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Conforme a noite avançava, a intensidade do vento frio e a quantidade de neve caindo do céu diminuíam. A partir da madrugada eles já podiam retornar à viagem.

Alguns aventureiros dormiam enquanto outras vigiavam o local. Àquela altura, Annie estava adormecida profundamente, no entanto Kurone permanecia acordado, recostado na sua carruagem e encarando o céu esbranquiçado, não dava para ver o semblante da lua, muito menos verificar se estava azul ou vermelha.

A deusa residente em sua cabeça gostou muito da comida preparada pelos aventureiros, apesar de ser carne de monstro preparada de maneira descuidada, o som de Annie apreciando o sabor quando Kurone mastigava e engolia era reconfortante. Comida caseira era a melhor.

O jovem mantinha-se acordado por conta da insônia, e também estava realmente preocupado com Inari, fazia quase um dia que aquela deusa saiu na nevasca para procurar lenha e não retornou. Eles não viram nenhum monstro enquanto viajavam, e a divindade pervertida era forte de qualquer forma, mas nunca era bom subestimar um ambiente hostil.

Como Berthran e Ayshla saíram do raio de alcance da telepatia, sua comunicação foi cortada, só podia torcer para que os orcs encontrassem ela, afinal ele fizera uma promessa para Kumiho, a Besta Divina, que protegeria a deusa com sua vida. Na verdade prometera bem antes, para si e para Annie, que jamais perderia alguém importante novamente.

Pensar na promessa fez Kurone passar a mão sobre o seu dedo anelar direito, onde estava o anel dourado de Lou Xhien Li. Aquilo tornou-se um hábito, sempre tocava no objeto para se lembrar que precisava se tornar mais forte e proteger aqueles ao seu redor. 

— Você não vai dormir na carruagem, senhor Kuro… quero dizer, senhor Iolite? — indagou Lothus, a menina tinha uma pequena tigela de sopa de carna em suas mãos. Por ser uma garota de aparência adorável e voz bonita, ela tornou-se popular entre os jovens de Dart, que a flertavam sempre que tinham a oportunidade.

— Vou pra lá quando eu tiver com mais sono, Ruby. É um pouco difícil se acostumar com os novos nomes, mas toma mais cuidado.

— S-sim, me desculpe, vou tomar mais cuidado… Eu vou me retirar, não durma tarde, eles disseram que vão partir cedo amanhã.

Às vezes eles esqueciam-se de que usavam nomes falsos, principalmente Lothus, que viajava sobre a alcunha de “Ruby Redgemstone”. Segundo o que ela dissera, alguns membros do Conselho do Inferno a conheciam, então seria problemático se soubessem que ainda estava viva, pois isso apontaria que a pessoa que a acompanhava era ninguém menos que o jovem que matou Asmodeus di Laplace, Lorigth al Mare. 

Quanto a Inari, ele poderia ter pedido para ela assumir uma forma mais desconhecida, mas seu egoísmo foi mais forte e pediu para ela ficar como Rory, apenas com o nome falso de Saphyr para disfarçar.

Suspirou ao ver quantos nomes falsos ele carregava nas costas. Kurone Nakano, o jovem patético convocado de outro mundo; Loright al Mare, o prodígio da casa al Mare e novo Arquiduque do Inferno; e Iolite Cordielyte, o mercador estrangeiro.

“Daqui a pouco vou precisar de uma carteira maior pra carregador tantas identidades falsas, né não, Nie?… Ah, você tá dormindo, parece que eu me acostumei mesmo com sua companhia… e com a da Inari também, espero que nada aconteça com ela.”

Ele levantou-se e decidiu entrar na sua carruagem, pois não ganharia nada ficando ali, apenas pensando sobre o passado e as desgraças que aconteceram nele. Naquele momento, precisava focar no futuro e no que ainda aconteceria, e como evitar as desgraças nele. Sua experiência era crucial para aquilo.


— Puxa, eu não acredito que aquilo é fogo! O que deu na cabeça do Kurone para chamar tanta atenção assim? Ahhh… humanos são complicados mesmo, não podem sentir um friozinho que já ficam desesperados — Inari resmungou.

A deusa soltou o grande tronco que carregava e sentou-se sobre ele. Deu realmente muito trabalho para encontrar aquilo e carregar até o local que o jovem estava, mas foi um trabalho inútil, já que o garoto conseguiu se aquecer com o Fogo Infernal. “Mesmo com esse frio incomum, provavelmente mágico, ele conseguiu usar fogo, que homem interessante…”

— E eu achando que ia impressionar o Kurone para ele me “mimar” essa noite… se bem que nem podemos fazer nada com a Lothus na carruagem… Ahh! Que viajem sem graça, eu quero chegar logo na vila para me livrar daquela idaten!

