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A luz filtrada pelas folhas das árvores parecia acariciar o rosto de Ana enquanto ela despertava.

— O que aconteceu? — atordoada, ela tentou compreender a súbita mudança em seu destino, recordando-se da aceitação resignada da morte, apenas para ser abruptamente trazida de volta à consciência.

— Eu selei seu conhecimento. Sua mente humana estava cedendo frente à quantidade de informações que você estava absorvendo — sua expressão ainda estava carregada de severidade, como se guardasse um ressentimento profundo por suas ações anteriores.

A perplexidade tomou conta de Ana, suas emoções emergindo num ritmo descontrolado diante da revelação.

— Meu conhecimento?! Como?

— Precisei infundir parte de meu poder em sua mente — a explicação de Gabriel veio com uma pontada de ressentimento, seus dentes cerrados denunciando a amargura do sacrifício que fizera.  — Pense nisso como uma lobotomia de sua alma. Enquanto esse selo for mantido, você terá apenas acesso superficial a grande parte do que aprendeu. 

A compreensão repentina do que lhe acontecera atingiu Ana em cheio, como se uma onda de entendimento a invadisse por inteiro. 

— Eu me sinto burra! Como você pôde? Você sabe que a única coisa que me faz continuar viva é a possibilidade de aprender. Você não tinha esse direito! — Ana reconheceu a profundidade de sua própria perda. Não era apenas uma regressão de conhecimento; era como se ela tivesse sido privada de uma parte essencial de si mesma, arrancada do conforto do saber absoluto para a incerteza da ignorância. Ana não se sentia tão humana desde os primeiros anos após o “Grande Vazio”.

— Não pense tanto no assunto, suas memórias foram apenas arquivadas, tudo ainda existe dentro de você — após uma pausa, o anjo prosseguiu lentamente — se você as quer de volta, torne-se mais forte. Seu corpo e sua mente devem suportar o peso da busca pela onisciência.

Ana refletiu sobre essas palavras, sua mente girando em torno da ideia de força e determinação. Ela nunca havia considerado seu próprio poder em termos tão concretos, todo seu treinamento foi fruto de seu tédio, mas agora, diante da perda que experimentara, sentia uma urgência crescente em recuperar o que lhe fora tomado. Apertando o punho com determinação, ela sentiu uma energia pulsante fluindo por suas veias. “Eu sou forte, muito forte…”, pensou para si mesma. “Não acho que as palavras de Gabriel sejam apenas bobeira, mas não creio que seja realista ir muito além disso…”

No entanto,  uma ideia repentina brilhou em sua mente.

— Gabriel, você disse que usou seu poder para arquivar minhas memórias… — um sorriso desconcertantemente largo estava se formando em seu rosto enquanto uma ideia audaciosa se formava em sua mente. — Isso significa que você pode fazer o mesmo novamente, certo? Se eu estiver sobrecarregada, você pode selar novamente meu conhecimento?

Gabriel hesitou por um momento, refletindo sobre a pergunta de Ana. Embora não tivesse revelado a verdadeira extensão do sacrifício que fizera, a ideia de infundir seus poderes em um ser humano novamente não era algo que ele considerasse de ânimo leve: seu poder demoraria séculos para ser recuperado e a dor que este humano sentia era refletida em si mesmo. Claro, tal nível de dor não era uma ameaça real, mas para um ser divino que nunca sentiu dor alguma, era uma sensação que ele preferia não sentir novamente.

— Claro, posso fazer isso — respondeu ele levando a mão a seus lábios. Não se sabia quando, mas o estranho sorriso de Ana também estava em seu rosto. Dor? Gasto de poder? Nada disso importava no momento. Uma loucura compartilhada podia ser vista em seus olhos ao encarar Ana. Ele queria ver o monstro que a garota a sua frente se tornaria.


— É estranho… não parece muito melhor do que a alguns dias atrás? — seus golpes aparentemente descoordenados continham uma força que ia muito além do que se lembrava. Cada movimento era como uma coreografia fluida e precisa, executada com uma maestria que surpreendia até mesmo a própria Ana.

— Esse é o nível do instinto. Sua memória pode ter sumido, mas não tem como apagar o que foi marcado em sua carne através do esforço. O que você vê agora é o que seu corpo deseja. Não pense, só siga a dança.

Gabriel estava jogado de forma relaxada em uma mureta próxima. Desde que perdeu a compostura em sua última conversa, ele abandonou as formalidades e distância que manteve em seus últimos anos, mostrando algo mais verdadeiro de si mesmo. Seu olhar, normalmente distante e imperturbável, agora refletia uma mistura de curiosidade e admiração ao observar o treinamento. 

Ana absorveu as palavras de Gabriel enquanto seu corpo se movia com uma graça incomum, seus músculos relembrando movimentos que nem sabia que possuía. 

