A ambulância acabou de sair… quando minha mãe e Takashi voltaram… Takashi-san acabou discutindo com Takafumi-ojiisan…”

E então Takafumi teve um ataque cardíaco e foi levado ao hospital. 

“Entendi…” Keiko acenou levemente. “Algo deve ter acontecido. Espero que ele fique bem, o Takafumi-ojiisan.”

“Sim…” Haruna apenas concordou enquanto olhava os adultos. Sua feição ainda era melancólica. Era justificável, afinal de contas, um evento feliz acabou de acontecer e em seguida algo ruim. Não era estranho que alguém sentisse uma forte angústia em seu peito. 

De repente tudo parecia ir por água abaixo. 

“E quanto a Jade? Ela está lá dentro?”

“A Jade ela… eu não sei onde ela está, mas eu soube por Tomoko-obaasan que ela fugiu no meio da discussão.”

“Ela deve ter ficado com medo.”

“Uhum…” Haruna abaixou seu tom de voz repentinamente, refletindo sobre algo. “… Em um momento desses… onde está aquele idiota?”

“An…?” Os olhos de Keiko se arregalaram. 

O que foi que ela disse? 

“O que você falou, Haruna-chan?” Ela precisava confirmar. 

“Hm?… Eu… não sei… só parece que eu me esqueci de algo.”

Ela… não se lembra. Mas ela ter mencionado isso inconscientemente é pior. Pode ser que uma pequena fagulha na mente dela ainda tenha memórias dele. Eu tenho que acabar com isso logo. 

Se Mayck fosse lembrado, ele seria procurado. Nesse caso a dor em seu coração acabaria — em partes — e ele conseguiria usar suas habilidades com mais tranquilidade. Esse era um cenário ruim para Keiko; ela sabia que não devia subestimar o garoto. 

“Eu acho que vou procurar Jade-chan. Ela pode estar mal agora.”

“Eu vou com você…”

“Não.” Keiko gesticulou com o dedo indicador para ela. “É melhor você ficar com sua mãe. Eu volto logo. Não se preocupe.” Um sorriso gentil se formou em seu rosto e antes dela se afastar, deu uma boa olhada nos rosto arrependido de Takashi. 

Me desculpem, mas eu preciso que seja assim.

Rapidamente ela se distanciou. 

Após percorrer uma grande distância praticamente sem rumo em busca de Jade, Keiko parou. Ela estava em um centro comercial agitado, embora a noite já tivesse caído. 

Não acho que vou encontrá-la tão fácil por aqui. Além disso, eu tenho uma tarefa para realizar. 

Ela se lembrou. Um suspiro escapou de sua boca, enquanto ela dava meia volta e seguia por um caminho diferente. Ela também checou o celular, onde viu o email com o local para onde ela deveria seguir. 

Não era muito longe de onde ela estava e também já o visitara antes, porém, há bastante tempo. 

Quando chegou até ele, parou em frente a entrada, onde havia uma placa dizendo o nome do restaurante em questão. 

“Giri… faz tempo que não venho aqui.” Na última visita que ela fez àquele local estava acompanhada de Yang, foi quando ele a contou sobre Mayck. 

Que nostálgico. Não era uma nostalgia boa, no entanto. 

Ela entrou no estabelecimento e foi bem recebida por um garçom vestido formalmente, com uma gravata borboleta e um colete preto por cima da camisa. 

Ele a guiou até um assento vazio, já que ela disse que não esperava por ninguém quando questionada. O cardápio lhe foi entregue junto a um copo com água. 

Apesar de não estar ali para o jantar, ela acabou sendo fisgada pela comida oferecida a um preço extraordinariamente baixo. Ela não hesitou em fazer um pedido. 

Enquanto esperava, ela checou seu celular mais uma vez. A sua tarefa era simples: conseguir a digital de um dos funcionários do restaurante. Não havia muitos detalhes do motivo para tal, mas isso não a interessava. Ela só precisava fazer isso. 

Procurou o funcionário com os olhos, evitando ser notada e o encontrou, atendendo os clientes de outra mesa. 

Ele não parecia ter nada de especial além de sua ótima aparência, cabelos curtos pretos e bem cuidados e seus olhos castanhos claro. 