Inari beliscou o tronco com as suas grandes unhas afiadas. Naquele momento, ela estava em sua forma original, no entanto sua roupa de frio que pegou por pura vaidade ocultava suas orelhas de raposa.

Sua metamorfose também conseguia copiar a roupa dos outros, mas como uma deusa peculiar, ela aceitara tanto uma roupa de frio para sua forma original quanto outra para a forma de garotinha que costumava assumir.

Ela não entendia o motivo, mas aquela aparência infantil parecia ser muito especial para Kurone, os olhos dele revelavam isso, e pensar nisso fez a deusa entender um pouco do que ele sofria. Se era alguém especial, então por que não estava ao seu lado? A resposta era óbvia: aquela garotinha de cabelos brancos e olhos vermelhos morrera. “Olhos vermelhos e cabelos brancos…”

“Você é um homem digno de uma deusa como eu, Kurone…” Sem perceber, o rosto da deusa tornou-se vermelho. Aquela era uma das poucas vezes que via o garoto como uma pessoa próxima, e não apenas como uma diversão, até mesmo Kumiho confiou nele, apesar de ser de sua própria maneira rude e arrogante.

— Mas ficar aqui pensando no meu darling vai me fazer parecer uma garotinha apaixonada! É hora de voltar até ele, e brigar por ele ter feito eu me preocupar à toa. 

Porém ela parou antes de conseguir levantar-se do tronco que estava lentada, pois uma  lâmina curta apareceu um pouco a frente do seu pescoço. Apenas ver a aparência da arma fez Inari arregalar seus olhos meio avermelhados, seu corpo sentiu um arrepio momentâneo.

— Mova-se só mais um centímetro e eu corto a sua cabeça fora — sussurrou a pessoa logo atrás dela, que mantinha a lâmina próxima ao seu pescoço.

Um deus ser ameaçado com o reles fio de espada seria um insulto em outra ocasião, no entanto aquela situação era diferente, pois a arma em questão era…

— A Matadora de Imortais? Parece que tem pessoas bem peculiares nessa floresta, não é mesmo?

— Se você falar outra palavra, eu corto sua garganta, não me irrite. Sabe que eu não estou brincando, certo? Você conhece a arma, então não dúvida.

Contudo Inari não se acovardou, era realmente uma situação que poderia resultar em sua morte, mas ela sabia que nunca estaria em perigo enquanto Kurone se preocupasse com ela. E aqueles que a seguiam deixaram sua aura escapar há pouco tempo, talvez de propósito.

— Acho que vocês podiam ajudar agora, não? — falou a deusa em tom relaxado, demonstrando imponência.

Aquela fala foi suficiente para fazer o estranho tirar a faca de sua garganta e analisar o cenário, buscando quem seriam as pessoas que “podiam ajudar”. 

— Droga, você estragou o ataque surpresa, mulher idiota. Berthran, mudança de planos!

— Sim, senhorita Ayshla! Ataque com cuidado!

De repente, os dois orcs submissos a Kurone surgiram das árvores que não passavam de troncos secos naquele momento e seguiram em direção ao estranho, prontos para o ataque.

Ao virar o rosto, Inari viu que aquela pessoa era um homem alto, quase em seus 1,80, seu corpo estava coberto por uma roupa que protegia pouco contra o frio e o rosto era oculto pela touca da roupa, porém cabelos brancos médios podiam ser vistos emergindo da face oculta.

Mas a atenção da deusa foi direcionada para as armas carregadas por ele. Em sua mão esquerda estava a arma que usara para ameaçá-la: uma espada média e um pouco torta, a Matadora de Imortais.

Havia outra espada de quase o mesmo tamanho nas costas e uma adaga curta atrás da cintura, pela energia emanada por elas, era algo tão perigoso quanto a Matadora. Como ele conseguiu ocultar aquela presença e se aproximar tão sorrateiramente?

Os dois orcs ignoraram o perigo que aquele estranho representava e atacaram, brandindo um cutelo médio e uma espada curvada na direção do homem, porém este não quis revisar e tomou distância. 

— Não fuja, covarde! — bravejou Berthran, ele preparava-se para outra investida com magia de vento, porém parou ao perceber o sinal feito por Inari.

Foi mais difícil convencer Ayshla a baixar sua arma, mas bastaram alguns instantes para a orc fêmea suspirar e concordar em deixar o homem fugir.

— Aquela é uma pessoa que nós não deveríamos comprar briga, pelas armas, talvez possa ser um membro do Conselho do Inferno… — comentou Inari, apesar de tentar manter sua postura relaxada habitual, internamente ela perguntava-se o motivo de alguém com armas como aquelas estar ali, no meio do nada. “Bem, não é algo que o Kurone não dê conta, mas… o que ele está fazendo aqui? Atrás do Kurone ou talvez de Hyze?”


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