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Por um milésimo de segundo considerei que a mulher pudesse estar morta. Por sorte, esse pensamento se provou errado quando escutei seu coração pulsando e sangue correndo quando me aproximei.

“Ei.” Acordei Lívia de seu cochilo, assustando-a. O livro antes apoiado em sua mão caiu no chão quando a idosa se levantou repentinamente.

“Oh, Sirius?” Falou enquanto esfregava os cantos dos olhos e pegava o livro do chão. “O que está fazendo aqui?” Indagou ao se levantar lentamente.

Algo chamou minha atenção atrás da mulher. Um pequeno ser, do tamanho da metade do meu punho, se escondeu atrás de seu ombro enquanto me encarava com medo.

Era feito de uma luz quente e lilás, com feições humanas e femininas, um corpo sem genitais, além de asas que pareciam uma folha de árvore transparente.

“O que é isso?” Apontei para a criatura, que desesperadamente se escondeu atrás de Lívia, mas ainda ouvi o som de suas asas vibrando.

O rosto de Lívia ficou em choque. “Você consegue vê-la?” Questionou animadamente. Assenti e a mulher pareceu sussurrar algo para o pequeno ser, mas não entendi.

Alguns segundos se passaram até que a criatura voou até a palma da mão de Lívia, onde consegui analisar corretamente.

“É uma fada. Ela só se mostra pra quem ela quiser.” Lívia explicou. O ser parecia tímido sob meu olhar, mas fizemos contato visual em um momento.

“Ela não parece querer…” Comentei ao perceber o medo em seus olhos.

Uma sensação familiar surgiu dentro de mim. Imediatamente soube que meu eu antigo tinha uma conexão forte com essas criaturas, as fadas, mas não entendi exatamente o quê.

A timidez da fada rapidamente sumiu quando mantemos o contato visual. 

Ela gentilmente começou a voar e se aproximou do meu nariz, antes de abraçá-lo. Um aconchego mágico seria a descrição mais próxima do que senti.

Estranhei por alguns segundos, afinal era um tipo de criatura que eu não pensei existir. Se fosse algum tempo atrás, eu provavelmente tentaria esmagar e matar ela, mas me controlei.

A fada sussurrou algo, mas não entendi o que ela quis dizer. No entanto, Lívia sim, já que seu rosto se mostrou interessado.

“O que ela disse?” Perguntei, curioso.

“Ela te chamou de herói. Nosso herói.” A idosa explicou em um tom curioso e admirado. “É a primeira vez que ela fala com um estranho. Ela nunca fez isso nem com Stella.”

‘Herói? Por que uma fada me chamaria de herói? Ainda mais “nosso”. Que tipo de relação eu tinha com as fadas?’ Imaginei ao pensar no que ela disse.

“O que ela quer dizer com isso?” Indaguei, mas Lívia apenas balançou a cabeça quando conversou novamente com a fada.

“Ela disse que não sabe, apenas que sente gratidão por você. Mas você deveria pensar nisso, garoto. As fadas são seres magníficos, com certeza tem um motivo por trás disso.” Lívia declarou ao andar até a porta. “Entre, por favor. Te servirei um pouco de chá.”

Assenti e segui a mulher para dentro da cabana. Era uma casa pequena, com uma lareira no canto e dois quartos no outro lado. Percebi um alçapão aberto na direita.

Lívia percebeu minha curiosidade e logo explicou. “Ali é onde faço meus experimentos. Magia de luz costuma fazer muito barulho quando dá errado.”

“Como é quando um experimento de luz falha?” Indaguei, me sentando numa cadeira em uma mesa perto da lareira.

“Depende. Eu costumo estudar a relação entre ervas e a luz, melhorando a eficiência da cura. Eu costumava fazer poções, também.” Lívia contou ao trazer uma cesta com algumas ervas.

“Eu sempre quis saber de uma coisa.” De repente falei, chamando atenção da mulher. A fada ainda estava me observando enquanto voava atrás dela. “Onde vocês conseguem esses móveis e decorações? Estamos no meio do nada.” Indaguei ao apontar para alguns quadros e mobílias.

“Ah, isso. Sua dúvida faz sentido. É graças ao Trevor, ele é um carpinteiro e ceramista quando está livre. Ele que faz e conserta tudo para nós.” Revelou ao trazer uma chaleira de cobre da lareira até nós usando telecinesia.

‘Aquele bruto faz cadeiras no tempo livre?’ Pensei, extremamente surpreso.