Mas se a GSN estava atrás dele, então ele tinha que estar envolvido em algo ruim. 

Como eu faço para pegar a digital dele…?

Keiko refletiu sobre isso sem desviar os olhos do homem, até que teve uma ideia após visualizar o que tinha na mesa. 

Ela desligou o celular e limpou a tela dele com um lencinho e o colocou ao pé da mesa, de lado. Estava tudo preparado. Em seguida, ela bateu no copo de vidro e o derrubou, atraindo a atenção de todos no restaurante, inclusive do seu alvo. 

“Ah, não…” Keiko se levantou imediatamente cobrindo a boca. 

“Você está bem, senhorita? Deixe que eu limpe isso.” O garçom se aproximou dela e começou a recolher os cacos de vidro. 

“Ah… bem, me desculpe… eu me distraí e acabou derrubando o meu celular…” Ela se desculpou fazendo uma expressão angelical de arrependimento. 

“Não se preocupe, senhorita. Acidentes acontecem o tempo todo.” Ele terminou de recolher os cacos de vidro e os colocou em um lenço branco. “Acredito que isso seja seu.” Ele pegou o celular no chão e entregou a ele. 

“Ah, sim. Muito obrigada.” Ela o recebeu sem tocar na tela. “Mais uma vez, me desculpe.”

“Tudo bem, tudo bem. Pode fazer sua refeição sem preocupações.” Ele tentou acalmar a desesperada e constrangida jovem.

Ele se virou, pronto para sair. Keiko viu um papel saindo do bolso traseiro de sua calça e julgou que lá poderia estar o código de confirmação, então o puxou rapidamente sem que ninguém percebesse. 

Quando ele se afastou, indo para a sala dos fundos, Keiko se retirou do restaurante. Quando o garçom voltou com sua refeição, ela já não estava mais lá. 

Keiko retornou para o dormitório, onde, usando algumas ferramentas úteis, retirou a película de seu celular, evitando borrar a digital do garçom, que ficou marcada quando ele pegou o celular devido a posição inevitável. 

Ela enviou o código de confirmação e foi instruída a levar a digital até a estação, onde ela seria recolhida por alguém. 

Depois de ter feito tudo, só restava esperar pelo dia seguinte, quando receberia o último desafio. 

Antes de relaxar completamente em sua cama após um banho, Keiko se lembrou que acabou não encontrando Jade. 

<—Da·Si—>

Jade correu sem rumo por algum tempo. De certa forma, a discussão iniciada em casa a afetou muito, fazendo-a lembrar de tudo o que sofreu nas mãos de sua família. Aquela ferida ainda estava aberta no mais profundo de seu coração e não se fecharia tão cedo. 

As palavras de Takashi a machucaram bastante, mesmo que não tivessem sido direcionadas a ela. 

Eu deixei Lorena sozinha…

Ela se deu conta quando já nem sabia onde estava. Olhou de um lado para o outro, mas não reconheceu nada. Portanto, optou por se sentar em um banco de praça que encontrou e ficar de cabeça baixa até que uma força maior lhe desse coragem de seguir em frente. 

Porque tudo aquilo estava acontecendo? Ela buscava uma resposta em suas memórias e, assim como outras vezes, percebia que tinha algo faltando. 

O silêncio da noite, o cantar dos grilos e a brisa fresca que sopravam por seus cabelos não lhe ajudavam a se lembrar. Ela segurava fortemente sua vontade de chorar, pois, em algum lugar de seu coração, ela esperava que alguém fosse ajudá-la. 

Ele me prometeu, afinal. Mas quem tinha feito tal promessa era um mistério. Meu avô e minha avó só falam dele, mas eu nem ao menos sei quem é… e tudo isso só aconteceu por causa dele. 

A discussão entre pai e filho era esperada desde que o casamento foi celebrado. Takafumi já estava obcecado pelo tal Mayck desde aquele dia e insistia em perguntar sobre o paradeiro dele. 

Mas ninguém com esse nome vinha em sua mente. Ela tentou se lembrar de quando era mais nova. Seus irmãos, primos… Alana e…

Tinha alguém. Outra fagulha se acendeu em sua mente. 

Eu tenho certeza que tinha mais alguém. E essa pessoa com certeza está relacionada ao fato de eu estar aqui. 

