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Thalassa não era apenas uma figura que acompanhava Harley Ginsu na biblioteca, mas também um mestre das travessuras e brincadeiras que tornavam a vida do jovem mais animada, por assim dizer. Era quase como se Thalassa tivesse um radar especial para flagrar Harley em seus momentos de embaraços. 

— Ginsu!? Dormindo de novo? — era uma pergunta tão frequente quanto os cochilos de Harley que normalmente parecia que não tinha muito interesse por nada. 

A mochila do jovem Ginsu, que ele carregava a todo momento, estava recheada de penas, transformando-a no travesseiro mais macio do mundo e garantindo que ele estivesse sempre pronto para tirar uma soneca em qualquer lugar e a qualquer momento.

Para Harley, além dos livros, seus sonhos eram a única ponte que o aproximava de seu desejo ardente por explorar novos horizontes e desvendar os segredos do mundo. 

Cada dia que passava, ele sentia-se mais distante da realidade, seja pela imersão nos livros ou pelo cansaço exaustivo resultante das intermináveis tarefas impostas pelo Clã Dragões de Sangue, após suas longas jornadas na biblioteca. Em um ambiente tão silencioso e, por vezes, vazio, era praticamente impossível para ele não sucumbir ao sono.

— Por estar de volta novamente, mesmo dormindo, estou me tornando mais importante do que a maioria dos expoentes do seu clã?

— Pare com essa brincadeira! — disse Thalassa visivelmente incomodada. 

— Isso é uma brincadeira?

— Eu já disse para parar com isso.

— Então só você pode brincar?

— Ginsu!? Você não vai acreditar na descoberta que fiz! — exclamou Thalassa, mudando de assunto abruptamente querendo alterar o tópico da discussão. 

— Não quero nem ouvir! — respondeu Harley, ainda sonolento.

— Por que está falando assim comigo?

— Porque hoje não estou no clima de ser enganado novamente.

— Enganado? Quem te enganou ou anda te enganando? E depois de me ouvir você vai ficar bravo porque não lhe disse antes.

Harley já estava acostumado com as artimanhas de Thalassa. Era como um jogo, e ele sabia que, no final, provavelmente seria o perdedor.

— Não tem jeito. Impossível ganhar de você. Pode tentar me enganar novamente.

— Agora desisti do que ia falar —  respondeu ela, com um olhar inocente.

Harley, vendo a expressão triste no rosto de Thalassa, percebeu que tinha sido um pouco duro demais com ela. Ele nunca conseguia resistir ao riso contagiante e à diversão que Thalassa trazia para sua vida, mesmo que isso frequentemente resultasse em humilhações ou desconforto. 

Com um sorriso, Harley continuava alheio pensando sobre a predileção incontrolável de Thalassa por criar pequenas e pregar peças intermináveis em todos, especialmente nele. O simples pensamento já fazia com que sua mente se enchesse de lembranças hilárias e, às vezes, constrangedoras.

A memória mais notória era aquela ocasião memorável em que Thalassa alegou que um venerável ancião do clã havia perdido um emblema vital para acessar a parte mais restrita da biblioteca, onde eram guardados os segredos das artes marciais mais poderosas. 

Com um olhar de triunfo brilhante nos olhos, ela anunciou ter desvendado o paradeiro desse emblema desaparecido e liderou uma caçada frenética em busca dele. A excitação varreu todos os presentes, mas, para sua surpresa e diversão, a busca revelou-se uma farsa habilmente arquitetada por Thalassa. 

Enquanto todos mergulhavam de cabeça na busca frenética pelo emblema inexistente, ela se deleitava com o caos que havia criado, mantendo um sorriso travesso nos lábios. Outra vez, Harley não pôde evitar rir enquanto relembrava o dia em que Thalassa sugeriu que poderia obter acesso a pergaminhos antigos da parte secreta e proibida da biblioteca. 

Ele havia passado dois longos meses treinando posturas que, no fim das contas, só lhe trouxeram dor e cansaço. Tudo porque aquilo, mais uma vez, era apenas mais uma das travessuras brilhantemente executadas por Thalassa. 

Essas memórias eram como uma comédia contínua na vida de Harley, onde ele era o protagonista involuntário das pegadinhas de Thalassa. Ela era mestra em criar situações que pareciam reais, mas que, no fim das contas, revelavam-se ilusões enganosas, sempre com um toque de humor.

O sorriso de Harley se alargava à medida que ele revisitava esses momentos, pois nunca antes em sua vida experimentara atenção sem um propósito definido. 

Consciente de que, independentemente dos planos que Thalassa tramasse a seguir, ele seria sempre um dos personagens principais em suas travessuras, Harley guardava consigo as memórias do passado, sempre com uma sensação latente de que Thalassa poderia estar maquinando outra artimanha para enganá-lo mais uma vez.

Ela era mestra em criar situações que pareciam reais, mas que, no final das contas, revelavam-se ilusões elaboradas. Sua habilidade em fazer Harley duvidar de sua própria realidade era, ao mesmo tempo, frustrante e fascinante.

Enquanto refletia sobre essas memórias, que se tornavam cada vez mais um refúgio em sua vida, Harley viu seus pensamentos serem abruptamente interrompidos por uma afirmação ousada de Thalassa:

— Eu sei como você pode se tornar um Kamikaze.

