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Corri entre as árvores enquanto meus instintos ecoavam em uníssono.

‘Armadilha!’ Repetiram sem parar, falhando em me impedir. Aquele era meu dever, era meu carma. O demônio entrou naquele mundo para me matar, mas sua inteligência se mostrou acima da média, capaz de fugir e até mesmo usar Stella como isca.

Eu estava agindo na emoção, mas minha lógica permaneceu. Existiam grandes chances de ser uma farsa e Stella estar bem, afinal uma imagem como a que vi poderia ter sido facilmente forjada.

A bússola se intensificou conforme me aproximei do centro da cidade, mas desviei do caminho por alguns minutos até me encontrar em frente ao quartel.

Arremessei Caedes para cima, cravando-a na parede de pedras lisas. Então saltei, utilizando minha força parcialmente recuperada e magia de vento para alcançar e escalar os andares.

Quando cheguei em uma janela específica em menos de quinze segundos, estilhacei seu vidro com um soco.

“Hark!” Gritei, assustando o homem virado de costas para mim na cadeira de seu escritório, procurando algo entre as gavetas de sua mesa.

“S-Sirius!?” O homem exclamou, quase me atacando com uma lâmina fina de fogo. “O que aconteceu?”

“Onde está Stella?!” Continuei gritando, demonstrando a urgência da situação. O homem pareceu perceber meu desespero e logo respondeu.

“Lá embaixo com Amanda, por quê?” Falou, mas não respondi. Apenas me soltei da janela e caí nos andares abaixo, sem hesitar em correr para dentro da construção.

Uma cena angustiante apareceu em meus olhos. Um rastro de sangue iniciou-se na recepção e seguiu até uma porta aleatória entre os corredores.

Engoli seco quando abri a porta cuidadosamente e presenciei sangue, uma camada gosmenta e transparente, e órgãos humanos sujando as paredes e chão.

Lá estava a cabeça decapitada de Amanda, ao lado de um torso perfurado e partido ao meio, completamente vazio.

Um buraco muito estreito estava no chão com um pequeno riacho gosmento que fluía até seu interior escuro. Caminhei lentamente até o cadáver da mulher que nunca conversei muito, mas que me recebeu na cidade com carinho, mesmo eu sendo suspeito e distante.

Pensei em Mirn, seu irmão. Eles pareciam ser próximos, e já que eram magos, provavelmente eram inseparáveis.

Encarei o olhar sem vida de Amanda. Seu cabelo estava grudento, não sei se pelo sangue ou aquele líquido maldito, mas não importava.

O ódio que senti se intensificou.

Hark de repente entrou no cômodo. Sua expressão era confusa e com raiva. “… O quê?” Se indagou, ajoelhando-se no chão e tocando o sangue. “Eu não escutei nada, nem senti qualquer presença. Isso é impossível.”

“Era para elas estarem seguras!” Ele gritou, desesperado. “Eu subi para cima faz três minutos, elas estavam bem até aquele momento… Não faz sentido eu não ter escutado nada…” Lamuriou-se ao socar o chão.

‘Acho que eles não conseguem sentir a energia do abismo como eu.’ Pensei ao encarar a expressão miserável do homem. ‘Provavelmente abafou o som.’

“Stella está viva.” De repente falei, confortando o homem. ‘Provavelmente.’ Pensei, mas logo deixei esse pensamento no fundo da minha mente.

“Como você sabe?” Hark questionou, levantando-se. 

“O demônio está me chamando para uma armadilha. Quer que eu vá sozinho, se eu desobedecer, Stella morrerá.” Revelei passando por ele, antes de entregar a cabeça decapitada de Amanda em seus braços.

“A culpa é minha e pagarei o preço depois, pode ter certeza. Mas agora irei salvar minha discípula.” Falei ao sair do quartel.

“Espere!” Hark me impediu, chamando minha atenção. “Não posso ficar sem fazer nada.” Declarou ao andar até mim.

De repente, uma sensação calorosa passou por mim. Me senti admirado por algo além da minha compreensão. Quando percebi que o culpado era Hark, uma onda de energia percorreu meu corpo.

“Acabei de compartilhar a bênção que o fogo me presenteou.” O homem declarou com orgulho, mas sua voz estava cansada. “Só vai durar algum tempo, então se apresse.” 

Assim que terminou de falar, ele caiu no chão, mas tentou se recompor ao sentar-se. Seu rosto estava suado e fios de cabelo loiro caíram.

“Vá logo… Se você demorar mais de trinta minutos, tomarei a bênção de volta e irei até você…” Avisou, então não perdi mais tempo.

Corri até a casa de Roger, onde ele estava dormindo. Eu não sabia se ele tinha noção do que estava acontecendo, mas apenas subi as escadas para meu quarto e peguei os cristais vermelhos.

Guardei-os no meu bolso e voltei a seguir a bússola. Meu corpo estava mais leve e rápido, o poder que Hark me concedeu tinha todo o direito de ser chamado de bênção.