Mesmo como ela tinha ido para o Japão era estranho. 

Lorena está bem… isso quer dizer que os experimentos com ela pararam… isso significa que alguém impediu meu avô. Será a mesma pessoa?

Ela pegou o celular. Seu instinto dizia que ela encontraria algo lá. Abriu o aplicativo de mensagens, olhou a lista de contatos bloqueados. Não encontrou nada importante. 

A angústia apertou seu coração ainda mais. Jade se viu totalmente sem saída. À medida que o tempo passava e ela não conseguia pensar em uma solução, dava um passo rumo ao abismo do desespero. 

Ela não conseguia mais conter seus sentimentos ali, então acabou se levantando, pronta para percorrer mais alguns quilômetros sem rumo. 

Entretanto, ao levantar os olhos, ela se deparou com algo ruim o bastante para piorar cem por cento o dia de alguém. Jade paralisou ao se encontrar com os olhos sem vida da criatura humanóide.

Sua respiração ficou dolorosa de repente; o coração parecia machucar de tão rápido que batia. 

Porque… tem um Ninkai logo agora?

Um calafrio percorreu seu corpo. 

O monstro, mais alto que ela, a encarava, como quem via a refeição pronta. Diante da sua presa imóvel, ele começou a levantar seus longos braços que encostavam no chão e a abrir sua boca cheia de dentes, lentamente; parecia ter certeza que seu alvo não fugiria de tão calmo que estava. 

Seus olhos brancos, destacados em sua pele totalmente escura, pareciam ter algum efeito hipnotizante. 

Jade não conseguia fazer nada além de gritar por socorro, em sua mente, já que sua voz não saia. 

Os Ninkais sempre escolhiam presas que estavam sozinhas. E as que nem se mexiam para fugir eram perfeitas. Contudo, sua refeição foi interrompida por um corte limpo e rápido, como um piscar de olhos, em sua resistente e fina garganta, que separou sua cabeça do resto do corpo. 

“Você está bem, Jade?” A voz chegou até os ouvidos da garota, enquanto o corpo do monstro caía sob seus pés. Ouvir aquela voz a encheu de uma alívio extremo e confortou totalmente seu coração. Ela sentiu uma base se formar abaixo de seus pés. 

Jade começou a chorar como uma criança, se jogando nos braços de Mayck que apareceu no último momento para ajudá-la.

Eu sabia… eu sabia que você viria me salvar. 

“Mayck…” ela repetiu o nome dele algumas vezes. Mayck deslizou os dedos pelos cabelos dela, consolando-a, dizendo que estava tudo bem. 

Um segundo a mais e Mayck teria perdido sua prima. Ela só estava naquele estado por ter se envolvido nos problema dele, então ele nunca se perdoaria caso algo ruim acontecesse com ela. 

Mais cedo, Hana recebeu uma ligação de sua mãe, que lhe disse o que havia acontecido com Takafumi. Sem demora, a garota contou à Mayck que, assim que saiu da escola, foi até sua casa, mas o ajuntamento da família o impediu de se aproximar — ele precisava usar a razão ao invés de se deixar levar por seus sentimentos de preocupação. 

Se ele se mostrasse ali, o que já estava ruim só pioraria. 

Então ele pensou em ir até o hospital, mas Hana lhe enviou uma mensagem contando que Jade havia sumido.  Por isso, seu curso de ação foi alterado e ele iniciou uma busca por sua prima, chegando à situação anterior. 

Quando a garota se acalmou ela contou a ele o que aconteceu na casa.

Takashi havia voltado com Suzune, mas a deixou em casa. Ele tinha algo a fazer antes. Quando entrou em casa, foi imediatamente confrontado por Takafumi, que lhe perguntou obstinadamente sobre onde Mayck estaria. Entretanto, assim como da outra vez, Takashi negou saber quem seria tal pessoa. 

Esse foi o gatilho que iniciou a discussão. Além do mais, o homem de idade já estava em seu limite. Começou com uma leve preocupação que logo se tornou em raiva e quando falou com seu filho, ele explodiu de vez. 

Em um dado momento, ele se exaltou demais, apesar dos avisos de Tomoko para se acalmar. Lorena correu para o quarto, assustada e Jade, sem saber o que fazer, se retirou da casa, pensando que tinha que encontrar alguém. 