Atirou algumas ervas dentro e a deixou na mesa, antes de sentar. “O que são essas fadas?” Finalmente perguntei. Eu não havia esquecido o motivo da minha presença lá, mas saber mais sobre essas criaturas era importante.

“Não sei muito bem. Salvei Nim uns anos atrás, ela estava fugindo de uma águia. Desde então nunca saiu de perto. Ela não come e nem bebe. Acho que as fadas são bastante gratas com aqueles que a salvam.” Disse ao acariciar a cabeça minúscula da fada. Seu pequeno cabelo ficou bagunçado.

“Ela me ajuda em meus experimentos, também. Sabe usar magia de luz, por incrível que pareça.”

Quanto mais eu descobria, mais curioso ficava. Abri minha palma sobre a mesa e olhei para a fada. Ela timidamente caminhou, quase tropeçando quando escalou meu dedo e rastejou até o centro da minha mão.

Tentei estudar seu corpo. Ela não era feita de energia prismática, mas sua matéria não parecia ser orgânica. Me esforcei muito para não machucá-la um pouco para saber se sangraria ou não.

“Então, o que está fazendo aqui? Precisa de conselhos sobre magia de luz?” Lívia indagou ao trazer duas xícaras pelo ar.

Por mais que ela não estivesse completamente errada, suspirei e voltei para o assunto que me levou até lá.

“Acredite ou não, mas tem um demônio abaixo do chão nas montanhas que provavelmente vai atacar qualquer um que esteja sangrando.” Fui direto.

Lívia fez uma expressão interessada. “Hark falou sobre um demônio um tempo atrás, esse demônio estava te caçando, né? Me diga, o dessa vez também está?” Indagou, e apenas assenti, desviando o olhar.

“Amanda tem razão. Você é muito interessante. É um mago irregular que despertou quando criança, tem a personalidade mais madura que um adulto, é forte e talentoso, não hesita em matar. Além de que é perseguido por criaturas que deveriam ter sumido cinco séculos atrás…” Lívia começou a listar todas as curiosidades que sabia sobre mim.

“Está bem. Tomarei cuidado, apenas venha me avisar quando esse problema for resolvido. Vou ficar tranquila lendo meu livro.” A mulher disse com um sorriso. “Oh, o chá está pronto.”

Derramou o líquido esverdeado da chaleira nas xícaras, antes de beber. Fiz o mesmo e me surpreendi com o gosto amargo, mas delicioso da bebida.

Conversei um pouco mais com a mulher. Ela me deu algumas dicas sobre magia de luz e algumas informações sobre Nim, a fada. 

Quando estava prestes a sair pela porta, um grunhido agudo e mágico me chamou. Quando olhei para trás, vi a fada se despedindo de mim ao balançar sua mão minúscula enquanto voava acima do ombro de Lívia.

A mulher ficou surpresa, mas logo sorriu e imitou a fada. Sorri de canto e levantei a mão antes de ir embora.

Caedes estava flutuando ao meu lado durante o tempo inteiro, mas quase esqueci dela durante a conversa.

‘As fadas não me são estranhas, mestre. Consigo sentir uma conexão entre você e elas, talvez eu consiga lembrar um dia.’ Caedes declarou enquanto eu descia a montanha em direção à cidade.

‘Assim eu espero. Quanto mais vivo, mais sinto essas familiaridades com meu eu antigo. Preciso descobrir a origem dessa sensação logo. Não gosto de permanecer no escuro sobre mim mesmo.’ Pensei ao caminhar em uma trilha de galhos.

No entanto, percebi uma conexão se estabelecer em minha mente. As personificações dos meus instintos estavam prestes a me proteger, mas os impedi. 

Uma voz medonha que lutou para fazer sentido tentou se comunicar comigo.

‘Venha até mim… Sozinho… Ou ela… Morrerá…’ Assim que a voz falou dentro da minha mente, uma imagem surgiu do nada.

Era Stella. Ela estava ferida, quase nua, presa em um lugar escuro lotado de tentáculos que se rastejavam pelas paredes.

Uma gosma transparente a cobria, mas não me impediu de ver a dor em seu rosto desacordado. 

Dois sentimentos apareceram.

Um deles era como se fosse uma bússola que apontava para uma direção, e percebi ser o chamado do demônio.

O outro sentimento era ódio. Um ódio puro, uma raiva que moveu meu corpo na velocidade de um trovão até a origem da voz.

‘Sua inteligência não te salvará.’ Ameacei para a criatura.

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Olá, eu sou o Kalel K. Dessuy!

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