Algumas faíscas flamejantes saíam pelos meus olhos e corpo, era uma sensação incrível. Preenchi uma grande parte do meu núcleo com fios vermelhos com uma facilidade absurda.

Passei pelas casas abandonadas da cidade, até que encontrei uma aparentemente aleatória. A escuridão vista pela janela não parecia ser natural, e uma gosma saía por debaixo da porta.

Me aproximei cuidadosamente e chutei a porta, criando um rombo imenso que a despedaçou em um ataque. 

Aquela gosma cobria as paredes e teto, no chão havia um grande buraco escuro, com um túnel rochoso que levava para baixo.

A gosma que pingava do teto criou um pequeno fluxo gosmento que dificultou minha descida pelo túnel, junto com a escuridão que me atrapalhou mesmo com minha visão melhorada. 

A energia do abismo preenchia cada canto daquele ambiente. ‘Não estou com um bom pressentimento, mestre.’ Caedes avisou, mas a ignorei.

A culpa era minha. O mínimo que eu poderia fazer era salvar Stella e depois ir embora das montanhas. Minha promessa com a garota e com Hark não importava mais, afinal Amanda morreu por minha causa.

‘Você está diferente, mestre. Comparando com suas memórias e ações iniciais.’ Caedes de repente falou enquanto descíamos o túnel.

‘… Não estou. Eu apenas nunca tinha passado por algo assim, como sentir algo agradável por outra pessoa.’ Respondi friamente. ‘Os magos daqui são uma exceção. Sou grato por eles.’

‘Quando eu ir embora, nunca mais me permitirei sentir algo por alguém além de ódio. Isso só me atrapalha. É mais fácil procurar minha vingança e matar todos no meu caminho.’

Entretanto, Caedes estava certa, em partes. Normalmente não me importaria que outras pessoas sofressem pelas minhas ações, mas eu genuinamente gostava dos magos daquela cidade. 

Mas isso era ruim, muito ruim, afinal esse sentimento que estava me colocando em perigo. Eu precisava ser egoísta para concluir minha vingança e entendi isso naquele momento.

Apenas salvaria Stella uma última vez, antes de voltar a ser quem eu era e me tornar um monstro frio novamente.

Demorei alguns minutos para encontrar uma grande caverna no final do túnel.

Engoli seco ao notar uma imensa bola escura e gosmenta que pulsava como um coração. Ela era do tamanho do quartel, e seu tamanho triplicou quando se abriu e revelou inúmeros tentáculos envolvendo uma pequena garota.

Uma cabeça de polvo com um sorriso medonho e vários olhos desproporcionais estava atrás dela.

“Você realmente veio, flagelo.” O demônio declarou com uma voz antiga. Sua dicção estava muito melhor, mostrando a evolução rápida de sua inteligência.

“Se arrependerá disso.” Ameacei ao envolver Caedes em chamas. “Nem que todos os deuses desçam ao chão hoje, nada poderá te salvar.”

Uma risada ecoou pela caverna, fazendo-a tremer. Uma estalactite se partiu acima de mim e caiu, mas Caedes voou para cima e a cortou ao meio verticalmente, separando-a em duas partes, cada uma caindo de um lado diferente.

“Esta é a lâmina que matou meus irmãos.” O polvo falou com ódio. “Vi você matando minha família quando eu era apenas um filhote, agora meus senhores me deram poder e inteligência para te matar!”

Um tentáculo voou até mim como um chicote, me arremessando contra uma parede.

Outra risada saiu de sua boca esquisita. “Que cômico! Você se divertia nos matando com um corpo que nem era seu, e agora sofre em um corpo patético! Haha!”

Dessa vez quem riu fui eu. “Me divertia?” Indaguei ao me levantar sem qualquer tipo de ferimento.

“Vocês vinham em hordas infinitas para me matar. Eu apenas queria fugir de lá, meu alvo era um de seus deuses, não vocês.” Declarei com ódio.

“Você não sabe como é viver com uma fome amaldiçoada em um lugar sem qualquer comida além da nossa própria raça!” O demônio gritou.

“Culpe os deuses que você tanto é grato.” Falei uma última vez, já havia conversado o suficiente.

Meus músculos estavam parcialmente recuperados com uma força de um adulto comum graças aos cristais, mas minha força agora parecia melhor por conta da bênção de Hark.

Entretanto, ainda era melhor controlar Caedes com telecinesia, então mantive minhas mãos livres. Uma camada de gelo, terra e raio cobriu minha mão e dedos, criando garras extremamente afiadas.

Emaranhei quatro lâminas de gelo envolvidas em raio e usei a consciência compartilhada de Caedes para me ajudar a controlá-las.

Essas espadas agora me rodeavam e protegiam meus arredores.

“Esses truques não irão lhe ajudar.” O demônio latiu, mas ignorei-o. Um tentáculo chicoteou em minha direção, entretanto, um sangue verde despejou-se quando minhas espadas cortaram a ponta do membro.