“Entendi…” Mayck acenou com a cabeça de forma empática. “Me desculpe, por fazer você passar por tudo isso.”

“Uh-uh… Não é culpa sua. E você já descobriu quem foi o responsável? Quer dizer… já fazem alguns dias que eu também tive as memórias apagadas.”

“Sim. Eu sei quem foi e isso tudo vai acabar amanhã. Obrigado por ter aceitado meu egoísmo, Jade. Pode ficar tranquila agora.”

“Amanhã? Com assim?” Jade levantou uma sobrancelha enquanto mandava um olhar confuso para o garoto. 

Era justificável a confusão dela. Afinal, como Mayck saberia quando  um evento desses fosse acabar? Mas ele a tranquilizou dizendo o que aconteceu até aquele momento. Jade não pôde evitar sentir uma agulhada em seu coração. 

Então ele também estava sofrendo… 

Ela se deu conta disso após ouvir sua história. 

“Enfim, o inimigo é Keiko, mas não se importe muito com ela. Ela só está focada em mim.”

“Está bem. Vou tentar… se tiver algo que eu possa fazer, me avise, tá bom?”

Apesar do medo que ela estava sentindo, ela ainda queria ajudar de alguma forma. 

“Nesse caso, poderia fazer só uma coisa?”

“O quê?”

“Eu quero que fique do lado da avó. Ela é muito gentil, então nunca mostra quando está abalada. Eu tenho certeza que ela vai gostar de um abraço.”

Jade assentiu. 

“Vou fazer isso. Mas e quanto ao seu pai? Ele também deve estar bem apreensivo, não é?”

“É… eu imagino que sim.” Mayck suspirou, olhando tediosamente para o chão. “Mas eu acho que é bem complicado falar com ele agora. Vamos deixá-lo em paz por enquanto. Tenho certeza que ele vai preferir refletir sozinho.”

Mayck se levantou e olhou para Jade por cima do ombro, virando-se parcialmente. 

“Eu vou até o hospital, ver como meu avô está. É melhor resolver isso começando por ele.”

“Você quer que eu vá junto?”

“Nah. Tá tudo bem.” Ele sorriu levemente. “Vamos ter uma conversa séria lá. De homem pra homem.” 

Jade sorriu de volta. O que ela estava sentindo naquele momento era como se uma esperança brotasse no meio de um evento caótico. 

“Eu vou te acompanhar até em casa. Vamos?”

“Sim.”

Os dois se afastaram do banco lentamente. Uma hora depois eles se encontravam na frente da casa de Mayck, onde se podia ver as luzes da sala acesas. O garoto assumiu que estavam à espera de Jade, então ofereceu um último conselho a ela. 

“Escuta. Mantenha em silêncio sobre mim, pelo menos por enquanto. Se necessário, conte apenas à minha avó.”

“Uhum.”

Após isso, eles se despediram e Mayck seguiu na direção da estação. Indo direto para o hospital. Não levou muito tempo até que ele chegasse até a sala de espera do local. 

Depois de se dirigir à recepção e receber o aviso de que teria que esperar um pouco antes de ver o paciente, ele se sentou em uma das dezenas de cadeiras com almofadas. Por preferência, ele se sentaria lá no fundo, mas tinha que estar atento quando fosse chamado — já que o lugar era muito grande —, então se sentou na frente. 

Não havia muitas pessoas ali, mas a correria era a mesma de sempre entre os médicos, funcionários, pacientes e visitantes — uma visão comum, apesar de nada agradável. 

A espera era bem entediante, além de angustiante, então Mayck decidiu assistir algum anime pelo celular, usando seus fones de ouvido. Isso, no entanto, era bem contrário ao seu pensamento de se sentar na fileira da frente para ouvir bem quando fosse chamado, mas o episódio acabou sem interrupções após tirar uma belas risadas silenciosas do garoto. 

Ele parou para observar os arredores mais um pouco e uma comoção parecia ter começado. Uma ambulância chegou e os paramédicos entraram apressadamente no hospital, empurrando uma maca coberta por um tecido branco. 

Não era necessário gastar muita energia para entender que era uma vítima de um acidente, principalmente quando algumas pessoas que pareciam ser a família da pessoa na maca entraram aos prantos logo depois. 