— Dança? — murmurou ela. Seu pé deslizou levemente sobre a areia, um simples gesto que ressaltou cada músculo de um corpo tão temperado quanto o aço, mostrando um resquício de técnicas refinadas ao limite. Tudo era como uma grande engrenagem se movendo em um relógio, e a concentração de Ana estava em um nível incomparável para uma simples existência humana. — Sim… a “Dança de Ana”… Não parece um nome bom para meu próprio estilo? 

— Eu não sei e eu não me importo 

— Bom, estou cansada. Vamos comer algo. Já devo estar treinando a mais de 5 horas, estou prestes a desmaiar! — Bufando para a resposta ignorante de Gabriel, Ana parou seus movimentos e se dirigiu para a fogueira próxima, o crepitar do fogo ecoando em consonância com os batimentos acelerados de seu coração.

“Você está treinando a 3 dias, não 5 horas, humana estúpida”, pensou o anjo para si mesmo, ainda parado na mesma posição. Embora não deixasse transparecer, ele ficava surpreso com cada vez mais frequência ao assisti-la. 

Desde então, Gabriel notou que as pausas foram se espaçando cada vez mais, com Ana parando para comer e dormir após vários dias. Não fazia mais sentido chamar Ana de humana, sua existência em si estava mudando lentamente. 

E assim, dois séculos se passaram. Durante todo esse tempo, Ana mergulhou em um treinamento intenso e incansável, focando-se exclusivamente em aprimorar suas habilidades. Seu desejo insaciável por conhecimento e poder a impulsionava além dos limites físicos e mentais, levando-a a explorar os recônditos mais profundos de suas próprias capacidades.

Gabriel, por curiosidade e tédio, começou a se envolver mais ativamente na jornada de Ana, preparando as raras refeições para que evitasse parar de treinar, ele queria saber onde ela iria chegar. 

Em certo momento, o corpo físico de Ana superou seu limite. Seus músculos, já poderosos, tornaram-se ainda mais robustos e duráveis, mas, estranhamente, seu volume corporal diminuía gradualmente. Apesar de sua força incrível, ela mantinha uma aparência pequena e delicada, uma contradição visível de sua verdadeira natureza.

Não foi apenas uma simples “compressão de músculos”, as células de Ana que continuavam ativas mesmo sem envelhecer estavam sofrendo uma mutação constante ao longo de seu treinamento. Mais forte, mais rápido, mais eficiente. Cada osso e órgão de seu corpo estava se otimizando para derrotar um inimigo até então invisível, milênios de evolução de uma espécie estavam passando em “instantes”. No entanto, ao mesmo tempo que Ana mostrava sua evolução aos céus, as dores voltaram a surgir dia após dia.

— Foi muito mais rápido dessa vez, mas que merda! Chegou a hora, faça! — resignada com seu próprio corpo que não suportava suas capacidades, ela gritou no chão enquanto suportava dores cada vez mais intensas. Suas costas arqueadas em uma posição não natural eram um indicativo do sofrimento que estava passando.

— Ainda não, preciso que você esteja prestes chegar ao fim, é a única forma de garantir que sua mente não será prejudicada — seu tom sério contrastava com o sorriso de deboche que dançava em seus lábios. Era difícil dizer se ele estava brincando ou falando sério

“E lá vamos nós de novo… adeus, mundo.”, pensou Ana com um sorriso enquanto encarava a já conhecida escuridão que se aproximava, se preparando mentalmente para a dor agonizante que viria quando fosse salva no último momento.

Gabriel observou a cena calmamente, seus olhos percorrendo o corpo inerte de Ana com uma expressão indecifrável. Quando finalmente confirmou que o coração de Ana havia cessado seus batimentos, ele se aproximou com uma calma perturbadora, como se estivesse realizando um ritual familiar.

Ao se inclinar sobre o corpo da garota, Gabriel contemplou seu rosto sereno, como se estivesse vendo além das fronteiras da morte. Uma mecha de cabelo caiu sobre os olhos de Ana, e com um gesto suave, Gabriel a afastou, revelando a beleza tranquila de seu rosto.

— Pobre criança — uma voz carregada de uma mistura estranha de compaixão e desprezo foi ouvida. — Me pergunto como você se sentiria se soubesse que já não deveria pertencer ao mundo dos vivos… Também me pergunto como o “criador” irá reagir ao saber que um ser tão imundo está caminhando em suas terras. — completou, com um sorriso sinistro se formando em seus lábios.

Enquanto falava, um fino fio saía sorrateiramente de suas mangas, reluzindo com um brilho sombrio que contrastava com a pureza de suas asas brancas. Um toque de escuridão infiltrava-se em sua aura divina, revelando uma dualidade perturbadora.

— Bem-vinda de volta, Ana — Com um movimento rápido e preciso, o fio perfurou a cabeça inerte, e num instante, seu corpo se contorceu em agonia enquanto um grito estridente ecoava pela paisagem silenciosa. Ana, mais uma vez, despertou.


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