Um grito de dor ecoou, o que me fez sorrir. Eu corri em direção ao centro do corpo do demônio, cortando todos os tentáculos que vinham até mim.

As lâminas de gelo logo se mostraram quase inúteis, pois quebravam em um ataque, então emaranhei outras usando fogo.

Sua eficiência disparou, mas era mais difícil de controlar por conta de sua natureza não-sólida. Isso não foi um problema, já que Caedes me ajudou.

“Formiga!” Exclamou quando de repente um tentáculo me acertou pela lateral e me arremessou para longe.

A ponta de outro tentáculo me esperou para me perfurar, mas movi meu corpo com magia de vento e desviei do ataque.

Uma camada de fogo sempre aparecia sobre minha pele antes de um ataque se aproximar, graças à bênção do fogo.

O sangue verde já me cobria completamente, contrastando com a visão vermelha que enxerguei tudo. Lentamente me descontrolei e retomei minha natureza selvagem.

Andei com quatro membros como um lobo, ou uma pantera. 

Me segurei em um dos tentáculos e o dilacerei usando minhas mãos, entrando dentro dele e cavando um caminho até sua base.

Um grito excruciante de dor ressoou por dentro da carne que eu continuava cavando como um lunático. 

Vários nervos estavam presentes, justificando a dor absurda que o monstro estava sentindo, mas isso apenas me motivou.

Entretanto, logo senti a queda quando o polvo cortou o próprio tentáculo fora para me impedir de me aproximar por dentro dele.

Rapidamente criei um caminho para fora, onde fui recebido por uma onda de chamas escuras que cobriu meu corpo.

A bênção de Hark me protegeu, mas logo vi a origem do ataque. Duas longas antenas com uma esfera roxa na ponta saíam da cabeça da criatura, e percebi uma intensa fonte de energia do abismo lá.

Isso não me impediu e continuei espalhando o caos no corpo do demônio, até que a energia do abismo cobriu seus tentáculos e aumentou sua resistência.

Minhas lâminas de fogo logo se mostraram menos eficientes contra aquela energia, mas continuei.

Uma gosma de repente saiu de suas ventosas e cobriu o chão inteiro da caverna, dificultando meu movimento.

Então, um tentáculo colidiu em minha barriga por baixo, arremessando-me no teto rochoso. Senti minha perna ser perfurada por uma estalactite, logo usei um dos cristais para me curar enquanto caía.

Vários membros tentaculares me esperaram e atacaram, mas desviei de cada um enquanto rasgava sua carne da ponta até a base.

O chão gosmento me esperou, onde foi extremamente difícil não tropeçar. “Morra logo!” A criatura gritou, mas obviamente não obedeci.

Entretanto, uma ideia inconveniente passou por sua cabeça quando ela olhou para Stella e moveu o tentáculo sob ela.

Naquele momento eu parei de avançar e despertei do meu descontrole.

“Olha, nem precisei mandar você parar.” A criatura zombou. Ela lentamente levou Stella até sua boca cheia de dentes.

“Pare!” Tentei impedir, mas apenas agradei o monstro com meu desespero.

“Foi isso que pensei e implorei quando vi você matar minha mãe e meus irmãos naquele inferno!” 

Escorreguei pateticamente na gosma e tentei correr, mas vários tentáculos me impediram e apenas me restou ver Stella sendo atirada em sua boca.

Eu gritei, me sacudi loucamente e ataquei tudo ao meu redor, mas a boca da criatura se fechou.

Meu corpo ficou parado.

Ódio e tristeza lutaram para ocupar minha mente, mas logo se entenderam e ocuparam o mesmo espaço nas minhas lágrimas vazias.

Um tentáculo perfurou meu estômago, lentamente saindo de dentro de mim, me fazendo sentir o vazio literal em meus órgãos.

“Meus senhores irão me amar agora.” O demônio comemorou.

Meus cristais foram arremessados para longe quando recebi o ataque e meu núcleo não me obedeceu.

Meu corpo caiu e aquela gosma horrível me sufocou.

Não tinha mais o que fazer, eu iria morrer, não havia escapatória. 

Eu morri por… Amor. Caedes estava certa. Eu não teria ido em direção à morte se não amasse ou estivesse disposto a amar Stella.

O sentimento que lentamente me iluminou foi a causa daquela dor.

Uma amargura surgiu dentro de mim. Ela me escureceu por dentro, baniu tudo aquilo que me tornava uma boa pessoa para dar lugar aos sentimentos originais que carreguei no inferno.

Meu núcleo se tornou escuro e a energia prismática dentro foi expurgada para dar lugar a uma energia estranha.

Uma energia medonha e proibida, conectada diretamente com significados opostos a tudo que existe.

Imediatamente me descobri dono daquilo e entendi o que era.

Era a energia que me tornava um mago irregular e a mesma que cobriu o mundo durante o eclipse do meu despertar. Ela era composta unicamente por dois conceitos.

A morte…

…E o caos.

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Olá, eu sou o Kalel K. Dessuy!

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