Espero que dê tudo certo. 

Mayck acabou desejando uma boa recuperação para o paciente. 

“Mayck Mizuki-san.” Uma enfermeira o chamou e ele se apresentou prontamente. 

“Você é neto de Takafumi Mizuki-san?”

“Ah, sim. Ele já está acordado?”

“Sim. Ele foi avisado de sua presença e está à sua espera. Pode vir comigo?”

“Claro.”

Já havia passado das 23 hrs quando ele foi guiado pela enfermeira até o quarto de seu avô. Mas sem preocupações. Havia realizado sua tarefa do dia enquanto procurava por Jade, então não estava faltando nada. 

Após passar por alguns corredores, médicos, enfermeiros, pacientes e visitantes, eles chegaram até um quarto onde uma plaquinha contendo o nome de Takafumi estava presa ao lado da porta. 

“Então, por favor, siga minhas instruções”, a enfermeira falou gentilmente.

“Claro. Muito obrigado.” 

Ela fez uma rápida reverência e se retirou, deixando claro que se ele precisasse de algo não hesitasse em chamar algum médico. 

Mayck deu as costas para o corredor e abriu a porta lentamente. Já de cara, ele se deparou com os equipamentos tecnológicos de um bom hospital, uma cama e uma janela de vidro, de onde tinha uma ótima visão para o céu noturno. 

Na cama estava Takafumi, deitado com uma roupa branca esverdeada. Seu olhar estava distante, como se ele refletisse profundamente. Não parecia ser a hora certa para interrompê-lo, mas Mayck foi em frente e o chamou, conseguindo sua atenção imediatamente. 

Uma agulha passou por seu peito quando a imagem de seu avô naquele estado atingiu seus olhos. Diversas agulhas em ambos os braços e um aparelho respiratório. 

“Mayck…” O homem balbuciou ao vê-lo entrar. O aparelho que registrava seus batimentos cardíacos aumentou seus ‘bips’.

“Eu posso pedir que você se acalme? Eu sei que não é a melhor hora, mas eu preciso contar algumas coisas a você.”

“Tudo bem… entre, por favor.”

Mayck fechou a porta atrás de si e nesse momento perdeu as forças, e não conseguia mais virar seu corpo e olhar seu avô. Era como se correntes o tivesse prendido ali mesmo. 

Enquanto isso, Takafumi se sentou na cama e moveu os lábios. 

“Acredito que o que você tem a me contar não seja algo como problemas escolares, certo?” Ele ainda mantinha sua atitude compreensiva. 

O garoto respirou fundo. 

“Isso… não é nada tão simples.” Criando coragem, ele se virou e encarou os olhos apáticos de Takafumi. “Primeiro, eu quero pedir desculpas por não ter estado presente no casamento do meu pai.” Ele se curvou levemente.

“Hm… Eu não posso negar que fiquei furioso com isso. Mas eu te conheço, Mayck. Sei que você não estaria aqui se tivesse feito por pura maldade.”

Mayck agradeceu mentalmente pelo voto de confiança recebido e piscou os olhos brevemente.

Takafumi era um homem paciente. No meio do estresse, ele seria o penúltimo a levantar a voz e ser consumido pela ira — porque a última seria Tomoko. Portanto, o garoto soube imediatamente a gravidade da situação, já que seu avô confirmou o quão irritado estava. 

“Poderia me contar os seus motivos?”

“Sim… foi pra isso que vim aqui”, Mayck declarou seriamente. Takafumi ficou em silêncio para ouvir e o convidou a se sentar. 

Mayck se dirigiu até a cadeira do lado esquerdo de seu avô e se sentou. 

Então começou a contar tudo o que aconteceu desde que chegou ao Japão até o momento mais recente. Após terminar, o que ouviu como resposta foi:

“Você me conta uma história tão fantasiosa e espera que eu aceite de braços abertos?” 

Até mesmo para alguém tão compreensível como Takafumi era difícil acreditar naquela história. Entretanto, Mayck não insistiu, não jurou e nem levantou a voz para fazer seu avô confiar nele. Em vez de se expressar como qualquer adolescente faria, ele apenas completou com sua voz natural, mas que dizia seriamente. 