Harley repetiu mentalmente a última palavra escutada sabendo que este termo era empregado para aqueles que desafiavam a neblina tentando ultrapassá-la. O jovem sabia que essa afirmação era mais uma das artimanhas de Thalassa, mas ele também sabia que, no final das contas, cederia às suas palavras. Era quase como uma dança cômica que eles tinham, onde ele resistia a cada passo, mas, no final, sempre caía na armadilha dela.

— Conte-me, então — disse Harley, com um suspiro resignado.

O olhar travesso de Thalassa se transformou em um sorriso malicioso, e ela começou a detalhar seu novo plano com uma empolgação palpável, prometendo aventuras emocionantes e desafios perigosos. 

Harley, observando Thalassa com uma sobrancelha arqueada, estava cansado de depender da autorização de inúmeras pessoas, até para tomar as decisões mais simples de sua vida. Ele ansiava por mais, não querendo mais ser apenas um nome na longa lista do Clã Dragões de Sangue. 

Harley olhando para aquela garota travessa, no fundo de sua mente, sabia que, mesmo que o plano de Thalassa fosse mais uma das suas travessuras, ele não resistiria à ideia de se tornar um Kamikaze. De poder buscar mais conhecimento sobre magia e lançar-se em uma aventura que prometia transformar sua existência de maneira irreversível. 

Era um risco que ele estava disposto a correr, na esperança de escapar da monotonia e desperdício que sua vida havia se tornado encontrando um propósito maior fora do Clã Dragões de Sangue e deste continente restritivo. A promessa de aventuras e desafios era irresistível, mesmo que viesse de alguém tão imprevisível quanto Thalassa.

O momento de tranquilidade logo foi quebrado com a chegada súbita de Sérgio Romanov que era um jovem de estatura imponente, com cerca de 1,85 metros de altura, o que o fazia se destacar entre a multidão. 

Seu corpo era esculpido pela prática árdua das artes marciais, exibindo músculos bem definidos e uma postura que denotava confiança e poder. Seus cabelos negros e sedosos caíam elegantemente sobre os ombros, contrastando com sua pele clara e imaculada. 

Romanov usava um quimono de seda preta com bordados dourados. Sua faixa preta, segurava a vestimenta com elegância e precisão. Nos pés, ele calçava botas de couro preto, que proporcionavam agilidade e estabilidade em seus movimentos.

Sérgio Romanov era o filho do líder do clã e tinha 20 anos de idade. Seu rosto estava contorcido de raiva ao ver Thalassa e Harley juntos na biblioteca.

— O que você está fazendo com esse inútil, Thalassa? — Sérgio Romanov disparou a pergunta com uma voz carregada de desdém.

Thalassa ficou sem palavras, olhando para Harley com uma expressão preocupada. Ela sabia que, de acordo com os acordos estabelecidos pelos anciões do clã, seu noivado com Sérgio Romanov estava prestes a ser oficializado.

O casamento era visto como uma aliança estratégica entre as famílias, e qualquer envolvimento com outro homem era considerado inaceitável.

Sérgio Romanov continuou a falar, seu rosto vermelho de fúria e ciúmes:

— Você deve lembrar, Thalassa, que nosso casamento é crucial para o futuro do clã. Não é adequado que você se envolva com qualquer outro homem, especialmente um inútil como ele — apontou Sérgio Romanov desdenhosamente para Harley.

Harley permaneceu calmo, apesar dos insultos. Ele sabia que Sérgio Romanov estava apenas protegendo seus próprios interesses, mas não podia ignorar a verdadeira conexão que havia entre ele e Thalassa. No entanto, ele manteve sua compostura e não revidou.

Thalassa, por sua vez, não parecia ser a mesma garota travessa e risonha que Harley conhecia. Ela abaixou a cabeça, incapaz de encarar o olhar furioso de Sérgio Romanov.

Diante do silêncio desconfortável de Thalassa, Harley sentiu-se decepcionado e desconfortável com a situação. Ele nunca a tinha visto como nada além de uma amiga, mas agora, diante das circunstâncias e da revelação de seu futuro compromisso, ele se via forçado a reavaliar seus sentimentos por ela.

Ao perceber o desconforto e a raiva de Harley, Sérgio Romanov finalmente falou, com um sorriso de superioridade:

— Ainda bem que você conhece o seu lugar. 

Harley observou a metamorfose na garota travessa e risonha que costumava alegrar a biblioteca. Agora, ela parecia distante, sua expressão marcada pela tristeza e preocupação. Diante dessa transformação, ele decidiu que sua presença naquele momento só complicaria ainda mais a situação. 

— Peço perdão pela minha retirada — murmurou Harley — Acredito que vocês devem ter muitos assuntos a acertar. 

Com um aceno de cabeça, Harley fez sua saída silenciosa da biblioteca, deixando para trás a tensão que pairava no ar e um turbilhão de pensamentos confusos. Seu coração estava pesado, pois ele sabia que aquela amizade já não seria a mesma, e ele teria que reavaliar seus sentimentos por aquela garota travessa que agora estava comprometida com um futuro que ele mal podia entender.

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