“Eu não espero que você acredite e aceite isso tudo tão fácil… mas eu também sei que o senhor confia em mim e sabe que eu não criaria uma história tão conveniente para um momento tão absurdo.”

Sua calma era contagiante. Mas Mayck precisava se manter frio o bastante para que seus sentimentos chegassem ao seu avô. 

“Existe alguma forma de você provar tudo o que me disse?”

“Não prometa nem jure. Apenas a sua palavra basta. Você me ensinou isso, certo?”

Diante dessas palavras, Takafumi baixou o olhar e sorriu, repetindo a última linha de Mayck em voz baixa. 

“Não esperava que colocasse isso em prática tão cedo… Pois bem, Mayck, não farei mais perguntas. Baseado no que você disse, se eu souber mais vai ser um caminho sem volta. Então, pelo menos por enquanto, eu vou deixar passar.”

“Obrigado, vô.”

“Você cresceu, Mayck.” Takafumi tinha um olhar orgulhoso, porém solitário. “Agora tem suas próprias batalhas. Sua mãe estaria orgulhosa de você agora.”

“Eu espero…” ele sorriu levemente. “Eu peço, por favor, que não fique irritado com meu pai. Ele não tem culpa de nada.”

“Eu me sinto envergonhado só de lembrar. Não consigo acreditar que agi de forma tão infantil. Mas fique tranquilo, eu não tenho raiva dele… vejo que tudo não passou de uma mal entendido.”

“Não pode ser ajudado. É uma situação complicada, afinal. Mas… mudando de assunto, vô, porque você não disse que tinha problemas no coração?”

“Então você ficou sabendo?” Takafumi desviou o olhar para a janela.

“A enfermeira me contou… fala a verdade… você não está numa situação muito boa, né?”

Segundo a enfermeira, o coração de Takafumi estava fraco, então uma situação de estresse poderia acarretar em diversos problemas ou levá-lo a óbito. Ela não revelou muitos detalhes além de que era uma doença crônica problemática.

“Pois é. Eu tenho um coração fraco. Mas eu não vou morrer por ficar irritado. Não se preocupe.” Ele sorriu orgulhosamente e Mayck retribuiu com um sorriso amargo. 

“Se você está dizendo…” Ele se levantou. “Bom, eu vou indo agora. Amanhã eu volto. E, mais uma vez, faça as pazes com meu pai, okay?”

“Não fique me dizendo o que fazer. Eu sou o mais velho aqui.” Ele fechou os olhos como se fizesse birra.

“Sim, sim. Boa noite, vô.”

“Boa noite, Mayck.”

O garoto seguiu para a porta e a abriu, mas ouviu Takafumi dizer algo antes de sair. 

“Mayck, não importa o que você escolha, tenha certeza de nunca se arrepender. Pode parecer difícil, mas com grandes poderes…”

“Parou aí. Eu já ouvi isso antes.”

“Hahaha.” Takafumi gargalhou, mas logo parou por conta de uma tosse. Em seguida, ficou sério novamente. “Mas, sabe, com a vida nós aprendemos muitas coisas e uma delas é que temos que fazer o nosso melhor para podermos dizer que fizemos tudo o que podíamos. Mayck, boa sorte.”

“Obrigado.” Com um leve sorriso no rosto, ele saiu do quarto. 

Takafumi encarou a janela e sussurrou para o vento.

“Habilidades sobrenaturais… hein… eu já tinha ouvido algo sobre isso há muito tempo.” Ele se deitou. “Émelhor eu pedir desculpas a Takashi logo. Apesar de tudo, ele ainda parece um moleque.”

Além do mais, Takafumi não queria ser a tristeza de seu filho logo quando ele havia acabado de ter um recomeço. 

“Ah…” um suspiro saiu de sua boca. “Me sinto tão cansado…” Seu corpo estava pesado e seus olhos se fecharam lentamente, ao mesmo tempo que sua consciência ia se esvaindo. 

Bip… bip… o aparelho foi o único som no quarto. Com um certo esforço, Takafumi olhou para o teto. 

Eu não acho que tenho muitos arrependimentos… mas eu me sinto tão triste…

Bip… bip…

Seus olhos se fecharam outra vez…

Na madrugada do dia seguinte, as 2h52min, Takafumi faleceu de doença arterial coronariana.

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